quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Cinema Independente (1)

A partir de hoje, passo a publicar em capítulos semanais, como se fosse um folhetim, o meu novo pdf, Cinema Independente, texto que escrevi para ser usado nas aulas da minha Oficina de Cinema Independente. Casualmente, a primeira edição da Oficina foi realizada em setembro de 2015 em Jequié, cidade baiana vizinha a Vitória da Conquista, terra natal de Glauber Rocha, cineasta de quem tomei emprestada uma famosa frase para ser a epígrafe deste material. Como eu ressaltei já na abertura da aula inaugural, é evidente que não coloquei a frase em função disso, e sim pela importância, no cinema brasileiro e mundial, de Glauber Rocha, que sempre se definiu como um cineasta independente. 


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INTRODUÇÃO

Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça
(Glauber Rocha)


Glauber Rocha
(foto: Branca Dias)


Até não muito tempo atrás, produzir um filme era um privilégio reservado a quem possuía muito dinheiro, ou conseguia atrair investimentos de terceiros em volume suficiente para custear sua produção. Entre os motivos estava o alto custo dos equipamentos necessários, inacessíveis ao cidadão comum.

Se por um lado equipamentos profissionais utilizados em filmes como Star Wars e Jurassic World continuam fora do alcance dos bolsos da maioria da população mundial, por outro lado a boa notícia é que, a partir do surgimento da fotografia digital e da popularização dos celulares e smartphones com câmera, todos nós passamos a ter no bolso uma ferramenta capaz de filmar em alta definição. É claro que para muitos é mais que o suficiente postar o que filmaram em alguma rede social e mostrar apenas para os amigos. Mas por que não investir um pouco mais de tempo, usando um notebook e alguns programas que podem ser baixados legal e gratuitamente da internet (opções que também estão ao alcance da maioria de nós), e ter um produto em condições de ser exibido em cineclubes e participar de festivais de cinema?

Neste texto, compartilho com os inscritos em minha Oficina de Cinema Independente e demais interessados no assunto minha experiência com a realização de meus curtas-metragens da série As Tias do Marabaixo. Fico feliz em poder informar que a realização da primeira edição da Oficina de Cinema Independente, na cidade baiana de Jequié, em setembro de 2015, já rendeu a realização de meu sexto curta-metragem, Você é África, Você é Linda, meu primeiro filme de ficção.




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CINEMA INDENDENTE

Conceito

São considerados independentes os filmes produzidos sem o apoio ou o financiamento de um grande estúdio de cinema. Geralmente se tratam de filmes com baixo orçamento, com distribuição limitada a poucas salas de cinema (no caso de longas-metragens). Outra característica importante é a maior liberdade para a expressão artística do cineasta.

Evidentemente, há exceções para os itens citados acima. Vários filmes premiados com o Oscar recentemente eram originalmente produções independentes, que ao receber a estatueta atraíram o interesse de grandes distribuidoras. Podemos citar os casos de Cisne  Negro, produção norte-americana de 2008, Quem Quer Ser um Milionário?, filme inglês do mesmo ano, e O Lado Bom da Vida, filme americano de 2012. Até o Brasil está nesta lista, com a co-produção com os Estados Unidos O Beijo da Mulher-Aranha, de 1985, indicado a quatro Oscars (incluindo uma vitória) e vencedor do Independent Spirit Award de Melhor Filme Estrangeiro.

Em relação a orçamento, o filme independente mais caro já produzido foi O Fantasma da Ópera, de 2004. A produção custou 96 milhões de dólares, bancada pelo dramaturgo Andrew Lloyd Weber, autor da adaptação teatral que estreou na Broadway em 1986 e segue em cartaz até hoje. Após o filme ter sido concluído, a Universal comprou seus direitos de exibição.

História: O Cinema Nasceu Independente

Costuma-se pensar no cinema independente como um gesto de rebeldia dos realizadores contra os grandes estúdios, na intenção de terem maior liberdade para fazerem seus filmes da forma que quiserem. Esta imagem é correta, mas o fato é que o cinema não começou com os grandes estúdios. O cinema nasceu independente.

Na primeira sessão de cinema da História, em 28 de dezembro de 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumière exibiram em Paris dez filmes que eles próprios haviam feito com seu cinematógrafo, um aparelho portátil que filmava, revelava e projetava. Eram filmes curtos, de 40 a 50 segundos cada, retratando cenas como a saída dos operários da fábrica Lumière ou a chegada de um trem à estação. O novo invento logo atraiu o interesse do mágico Georges Méliès, que adquiriu um aparelho semelhante, fabricado na Inglaterra, começando a fazer filmes de ficção, inclusive com os primeiros efeitos especiais.

A primeira sessão de cinema no Brasil aconteceu em 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, promovida pelo exibidor itinerante belga Henri Paillie, que projetou oito filmes de cerca de um minuto cada, retratando cenas pitorescas do cotidiano de cidades europeias. Em 19 de junho de 1898, o italiano Afonso Segreto realiza a primeira filmagem em nosso país, registrando a entrada da Baía de Guanabara. O irmão de Afonso, Pascoal Segreto, inaugurara no Rio no ano anterior, em 31 de julho de 1897, a primeira sala brasileira de cinema, o Salão de Novidades de Paris, que sempre incluía em sua programação filmes nacionais, a maioria filmados por Afonso Segreto.

