quinta-feira, 31 de março de 2016

Opinião Cinema: A Garota Dinamarquesa

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro



primeira transexual a passar por uma operação de mudança de sexo nasceu na Dinamarca com o nome de Einar Mogens Wegener. Aos 48 anos, na década de 1920, o artista plástico Einar fez a operação e passou a se chamar Lili Elbe. Inspirado nesta história tão bela, e no livro de David Ebershoff que a retrata, Tom Hooper dirigiu o filme A Garota Dinamarquesa. Hooper só poderia ter ousado mais e abordado esse tema com um olhar bem mais sensível.

O filme se passa em Copenhagen, onde Einar (Eddie Redmayne), é casado com Gerda (Alicia Vikander), em um casamento feliz. Ele pinta paisagens delicadas e tem uma carreira de sucesso. Ela faz retratos e está em busca de seu lugar no mercado de arte. A dinâmica desse relacionamento muda quando Einar posa para sua esposa, para um quadro de uma bailarina. Gerda pede que seu marido calce sapatilhas, coloque meia-calça e segure sobre seu corpo um vestido branco. Naquele momento ele se encontra instantaneamente com alguém adormecido na sua personalidade, a detalhista e corajosa Lili Elbe. A partir daí, passa a se descobrir mais confortável como mulher e se joga em uma jornada de auto-descoberta.




O maior erro de Tom Hooper é que seus personagens não são fiéis ao real, à história, à toda a luta. Não que isso em si seja um problema, em alguns filmes dá um bom resultado, mas nesse caso ele tinha personagens reais com histórias fantásticas, qual seria o motivo de não investir nelas? A Gerda de verdade foi uma artista transgressora, que fazia pinturas e ilustrações eróticas com mulheres nuas masturbando umas às outras. A Lili encontrou um amor, quis ter filhos, foi forte e assumiu todos os riscos por uma vida plenamente verdadeira. Ela passou por muito mais coisa do que Hooper mostrou, parecia que ela estava no filme mais para mostrar sua relação com Gerda, o quanto Gerda foi forte e corajosa. Um filme que tinha tudo para demostrar luta e força se tornou algo melodramático demais, penso que chega até a ser uma traição a tudo que a verdadeira Lili Elbe passou.

O engraçado (ou não) disso tudo é que Tom Hooper engana todo mundo. Quando vamos assistir nós juramos que o filme fala sobre Lili Elbe, que ela é a Garota Dinamarquesa, mas a verdade é que Gerda é A Garota Dinamarquesa. O pior é que o estúdio conseguiu convencer todos de que ela é coadjuvante em um filme em que ela aparece na tela por mais tempo que o próprio “protagonista”. É a ela que alguém se refere como “garota dinamarquesa”, na única vez em que a expressão é mencionada, e o longa ainda abre com um close de seu rosto e encerra com uma fala sua (confuso, não?).


A atriz Alicia Vikander é que mais entra em seu personagem, sua atuação é convincente, sutil e real. Ela emociona, sabe passar perfeitamente a angústia que sua personagem deveria transmitir. Foi a quem mais chamou atenção e que mais se dedicou. Já Eddie Redmayne estava, como sempre, tecnicamente impecável. Suas expressões, os seus trejeitos, tudo estava incrivelmente certo. Mas o que mais senti falta foi da emoção, ele parecia frio, como se não soubesse construir o personagem de fato e isso foi bem decepcionante.

Apesar de tudo isso a fotografia de Danny Cohen estava linda demais, ele acertou em cheio e conseguiu transmitir a angústia nos momento certos. Já liberdade de identidade estava presente não só na maquiagem mas nos tecidos e no guarda-roupa. Tudo estava se encaixando, Paco Delgado pesquisou a arquitetura e as fotos de época do casal, ele fez questão de reproduzir fielmente o primeiro vestido branco, usado por Lili ao posar para Gerda e na primeira aparição em público como mulher, Lili usa um vestido cedido do departamento de figurino da Ópera de Copenhague. Outro ponto é para o tamanho exagerado dos ternos e chapéus que Einar passa a vestir, na segunda metade, eles apontam seu desconforto ao usar roupas masculinas o que ajuda e muito para a construção do personagem.


Mesmo com erros e acertos considero o longa um ótimo representante LGBT. Hooper em algumas cenas conseguiu transmitir a importância de conversar sobre esse assunto, de debater e de entender que é algo que vem de dentro para fora.  Não uma doença, loucura e todas essas coisas que, mesmo no século XXI, ainda tem muita gente pensando e agindo com preconceito, muito mais do que imaginamos. 


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