segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Os 5 Valores de uma carreira de sucesso



No dia 2 de novembro, publiquei no LinkedIn o texto Como saber se uma proposta vale a pena?, relatando o ocorrido com uma colega jornalista, convidada para ser "ghost writer" de outra pessoa no Facebook. Para minha felicidade, de imediato o texto começou a ser bastante lido e comentado (nenhuma outra publicação minha lá alcançara 55 visualizações em pouco mais de 24 horas). Em função disso, resolvi cumprir logo o prometido ao final daquele texto - publicar lá mesmo no LinkedIn o meu método intitulado Os 5 Valores de uma carreira de sucesso, mencionado naquela postagem. Dividi a publicação lá em duas partes (a primeira entrou no ar dia 4, a segunda ontem). Aqui neste post, você poderá ler o texto completo. Como saber se uma proposta vale a pena?
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O método que intitulei Os 5 Valores de uma Carreira de Sucesso é uma versão atualizada de um workshop que desenvolvi em 2011, chamado Me Formei, E Agora? Apesar deste nome, ele a rigor não era destinado unicamente a recém-formados, embora não há dúvidas de que costumamos ver mais pessoas se dizendo sem saber que rumo seguir na carreira ao terminar a faculdade do que depois de algum tempo de formado. Mas isso não é uma regra, inclusive comigo aconteceu o contrário. Concluí o curso de Comunicação Social - Jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Porto Alegre-RS) em 2001, e já tinha definido o que faria a partir dali. 
Desde o ano anterior, eu trabalhava num projeto de programa de rádio que destacaria o samba e o choro, intitulado "Brasileirinho". Pelo fato de, na época, ser funcionário público municipal, eu estava numa situação econômica confortável, que me permitiu seguir na elaboração do projeto até que o julgasse maduro para ser oferecido às emissoras locais. Em 2002, gravei dois pilotos do programa: um, caseiro, em fita cassete, que foi ouvido por algumas pessoas que escolhi a dedo (jornalistas, publicitários, relações públicas) e cuja opinião foi levada em consideração na gravação do segundo piloto, feito em estúdio e finalizado em CD. Não houve interesse, porém, das emissoras da capital gaúcha, nem na minha contratação para fazer o programa, nem na venda de horário que me permitisse levá-lo ao ar. Diante disso, segui com minha proposta de jornalismo musical no site cujo domínio havia registrado, o www.brasileirinho.mus.br 
Jornalismo Cultural - InícioFoi bem depois disso que fiz minha revisão de carreira, experiência que deu origem ao workshop e posteriormente ao método. A revisão aconteceu em junho de 2009; eu saíra do serviço público no final de 2003, pois constatara que a rigidez dos horários a cumprir (entre outros fatores) impediam que eu me dedicasse como queria ao site; não tinha como viajar, por exemplo, a não ser em períodos de férias. Entre 2003 e 2005, fiz várias viagens a Minas Gerais e São Paulo; em uma delas, recebi a solicitação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo para elaborar o curso Jornalismo Cultural, o que deu origem a outro site meu, o www.jornalismocultural.com.br, e a novos convites para cursos nos anos seguintes em São Paulo (SP), Belém (PA), Joinville (SC), Jaraguá do Sul (SC) e Rio Branco (AC), afora outros chamados para palestras em Salvador e Santo Amaro da Purificação (BA); os convites vindos do meu estado, o Rio Grande do Sul, eram sempre para palestras em faculdades do interior: Novo Hamburgo, Passo Fundo e Santa Maria. Em Porto Alegre, onde eu morava, depois de realizar um curso de Jornalismo Cultural em setembro de 2005, só consegui formar outra turma em agosto de 2009 (mas isto já foi depois da revisão de carreira). Para não depender tanto da receita de cursos e palestras, eu já resolvera em 2006 utilizar minha estrutura de assessoria de imprensa para divulgar trabalhos de terceiros, após três anos de atuação na área divulgando apenas meus próprios projetos. Novamente aqui meus clientes eram todos de fora do Rio Grande do Sul - era chamado para divulgar projetos culturais de brasilienses, cariocas, pernambucanos, paraenses e paulistas, mas nunca de gaúchos. 
