sábado, 10 de janeiro de 2015

Sobre charges e liberdade



A imagem que abre o post mostra a Torre Eiffel, em Paris, com as luzes apagadas (fora algumas, certamente necessárias para a segurança do tráfego aéreo), na noite da última quarta-feira, 7 de janeiro, em homenagem às vítimas do ataque à revista francesa Charlie Hebdo, que resultou em 12 vítimas, entre elas quatro cartunistas. 

Desde então venho pensando em escrever algo a respeito, mas nem iniciei texto algum, por dois grandes motivos: primeiro, porque foi como cartunista que comecei minha carreira (desenhava histórias em quadrinhos ainda pequeno, cheguei a ser premiado em alguns salões em Porto Alegre no começo dos anos 2000 e tive alguma coisa publicada, antes de abraçar de vez o jornalismo cultural); e segundo, dificilmente o que eu viesse a dizer fugiria do que boa parte já disse, provavelmente até com mais propriedade que eu (mas, em resumo: deploro tanto o ataque à redação e a morte dos chargistas, quanto a generalização de que árabes e/ou islâmicos seriam todos terroristas, erro de avaliação que já custou, por exemplo, a vida do brasileiro Jean Charles de Menezes, morto pela polícia de Londres que o confundiu com um terrorista por enxergar em seu rosto traços árabes). 

Pareceu-me, então, oportuna a republicação aqui no blog de texto que fiz sobre charges e liberdade, reportando a realização do Encontro de Cartunistas ocorrido durante o primeiro Fórum Social Mundial (Porto Alegre, janeiro de 2001). O texto saiu na revista Sextante, uma publicação do curso de Comunicação Social - Jornalismo da UFRGS ainda no primeiro semestre de 2001, e depois foi incluído na leva inaugural de textos do site Jornalismo Cultural, que lancei em outubro de 2005. O Encontro aconteceu ao longo da semana do Fórum, à tarde; como eu trabalhava na Prefeitura, só pude acompanhar o evento nos últimos dois dias, sábado e domingo. Ziraldo, que na época editava a revista Bundas, voltara ao Rio na sexta, de modo que suas declarações citadas no meu texto foram colhidas de depoimentos dos outros participantes, que colhi gravando ainda num daqueles gravadores portáteis de fita cassete (conhecidos na época como gravador de repórter) - o que despertou no cartunista Lor lembranças dos tempos da repressão, como ele mesmo me confidenciou ao final do evento.


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FÓRUM DE CARTUNISTAS
DENUNCIA PENSAMENTO ÚNICO


O Encontro de Cartunistas realizado durante o primeiro Fórum Social Mundial (Porto Alegre, 2001) enfrentou dificuldades de divulgação e financeiras (um corte de verbas determinado pela Casa Civil do Palácio Piratini impediu a vinda de debatedores estrangeiros), mas soube superar isso para se tornar a maior reunião de cartunistas brasileiros já realizada em Porto Alegre e gerar um debate muito lúcido da situação atual, justificando plenamente sua inclusão como evento paralelo do Fórum. 

Uma queixa freqüente de cartunista é "não consigo publicar" ou "em vez de me darem espaço no jornal X, dão destaque para Fulano ou Beltrano". Fulano ou Beltrano, no caso, seriam desenhistas piores que o queixoso, artística ou ideologicamente. Os cartunistas-debatedores foram a fundo nesta questão, que, como veremos, também interessa os não-cartunistas. 

Gilberto Maringoni, autor de Romeu, o Descasado, vê uma das causas para o fenômeno no fim da censura prévia à imprensa em 1975, em plena ditadura militar. "A primeira privatização que ocorreu no Brasil foi a da Censura", afirma. Edgar Vasques, na época do Fórum responsável pelas ilustrações das campanhas da Prefeitura de Porto Alegre, concorda: "Quem censura hoje é do ramo: é o dono do jornal". Autor do Rango (que causou a apreensão de uma edição do Pasquim nos anos 70), Vasques enxerga a situação atual pior do que na ditadura: "Quando o militar impede a publicação da verdade discordante, ele pelo menos admite que há outra verdade. Hoje não, o editor te diz que só há uma verdade: o mercado". Caco Xavier, então editor de entrevistas da revista Bundas, complementa: "Você pode dizer o que quiser, desde que alguém queira publicar." 

