segunda-feira, 2 de junho de 2014

Post nº 1000: Músicas Juninas



As músicas cantadas nas festas juninas de Norte a Sul do Brasil são, quase todas, marchas compostas na década de 1930 - com a notável exceção do repertório composto e/ou gravado por Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, dos anos 40 e 50 e predominante no Nordeste (ver filme Viva São João, de Andrucha Waddington). A partir de 1933, as gravadoras identificaram neste ciclo de festas populares o que hoje seria chamado de "nicho de mercado". O grande sucesso desse ano foi "Chegou a Hora da Fogueira" (Lamartine Babo), que Carmen Miranda e Mário Reis gravaram na Victor com grande arranjo de Pixinguinha. Carmen e Mário repetiram a fórmula no ano seguinte, com "Isto é Lá com Santo Antônio!" (Lamartine Babo). Já o sucesso junino de 1935 coube a Carmen: "Sonho de Papel" (Alberto Ribeiro, 1935) ("O balão vai subindo/ Vem caindo a garoa..."). A irmã de Carmen, Aurora, estreou gravando com Francisco Alves em "Cai, Cai Balão!" (Assis Valente, 1933). O Rei da Voz chegou a lançar DOIS discos juninos em 1935. Já no ano seguinte, Chico Alves só registrou uma música junina, "Pula a Fogueira" (Getúlio Marinho - João Bastos Filho). A fogueira do gênero estava apagando. Aliás, é sintomático que o disco de Orlando Silva com "História Joanina" (sic) (Leonel Azevedo - J. Cascata) tenha saído somente em julho de 1936. Já não era uma música para cantar pisando nas brasas, e sim tendo a festa de São João como cenário. E é dessa forma que, as festas juninas ainda continuaram a aparecer no repertório urbano - por exemplo, o amor de Noel Rosa e Ceci nasceu, como bem diz o samba "Último Desejo", de 1937, numa festa de São João; já Lupicínio Rodrigues culpa o santo por não conseguir seu amor fazendo uma simpatia em "Pra São João Decidir", de 1952 (parceria com Francisco Alves).

Não sei exatamente por que os compositores pararam de fazer músicas juninas. O mais provável é que as gravadoras tenham se desinteressado do negócio, pois era um produto que só vendia no início de junho (geralmente estas músicas eram gravadas no final do mês anterior! - "Cai, Cai Balão" foi registrada em 22 de maio...).

(Mistura e Manda nº 3 - 23.6.2003)

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Festa do Interior

O letrista Abel Silva estava preocupado em 1981: como falar numa letra de música sobre o lamentável episódio do Riocentro (pra quem não lembra: uma bomba que seria jogada numa festa do Dia do Trabalho para incriminar sindicalistas explodiu no colo de um militar, dentro do carro onde ele estava)? A idéia de evitar a morte provocada se impôs de saída, vindo daí o primeiro verso que escreveu: "Ninguém matava, ninguém morria". O tema podia ficar meio forte para música popular, e Abel resolveu a questão por analogia com uma festa de São João: "Bombas na guerra magia/ Ninguém matava, ninguém morria/ Nas trincheiras da alegria/ O que explodia era o amor". Há mais uma "pista" da idéia de crítica ao atentado: "fagulhas, pontas de agulhas", o verso que abre a versão definitiva.

O resto é história: Moraes Moreira, ao musicar os versos, compôs um frevo contagiante; Lincoln Olivetti, num dia inspirado, misturou bem os sopros com teclados eletrônicos; e Gal Costa cantou maravilhosamente a composição no LP Fantasia (1982), obtendo sucesso desde as festas de São João até o Carnaval do ano seguinte. Do repertório das festas juninas, "Festa do Interior" é certamente o maior clássico recente não-nordestino (para quem estranhou essa afirmação envolvendo música de Moraes Moreira, deixo a frase de Caetano Veloso em seu livro Verdade Tropical: "os baianos não são nordestinos").

Só uma coisa incomoda um pouco Abel Silva em toda essa história, como ele confessou em debate realizado no Clube do Comércio de Porto Alegre em 15 de novembro de 2003: "ninguém acredita quando eu digo que uma música como 'Festa do Interior' foi feita por causa do Riocentro..." 