Enfim, em junho de 2009 eu me encontrava sem nenhum cliente fixo de assessoria de imprensa, sem chamado algum para palestra ou curso dentro ou fora do Rio Grande do Sul e bastante assustado com a perspectiva econômica imediata, diante desse quadro. Foi então que resolvi promover uma profunda revisão na minha carreira, avaliando minha trajetória até ali e traçando os rumos futuros. Em suma, me planejar. 
E como fiz isto? Bom, eu sei que dizer isso hoje pode até soar mal, mas... me inspirei na FIFA! Sim (risos). Lógico que não nos alegados métodos de suborno, que fizeram a entidade ser alvo de uma operação do FBI em maio de 2015. Em junho de 2009, o que me fez pensar na FIFA foi um evento realizado no final do mês anterior nas Bahamas, onde a entidade escolheu as cidades-sedes da Copa do Mundo marcada para 2014 no Brasil - isso sem falar que a FIFA nos apontara como país-sede em outubro de 2007. Ou seja, definindo o que irá fazer e quando, a FIFA passa a direcionar suas ações para atingir o objetivo estabelecido. Ainda na área esportiva, o mesmo acontece com o Comitê Olímpico Internacional (COI) - também em 2009, mas já em outubro, a entidade decidiu realizar no Rio de Janeiro os Jogos Olímpicos de 2016. Porém, me pareceu que sete anos é um prazo bastante largo para um planejamento pessoal, e optei por trabalhar com a ideia de cinco anos. 
Então me fiz estas duas perguntas, que sugiro que você também se faça: 
1 - Como você se imagina daqui a cinco anos?
2 - O que você não mudaria em sua vida se ganhasse na Mega Sena? Do que você faz hoje, o que continuaria fazendo caso se tornasse milionário do dia pra noite?
Evidentemente, não há resposta 'certa' ou 'errada' para estas perguntas. O objetivo delas é auxiliar no seu processo de conhecimento pessoal.
A primeira pergunta está totalmente ligada à forma como FIFA e COI se organizam: se seu objetivo é traçar um caminho a seguir, isto só será possível se você souber aonde quer chegar. Cinco anos é uma distância de tempo razoável, não muito longa nem extremamente próxima, permitindo à pessoa um certo grau de abstração da situação imediata.
Já a segunda pergunta nos ajuda a definir o que nos motiva - algo que não deixaríamos de fazer mesmo que nunca mais precisássemos de dinheiro para sobreviver. 
Um dos conceitos mais importantes para nosso processo de planejamento é o FOCO, que você poderá notar que eu considero tão importante que sempre o escrevo em maiúsculas. Repetindo a frase dita acima - "se seu objetivo é traçar um caminho a seguir, isto só será possível se você souber aonde quer chegar", o FOCO neste caso é manter-se sempre avançando na direção escolhida.
E como se mantém o FOCO? Cuidando para que as ações a serem desenvolvidas por você se encaixem sempre, ou o máximo possível, numa destas duas categorias:
- ações diretamente ligadas ao objetivo ("ações-fim"); ou
- ações que auxiliem de algum modo na concretização do objetivo ("ações-meio"). 
O que não se encaixar em nenhuma destas duas categorias deve ser evitado, sob pena de consumir seu tempo, seus recursos e seus esforços, sem fazer com que você avance.
