sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Ao homenagear Luiz Carlos da Vila, Viradouro inova cantando música popular na Sapucaí


Tive o privilégio de conhecer pessoalmente Luiz Carlos da Vila, e mais do que isso, dividir com ele e o antropólogo baiano Milton Moura uma mesa de debates sobre O Samba Indígena, que abriu o ciclo de debates Samba - Tradição e Modernidade, que integrou a programação do 36º Dia do Samba, em Salvador, no dia 27 de novembro de 2007. (Neste link, você pode ler artigo meu sobre a hipótese indígena da origem do samba). A simples presença do tema na programação já era uma grande honra para mim, que me tornei o principal divulgador desta hipótese após o falecimento, em 2004, do pesquisador pernambucano Bernardo Alves. Alves apontava em seu livro A Pré-História do Samba, lançado em 2002, que em algum momento da História brasileira um maior contato entre índios e negros fez com que estes conhecessem o samba, sem porém chegar a precisar quando isto teria acontecido. Relatei na minha fala em Salvador que, de acordo com os historiadores Décio Freitas, em seu livro Palmares - A Guerra dos Escravos (1973) e Clóvis Moura, em Rebeliões da Senzala (1959), esta convivência aconteceu desde os primeiros quilombos estabelecidos no Brasil, entre eles Palmares, no atual território de Alagoas (criado em 1597), Geremoabo, na Bahia (1655), e Cumbe, na Paraíba (criado em 1713 por sobreviventes da destruição de Palmares).


Milton Moura, Luiz Carlos da Vila e Fabio Gomes


Para minha surpresa e alegria, Luiz Carlos mostrou que considerava a hipótese plausível (tanto que foi por isso, revelou-me, que vestiu uma camisa do Cacique de Ramos para comparecer ao evento), e comentou que teve notícia dessa convivência quando elaborava o samba-enredo "Kizomba, Festa da Raça" (em parceria com Rodolpho e Jonas), com o qual a Vila Isabel foi campeã do Carnaval do Centenário da Abolição (1988). Informou também que, de certo modo, intuíra essa troca cultural dois anos antes ao compor o samba "Nas Veias do Brasil", gravado por Beth Carvalho: "Os negros/ Trazidos lá do além-mar/ Vieram para espalhar/ Suas coisas transcendentais/ Respeito ao céu, à terra e ao mar/ Ao índio veio juntar/ O amor à liberdade...". (A presença de Luiz Carlos no debate em Salvador foi uma de suas últimas aparições públicas - em meados do ano seguinte, seu estado de saúde se agravou, e ele faleceu, vitimado pelo câncer, em 20 de outubro de 2008, aos 59 anos). 

"Nas Veias do Brasil", como sabe quem acompanhou os desfiles do Rio deste ano, foi o escolhido pela Viradouro para ser seu enredo, numa decisão sem precedentes na História do carnaval carioca (a bem da verdade, a adaptação, assinada pelo presidente da Viradouro, Gusttavo Clarão, incluiu também uma estrofe de "Por um Dia de Graça", também de Luiz Carlos, resultando no enredo ‘Nas veias do Brasil, é a Viradouro num dia de graça'). Há muito tempo que cantores populares gravam sambas-enredo fora do período da folia (o pioneiro teria sido "Exaltação a Tiradentes", de Mano Décio da Viola e Penteado, com o qual o Império Serrano foi bicampeão em 1949, e que, reintitulado "Tiradentes" e com a inclusão de Estanislau Silva na parceria, foi gravado por Roberto Silva em 1955). Mas nunca jamais em tempo algum uma escola entrou na avenida entoando um samba composto antes da redação da sinopse - a regra é o contrário, primeiro se decide sobre o que a escola vai falar, e em cima disto é composto o samba. 



É cedo para dizer se vai se criar uma nova tradição, como a inaugurada por Roberto Silva em 1955. Já são inumeráveis as regravações de samba-enredo por intérpretes populares, inclusive sem vínculos formais com escolas de samba (dois deles, Jair Rodrigues e Emílio Santiago, chegaram a dedicar discos inteiros a este repertório). Ou se estamos diante de um modismo passageiro, como a "reedição" de enredos por escolas de samba, que teve seu auge por volta de 2004 (ano em que divulguei um "Manifesto pelo Inédito", me posicionando contra a prática) - sem assegurar resultados maiores que a empolgação das arquibancadas, o resgate de sambas-enredos antigos da própria escola ou de outras agremiações foi pouco a pouco sendo deixado de lado.

A se avaliar pelo resultado imediato, talvez as escolas ajam com cautela em relação ao aproveitamento de sambas "externos" - a Viradouro, que recém subira novamente para o Grupo Especial acabou a apuração deste carnaval em último lugar e retorna à Série A no que vem. 


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