domingo, 13 de março de 2016

Parcerias, propostas & outras bossas



A vontade de escrever este texto surgiu-me há alguns dias, quando recebi um e-mail com o título pomposo de Proposta de intercâmbio, enviado pela assessoria de uma banda. Pois bem, lendo a mensagem, fiquei sabendo do histórico da banda, o número de seus seguidores em N redes sociais, o link destas redes sociais.... e o e-mail terminou sem propor nada, muito menos um intercâmbio! 
(Não vou nem entrar muito no mérito da questão do intercâmbio, afinal ele é definido pelos dicionários como reciprocidade de relações comerciais, culturais etc. entre nações, o que não parece ser o caso, não é? Usualmente, num intercâmbio você, que está numa universidade brasileira, vai cursar um ou dois semestres no exterior, e nesse mesmo período a instituição para onde você irá manda alguém matriculado nela para o seu lugar aqui no Brasil. Nem sombra disso no e-mail.)
Para que o e-mail fosse portador de uma proposta, faltou algo fundamental: a banda - ou, no caso, sua assessoria - deveria me dizer o que esperava que eu fizesse a partir do recebimento da mensagem.
Num texto do ano passado, Como saber se uma proposta vale a pena?contei de uma colega minha convidada por alguém a ser ghost-writter no Facebook; a pessoa proponente deixou a cargo de minha colega dizer quanto queria receber pelos textos. Isto não é usual; quando alguém lhe faz uma proposta, espera-se que esta venha acompanhada de uma oferta de remuneração. Se alguém me encomenda fotos, sendo eu fotógrafo, tenho uma tabela de preços; mas se alguém me convida a apresentar um concurso de misses, eu não saberia quanto cobrar, já que nunca fiz isto - então cabe a quem está fazendo a proposta dizer quanto quer pagar. 
Em suma, proposta é um convite que você recebe para fazer um determinado trabalho para alguém, em datas/horários/locais especificados, ou ao menos sugeridos, pelo proponente, mediante o pagamento de um valor X. (Pense em  proposta de trabalho, é esta a lógica.)
Já a parceria é um tipo especial de proposta, no qual alguém convida você a lhe prestar determinado serviço, porém também oferecendo a prestação de um serviço para você como retribuição.
Vou dar um exemplo hipotético, mas muito próximo da realidade da produção cultural independente brasileira: uma banda pede a um jornalista que escreva o release do seu novo disco, e em retribuição insere o logotipo e divulga a URL do site do jornalista em seu material durante o período de divulgação do álbum. Claro que quem não é desta área (ou mesmo quem é - risos) pode perguntar: mas o correto não seria a banda pagar pelo release? Sim, óbvio que o certo seria o profissional receber pelo texto que irá fazer, mas aí vai o grande "segredo" da parceria: os termos devem ser combinados de comum acordo.
No mês passado, uma pessoa entrou em contato comigo, propondo uma parceria, ou ao menos foi este o termo que ela usou. Porém a "parceria" consistiria na divulgação do endereço de um site meu em todas as ações culturais que tal pessoa viesse a fazer, sem que me fosse solicitada contrapartida alguma. Ou seja, podia ser qualquer outra coisa, mas não era uma parceria. 
Mas casos como este são muito raros, o mais comum é alguém lhe abordar falando em parceria e isto significar que você irá trabalhar de graça, mediante pequena ou mesmo nenhuma compensação - ou, mesmo que ela exista, pode não ser do seu interesse. 
Um exemplo de compensação que não interessa: há uns sete anos, fiz um site para um artista brasileiro que vivia na França, que foi devidamente pago. Depois disso, me propus a não fazer outros sites para terceiros, primeiro porque não é algo em que eu seja de fato bom, segundo porque, se você fica responsável pela manutenção de um site que não é seu, isso pode gerar algum desgaste (a Lei de Murphy, ou algo equivalente, faz com que sites que você desenvolve para terceiros saiam muito mais do ar do que os os seus próprios sites, e geralmente em meio a finais de semana ou feriados). Um efeito colateral desse trabalho foi receber uma 'proposta de parceria' de outra artista brasileira que vivia no exterior: ela me propôs fazer o site dela, e a parceria consistiria em... anunciar meus serviços como webdesigner para outros artistas brasileiros morando no exterior. Recusei sem hesitar. 
* Publicado originalmente no LinkedIn

Nenhum comentário:

Postar um comentário