Vamos a um exemplo. Digamos que você tenha estabelecido como seu objetivo escrever sobre Economia em algum jornal de sua cidade. Fazer um curso sobre Jornalismo Econômico está diretamente ligado a este objetivo, pois o qualificará para a posição almejada (ação-fim). Já aceitar um “frila” na editoria de Esportes não tem ligação direta com o objetivo, e a princípio, pensando-se em FOCO, deveria ser descartado. Porém, pode acontecer de que seja justamente com o valor que irá receber do “frila” para Esportes que você conseguirá pagar o curso de Jornalismo Econômico - isto torna o “frila” em Esportes, no contexto, uma ação-meio para a obtenção do que você almeja. 
Uma forma bastante segura de verificar o FOCO de uma ação é avaliar sua relação com o que eu denomino Os 5 Valores de uma Carreira de Sucesso
- Currículo
- Experiência
- Contatos
- Projeção
- Remuneração
Mas o que exatamente eu estou querendo dizer com cada um destes Valores?  Vejamos. 
Experiência - Naturalmente, tudo o que fazemos constitui uma experiência. O que é importante aqui é avaliar a qualidade da experiência, sob um parâmetro (apenas aparentemente) muito simples: Eu repetiria esta experiência, sim ou não?
- Currículo - Quantas vezes já não dissemos a respeito de algo que estamos prestes a fazer: Isto vai ficar ótimo no meu currículo? O que se deve considerar aqui é o quanto a ação vai acrescentar em sua bagagem pessoal - a ponto mesmo de, literalmente, ser incluída em seu currículo.
Contatos - Considere aqui qual a capacidade que a ação tem de colocar você em contato com pessoas que podem fazer diferença em seu network.
Projeção - Avalie se a ação poderá de algum modo ajudar a tornar você e/ou seu trabalho mais conhecidos junto a um novo público, que ainda não ouviu falar de você.
- Remuneração - Não é preciso explicar muito este item, não é? O que deve ser avaliado aqui é se o valor oferecido compensa à altura seus esforços de desenvolver o trabalho combinado. 
Importante: não deve se confundir "projeção" com "contatos". A principal diferença é que contatos são diretos e recíprocos - as pessoas conhecem você e vice-versa. No exemplo que vimos acima: os seus colegas do curso de Jornalismo Econômico são contatos seus. Já quando o jornal publicasse seu texto na seção esportiva, você estaria obtendo projeção - pessoas que até ali não sabiam do seu trabalho iam passar a conhecê-lo, saber quem você é, mas não você não vai conhecer nem saber quem são estas pessoas. E por que devemos dar especial atenção à projeção? Porque sem ela apenas os seus contatos diretos é que o chamariam para novos trabalhos. 
Vamos pensar no caso da minha colega que foi convidada para ser "ghost writer": como o nome dela não apareceria nas publicações a serem feitas no Facebook, ela não teria possibilidade alguma de Projeção, nem mesmo de Contatos (seu único contato na atividade seria com o próprio contratante), e logicamente não poderia incluir este trabalho em seu Currículo. Foi por isso que eu disse, no artigo anterior, que eu não aceitaria a proposta "pois ela não contemplaria os valores Currículo, Contatos e Projeção, apenas Experiência e Remuneração, e mesmo esta poderia não compensar". E, de fato, não iria compensar mesmo, pois ao final da negociação o possível-futuro-cliente da minha colega se mostrou disposto a pagar apenas um valor extremamente baixo. A rigor, nem mesmo a Experiência seria válida, pois certamente, mesmo que aceitasse esse trabalho, a colega não pretenderia fazer algo semelhante no futuro. 
Sempre uso este método para avaliar as propostas que recebo, e até mesmo para pensar nos projetos que me proponho a fazer, e ele tem me sido de grande valia ao longo desses últimos seis anos.

Gosto muito de utilizar histórias, sejam reais (acontecidas ou não comigo), sejam fictícias, para ajudar no entendimento e fixação de conceitos. Inclusive, como já mencionei, a publicação deste artigo teve por motivação a consulta que recebi da colega jornalista, contada no já citado texto  Como avaliar se uma proposta vale a pena?
