quinta-feira, 23 de julho de 2015

Digestivo Cultural entrevista Fabio Gomes



1. Qual é a sua história com o Digestivo? (Como conheceu; há quanto tempo lê; por que acredita na iniciativa do Digestivo Blogs.)


Eu recebo o newsletter das Colunas do Digestivo há tanto tempo que nem lembrava quando começou. Mas quando me cadastrei pra ter o blog, veio a informação que é desde 2011. Eu acredito no Digestivo Blogs pelo caráter democrático e audacioso da iniciativa.



2. Qual é o seu "background" (sua formação)? De onde vem; o que estudou; quais trabalhos seus citaria etc.



Nasci em Porto Alegre, RS, passei a infância e a adolescência em Bento Gonçalves, cidade a 120 km da capital ― foi lá que aprendi a ler, lá que tive despertada a paixão para vários dos temas que norteiam minha vida desde sempre, em especial a cultura, mais especificamente a brasileira.


Com 22 anos, voltei a Porto Alegre, onde me formei em Comunicação Social ― Jornalismo pela UFRGS em 2001. No ano seguinte lancei o site Brasileirinho, cujos temas principais eram o samba e o choro; o site foi considerado a melhor ação gaúcha de divulgação da cultura brasileira no Prêmio Rodrigo Melo Franco (MinC) em 2004.

Nesse site, em 2006 eu passei a divulgar o Projeto Brasileirinho da profª Vânia Correia Pinto, que posteriormente recebeu o Prêmio Cultura Viva do MinC; já em 2008, publiquei a íntegra da obra em domínio público de Noel Rosa.

Em 2005, comecei a ser chamado por entidades de vários estados brasileiros, como a Fundação Getúlio Vargas e o SESC, para ministrar cursos de Jornalismo Cultural, resultando no lançamento de outro site, o Jornalismo Cultural, e em viagens com o curso.

Numa dessas viagens, fui ao Acre para cobrir o Festival Varadouro de 2008, onde tive pela primeira vez contato com bandas alternativas da região Norte, o que me animou a lançar no ano seguinte novo blog, o Som do Norte, até hoje meu principal trabalho, e que me levou a morar em Belém (2010) e posteriormente em Macapá (2014).

O contato com a cultura popular do Amapá resultou no documentário As Tias do Marabaixo, que rodei no ano passado e no qual entrevisto as principais representantes desta importante manifestação cultural amapaense; o longa está em processo de edição.

No começo deste ano, lancei, no YouTube, 5 curta-metragens, um para cada uma das entrevistadas, e agora estou circulando por alguns estados realizando mostras deste material, de forma independente.

3. Sobre quais temas vai falar/tratar no seu blog?

Vou tratar justamente da grande aventura que é realizar esta itinerância pelo Brasil de forma independente. Mesmo que eu venha inscrevendo os curtas em seleções de festivais de cinema e outros editais públicos ou privados, ficar sentado esperando pra ver se as coisas acontecem nunca foi o meu estilo.

Então estou circulando, em julho exibi os curtas no interior do Tocantins, e dali segui pra Bahia. Tenho feito bons contatos com escolas, instituições culturais, cineclubes etc. de vários estados, e pretendo também exibir em alguns dos países vizinhos (pra quem não sabe, em nove países da América do Sul os brasileiros podem ingressar sem necessidade de passaporte).

Os leitores do Digestivo poderão acompanhar esta aventura em primeira mão no blog 'As Tias do Marabaixo' na Estrada.


Na sessão dos curtas em Paraíso-TO - 22.7.15
Foto: Cláudio Macagi

4. Você já teve blog? Se sim, qual (ou quais), e com que repercussão?

Sim, muitos. O primeiro, em 2003, durou poucos dias, blogs eram então uma novidade, e eu fiz um mais pra entender como funcionava.

Só voltei ao formato em 2009, ao lançar o Som do Norte, cuja repercussão foi maior do que tudo o que eu já havia feito na vida até então, e que me tornou conhecido como jornalista cultural para um público relativamente grande (meus sites anteriores eram lidos por nichos ― o Brasileirinho por músicos, e o Jornalismo Cultural por jornalistas).

Depois criei outros blogs, os principais são: Noel Rosa Sempre, onde posto notícias sobre Noel e para onde estou transferindo a obra dele em domínio público; e As Tias do Marabaixo, onde noticio a produção do meu doc de mesmo nome.

A repercussão desses blogs é bem pequena, à exceção do Som do Norte. Mas, de modo geral, creio que há uma queda no interesse do público por blogs, tenho a impressão que as pessoas estão preferindo interagir em redes sociais como o Facebook, ou trocando mensagens diretamente através de serviços como o Whatsapp.

5. Qual é sua relação com a escrita? Já escreveu em outros veículos/sites? Já publicou? Como foi a sua experiência nesse sentido (de colaborar e/ou publicar)?

Minha relação com a escrita é um dos pilares do meu ser. Minha mãe contava que mesmo antes de saber escrever eu desenhava e usava as imagens como base para contar histórias para ela e para as visitas.

