sábado, 16 de maio de 2015

Opinião: Em que dia morrem os teatros?

Por Edyr Augusto Proença e Wlad Lima,
de Belém

Os bares, às quartas, escreveu o Elias Pinto. E os teatros, morrem exatamente em que dia da semana? O Grupo Cuíra está fechando seu teatro, na esquina da Riachuelo com Primeiro de Março, após nove anos de atividades. É uma morte lenta, não anunciada, sem pompa nem cerimônia. Como um corpo jovem que falece, seus orgãos são imediatamente doados para fazer viver tantos outros. Já saíram as cadeiras e arquibancadas. As cadeiras, uma doação para uma instituição religiosa, afinal precisamos de todas as orações possíveis, nesses tempos de luto. As arquibancadas foram devolvidas para o nosso grande parceiro, a Loc Engenharia, que tanto acreditou em nós, a ponto de, durante nove anos, manter suas estruturas de ferro para nos sustentar sentados, e nosso público. Agora o prédio está vazio. Antes de fecharmos pela última vez a porta e sairmos, queremos deixar no espaço os nossos desejos: que aqui, continuem a circular os fabulosos personagens que aqui se apresentaram; que essa esquina seja um marco para todos nós de teatro da cidade. Temos certeza que já é para os moradores daquela esquina.



Elenco da montagem de Quatro versus Cadáver,
que fez temporada no Cuíra em 2009

Para compreenderem nosso amor por um lugar, um galpão, uma zona, vamos contar um pouco de nós para deixarmos uma memória viva para uma cidade dita desmemoriada: sem lugar para ensaiar ou encenar, procuramos um espaço, encontramos aquele galpão vazio, servindo de estacionamento para um clube de bingo. Ele está no centro da cidade, praticamente na Presidente Vargas, bem no caminho da Virgem de Nazaré. Um galpão vazio pronto para dar abrigo a ações artísticas em meio a um processo de destruição da Cultura no Pará, principalmente em Belém, desenvolvido pela Secult? Parecia coisa dos céus! Sem bolso nem documentos, o Cuíra inaugurou sua casa, às custas do próprio suor, igualzinho a que fazem todos do mundo das artes. Sem tempo de realizar montagem própria, porque estava as voltas de produzir o Espaço Cuíra, o grupo deu a honra da inauguração a um grande companheiro de estrada, o Gruta, uma companhia de teatro de Belém de mais de meio século – grupo sem sede, sem casa, como tantos outros. Aí veio o “Laquê”, primeiro espetáculo da casa, do Grupo Cuíra. A ideia foi dialogar com o entorno da nova sede, respeitando e brindando seus moradores mais famosos: as meninas da zona do meretrício. Foi com elas que o Cuíra compôs metade do elenco. Com o Laquê, vieram uma série de espetáculos: Quando a sorte te joga um cisne na noite, Prc5 – A Voz que Fala e Canta para a Planície, Barata, pega na chinela e mata

Grandes trabalhos, grandes elencos, textos, músicas, músicos, equipe técnica; tudo de cima. Com todo esse repertório, fomos acreditando cada vez mais na potência do espaço como TEATRO. Uma empresa emprestou as arquibancadas. Comprou-se poltronas. O palco, banheiros, aparelhos de ar condicionado. Sem nenhuma ajuda das autoridades competentes, o Cuíra abriu pauta para espetáculos da cidade, do Estado, do Brasil. E foram tantos! Cacá Carvalho, que em São Paulo desenvolve projeto semelhante de manutenção de grupo e espaços de criação teatral, esteve por conosco e muito nos honrou. O mais irônico é que de repente, o Cuíra acreditou que poderia compartilhar seus ganhos: inventou o projeto Pauta Mínima. Através do projeto Pauta Mínima, o pessoal da cidade não só teve direito a cachê por participação, como ensaio, divulgação e 50% da bilheteria. Por seu lado, através de diversos prêmios nacionais do MinC e da Funarte, proporcionou oficinas profissionalizantes, parcerias com o Gempac e outros órgãos independentes. Sim, o Cuíra enfrentou todas as adversidades, uma das piores: o medo da população em chegar até ele, por conta da fama daquela esquina. Como convencer as pessoas? Como convencer alguém que não gosta de teatro a ir até lá, não para ver globais bobocas e interesseiros, mas para ver o teatro paraense? Agora, não adianta ganhar prêmio Funarte, ensaiar e realizar um belo espetáculo, com toda qualidade. Quem vai ao teatro aqui em Belém? Poucos. Muito poucos. Então, temos peças de alta qualidade e apenas vinte pessoas na plateia. Hoje, os amantes do teatro local são como aqueles cristãos na Roma de César, encontrando-se em catacumbas. O Teatro Cuíra fechou. Parabéns às autoridades. O serviço está completo. Em resumo, a dizimação da Cultura está em seu ápice. Enquanto isso, a cada semestre, a Escola de Teatro da Ufpa habilita vários jovens às Artes Cênicas. Mas para quê, mesmo? Para quem?

O Teatro Cuíra fechou suas portas na esquina da Primeiro de Março com Riachuelo. O Teatro Cuíra fechou, num dia qualquer da semana. Foi bom enquanto durou. Encheu o peito de alegria, orgulho, felicidade. Dever cumprido. Agora é mais um “já teve”. Quem não foi, não viu, perdeu! Vitória da incivilidade, da cretinice, da estupidez. Doeu. Doeu muito. Mas houve muita felicidade. Viva o Cuíra! 

Mas como CHEGA é nossa palavra de ordem, dizemos a nós mesmos: chega de choro e de velas! O Grupo Cuíra do Pará continuará seu trabalho, como vem fazendo nesses últimos 35 anos. Tem projeto aprovado na Myriam Muniz e já está preparando um novo local, menor, mais caloroso e caseiro, mais condizente com a realidade artística inóspita da cidade de Belém, proporcionada, a mais de duas décadas, por uma fria e elitista política cultural do Estado do Pará, reforçada, silenciosamente, por todos os dirigentes e gestores da cultura, velhos ou recentes. Como estamos ao relento, abrigados pelas estrelas, logo anunciaremos as ruas por onde passará nosso novo espetáculo: o Auto do Coração. Uma declaração de amor a uma cidade que agoniza.

(Publicado no Diário do Pará
Caderno TDB, Coluna Cesta, 15.05.15)

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