Quero dividir com vocês agora estas duas histórias:
1 - Em setembro de 2007, fui convidado pelo Ministério da Cultura para palestrar sobre História do Samba na inauguração da Casa do Samba da cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia. O MinC cobriria todas as despesas, mas não me ofereceria pro labore pela palestra. Aceitei o convite. O que levei em consideração?
Eu iria participar de um evento onde também iriam palestrar José Miguel Wisnik, Caetano Veloso e Carlos Sandroni, entre outros, e que contaria com a presença, no evento inteiro, do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, além de ter a oportunidade de passar praticamente uma semana entre o Recôncavo e Salvador (foi minha primeira viagem à Bahia). Era uma experiência que me interessava, além do quê ter participado deste evento ajudou com certeza a valorizar meu currículo posteriormente (concretamente falando, rendeu um convite para que eu retornasse a Salvador em dezembro, para participar dos debates do Dia Nacional do Samba, desta vez com pro labore). Fiz excelentes contatos e também obtive projeção, pois minha palestra foi citada com destaque em jornais da Bahia e n’O Estado de São Paulo antes e depois do evento. Levando-se tudo isso em conta, entendo que ficou plenamente compensada neste caso a ausência de remuneração direta (mas é bom relembrar que não tive despesa alguma desde que saí de Porto Alegre até o momento que retornei).
O Diabo Veste Prada : foto
2 - Em 2006, um dos grandes sucessos do cinema foi o filme O Diabo Veste Prada, estrelado por Meryl Streep e Anne Hathaway, com roteiro de Aline Brosh McKenna, adaptando o best-seller de Lauren Weisberger, e direção de David Frankel. Vou postar aqui trechos do resumo da obra, publicado na página do filme na Wikipedia:  
Andrea "Andy" Sachs é uma aspirante a jornalista que sai da Universidade Northwestern. Apesar de achar ridícula a superficialidade da indústria da moda, ela consegue um emprego que "um milhão de garotas se matariam para ter", ela se torna assistente pessoal júnior de Miranda Priestly, a editora-chefe da revista Runway. Andy planeja aguentar o tratamento arrogante, humilhante e um tanto que explorador, aproveitador, de Miranda por um ano,na esperança de conseguir um emprego como repórter ou escritora em outro lugar. (grifo meu)
A qualquer hora, em qualquer lugar,
a vida de Andy era pautada 
pelas ordens de Miranda

Podemos dizer então que Andy Sachs viu no cargo de assistente pessoal júnior de Miranda Priestley uma oportunidade de, desfrutando de uma boa remuneração, obter contatos que a ajudariam a avançar na direção de seu FOCO. Apenas isto, pois, como ser assistente de uma editora de moda não é, de modo algum, ação-meio para você ser um jornalista da área de cultura, estar nesse cargo em nada lhe ajudava quanto aos valores currículo, experiência e muito menos projeção. Mas nem em relação aos contatos Andy agiu a seu favor: em dado momento, o jornalista e aspirante a escritor Christian Thompson se dispõe a lhe apresentar o editor da New Yorker (este sim um contato alinhado com o FOCO de Andy), porém ela dispensa a oportunidade por:

1-estar, em plena noite, executando um serviço pedido por Miranda;
2- acreditar piamente (mas sem base concreta alguma) que oportunidade semelhante poderia lhe surgir na semana da moda de Paris (onde, naturalmente, todos os editores presentes seriam de moda, e para os quais ela, Andy, não seria uma aspirante a jornalista cultural, e sim uma assistente de uma editora de moda!).

Ou seja, durante todo o tempo em que esteve a serviço de Miranda, em momento algum Andy avançou na direção dos objetivos que se propusera ao sair da faculdade. 