Estúdios – Inicialmente uma atração exótica, com filmes curtos, em geral documentários, exibidos em feiras e eventos em geral, o cinema foi rapidamente evoluindo, passando a ter filmes ficcionais de durações maiores e atrair o interesse do público e de investidores. Fazer um filme passou a ser uma operação gradativamente mais complexa em termos de material utilizado, pessoas envolvidas e consequentemente maior investimento financeiro, além da necessidade de um lucro considerável a cada lançamento para manter a estrutura funcionando. Isso levou a criação, principalmente nos Estados Unidos, de uma série de estúdios, a partir da Paramount, em 1912; no ano seguinte, surge a Fox, seguindo-se a Metro (1915), a Goldwin (1916) e a Columbia (1919), entre outros. A maioria dos novos estúdios era localizada em Hollywood, um distrito de Los Angeles, Califórnia, que, após ter sido usado pelo diretor David W. Griffith como locação de seu filme In Old California (1910), produzido pela American Mutoscope and Biograph Company, começou a ser procurado por diversos produtores de Nova York, interessados em criar lá os seus estúdios de filmagem, atraídos pelo clima quente o ano todo, com baixo índice de chuvas. Logo depois, a Primeira Guerra Mundial (1914-18) acabou indiretamente contribuindo para firmar a posição de Hollywood no cenário mundial, ao praticamente paralisar a produção europeia no período; mesmo que alguém conseguisse produzir algum filme na Europa, não teria como exportar em meio à guerra.

David W. Griffith

Curiosamente, aquele que ajudou a firmar Hollywood como a meca do cinema americano acabou também sendo um dos primeiros profissionais de sucesso a buscar atuar de forma independente: Griffith rompeu com a Biography em 1913, devido ao fato da companhia ser contrária ao investimento em longas-metragens, um formato que já se firmara na Europa a partir de dois sucessos italianos de proporções mundiais – Quo Vadis (1913) e Cabiria (1914). Além de a Biography não concordar em investir o valor que um longa exigia,e não querer dar crédito a diretor e elenco, usava ainda um argumento que hoje soa ridículo – seus executivos acreditavam que filmes muito longos podiam machucar os olhos dos espectadores...

Foi através de sua nova empresa, David W. Griffith Corp, que Griffith lançou seu filme seguinte, o longa O Nascimento de uma Nação (1915), que o consagrou como um dos criadores da linguagem cinematográfica (honra que divide com o russo Sergei Eisenstein). Griffith também participou, em 1919, da criação da United Artists, ao lado de nomes como Charles Chaplin e Douglas Fairbanks, grandes astros descontentes com a forma como eram tratados pelos estúdios. Além de produzir, a UA também distribuía filmes de realizadores independentes, inclusive as primeiras produções de Walt Disney.

O Brasil também teve seus grandes estúdios, na primeira metade do século 20, com destaque para três empresas: a Cinédia, fundada em 1930, a Atlântida, criada em 1941 e famosa pelas chanchadas (comédias musicais que geralmente traziam os sucessos carnavalescos de cada ano) e a Cia. Cinematográfica Vera Cruz (1949-54), que investiu em dramas históricos. A Vera Cruz chegou a produzir um sucesso internacional, O Cangaceiro (1953), premiado em Cannes, mas não conseguiu gerar recursos suficientes para se manter produzindo (em parte por erros administrativos tais como a venda dos direitos de exibição de O Cangaceiro para a Columbia Pictures, fazendo com que a Vera Cruz nada recebesse pelas exibições em 80 países - só na França o filme ficou cinco anos em cartaz).

A chamada “política dos estúdios” de Hollywood dominou a cena norte-americana até a virada das décadas de 1960/70, quando realizadores da Costa Leste, como Francis Ford Coppola, Robert Altman e Martin Scorcese rompem com a estética e os padrões dominantes até então na indústria.

Paralelamente, o surgimento de novas tecnologias a partir dos anos 1950 como o filme 16mm, o Super-8, o videocassete e, mais recentemente, os equipamentos digitais, permitiram que cada vez mais pessoas possam realizar e difundir seus próprios filmes, tirando dos estúdios o monopólio de contar histórias através de imagens em movimento.

Durante boa parte do século 20 a produção independente teve dificuldades para ser vista pelo grande público, em termos mundiais. O surgimento dos grandes estúdios de Hollywood, aliada à consolidação das distribuidoras, acostumou o público a um padrão de excelência técnica que só era possível atingir com os equipamentos que apenas os estúdios possuíam. Se com as filmadoras portáteis qualquer pessoa passou a ser um cineasta em potencial, por outro lado a concentração do mercado exibidor de filmes nas mãos de poucas distribuidoras, aliadas aos interesses dos grandes estúdios, tornava virtualmente impossível a filmes independentes ganharem as telas dos cinemas, ao menos em escala comercial. Os festivais acabaram sendo uma janela para esta produção começar a vir a público; a partir dos anos 1970, vários festivais passaram a ter mostras inteiramente dedicadas a filmes em Super-8. O aprimoramento das câmeras digitais, a partir dos anos 1990, fez com que pela primeira vez desde o surgimento do cinema sonoro, no final da década de 1920, o cidadão comum tivesse em mãos equipamentos similares aos usados pela grande indústria, tornando possível produzir, mesmo domesticamente, filmes com qualidade técnica compatível com as exigências do mercado. 

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