segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Opinião Cinema: Ponte dos Espiões

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Quando Steven Spielberg faz um blockbuster todos já sabemos que vem uma produção caprichada por aí, e quando tem Tom Hanks então, é lógico que será um sucesso. Inclusive, há chances de várias indicações para o Oscar 2016. Não assistiu ainda? Calma, vou fazer um resumo aqui e se você assistiu me conte depois se concorda com minha opinião.

O filme se baseia em fatos reais. James Donovan (Hanks) é um pacato advogado de seguradora, que é chamado pela Justiça americana para defender um espião soviético, Abel (Mark Ryklance), em 1957, auge da Guerra Fria. Os Estados Unidos querem mostrar que seu sistema judiciário trata todos igualmente e Donovan se torna um dos caras mais odiados pelos americanos, por defender um traidor. Sábio do jeito que é, o advogado sugere que o espião não seja executado, só aprisionado, pois quem sabe futuramente servirá como “moeda de troca”.  Na segunda parte do filme, que se passsa em 1960, Francis Gary Powers (Austin Stowell), piloto norte-americano que sobrevoava a Rússia a bordo de um avião de espionagem, é capturado atrás da Cortina de Ferro (bloco de antigos países comunistas da Europa Oriental)... e adivinhem só? Abel é usado na negociação para libertar Francis, e James é acionado para fazer essa troca no meio de duas superpotências.

Basicamente esse é o resumão,  não é para quem quer efeitos e mais efeitos, não tem explosões; é um filme cheio de diálogos tensos e profundos com minuciosas explicações sobre a situação política mundial da época, os conflitos, as principais características do embate, enfim um filme que deve ser utilizado nas salas de aula (alô, professores!). Apesar de o advogado ser americano, ele tenta ser o mais justo possível, um verdadeiro defensor dos direitos humanos, sempre buscando a superação dos preconceitos.

A experiência fantástica de Spielberg junto com o roteiro co-escrito pelos irmãos Joel e Ethan Coen faz com que o filme seja uma obra de arte nas telas. O olhar experiente de Spielberg extrai a beleza das pequenas coisas, desde um gota caindo até os enquadramentos que conseguem transmitir emoção e demonstrar que o ritmo teve uma atenção especial com transições suaves de cenas e de momentos da história. O diretor de fotografia Janusz Kaminski realmente está apaixonado pela luz “leitosa”, fraca, um tom distante mas que tem uma beleza incontestável.  A trilha sonora feita por Thomas Newman, o figurino de Kasia Walicka, todos os detalhes foram cuidadosamente construídos.



E tem mais, a escolha do elenco é de deixar qualquer um enlouquecido. Começando pelo Tom Hanks que demonstra estar super à vontade com o papel, seu personagem parecia até ser chato, metódico, mas Hanks consegue  transbordar carisma. Mark Rylance é um forte candidato ao Oscar de melhor ator coadjuvante no ano que vem, sua atuação foi simples ma, discreta e elegante; ele consegue deixar o público ansioso por qualquer dica sobre seu personagem. Além desses teve Amy Ryan, Dakin Matthews e Sebastian Kock, que não aparecem tanto no filme, porém, quando isso acontece eles enchem os olhos do público com atuações cativantes.

E aí, bateu a vontade de assistir? E você que já viu, concorda comigo? Bom, o filme tem tudo para entrar na agenda de todos com um dos melhores do anos, tem uma produção fantástica, um elenco talentoso e, além disso, Steven Spielberg , um diretor que sabe como o cinema pode afetar e ensinar as pessoas, e ainda nos mostra como uma história real consegue ser contada de uma forma espetacular.



Um comentário:

  1. Ponte dos Espiões marca o retorno de Steven Spielberg à boa forma e ao modo mais gostoso de se fazer cinema: com criatividade e amor pela arte. Como sempre, Hanks traz sutilezas em sua atuação. O personagem nos cativa, provoca empatia imediata graças a naturalidade do talento do ator para trazer Donovan à vida. Mark Rylance (do óptimo Novo Filme Dunkirk ) faz um Rudolf Abel que não se permite em momento algum sair da personagem ambígua que lhe é proposta, ocasionando uma performance magistral, à prova de qualquer aforismo sentimental que pudesse atrapalhá- lo em seu trabalho, sem deixar de lado um comportamento espirituoso e muito carismático. O trabalho de cores, em que predominam o cinza e o grafite, salienta a dubiedade do caráter geral do mundo. Ponte dos Espiões levanta uma questão muito importante: a necessidade de se fazer a coisa certa, mesmo sabendo que isso vai contra interesses políticos ou de algum grupo dominante. A história aqui contada é baseada em fatos reais, mas remete também ao caso recente do ex-administrador de sistemas da CIA que denunciou o esquema de espionagem do governo americano em 2013 e foi tratado como um traidor, mesmo que tenha tido a atitude correta. É uma crítica clara à hipocrisia norte-americana, que trabalha sempre com dois pesos e duas medidas em se tratando de assuntos como esse.

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