Talvez o avanço de Andy houvesse sido mais rápido se, ao invés de secretariar Miranda, ela se dedicasse, logo ao se formar, a estabelecer o seu diferencial competitivo. Que pode ser definido como aquilo em que os outros reconhecem uma competência especial em você – por isso, algumas vezes pode ser algo que até escapa à nossa percepção imediata. Por exemplo, quando recebi o convite, citado acima, do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo para elaborar o Curso de Jornalismo Cultural, minha primeira reação foi de estranheza, já que eu não me via como um professor, porém a resposta é que eles gostariam, sim, de conhecer como eu trabalhava nas pautas que publicava no site Brasileirinho.
Som do NorteSeu diferencial competitivo pode variar com o tempo, de acordo com os rumos que sua carreira tome – a partir de agosto de 2009, tão logo eu coloquei o blog Som do Norte no ar, passei a ser chamado por diversas publicações para escrever sobre a música da Amazônia.
O seu diferencial competitivo pode ser inclusive construído - mesmo que hoje os outros não apontem você como “autoridade” em determinado assunto, você pode investir nisso, através de leituras, estudos, um curso específico etc. Eu sempre procurei ouvir muito Villa-Lobos e ler tudo o que era possível de sua vida e obra, e hoje meu texto sobre as “Bachianas Brasileiras” é citado na Wikipedia como uma referência no assunto; em função disso, cheguei a ser consultado em 2008 por um dos maiores críticos de arte do país, Olívio Tavares de Araújo, quando ele fôra convidado para escrever a respeito da obra do maestro (o artigo, intitulado Villa-Lobos: Configurando um Mundo Sonoro, foi incluído no livro O Brasil como Império, organizado por Sonia Guarita do Amaral, lançado pela Companhia Editora Nacional em 2009).
Enfim, o diferencial competitivo é que fará que as preferências para determinada missão recaiam sobre você e não sobre outra pessoa. Nem todos, é claro, vêm a possuir um diferencial competitivo, mas penso ser fora de questão que dificilmente você conseguirá um destaque a ponto de ser lembrado para trabalhos específicos se não tiver um diferencial competitivo bem estabelecido (e, logicamente, combinado com projeção: não basta você fazer algo muito bem, os outros têm que saber disto).
Planejamento de carreira - Quando já estão claros para você os seus objetivos profissionais, o seu FOCO, as ações-meio e ações-fim para atingi-lo e as relações de tudo isso com os 5 Valores, bem como seu diferencial competitivo, é chegado o momento de você começar a escrever o plano de carreira onde vai detalhar seus rumos futuros. 
No começo do artigo, eu sugeri que você se imaginasse daqui a cinco anos, e também que pensasse sobre o que você não deixaria de fazer mesmo que ganhasse na Mega Sena (ou seja, estabelecer de onde vem sua motivação). Leve em consideração estas respostas para estabelecer seus objetivos. Mesmo que você trabalhe numa empresa (pública ou privada), não se esqueça que a sua carreira é uma responsabilidade sua, logo você é quem precisa ter atenção para verificar se o que a empresa lhe oferece hoje e as perspectivas que aponta para o futuro estão alinhadas com as metas que você definirá em seu plano.
Estabeleça seus objetivos: aonde você quer chegar? O que é importante para você? Pelo que você quer as pessoas lembrem de você futuramente? Objetivos estabelecidos, enumere as ações-meio e as ações-fim relacionadas a cada um deles. Não esqueça, caso você já trabalhe, embora não sendo na área de sua formação, de incluir no plano o que você já faz, afinal se você quiser mudar para outro emprego/atividade terá que planejar esta transição.
(Em tempo: creio ser importante, aqui, esclarecer o meu conceito de planejamento. Eu cada vez menos acredito na possibilidade real de você fazer um planejamento, seja profissional, seja pessoal, que estabeleça ações e metas para prazos determinados e que consiga ser executado à risca - basta apenas pensar em como, por exemplo, a recente alta do dólar modificou completamente as expectativas de tantas pessoas e empresas em nosso país. Enfim, quando falo em "fazer um planejamento", quero dizer detalhar o que você se propõe a colocar em prática, se não houver nenhum imprevisto, seja positivo ou negativo. E o que seria um "imprevisto positivo"? Digamos que você seja convidado para assumir a gerência de uma empresa em sua cidade, ou mesmo em outro estado; a partir do convite, você analisa se o aceita ou não, e caso aceite, se estrutura para a mudança. Mas você não pode viver à eterna espera de que surja uma proposta de trabalho que mude a sua vida; você precisa ter definido o que você quer fazer, independente de receber ou não alguma proposta. E é a este definir o que você quer fazer que eu chamo de planejar-se.)
