quarta-feira, 6 de maio de 2015

Elisa Lucinda apóia a ocupação da Secult-ES

Em crônica publicada às 17h de hoje em sua fan page no Facebook, a atriz, poeta e cantora Elisa Lucinda defende a ocupação do prédio-sede da Secretaria da Cultura do Espírito Santo por artistas e produtores culturais. Elisa é natural de Cariacica, cidade a 15km de Vitória. 



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Bate como um verdadeiro choque no meu peito a insistência do Brasil como um todo em não ver que uma política cultural, ação que é intrinsecamente educacional ao mesmo tempo, pode definir o futuro de uma nação. 

Estamos carecas de saber que punição não previne, mas ainda há muitos que pensam, por exemplo, que, ao reduzir a idade para ser preso, a lei assegurará que os crimes por menores não acontecerão mais ou diminuirão sensivelmente. Se fosse assim, nas sociedades que têm pena de morte e onde crianças são presas e responsáveis por seus crimes, como na sociedade americana, não haveria tanta notícia ruim e tanto homicídio. 

Sempre quando se anuncia alguma crise corta-se logo onde é considerado supérfluo. Então, músicos, atores, artistas em geral são tratados como se não fizessem parte da economia criativa, que gera milhões, como se não contassem conosco para o progresso. Grande equívoco! Quanto mais escolas e teatros, menos cadeias, menos crimes. Quando houve o massacre na escola de Realengo aqui no Rio de Janeiro e a barbárie manchou seus pátios e salas de aula, quem chamaram para reabrir a escola? Os artistas, os palhaços, os músicos. A arte, a única que podia fazer uma ressignificação de um lugar trágico. Guardo a suspeita que se tivessem posto arte na escola antes, provavelmente teria evitado a tragédia. 

Não é por medo da prisão que um adolescente comete erros ou deixa de cometer. É sua nutrição intelectual, sua educação, sua formação como cidadão é que vai fazer dele construtor e não destruidor de uma sociedade. Sabemos disso e já sabíamos disso quando eu tinha 20 anos, e gritávamos a cena teatral capixaba com a força que a universidade representava na época como propulsora das revoluções de nossa cabeça idealista. 

A qualidade da educação brasileira merece de todos nós atenção, mobilização, exigência, atitude e carinho. Como pode ser real que greve de professores seja assunto de polícia? É o contrário. A falta de professores e de qualidade na educação, a injustiça salarial para a mais nobre das profissões, isso é o que faz de toda nação um caso de polícia! 

Mas nem tudo está perdido, e o Ocupa Secult está ocupando meu coração. Se eu pudesse nesse momento, estaria ao vivo, de corpo e alma presentes nessa manifestação histórica: artistas capixabas não aceitam a migalha oferecida à cultura, e têm de mim todo apoio e disposição para brigar por isso. O Espírito Santo esconde suas praias, sua culinária, sua beleza e seus artistas. Uma coisa atávica, parece. 

Existem pensamentos que ocupam todos os setores da sociedade e são vetores de gestão. Por exemplo: pensando numa administração pública que integre seus setores, sabemos imediatamente que, uma politica de ecologia, de sustentabilidade não vai ter sucesso se não estiver presente na indústria, na educação, na economia, no turismo, na saúde e nos direitos humanos, por que não? A água é um direito humano! Da mesma forma, um governo deve ter uma politica cultural que se espalhe em todas as áreas daquela instituição pública. 

Uma coisa bacana que a Bahia nos ensina é que a gente chega no aeroporto e tem uma baiana nos presenteando com as fitinhas do Bonfim. E aí, sem saber porquê, o turista vem, e sem perceber, já está comendo acarajé nas escadas do Bonfim e de noite indo para o Olodum. Infelizmente no ES, minha terra amada, muitas vezes estive em hotéis capixabas que me indicaram churrascarias ao invés de moquecas. Exijo guaraná Coroa, nunca tem. Existem pessoas que trabalham para mudar esse quadro há muito tempo. O Brasil como um todo peca na política cultural mas como nativa estou especificamente indignada com o ES, onde me incomoda o abandono, a falta de visão do poder da produção artística, um descaso, um desrespeito e um tiro no pé. Quando não se tem uma política cultural provocamos desespero e êxodo nos artistas. Um agricultor não pode ficar onde não pode plantar e viver disso. 

Esta crônica é para que o povo capixaba entenda que esta não é uma luta só de nós artistas que estamos lá ocupando a Secult. Nem tampouco trata-se de um grupo de desocupados que querem fazer baderna. Não. É um grito político, não partidário de um coletivo que não aguenta mais. 

Ninguém pode esquecer que muito do que sabemos dos países do mundo, é e sempre foi trazido pela literatura, pelo cinema, pela dança, pelas pinturas, pelo teatro e etc. Foi no teatro que aprendi sobre a vida de russos, poloneses, ingleses, de tempos muito antes de mim. E foi o cinema que me trouxe a Itália. A arte traduz o que vê e do jeito que o faz só ela pode fazer. 

O que estou dizendo é que somos os narradores da história. Um lugar que não trata bem seus artistas e o pior, que inviabiliza a sua arte dentro da própria casa, está plantando a sua pobreza na narrativa do mundo. E corre o risco de ficar fora da história.

Elisa Lucinda, 6.5.15


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