quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Opinião Cinema: O Clã

por Bianca Oliveira
do Rio de Janeiro




Pablo Trapero já é conhecido como um dos melhores na história no cinema latino-americano, é um diretor que vive colocando o dedo na ferida e em O Clã (El Clan, Argentina/Espanha, 2015) não foi diferente. Um filme marcante, surpreendente que encheu várias sessões na Argentina, além de representar o país mundo afora (esteve na Bienal de Veneza e encerrou o último Festival do Rio de Cinema). Afinal, o que poderíamos esperar de um diretor tão competente que tem nas mãos um dos crimes em série mais marcantes do país?

O longa conta a história real da família Puccio, que ficou conhecida nos anos 80 na Argentina por sequestrar parentes de pessoas com dinheiro. A família é formada pelo patriarca Arquimedes (Guillermo Francella), pela mãe Epifania (Lili Popovich) e os filhos Alejandro, o mais velho (Peter Lanzani), Adriana (Antonia Bongoechea), Guillermo (Franco Masini) e Silvia (Giselle Motta). Ainda tem Maguila (Gastón Cocchiarale) que vive há anos na Nova Zelândia. É uma típica família classe média. A Argentina sofreu uma das mais duras ditaduras implantadas nos anos 70, e na década de 80 ainda estava tentando se estabilizar. Ex-colaborador dos militare e membro da Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE), Arquímedes não pensou duas vezes antes de pôr em prática tudo o que aprendeu na ditadura, para manter o padrão de vida de sua família, contando ainda com ajuda de Alejandro e dois comparsas. Os crimes já eram suficientemente terríveis, mas havia um agravante pior ainda: as vítimas eram conhecidas da família.


Guillermo Francella está impecável como Arquimedes; mesmo sendo um papel diferente de tudo que tinha feito no cinema, ele convence do primeiro ao último minuto, sua interpretação é segura e firme. Peter Lanzani fez uma interpretação muito boa, conseguiu demonstrar o conflito de seu personagem que, mesmo ajudando o pai em muitos momentos, pareceu mais temer do que realmente compartilhar a maldade. Lili Popovich, Giselle Motta, Franco Masini, Antonia Bengoechea, Gastón Cocchiarale e Stefanía Koessl completam o ótimo elenco da produção, apesar de não terem tantas exibições não deixam em nada a desejar.

Trapero, que ganhou o prêmio de Melhor Direção na Bienal de Veneza de 2015, faz uma leitura que nos afasta com a frieza do protagonista, mas nos aproxima com a narrativa eletrizante e envolvente, a estética dele faz com que o filme fique memorável. O filme tem alguns planos-sequências, sutis e sem uma longa duração, que acaba gerando uma tensão na gente, sem contar que a câmera não pára, está sempre em movimento, mas vou logo avisando não vá assistir pensando que vai ser cheio de ação, nada disso, só que o clima tenso está sempre no ar, a trilha sonora de Sebastián Escofet está perfeita nos momentos-chave da história, coloca uma adrenalina na gente, mesmo que não esteja acontecendo nada. Júlian Apezteguia coloca toda a fotografia em um tom pastel, passando assim uma imagem mais envelhecida e que nos aproxima dos personagens, parece que ficamos mais íntimos.


O Clã não é um filme comum, mesmo com todo o mundo de informações que temos por aí é impossível não ficarmos chocados com a frieza e crueldade. Ele surpreende até a última cena, é impressionante como não só o elenco, mas todo o grupo conseguiu entregar uma trama envolvente, que abusa da violência psicológica, e que nos deixa inquietos e apreensivos a todo momento. Trapero conseguiu provar o seu talento como diretor e roteirista e nos entrega um longa fantástico e surpreendente.

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