Cada ação, seja ela meio ou fim, incluída no plano deve estar acompanhada de alguns parâmetros acerca de sua realização: 
- Prazo: até quando, ou a partir de quando, você se dedicará a essa ação? Pode ser uma data específica, ou uma estimativa (“curto”, “médio”, “longo prazo”).
- Barreiras: o que você imagina que poderá atrapalhar ou mesmo impedir a concretização da ação? De que alternativas você dispõe para contornar estes obstáculos? Avalie também se, caso a ação se torne impossível, em que grau isso compromete o êxito do plano.
- Parceiros: com quem você pode contar para a realização da ação planejada? De que forma eles participariam?
- Valores: a qual, ou quais, dos 5 Valores (Currículo, Experiência, Contatos, Projeção e Remuneração) a ação está relacionada?
- FOCO: a ação tem mesmo relação com seu FOCO de carreira? Se não tiver, mesmo assim ela merece ser feita, ou ao menos há justificativa para que ela conste do plano?
Não há um modelo a ser seguido na redação de seu plano. Por ser algo que incorpora as suas experiências e reflete as suas expectativas, ele deve ser redigido da forma que lhe permita melhor visualização dos caminhos traçados e, dentro de pouco tempo, dos progressos alcançados. Apenas uma observação, fruto de minha experiência pessoal: quando o único valor relacionado a uma ação, seja ela meio ou fim, for a remuneração, geralmente essa ação acaba sendo de curto prazo, já que há ‘N’ outras formas de ganhar dinheiro com algo que tenha mais ligação com o seu FOCO - como, aliás, creio ter ficado bem demonstrado no caso da jornalista que se recusou a ser ghost writtter.  
Quando escrevi meu primeiro plano, em junho de 2009, dividi-o em linhas de atuação, cinco ao todo, e em cada uma detalhei as ações-meio e ações-fim correspondentes. Embora eu tenha chegado a implementar com sucesso algumas das ações que me propus então - uma delas, o lançamento do Som do Norte -, em poucos meses eu me dei conta de que era necessário promover uma alteração radical no plano. 
Assim, meu segundo plano foi redigido em novembro de 2009, e teve como principal mudança a substituição das cinco linhas de atuação pelas áreas “Vida”, “Carreira” e “Parcerias”. Na primeira, estão ações que quero ou necessito fazer e que não têm a ver diretamente com meu trabalho – foi ali, por exemplo, que fixei o objetivo de me mudar para Belém, em razão do sucesso de meu blog Som do Norte, lançado em agosto de 2009. Em “Carreira”, estão objetivos e ações especificamente ligados ao meu FOCO - minha atuação como jornalista cultural, cineasta e palestrante. Já em “Parcerias”, vão as ações que tenho interesse em realizar, sem que delas vá depender a minha sobrevivência – caso de minha atuação como produtor cultural ou assessor de imprensa, em ambos os casos de trabalhos artísticos de terceiros. Esta, veja bem, é a divisão do plano que a mim parece a mais lógica desde então. Você pode – e deve – criar a que lhe parecer melhor, e que lhe permita uma visualização mais clara de suas metas.  
