quinta-feira, 19 de março de 2015

Cinema: Quanto menos expectativas, melhor!

Tenho procurado levar a vida sem grandes expectativas, o que é algo meio difícil para seres humanos, reconheço. Mas enfim, no tocante ao cinema, tema desse texto, isso se reflete no fato de eu evitar ficar traçando mil conjecturas sobre como será o filme X ou Y antes de vê-lo. Obviamente que isso não é tão "cirúrgico" (rs) assim e é claro que um certo nível de expectativa sempre haverá, até mesmo pela simples escolha deste ou daquele filme para assistirmos. 

Enfim, essa volta toda é pra dizer que, dos dois filmes que vi  no cinema nesta semana, aquele pelo qual criei menos expectativas foi o que mais me agradou. Vamos aos exemplos concretos!

  • Ontem, vi o americano Golpe Duplo (EUA, 2015, direção de Glenn Ficarra e John Requa). Confesso que o que mais pesou para eu querer ver o filme foi a presença nele, como protagonista, da atriz australiana Margot Robbie, que vem de um sucesso estrondoso como coadjuvante de um dos grandes filmes de 2014, O Lobo de Wall Street (que eu resenhei aqui). E o fato de o trio central ser completado por Will Smith (a quem eu havia revisto pela enésima vez em Hitch, que a TV Globo reprisou nesta semana) e o brasileiro Rodrigo Santoro não deixava de ser auspicioso. Porém não há elenco, por melhor que seja, que consiga salvar um roteiro cheio de falhas e sem foco como o deste filme que, suprema ironia, tem Focus como título original! Aliás, nova confissão: confesso que não entendi se, no título nacional, o "duplo" se refere ao fato de o filme ser dividido em duas partes que demoram a dizer o que tem em comum (e aí seriam, portanto, dois golpes), ou se é porque Nicky (Smith) e Jess (Robbie) estão boa parte do tempo buscando ludibriar um ao outro. Enfim: o melhor do filme é a primeira parte, passada nos Estados Unidos, quando Jess conhece Nicky ao tentar dar um golpe nele... sem saber que ele é exímio golpista. O pedido que ela faz para que ele a treine para ser uma melhor golpista soa meio absurdo, mas é óbvio que Nicky aceita porque a essa altura já está apaixonado por Jess. É aí, nas cenas de "treino", com Jess afanando carteiras e relógios em meio a uma multidão de homens que julgam que ela flerta com eles, que o filme tem os melhores momentos. Pena que a sequência mais representativa desta parte - em que, num estádio de futebol americano, Nicky aposta todo o produto de um mês de golpes (nada menos que um milhão e duzentos mil dólares) contra um viciado em jogos; se bem que o suspense em crescendo da sequência prende de fato a respiração do espectador, carece de lógica e verossimilhança a forma como Nicky vence a aposta (pior ainda, a forma como ele estava certo de que venceria, mesmo quando joga a decisão para as mãos de Jess). Mais verossímil é o rompimento do casal: logo após saírem do estádio, Nicky entrega a Jess a parte que a ela cabia da grana e a despacha para o aeroporto. Se houvesse acabado ali, teríamos um bom filme, mesmo que com as ressalvas apontadas. Mas sabe-se lá porque, os diretores houveram por bem dar um salto de três anos, e na segunda parte vamos encontrar Nicky em Buenos Aires, a serviço de um empresário da Fórmula 1, Garriga (Santoro). Nicky recebe a proposta de aplicar um golpe contra as escuderias adversárias de Garriga - que, por sinal, aparece ao lado de Jess numa festa que a escuderia oferece num hotel de luxo da capital argentina. Daí por diante o enredo se espicha e contorce em tantas voltas que eu prefiro poupar meus leitores de tentar resumi-lo, que dirá comentá-lo. Resumo da ópera: a bela expectativa que o elenco me acenava se esvaiu em função do roteiro capenga.


Jess sobre Nicky



  • Agora à tarde, fui ver uma comédia nacional em estreia, Superpai, da qual só o que eu sabia era o que consta no cartaz ao lado. O filme tem uma gênese que eu soube através dos próprios créditos de abertura: o roteiro, inicialmente chamado Deadbeat Dad, foi escrito para a Universal americana por Benji Crosgrove e Corey Palmer, que pensavam em Jack Black para o papel central. Por algum motivo, a major acabou enviando o roteiro para sua sucursal brasileira, onde ele foi adaptado à realidade nacional por Pedro Amorim (que dirigiu) e Ricardo Tiezzi, após um primeiro tratamento por Rafinha Bastos e Camila Raffanti. Mas durante a projeção praticamente nada faz lembrar a origem americana do argumento (talvez porque a trama é ambientada numa megalópole como São Paulo). O estilo narrativo pode ser classificado como uma "comédia de erros", já que o protagonista Diogo (Danton Mello) parece incapaz de fazer uma coisa, qualquer coisa, sem cair em alguma trapalhada. Na cena abaixo, por exemplo, enquanto ensina o filho Lucas como jogar pôquer na cozinha em meio à madrugada, lhe oferece amendoim sem lembrar da alergia que a criança tem a esta leguminosa. O roteiro é muito bem amarrado, com uma que outra falha (por exemplo, por que ninguém levou ao hospital o dono da festa onde Diogo vai com seus amigos, sendo que o cidadão foi mordido nas nádegas por um filhote de tubarão??), mas no conjunto resultando numa comédia bastante engraçada que acaba abordando também assuntos sérios como a exploração de mão-de-obra infantil resultante de imigração ilegal. Tentar resumir seria tirar um pouco da graça e da surpresa que espero que você tenha ao assistir o filme, assim como eu tive, sem saber - repito - mais sobre a obra do que o que é dito no cartaz promocional. Menos expectativas, pessoas! 





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