sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Lindonéia, ou: O dia em que um texto meu caiu no vestibular no Espírito Santo!

Imagine um belo dia você está navegando pela internet e de repente descobre que...  um texto seu foi usado numa prova de vestibular! Sim!! A gente imagina que isso só acontece com autores mortos, ou ao menos consagrados, mas já me aconteceu (não sei se já me consagrei, mas felizmente estou vivo), e estou contando hoje isso pela primeira vez aqui no blog em função de ser o aniversário de Caetano Veloso.

E o que Caetano tem a ver com isso? Tudo. O fato é que a questão de vestibular onde foi citado um texto meu tinha como tema o quadro Lindonéia, de Rubens Gerchmann, que inspirou a Caetano e Gilberto Gil sua composição "Lindonéia", gravada por Nara Leão naquele disco que já foi outrora apontado como o melhor disco brasileiro de todos os tempos, o Tropicália ou Panis et Circensis (1968). 

Eu pude ver o quadro numa exposição realizada em Porto Alegre em maio de 2006, inclusive muitas das várias vezes que fui à mostra no Santander Cultural foi especialmente para ver a Lindonéia, algo que, pra variar, os monitores da exposição achavam muito estranho (enfim, deixa pra lá).

Vamos então na sequência: primeiro os dois textos que eu fiz sobre a exposição, e depois a reprodução da questão que caiu na prova de Redação do vestibular da UFES (Universidade Federal do Espírito Santo) em 2007. - algo que eu toda vez que penso nisso não posso deixar de considerar extremamente honroso, afinal o quadro já tinha quarenta anos quando eu o vi, quantos outros textos não terão sido escritos sobre ele? 

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Lindonéia em Porto Alegre

A obra que inspirou a música "Lindonéia" está exposta em Porto Alegre. Foi o quadro Lindonéia - A Gioconda do Subúrbio, feito por Rubens Gerchman em 1966, que levou a cantora Nara Leão a encomendar um bolero a Gilberto Gil e Caetano Veloso em 1968, no auge do movimento tropicalista. Nara gravou esta canção no disco-manifesto do movimento, o LP Tropicália ou Panis et Circensis (Philips).

Gerchman criou Lindonéia com um visual de noticiário policial. No centro da obra, há uma figura de mulher jovem, marcada (por grãos de impressão) junto ao olho esquerdo, ao lado esquerdo do nariz e próximo ao lábio inferior, como se houvesse sido agredida. O olhar da moça é algo entre o susto e a irritação. O estilo do desenho é próximo da caricatura, lembrando um pouco Alcy Linhares. A figura da moça tem uma moldura espelhada, com alguns detalhes florais beirando o rococó. O espectador do quadro se vê refletido tanto no espelho como no próprio vidro que protege a figura de Lindonéia. Eu tinha falado em "noticiário", certo? Certo: no quadro lêem-se os seguintes dizeres: "UM AMOR IMPOSSÍVEL - A BELA LINDONÉIA - DE 18 ANOS MORREU INSTANTANEAMENTE". A partir daí, podem se elaborar mil e uma histórias.


A letra de Caetano incorporou boa parte de sugestões emanadas da própria obra. Podem-se identificar claramente o espelho (na primeira estrofe - "Na frente do espelho/ Sem que ninguém a visse/ Miss/ Linda, feia/ Lindonéia desaparecida" - e na última - "No avesso do espelho/ Mas desaparecida/ Ela aparece na fotografia/ Do outro lado da vida") e até a cor parda do papel que Gerchman utilizou (no verso que abre a terceira estrofe: "Lindonéia, cor parda"). Já os dizeres devem ter colaborado na opção por imagens fortes como "Despedaçados/ Atropelados/ Cachorros mortos nas ruas/ Policiais vigiando/ O Sol batendo nas frutas/ Sangrando...", na segunda estrofe.

A obra Lindonéia de Gerchman integra a mostra É Hoje na Arte Contemporânea Brasileira e pode ser vista no Santander Cultural (Rua Sete de Setembro, 1028, Centro, Porto Alegre – 3287-5500), até o domingo, 28, das 10 às 19h (2ª a 6ª) e das 11 às 19h (sábado e domingo).


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Homenagem a Cara de Cavalo

Há outra obra com ligações tropicalistas na mostra É Hoje: trata-se de Homenagem a Cara de Cavalo, de Hélio Oiticica. Aliás, B33 Bólide caixa 18. A ligação é porque outro trabalho de Oiticica retratando esse criminoso famoso nos anos 1960, uma bandeira com os dizeres "Seja marginal, seja herói", foi a causa alegada para a suspensão de show dos tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Mutantes na boate Sucata em 1968.

Bólide é uma caixa sem tampa onde nas quatro faces internas há uma foto de Cara de Cavalo morto, sem camisa e com os braços abertos qual uma cruz, deitado no chão e rodeado por curiosos. Uma das faces da caixa está aberta e estendida em direção ao observador, que vê então Cara de Cavalo de cabeça para baixo. Um pano de nailon coberto de pigmento alaranjado (sugerindo sangue?) cobre sutilmente a foto. Dentro da caixa, há um saco plástico contendo o mesmo pigmento, tendo impresso os dizeres: "AQUI ESTÁ, E FICARÁ! CONTEMPLA! SEU SILÊNCIO HERÓICO".



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ufes2007


Questão 02 (Valor: 3,0 pontos)



Título: Lindonéia, a Gioconda dos Subúrbios
Autor: Rubens Gerchman
Ano: 1966

Rubens Gerchman criou Lindonéia, a Gioconda dos Subúrbios [1966] com um visual de noticiário policial. No centro da obra, há uma figura de mulher jovem, marcada (por grãos de impressão) junto ao olho esquerdo, ao lado esquerdo do nariz e próximo ao lábio inferior, como se houvesse sido agredida. O olhar da moça é algo entre o susto e a irritação. O estilo do desenho é próximo da caricatura, lembrando um pouco Alcy Linhares. A figura da moça tem uma moldura espelhada, com alguns detalhes florais beirando o rococó. O espectador do quadro se vê refletido tanto no espelho como no próprio vidro que protege a figura de Lindonéia.

(Fabio Gomes. Disponível em http://www.brasileirinho.mus.br/arquivomistura/138-220506.html. Acesso em: 29 mar. 2007.)

Lindonéia

(Caetano Veloso / Gilberto Gil 1968)

Na frente do espelho
Sem que ninguém a visse
Miss
Linda, feia
Lindonéia desaparecida

Despedaçados, atropelados
Cachorros mortos nas ruas
Policiais vigiando
O sol batendo nas frutas
Sangrando
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor

Lindonéia, cor parda
Fruta na feira
Lindonéia solteira
Lindonéia, domingo, segunda-feira
Lindonéia desaparecida
Na igreja, no andor
Lindonéia desaparecida
Na preguiça, no progresso
Lindonéia desaparecida
Nas paradas de sucesso
Ai, meu amor
A solidão vai me matar de dor

No avesso do espelho
Mas desaparecida
Ela aparece na fotografia
Do outro lado da vida


Crie uma narrativa em que Lindonéia conta a própria vida. Nesse relato autobiográfico, deve-se incorporar: 

a)  um comentário ao quadro de Gerchman (por exemplo: título, ano, traços da pintura); 

b) a citação de um ou dois versos da canção de Caetano e Gil. 

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