Reconheço que se passou um tempo relativamente muito curto entre o primeiro plano (junho de 2009) e o segundo (novembro de 2009, apenas cinco meses depois). E por quê? Isto se deveu a dois fatores: primeiro, ao grande sucesso de uma iniciativa prevista na versão de junho – o já bastante citado lançamento do Som do Norte. O interesse demonstrado ao longo dos anos anteriores pelo público nortista em relação a meu trabalho como jornalista cultural, mais os contatos (então) recentes e cada vez mais intensos com a cena dos estados da Amazônia, em especial a do Pará, animou-me a criar o blog, cobrindo a movimentação musical da região Norte, extensa área do país ausente da grande mídia na ocasião – minha iniciativa antecedeu em três anos o “estouro” da música paraense, que projetou nacionalmente artistas como Gaby Amarantos, Lia Sophia e Felipe Cordeiro. O sucesso imediato do blog fez com que, em “Carreira”, eu optasse por cancelar as páginas de agenda cultural dos sites Brasileirinho e Jornalismo Cultural (já que não conseguia mais atualizá-las como deveria), e, em “Vida”, incluísse como objetivo a mudança para Belém tão logo fosse possível (o que foi viabilizado em junho de 2010). Não fosse esta grande repercussão do blog, talvez eu demorasse mais tempo para me dar conta dos erros cometidos na formulação do primeiro plano.  
Onde errei? Foram três os principais erros.
  • Primeiro, havia um único grande objetivo no plano, cuja concretização era dificílima: quase tudo convergia para a linha de atuação “Rede” – era minha idéia inaugurar e/ou adquirir uma casa de shows em cada cidade-sede da Copa do Mundo de 2014 (para custear isso, provavelmente, só ganhando mesmo na Mega Sena!).

  • Segundo, o plano era redigido aos moldes de uma lista de tarefas, e a cada ação realizada (ou descartada), eu ficava ansioso para substituí-la logo por outra, como se houvesse alguma lógica no acúmulo de tarefas realizadas.

  • Terceiro, faltava FOCO em minha atividade como jornalista, como é facilmente dedutível pela simples menção à tal rede de casas de shows, ideia bastante utópica, convenhamos (basta dizer que nunca ao menos se tentou criar uma rede assim em nosso país). Era como se em meu próprio plano eu mesmo não acreditasse no meu potencial como jornalista!
Felizmente, o sucesso do Som do Norte, ação essencialmente jornalística que me deu uma visibilidade (= projeção) que eu jamais tivera na profissão até então, abriu inúmeras portas para mim a partir dali. Por exemplo, de uma série de entrevistas com personalidades da música nortista, publicadas no blog a partir de 2013, veio a ideia de gravar entrevistas em vídeo com As Tias do Marabaixo, o que acabou originando uma série de curtas-metragens lançados em 2015 e dando o impulso inicial para eu abraçar uma nova carreira, a de cineasta. Enfim, claro que eu não tinha como prever isso ao final de 2009, mas em cinco meses ficou claro que eu precisava revisar com urgência o plano, o que me oportunizou identificar e eliminar os erros citados acima.

As Tias do Marabaixo
Para concluir, creio ser importante ressaltar que o plano, por si só, não tem “poderes mágicos” – de nada adianta escrevê-lo e deixá-lo esquecido num canto da casa ou do computador; é você quem deverá se empenhar, diariamente, para transformar seus objetivos em realidade.
Outra observação importante é que o plano não deve ser tratado como algo imutável. Ele pode e deve ser mudado quantas vezes se mostre necessário, seja por erros constatados, seja por novos acontecimentos, que podem ser conseqüências do próprio plano, ou mesmo não previstos. Afinal, se você trabalhar adequadamente a partir de agora pela sua carreira, em especial se cuidar do valor “Projeção”, aumentam as possibilidades de que você receba convites inesperados para novos desafios – e aí caberá a você ver se eles são compatíveis com o já planejado, ou merecem até uma revisão do plano. Não se esqueça de avaliar qualquer novo convite que receber com base em seu FOCO e nos 5 Valores - Currículo, Experiência, Contatos, Projeção e Remuneração.


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