segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Cinema Independente (2)

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IDEIA NA CABEÇA

DA IDEIA AO ROTEIRO

Todo filme, seja curta, média ou longa-metragem, documentário ou ficção, com alto, baixo ou nenhum orçamento, começa com uma ideia. Você tem uma ideia que quer compartilhar com as outras pessoas de forma audiovisual, e a partir daí mobiliza outras pessoas para que colaborem com você nessa empreitada. O cinema é por definição uma arte coletiva – claro que nada impede que você filme apenas aspectos da natureza (por exemplo, um canteiro de flores num parque público de sua cidade, ou as travessuras de seu gatinho dentro de casa), edite e publique isto na internet, sem a interferência de mais ninguém. Mas se não houver a participação de outras pessoas, nem que seja assistindo, qual o sentido em se fazer um filme?

A ideia é apenas isto, uma ideia. Para se transformar em filme, ela primeiro deve poder ser expressa de forma clara e concisa, de modo a poder ser facilmente entendida por qualquer outra pessoa. Digamos que você queira adaptar a peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, ambientando a ação no Rio de Janeiro nos dias atuais. Essa frase que acabei de escrever – “adaptar a peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, ambientando a ação no Rio de Janeiro nos dias atuais” – já serve para transmitir a ideia. Essa frase concisa que descreve brevemente a ideia para o filme é ora chamada de sinopse, ora de storyline.

Há quem diferencia sinopse de storyline, como o roteirista Doc Comparato, em seu livro Da Criação ao Roteiro: “a story line representa o quê (o conflito-matriz escolhido), a sinopse representa o quando (a temporalidade), o onde (a localização), o quem (as personagens) e, finalmente, o qual (a história que vamos contar)”.

 O passo seguinte é elaborar o argumento, que, no entender de Garcia Filho, é “a verdadeira base de todo o filme”, acrescentando que “por argumento, se compreende o conjunto de ideias que serão desenvolvidas no roteiro. Ele tem a ação delineada, bem como a sequência, personagens e locações. Normalmente não tem diálogos e sua narrativa é pobre”. Seu tamanho é variável; enquanto uma convenção de Hollywood estipula que uma página de argumento equivale a dez páginas de roteiro, o crítico Inácio Araújo afirma que “normalmente são utilizadas de duas a quatro páginas para indicar as linhas gerais da história que será tratada: o que acontece, o porquê e quem são os personagens.”

Já o roteiro é um texto com a sequência detalhada das cenas do filme, na ordem em que serão apresentadas ao espectador, contendo indicações de cenários, horários em que as cenas se passam, personagens (com atitude corporal e entonação a usar nas falas, se necessário) e os diálogos completos – basicamente, o roteiro pode ser considerado “o filme por escrito”.

Para exemplificar melhor as diferenças entre argumento e roteiro, vamos ver trechos que correspondem à sexta cena do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund, cujo roteiro foi escrito por Bráulio Mantovani:

Argumento:
Pelas ruas da Cidade de Deus Cabeleira, Alicate e Marreco fogem da polícia. Eles percorrem algumas ruelas, trocam de roupa e correm até o campinho onde fingem jogar bola com os meninos.

Roteiro:
6 EXT. RUAS DO CONJUNTO - DIA
Cabeleira, Alicate e Marreco correm, perseguidos de perto, por um POLICIAL que dá tiros para o alto. Eles riem. E também atiram para o alto.

BUSCA-PÉ (V.O.)
O Trio Ternura não tinha medo de ninguém.
Nem da polícia... Eles achavam que a Cidade
de Deus era deles. Mas tinha um monte de
bandido que achava a mesma coisa. Naquele
tempo, a Cidade de Deus ainda não tinha
dono.

Os bandidos se metem pelas ruelas do local.
MONTAGEM cria a sensação de labirinto: o Policial nunca sabe para onde ir.
Os bandidos param um instante. Tiram as camisetas vermelhas, jogando-as por trás do muro de uma casa. Todos agora estão de camiseta branca. Eles continuam correndo até o...

Há uma importante diferença a respeito de roteiro quando o filme a ser produzido for um documentário. Num filme de ficção, você primeiro estrutura toda a história no papel para só depois filmá-la. Num documentário, você trabalha inicialmente com sinopse e argumento, e aí já parte para produzir a filmagem e filmar. Após a filmagem, você assiste o material captado, fazendo a chamada “decupagem” (ou seja, você anota o que foi gravado e transcreve as falas) e só então escreve o roteiro, que será utilizado nas etapas de montagem e pós-produção.

AUTORIZAÇÕES

Fazer cinema envolve, em algum momento, a necessidade de obter autorizações de outras pessoas. Vamos ver os principais casos:

- você precisa obter autorização para adaptar obra de outra pessoa. Fernando Meirelles e Kátia Lund precisaram obter de Paulo Lins a autorização para transformar o romance Cidade de Deus em filme. Já uma adaptação de qualquer peça de Shakespeare pode ser feita livremente, pois o autor é falecido há mais de 70 anos, prazo após o qual tudo o que alguém tenha produzido passe ao domínio público. Durante o período entre a morte de um autor e a entrada de sua obra no domínio público, a autorização deve ser obtida junto aos herdeiros. Geralmente a autorização é concedida por um prazo determinado, ao fim do qual, se o filme não foi ao menos iniciado, o diretor perde o direito a adaptar a obra para o cinema, e o autor pode vender os direitos para outro produtor.

