quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Todos precisam ver Que Horas Ela Volta?!!!!

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




E é com uma felicidade e um orgulho enorme que escrevo essa crítica. Vocês sabem muito bem que frequentemente critico o cinema nacional, aí vem Anna Muylaert e nos dá um presente de Natal adiantado, Que Horas Ela Volta?, filme indicado pelo Ministério da Cultura para ser o representante brasileiro no Oscar 2016, além de ter sido super-aplaudido e premiado nos Festivais de Berlim e de Sundance, sem falar que é um tapa na cara da sociedade brasileira que diz ser livre de preconceitos, mas na verdade só está se iludindo. Todos PRECISAM assistir.

Muita calma nessa hora, deixa eu explicar um pouquinho do filme. Val (Regina Casé) é uma típica empregada doméstica considerada “quase da família” ´porque mora há anos em uma casa de classe alta em São Paulo. Criou o filho dos patrões, Fabinho (Michel Joelsas), faz o almoço, serve, limpa toda a casa, porém dorme no “quartinho da empregada”, almoça numa mesa separada e é tratada como alguém “inferior”, e o pior é que ela aceita e concorda com tudo. Toda essa rotina sai dos eixos quando sua filha Jéssica (Camila Márdila), a quem não vê há há uma década, vem de Pernambuco para prestar vestibular em São Paulo, ficando então na casa dos patrões junto com a mãe. A menina é um furacão, ambiciosa e batalhadora, não aceita o conceito de que “cada um tem seu lugar”, não compreende porque não pode sentar a mesa, nem porque não pode usar a piscina, questiona tudo e é aí que o filme entre em um nível que dificilmente é abordado no Brasil e mostra o quanto somos hipócritas.

Por que a filha da empregada não pode usar a piscina?


Anna Muylaert não merece só Palmas, merece o Tocantins inteiro (Ok, foi uma péssima piada, relevem). A diretora consegue misturar drama e comédia, confronta o Nordeste e o Sudeste, o preconceito, os de classe alta e baixa, o Brasil que segrega e que tem a “pseudo-ideia” de união nacional. Sua criação transforma uma história simples em um fabuloso roteiro, que nos questiona e dá um “tapa na cara”, uma lição de moral, impossível o brasileiro não se identificar. Muitos vêem as empregadas domésticas como alguém inferior, não enxergam que eles também têm problemas, famílias e principalmente sentimentos, não existem exclusivamente para cuidar de você e sua família.  E não são só as empregadas, vai muito além disso, tem o tio da cantina, o garçom, o motorista do ônibus, o porteiro e o gari, ninguém é inferior porque é do Nordeste ou do Norte, porque não estudou ou porque não ganha o mesmo que seu pai, todos estão trabalhando, o que muda são as oportunidades que cada um teve e nunca se deve julgar alguém pelo salário, pela casa onde mora - e o preconceito mais idiota é quando o julgam pelo estado que nasceu. Muito obrigada, Anna, por esse confronto com a “elite”, não é à toa que o filme foi aplaudido de pé por onde passou e deixou sua marca.

Deixando um pouco o lado moral, a diretora de fotografia Barbara Alvarez conduz a narrativa com bastante carinho, cuidado, entregando enquadramentos realmente memoráveis. O corredor da casa parece longo, impessoal e escuro mostrando a falta de comunicação da família. Se notarmos, Val está sempre enquadrada em espaços físicos limitados, mostrando assim que sua visão é limitada, que seu lugar é distante dos patrões. Agora sem dúvidas o elenco foi a peça fundamental, Camila Márdila surge como uma das boas revelações do cinema nacional nos últimos anos, entregou-se ao personagem complexo, cheio de conflitos, drama e mostrou que o que questionava não era uma birra de adolescentes, foi um desafio e tanto. Regina Casé desprendeu-se do que aparenta na TV e mostrou talento, vemos ali uma mulher cansada porém muito afetiva e compreensiva - o que lhe valeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Sundance deste ano.  Karine Teles, no papel da patroa, também faz um ótimo trabalho, incorporou a megera e mostrou fielmente como são as “socialites” brasileiras. 


É um filme que precisa ser visto, deixou o cinema brasileiro em outro patamar, sem a visão cheia de estereótipos (espero que sirva de exemplo), fez com que várias pessoas se emocionassem e pensassem um pouco sobre seus preconceitos, sobre sua vida e a criação dos filhos só tenho elogios, orgulho e torcida. 

Repito: todos PRECISAM ver!

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