sexta-feira, 18 de março de 2016

"Grande oportunidade, você pode ganhar até 1 real (ou não)!"


Em 14 de março, a produtora e curadora de conteúdo Nadja Pereira publicou no LinkedIn um texto com o incrível (principalmente para quem não é da área de Comunicação) título 30 reais por texto e a era da informação barata demaisEla se referiu a propostas que recebe de empresas de Inbound Marketing que oferecem de 30 a 40 reais por texto encomendado (sim!!!), que logicamente deverá ser produzido mediante certos critérios fixados pela empresa. 

Ao comentar o texto, eu disse a Nadja que ela deveria até comemorar que pelo menos todos os textos seriam pagos, o que nem sempre acontece. Hã? O quê? Há gente que pede para que um profissional trabalhe de graça? Sim, amigos e amigas, infelizmente tem, e muito - o que me leva a crer que, se há uma insistência tão grande nesta oferta, é porque temos pessoas que simplesmente aceitam....trabalhar de graça.
Aliás, falei nisso no texto anterior, Parcerias, propostas & outras bossasAlém dos exemplos citados ali, já recebi tal abordagem de uma revista de Belém (que contei no meu encontro com alunos da PUC-SP e aqui no blog em 2013), e também de outra revista de Roraima, editada por uma entidade classista da indústria, o que torna simplesmente risível o argumento de não temos como te pagar
Mas até aqui tudo bem, acho que o bom é ser honesto sempre, e se não há intenção de pagar pelo seu trabalho, isso deve ser dito logo, e bem claramente, assim você pode recusar de imediato sem grandes sofrimentos. É o famoso "jogar limpo".
O pior que pode ser feito, no meu entender, é o que a filial brasileira de um grande portal americano me propôs há uns quatro anos, mais ou menos (infelizmente não localizei a troca de mensagens que tivemos na época, se um dia eu achar eu reproduzo na íntegra a proposta e o que respondi. O que segue é citado de memória). Na ocasião, o portal estava inaugurando, ou expandindo, sua redação no país e seu diretor escreveu-me, dizendo que tinha visto textos meus pela internet e gostado muito. A partir daí ele descrevia como seria o processo, em tudo semelhante a um emprego:
- haveria subordinação: eu não poderia escrever sobre o que eu quisesse, ou postar textos escritos pros meus blogs, o editor do portal passaria uma lista (já não recordo se semanal ou diária) dos temas que eu poderia escolher - ou seja, teria que escolher algum. 
- haveria continuidade: como disse acima, o portal esperava que eu tivesse uma produção regular de textos para ele. 
- haveria até pessoalidade: ou seja, já que o portal me escolheu, esperava ter meu texto no ar na periodicidade que ele, portal, fixara, eu não poderia indicar, por exemplo, meu amigo Victor Matheus para escrever em meu lugar (risos). 
Para caracterizar um vínculo empregatício, faltaria apenas o quê? Ela, a re-mu-ne-ra-ção! Pois saibam que nem isso faltaria, pois o editor do portal foi bem enfático em dizer que eu seria pago pela minha produção! Uau! Somando as citações no e-mail e no (nem tão pequeno) manual de redação que eu precisei ler, foram pelo menos quatro menções, quase todas eufóricas, sobre pagamento nesse contato. 
O difícil foi descobrir, lááááá pro final do tal documento, o verdadeiro valor oferecido. O grande portal oferecia a mim - um profissional que eles valorizavam tanto a ponto de me procurar, só lembrando - a incrível, fantástica, extraordinária quantia de UM REAL (R$ 1,00) por texto produzido e aprovado (ainda tinha isso - risos) que...atingisse mais de mil visualizações no site do portal. Mas não era só isso, vejam: seria um real a cada mil visualizações - que tal? hein? hein? Ou seja, 10 mil views, 10 reais!!!! 
Aí fui olhar nos meus blogs quantos textos eu tinha com mais de mil acessos - eram talvez dois ou três, isso ao longo de quatro a cinco anos. Você pode até pensar: "Mas sendo um grande portal, não seria de se esperar bem mais acessos que num blog independente?" Teoricamente, sim, mas será que o portal iria destacar de fato meu texto, sabendo que teria que me pagar - mesmo que fosse esse mísero real? Gente! Um. Real. Ou zero se você não atingir mais que 999 leituras. 
No dia seguinte, respondi educadamente ao editor, agradecendo o convite, porém deixando bem claro que eu sabia que ele não desconhecia que para produzir os tais textos eu iria utilizar meu tempo, meu conhecimento, eventualmente meus contatos etc., que tudo isso é trabalho, e trabalho deve ser remunerado, ponto. Não se condiciona - ainda mais deste modo ridículo (se não usei este termo, foi algo equivalente) - desta forma o pagamento do trabalho realizado por um profissional diplomado, e no qual a própria empresa reconhecia valor, tanto que foram eles que me procuraram, eu jamais lhes pedi nada. 
Como vocês podem imaginar, o editor nunca me respondeu. Ontem procurei no portal a tal área mantida por ilustres convidados pagos tão regiamente #sqn e dela não resta nem poeira virtual. Ainda bem :) 
Afinal, já cantou Zeca Pagodinho que Brincadeira tem hora, brincadeira tem hora....

Nenhum comentário:

Postar um comentário