- você precisa obter autorização para utilizar obra de outra pessoa. Por exemplo, para utilizar uma música na trilha sonora de seu filme, ou ainda um poema ou qualquer texto que não seja seu e que não faça parte da obra cujos direitos foram adquiridos. Em relação a música, caso ela tenha mais de um autor, a contagem dos 70 anos para entrada em domínio público só inicia após a morte do último parceiro. Por exemplo: “Carinhoso” é de Pixinguinha e João de Barro. Pixinguinha faleceu em 1973 e João de Barro em 2006. Portanto, “Carinhoso” só passará ao domínio público em 2077 (a liberação se concretiza em 1º de janeiro do ano seguinte ao que se completam as sete décadas do falecimento). Até lá, a inclusão de “Carinhoso” em filme precisa ser autorizada pelos herdeiros de ambos os autores. A inserção de cenas de filmes brasileiros feitos há mais de 70 anos independe de autorização, bem como o uso de textos de autores falecidos há pelo menos 70 anos. Obras de autores estrangeiros podem ter prazos maiores de proteção aos direitos autorais, pois cada país é livre para fixar o período que quiser, desde que nunca menos de 50 anos, prazo estabelecido pela Convenção de Berna.

- você precisa obter autorização para usar a imagem das pessoas. É o chamado “direito de imagem”. Em cinema, esse direito está mais ligado a documentários – todas as pessoas que irão dar depoimento precisam assinar um documento afirmando que autorizaram ser filmadas. Não é necessário obter essa autorização quando a filmagem for feita em local público, ou em evento aberto ao público.

- você precisa obter autorização para usar o nome das pessoas. Isso pode acontecer, por exemplo, se você quiser adaptar uma biografia. Digamos que você queira filmar um trecho do livro de memórias Antes que me Esqueçam, de Daniel Filho. Depois de obter a autorização do autor para a filmagem, você teria que buscar a autorização de cada pessoa real citada por Daniel no livro que vá se tornar um personagem do seu filme – é um caso semelhante ao do uso de obra alheia: as autorizações referentes a pessoas já falecidas devem ser obtidas com seus herdeiros, com o detalhe de que neste caso não existe o prazo de 70 anos que há em relação ao direito autoral. O direito de imagem é um direito moral, e não prescreve, ou seja, nunca tem fim.

- você também irá precisar de autorização para filmar em imóveis de outras pessoas, sejam casas, empresas, terrenos, fazendas etc. – enfim, todo e qualquer lugar onde você não poderia entrar livremente. Filmar na rua, praia, praças, parques, estradas, rios, lagos etc. independe de autorização.



3
CÂMERA NA MÃO


PRÉ-PRODUÇÃO

Tendo escrito o argumento e/ou roteiro e obtido as autorizações necessárias, é o momento de se dedicar à pré-produção. Nesta etapa, você analisa o roteiro e organiza como se dará a filmagem das cenas; raramente o que vemos na tela corresponde à ordem em que realmente as cenas foram filmadas. O mais comum é ordenar as cenas em função da disponibilidade de locação – digamos que parte da história se passe num hotel; dificilmente há como manter uma equipe de filmagem por semanas a fio em um estabelecimento comercial que esteja funcionando, isso atrapalharia o dia-a-dia do hotel e atrasaria bastante as filmagens. Num caso assim, o hotel, ou a parte dele necessária para o filme, fica à disposição da equipe durante um período X de tempo (horas, ou dias, ou semanas, enfim, o que for combinado) e nesse período todas as cenas que tenham o hotel como locação deverão estar filmadas. Outras variáveis a considerar é a agenda dos profissionais envolvidos – os atores, por exemplo, podem estar participando na mesma época de outro filme, ou de peça teatral, ou ainda de alguma novela ou série. Enfim, é durante a pré-produção que se procura esquematizar o plano de filmagem, ou seja, um cronograma elaborado de modo que se possa fazer a filmagem otimizando ao máximo os profissionais envolvidos e os recursos necessários, levando em conta os recursos disponíveis.

No caso de documentários, o plano de filmagem tem mais a ver com o agendamento das entrevistas; de todo modo, o plano é menos rígido do que o de um filme de ficção, porque nem sempre ao início da produção de um documentário o diretor sabe exatamente quantas pessoas serão entrevistadas, e onde as gravações irão ocorrer. Mesmo no caso de um doc como Edifício Master, de Eduardo Coutinho, que se passa todo dentro de um prédio de Copacabana. A equipe alugou um apartamento no edifício, permanecendo lá durante um mês, e a filmagem aconteceu em apenas 7 dias, ouvindo 37 moradores.

FILMAGEM

Muitas vezes o projeto do filme já está roteirizado e pré-produzido, porém não começa a ser filmado de imediato em função da busca de recursos para a produção do filme. Talvez aqui esteja a maior diferença entre filmes realizados com o apoio de grandes companhias e o cinema independente. Cineastas independentes costumam financiar seus filmes das mais diversas formas: ou com suas próprias economias, ou recorrendo a empréstimos de parentes, ou através de campanhas de financiamento coletivo (também conhecidas pelo nome em inglês crowdfunding), ou ainda inscrevendo o projeto em editais (falaremos mais detalhadamente sobre editais no capítulo 5). Em função disso, pode acontecer de um filme independente ter sua produção iniciada sem que se tenha em mãos todo o valor necessário para sua conclusão.

No cinema independente é comum que a equipe utilize os equipamentos que cada um tem à disposição, como câmeras digitais, tablets e mesmo celulares (já até festivais dos quais só podem participar filmes gravados em celulares e tablets). Havendo dinheiro em caixa, é possível alugar equipamentos, com ou sem os respectivos técnicos, para a realização das filmagens. 

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