quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Exposição Belém: Estereoscopia



“Os olhos levam o corpo ao infinito”, nos diz o poema. E, de fato, os olhos deflagram processos sensíveis que dão à existência humana variadas informações de ordem mnemônica, emocional, física, espacial. As janelas anímicas inferem, em seu duplo labor, a dimensão que aprofunda o estar no mundo, impulsionando o corpo ao deslocamento no espaço, no sentido, e no sentimento.

Francelino Mesquita, um artista com raízes na engenharia e no desenho arquitetônico, já apresentou na Galeria Theodoro Braga sua investigação espacial baseada em tala de miriti. Mauritia Flexuosa, individual de 2008, trazia proposições formais instigantes, que flutuavam entre a escultura, a instalação, e o desenho, haja visto seu efeito direto – as estruturas, reduzidas às suas linhas de construção em miriti – e seus efeitos residuais – as sombras, projetadas pela iluminação da galeria, em movimento, provocando novos desenhos.

Em Estereoscopia, o artista aprofunda sua pesquisa no material (sai da superfície – a tala – e mergulha em sua carne íntima – a bucha), permitindo novas oscilações do pensamento acerca da matéria-viva, e culturalmente peculiar, do miriti: sua leveza retrabalhada sob o escopo da densa materialidade da escultura.

É possível considerar que a dimensão desses novos trabalhos não permita um distanciamento tão grande dos já conhecidos brinquedos de miriti; contudo, numa apreciação mais atenta e proximal, as seduções visuais apresentam sua potência: a paralaxe, distância horizontal entre as imagens captadas simultaneamente pelo olho esquerdo e direito, dialogam com o movimento do objeto; as sombras, ainda, cumprem sua função complementar, comentando em duas dimensões o que a estereoscopia dos objetos quer fazer crer; o efeito tridimensional ganha, então, sua corporeidade final, situando o trabalho de Francelino entre influências do minimalismo e da Op Art.

A estereoscopia, de modo literal, seria a técnica utilizada para obter informações tridimensionais à partir das imagens colhidas em duas fontes, dois pontos diferentes. Em nós, humanos, essas duas fontes são os olhos, e o que faz o cérebro ao processar essas informações é criar uma sensação visual, fundamental para nos situarmos e vivermos a espacialidade do mundo. Se a arte é, como muitos ainda creem, um mero simulacro, aqui reafirma que, na vida, há ilusões absolutamente imprescindíveis.

Texto: Renato Torres 
músico, poeta e arte-educador

​Serviço:


Abertura: 11/12/2014 (quinta), 19h
Galeria Theodoro Braga - Subsolo do Centur
Entrada Franca

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