(Mistura e Manda nº 54 - 21.6.2004)

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Músicas para São Pedro

Dos três santos comemorados nas festas juninas, o mais destacado é sem dúvida São João (tanto que "festa de São João" é praticamente sinônimo de "festa junina"), vindo em segundo lugar em prestígio Santo Antônio. Para isso colabora com certeza a fama de casamenteiro deste santo, reforçada pela instituição no Brasil da véspera de sua festa, 12 de junho, como Dia dos Namorados. São Pedro acaba ficando em último plano, talvez por sua festa ocorrer em 29 de junho, depois da festa maior de São João no dia 24 - sem contar que em muitos lugares as festas, mesmo sendo denominadas juninas, iniciam ainda em maio.

Assim, são poucas as músicas dedicadas a São Pedro pelos compositores brasileiros, seja no repertório junino ou fora dele. O santo aparecia junto aos outros dois no ciclo junino dos anos 1930 em "Isto é Lá com Santo Antônio" (Lamartine Babo) e em "Antônio, Pedro, João" (Herivelto Martins - Bide), que Aracy de Almeida gravou em 1935. No período do auge do baião, registram-se gravações como "Baião de São Pedro" (Wilson Batista - Alberto Rego, 1953), interpretada por Emilinha Borba e "Velho São Pedro" (Sussu - Magalhães, 1954), gravado por Sussu. Fora isso, há duas marchas. A primeira é da época das gravações pioneiras no Brasil: "São Pedro", sem indicação de autor, tocada pela Banda da Casa Edison; a segunda era "São João x São Pedro" (Rossini Pacheco - Oziel Peçanha), gravada por Jair Alves, provavelmente nos anos 1950.

O único samba para São Pedro que localizamos é uma jóia da coroa, uma verdadeira pérola. "Abre a Porta São Pedro" (Armando Cavalcanti - Klecius Caldas) faz menção à tradição popular de que o santo seria o porteiro do céu (uma interpretação hiperliteral das palavras de Jesus Cristo em Mateus, 16, 18-19: "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. (...) Eu te darei as chaves do reino dos céus."). Cantado por Linda Batista em disco Rca Victor gravado em agosto e lançado em outubro de 1952, este samba era um dos melhores números musicais do filme É Fogo na Roupa, dirigido por Watson Macedo:

"(Abre a porta, São Pedro!/ Abre a porta pra mim!)// No céu há de haver um lugar/ Para a gente sambar/ Quando a vida chegar ao fim/ São Pedro, São Pedro/ Eu hei de gritar/ Abre a porta que eu vim/ Com o meu tamborim.// E quando eu lá chegar/ Vai haver Carnaval sensacional (Iu-hu!)/ A turma vai gostar/ Porque o samba no fundo/ É do outro mundo.// Abre a porta que eu vim/ Com o meu tamborim./(Abre a porta pra mim!)"

(Mistura e Manda nº 107 - 27.6.2005)

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Músicas para São Pedro (2)

Voltamos ao assunto, pois faltou uma música da maior importância em homenagem ao pescador da Galiléia que se tornou o primeiro papa. Falamos de "Viva São Pedro" (Jorge Ben), última faixa do LP de estréia de Jorge na Som Livre, A Banda do Zé Pretinho (1978):

"Dia 29 de junho/ É dia de São Pedro/ Salve,salve São Pedro/ Pescador da Galiléia/ Salve, salve São Pedro/ Amigo de Thiago e João/ Salve, salve São Pedro/ O porteiro do céu// Lá lá lá lá lá lá/ Viva São Pedro.// Vou soltar um belo balão/ Eu vou/ Nas cores vermelho, azul e rosa/ Vou fazer uma fogueira bem quente/ Pois eu sei que na minha festa vai ter gente/ Vai ter arrasta-pé/ Pé-de-moleque/ Caldo verde/ Quentão/ Canjica/ Batata doce/ Sardinha na brasa/ Pipoca / Fogos / E muita animação/ Em homenagem a São Pedro/ O santo dos pescadores/ O padroeiro.// Lá lá lá lá lá lá/ Viva São Pedro."


(Mistura e Manda nº 108 - 4.7.2005)

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Viva São João!


Depois do ciclo de músicas para a festa de São João compostas e gravadas no Rio de Janeiro nos anos 1930, o repertório junino ganhou novo impulso no Nordeste a partir da década de 1950, tendo como principais intérpretes Jackson do Pandeiro (à direita) e Luiz Gonzaga.