Assim que me alfabetizei, comecei a fazer histórias em quadrinhos, e aos 12, contos. Publiquei o primeiro livro de contos aos 14 anos, o segundo aos 18. O terceiro aos 20, reunia roteiros do programa que eu produzia na Rádio Viva de Bento Gonçalves, A Voz dos Distritos, onde contávamos o dia a dia das comunidades do interior do município; os textos selecionados para o livro contavam a origem de cada uma dessas comunidades. Por essa época, também, participei de uma antologia poética.

Em relação a colaborações, a lista é extensa, começando pelo Laconicus, jornal de Bento Gonçalves que publicou meu primeiro conto, quando eu tinha 13 anos. Em 2009, no mesmo mês em que lancei o blog Som do Norte, fui convidado pelo site Visto Livre, do Rio de Janeiro, para escrever uma coluna semanal e produzir um programa de web rádio, com o mesmo título e também voltado para valorizar a produção musical da Amazônia; o programa teve cinco edições semanais, e a coluna durou quatro meses. Já em 2012, colaborei com o blog Roraima Rock'n'Roll, de Boa Vista, escrevendo a coluna Papo Cabeça.

6. Como é se interessar por cultura, ou ter uma atividade intelectual, ou simplesmente ler o Digestivo, num país como o Brasil, ou sendo brasileiro? É uma profissão de fé? Ou é um desafio que te motiva (no dia a dia)?

Bom, não sei exatamente o que responder aqui, já que nunca morei em outro país, e não consigo fazer nada que não tenha relação direta com cultura. Então me interessar por cultura não é uma opção, pra mim é algo tipo respirar, se eu não fizer isso não sobrevivo.

7. Você acha que, através da internet, podemos mudar esse cenário (de pouca cultura, pouco interesse pela vida intelectual, parca discussão de ideias etc.)?

A internet é um dos meios possíveis para divulgar ideias e iniciativas interessantes (claro que a avaliação do que é ou não interessante passa pelos crivos de quem posta, e mais ainda pelos de quem acessa, tais informações). Então não sei se o certo seria esperar que a partir da internet a discussão de ideias passe de parca para farta; parece-me que a possibilidade maior é pensar que a internet possa servir como um ponto de convergência, um ancoradouro talvez, para quem quer acessar e difundir conteúdos culturais que não se fazem presentes nos meios de comunicação de massa, e entre essas pessoas haverá sim quem queira debater, mas não necessariamente isso vai representar a maior parte desse público. E digo isso sem pesar algum, sem imaginar que o "certo", o "melhor" seria todo mundo debatendo. Penso que devemos nos empenhar no sentido de que existam espaços onde as pessoas possam debater, caso queiram.

8. Quais foram suas maiores influências? (Não precisa, necessariamente, ser alguém conhecido ou "famoso". Pode citar obras e/ou experiências também.) Quais "modelos" pretende seguir (ou te servem de referência)?

Bom, eu não sou muito de seguir modelos, inclusive uma vez numa aula de um de meus cursos de Jornalismo Cultural um aluno me perguntou quem era minha principal influência para eu ter me tornado um jornalista cultural e creio que ele tenha ficado muito decepcionado quando eu respondi "ninguém" (risos).

Mas enfim, se é preciso apontar alguém, eu opto por Torquato Neto. Mais conhecido como poeta e letrista ― parceiro de Caetano Veloso e Gilberto Gil ―, Torquato atuou como jornalista cultural do jornal carioca Última Hora, no começo dos anos 1970, e é com certeza uma grande referência para mim.

9. Mais alguma coisa que os Leitores precisam saber de você (mais alguma coisa que você gostaria de falar e eu não te perguntei)?

Creio ter dito tudo, só queria acrescentar que defendo o acesso aos conteúdos culturais das maneiras que forem possíveis (ou mais agradáveis) para cada um. Por mais que eu goste de livros, e tenha chegado a ter uma biblioteca particular com cerca de 2 mil volumes, não imagino que alguém seja "menos leitor" por preferir e-books, ou por ler mais em sites/blogs que em papel.

A mesma coisa em relação a filmes - constato uma certa valorização pela 'experiência' de assisti-los em tela grande (inclusive há projetos itinerantes de exibição de filmes que não só levam os filmes a um público maior, mas se preocupam em montar nas cidades por onde passam verdadeiras salas de cinema, demandando uma enorme estrutura montável e desmontável que acaba por encarecer, a meu ver, os custos dos projetos), quando para projetar basta uma parede; isso sem falar na difusão de filmes via internet, que possibilita deixá-lo ao alcance do mundo, literalmente.

Enfim, não vejo como uma experiência de acesso a um bem cultural possa ser "melhor" do que outra; todas são igualmente válidas e bem-vindas.

10. Onde mais a gente pode te encontrar? (Links ou referências, na internet, que você quiser/puder passar...)

Nestes links:


Nota do Editor


Fabio Gomes compõe o grupo de blogueiros do Digestivo Cultural ;-)


Em 22/7/2015 às 12h56

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