sábado, 14 de março de 2015

A Teoria de Tudo: sutil e emocionante

Por Fabio Gomes



Há muito tempo um filme não me pegava tanto pelo emocional quanto A Teoria de Tudo, cinebiografia do cientista Stephen Hawking dirigida pelo inglês James Marsh. E não que o filme seja um dramalhão, ou melodramático, longe disso. A própria história do físico - a quem os médicos deram mais dois anos de vida em 1963, quando ele foi diagnosticado com  esclerose lateral amiotrófica, que no filme é quase sempre chamada como "doença do neurônio motor" - já é por si só bastante emocionante. Afinal, tem que ter um coração de pedra para não se comover ao acompanhar por duas horas na tela o avanço da doença degenerativa e ver a perda progressiva dos movimentos e da fala sofridos por Hawking (num brilhante desempenho do ator Eddie Redmayne, merecidamente premiado com o Oscar e o Globo de Ouro como Melhor Ator). Mas a cereja do bolo é a forma sutil que Marsh encontrou para nos transmitir toda essa carga emocional.  








Imagens do começo do filme, quando Hawking ainda não desenvolvera a doença



Pra quem ainda não assistiu, vamos a um resumão do enredo: o jovem estudante de física Stephen conhece a jovem Jane Wilde (Felicity Jones), estudante de artes, em uma festa do campus. Ambos se apaixonam, mas ele, ao saber da gravidade de sua doença, a rejeita. Ela não aceita o afastamento proposto e os dois se casam, sendo ela a grande responsável por ele seguir vivendo uma vida normal (o quanto isso fosse possível, dado seu quadro clínico) e produtiva. Mesmo assim, muito tempo depois, Stephen dispensa Jane, assumindo um romance com sua enfermeira Elaine Mason (Maxine Peake) e então - só então - Jane aceita a corte do professor de música Jonathan Jones (Charlie Cox), com quem se casa. Em paralelo, acompanhamos a evolução da doença de Stephen e as restrições cada vez maiores de coordenação motora e de fala, e também suas sucessivas conquistas no campo da ciência, como suas descobertas sobre os buracos negros, ou seus avanços em relação aos estudos de Einstein sobre a Relatividade.

Se você leu atentamente o resumão acima, certamente identificou um ponto passível de virar dramalhão em mãos menos hábeis que as de Marsh: o momento em que Jane constata que é Elaine, e não mais ela, a dona do coração de Stephen. Como isso é traduzido na tela? Simples: Stephen comenta com Jane, aparentando casualidade, que será Elaine a acompanhá-la na conferência que ele fará nos Estados Unidos. Jane então responde que desconhecia o compromisso, e que ele sempre a pusera a par de tudo. Stephen dá uma risadinha e desconversa, alegando que as pessoas que querem ouvi-lo são muito insistentes... (isso pouco depois de uma cena em que Elaine e Stephen são flagrados lendo a revista Penthouse, uma versão inglesa da Playboy, numa sala da universidade pelo antigo orientador dele!). Na hora em que Jane constata o óbvio que estava debaixo do seu nariz, temos um notável desempenho da atriz Felicity Jones, que consegue transmitir tudo o que sente apenas com o olhar. 





A foto acima, que retrata uma cena do começo do filme, antecipa outro grande momento de Felicity - a sequência da partida de croquê, proposta por Jane logo após Stephen lhe contar da gravidade de sua doença, então recém-diagnosticada. A cada movimento difícil, queda ou entortada do corpo de Stephen, é no olhar em choque de Jane que vemos o quanto ela estava consciente da dificuldade da trajetória que se propunha a percorrer. 

Por melhor que seja, o filme tem a meu ver pelo menos duas falhas: a primeira é passar a impressão de que Jane se anulou profissionalmente para poder cuidar de Stephen (apenas uma breve cena desmente essa impressão: aquela em que Jane tenta estudar enquanto no aposento ao lado o marido faz algazarra com os dois filhos que o casal tinha até então). A segunda é não marcar apropriadamente a passagem do tempo após a instalação da doença - OK, sabemos que Stephen teria no máximo dois anos de vida, segundo o médico que diagnosticou a esclerose. Mas o que fazia Stephen quando esse prazo se concluiu? Como ele lidou com a proximidade dessa data considerada fatal, e como terá comemorado ultrapassá-la com vida? Isso é uma coisa que com certeza eu gostaria de ter visto. 

São coisas, claro, que Marsh ficou nos devendo, mas plenamente compensadas pela poesia da cena que vale o ingresso: aquele em que, em meio a uma importante conferência de Stephen, somos informados de que, apesar da fama e do sucesso, o grande sonho do físico naquele momento seria poder levantar de sua cadeira de rodas e juntar uma caneta que uma garota da primeira fila deixara cair no chão. 

Numa palavra: recomendo! 


O verdadeiro Stephen Hawking em seu escritório 
na Universidade de Cambridge (Inglaterra), 2011 - 
Foto: Sarah Lee / AP

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