Um dos jornais campeões de censura interna é O Estado de São Paulo. Santiago, autor do Macanudo Taurino, foi contratado pelo jornal no início dos anos 90, mas em nove meses, não chegou a ter dez trabalhos publicados: "Quando eu mandava uma charge bobinha sobre o [ex-presidente Fernando] Collor [de Mello], saía. Se era algo que questionasse, eles diziam que tinha dado problema". Santiago desistiu para não ficar conhecido como "um desenhista bobalhão". Ao final da década, Rodrigo Rosa, titular do Diário Gaúcho, venceu um concurso para escolher novos chargistas para o Estadão e continua aguardando o espaço prometido: "Um dos outros vencedores conseguiu publicar duas ou três charges, mas ao longo de vários meses. Se o desenho é muito crítico, eles dizem que não tem nada a ver ou que não entenderam e não publicam". Para Rodrigo, o Estadão quer charges de direita!

Esta censura velada já custou o emprego de Lor no jornal O Dia. Desenhando na época deste encontro no Diário Popular de São Paulo, Lor lamenta esta mentalidade, que mantém afastados da grande imprensa valores como os gaúchos Santiago e Edgar Vasques. Este revelou haver um pensamento entre alguns colegas, algo como "se não te publicam, é porque o teu trabalho não é bom". Maringoni relaciona a censura interna à onda do pensamento único, cujo auge identifica no início do governo Fernando Henrique. Na ocasião, ele trabalhava na revista Atenção, de grandes reportagens sobre temas como a guerrilha zapatista e os 60 anos da Guerra Civil Espanhola. A publicação não foi além do número 10. "Quem fosse contra o pensamento único naquela hora era chamado de maluco", recorda Maringoni. "Hoje, com o desencanto que as pessoas já experimentaram, é possível fazer um Fórum Social Mundial e um jornal como a Zero Hora se vê obrigado a dar 14 páginas para o evento numa edição de domingo sem conseguir falar mal", festeja. Mesmo com uma abertura maior hoje para vozes discordantes, os debatedores deploram que isso não se reflita na imprensa. "Só temos no Brasil a Caros Amigos, a Carta Capital e a Bundas indo contra o pensamento dominante", lamenta Caco Xavier.

Caco ressalta que "vivemos numa sociedade utilitária, a pessoa vai pesquisar o que dá certo para investir naquilo, mesmo no humor". Lor acredita que é essa visão que gera o humor cínico que caracteriza (e de certa forma garante o sucesso) do grupo Casseta e Planeta na TV Globo. Claudius, um dos fundadores do Pasquim, aprecia a qualidade dos textos para O Globo do pessoal do Casseta e Planeta, mas não assiste o programa de TV - "acho ruim". Lor considera o humor do grupo como uma renovação - "para pior". O grande problema, concordam Vasques, Santiago, Lor, Caco e Maringoni, é que o grupo trata da mesma forma Fernando Henrique e o MST, Sebastião Salgado e o PFL [hoje DEM]. "Tratar da mesma forma os desiguais é mostrar que você não tem senso de justiça, o que gera o cinismo", opina Maringoni, ao que Caco acrescenta: "O humor que eles fazem é igual ao de adolescentes conversando no bar do colégio. O problema é que eles não têm nenhuma posição ideológica sobre o que abordam no programa". Mas, como lembra Santiago, "nunca atacaram o Roberto Marinho nem o Antônio Carlos Magalhães!".

Se a grande imprensa não dá espaço (Maringoni cita que, ao contrário da européia e da americana, a imprensa brasileira só representa a elite), uma saída seria os próprios cartunistas fazerem suas publicações. Caco pensa que não é bom o artista ter que ser também editor, produtor, vendedor de anúncio. O melhor seria uma associação entre os cartunistas, pensa (mas a GRAFAR, por exemplo, existe há mais de uma década e não tem uma revista). A questão, de acordo com Caco, sempre esbarra na distribuição. Outra possibilidade abordada seria os cartunistas explorarem mais as histórias em quadrinhos, que, ao contrário da charge, não dependem exclusivamente dos jornais para chegarem ao público. Lor, com certo desencanto, não crê na possibilidade de os quadrinhos trazerem algo novo, pois já teriam atingido seu limite artístico. Ziraldo e Edgar Vasques discordam, acreditando que existe espaço para um quadrinho adulto, bem produzido. Mas Ziraldo concorda em parte com Lor: como comunicação de massa, as histórias em quadrinhos já eram. Vasques vê a solução em o quadrinho se assumir como literatura e disputar espaço nas livrarias com os livros de texto.

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