Os principais êxitos de Jackson no gênero foram reunidos em 1980 no LP São João Autêntico. O disco, que não saiu em CD, trazia algumas músicas de outros autores - "Canoeiro Novo" (João Silva - Raimundo Evangelista), "Sanfoneiro de Vocês" (J. Nilo - Carlos Diniz), "Dá Eu pra Ela" (Venâncio - Corumba, 1961), "Vamos Chegar pra Lá" (Almira Castilho), "São João no Brejo" (Zé Catraca) -, mas a maioria era do próprio Jackson - três em parceria com Maruim ("Três Pedidos", de 1961, "Acenderam a Fogueira" e "Véspera e Dia de São João") e uma cada com Buco do Pandeiro ("Viva São João"), Rosil Cavalcanti ("Na Base da Chinela", 1962) e Antônio Barros ("São João na Roça"). Este também contribuía com "O Navio Tá Bom na Marcha". 

Antônio Barros, compositor e contrabaixista paraibano (autor de grandes sucessos como "Homem com H"), também colaborou com "A Noite é de São João" para o repertório junino de Luiz Gonzaga, que a lançou no LP Sertão 70 (1970). No mesmo disco, o Rei do Baião incluiu "Santo Antônio Nunca Casou", parceria sua com João Silva. Gonzagão só voltou a cantar este santo mais uma vez, em "Festa de Santo Antônio", de Alcymar Monteiro e João Paulo Jr., no LP De Fia Pavi (1987). De seu parceiro João Silva interpretaria ainda "São João sem Futrica" (feita com Zé Mocó), no LP Danado de Bom (1984), e a marcha junina "Piriri" (parceria com Albuquerque), no disco Quadrilhas e Marchas Juninas (1965).

Como o nome indica, este disco é todo dedicado ao período de São João - a exemplo de São João na Roça (1962)(onde lançou o arrasta-pé "Festa no Céu", de Zeca do Pandeiro e Edgard Nunes), São João do Araripe (1968) e São João Quente (1972)(incluindo "Dia de São João", de Rildo Hora). A diferença em relação aos demais é o caráter instrumental de Quadrilhas e Marchas Juninas. Nele conta o único registro de "Polca Fogueteira" (1957) pelo próprio autor. Outras polcas eram "Fim de Festa" (Zito Borborema), "Fogo sem Fuzil" e "Quero Chá" (as duas últimas, classificadas como "polquinhas", parcerias de Gonzaga com José Marcolino). Outro parceiro do sanfoneiro maior neste disco era o próprio filho: Gonzagão e Gonzaguinha assinavam juntos "Matuto de Opinião" e "Boi Bumbá" (esta, sobre motivo popular). As parcerias de pai & filho eram duas "marchinhas" - mesmo gênero apontado para "O Maior Tocador", de Luiz Guimarães.




Também instrumental era a "continuação" desse disco, o LP Quadrilhas e Marchinhas vol. 2 (1979), com 24 músicas do repertório de Luiz Gonzaga (acima). Não deixava de ser uma volta às origens, pois o artista começou a carreira fonográfica como sanfoneiro em 1941 (levou quatro anos para conseguir que o deixassem gravar cantando - eles não sabiam o que estavam perdendo!). E sabem qual foi a composição que Gonzaga gravou em sua estréia? A mazurca "Véspera de São João", que compusera com F. Reis. 

Tirando a famosa comparação da terra ardendo sob a seca com uma fogueira de São João no clássico "Asa Branca" (parceria com Humberto Teixeira, 1947), uma década se passou até que Gonzagão voltasse a cantar a festa. Sua primeira música classificada pela RCA como "marcha junina" foi "Olha pro Céu" (parceria com José Fernandes), em 1951. Receberam o mesmo rótulo "São João na Roça" (Luiz Gonzaga - Zé Dantas, 1952) e "São João no Arraiá" (Zé Dantas, 1960). Também com Zé Dantas, Gonzaga compôs os baiões "Lenda de São João" (1956) e "São João Antigo" (1957). Com outros parceiros, escreveu "São João nas Capitá" (com Luiz Ramalho)(do LP Capim Novo, 1976), os baiões "São João do Carneirinho" (com Guio de Morais, 1952), "São João Chegou" (com Mariza Coelho, 1953) e a marcha "Fogueira de São João" (com Carmelina, 1959). Esta relação não ficaria completa sem o baião "Pedido a São João", de José Marcolino, incluída por Gonzaga no LP Pisa no Pilão (Festa do Milho), de 1963.

(Publicado no site Brasileirinho em junho de 2005)

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