quinta-feira, 24 de março de 2016

Quem escreve os shows?

Penso ser muito curioso que num país tão musical quanto o Brasil a carreira de roteirista de shows não seja incluída habitualmente nos planos de profissionais das áreas de Artes e Comunicação. O que talvez seja compreensível, porque esta função, como todas ligadas a bastidores da produção artística, raramente é citada com destaque. Mas o fato é que todo show tem alguém que pense seu conceito, decida que músicas vão entrar nele e em que ordem. 
Se hoje há bandas que pedem sugestões de set-list aos fãs via redes sociais, na maioria das vezes o roteiro do espetáculo é definido pelo próprio artista, junto com seu produtor e/ou diretor musical. Pode acontecer ainda que alguém de fora da equipe seja chamado para escrever o roteiro. Afinal, nem sempre um show tem apenas canções, artistas como Maria Bethânia costumam declamar poemas ou textos entre uma música e outra. 
Foi assim que o MPB-4 convidou Millôr Fernandes a fazer o roteiro do show Bons Tempos, Hein?, em 1979. O espetáculo gerou dois produtos: um LP de estúdio e a publicação do roteiro em livro da coleção Teatro de Millôr Fernandes (!) pela editora L&PM. O que é surpreendente, pois desconheço outro roteiro de show que tenha virado livro. As imagens que ilustram o post são a capa e a contra-capa do LP e a capa do livro, todas também assinadas por Millôr. 

Esse tipo de show com textos, feito em teatros, só virou padrão no Brasil nos anos 70. Antes, durante a Era do Rádio, ídolos como Francisco Alves e Carmen Miranda só se apresentavam em teatro durante programas de auditório transmitidos ao vivo no rádio, ou participando de shows coletivos ou ainda em espetáculos de teatro de revista. 
Também coletivos eram os primeiros shows próximos do padrão atual, que não por acaso começaram em 1964 (ano de golpe militar e também do começo da Censura, que a qualquer momento poderia proibir uma peça em cartaz, deixando os teatros ociosos e... disponíveis para serem ocupados por shows). O marco inaugural, nesse ano, é o show Opinião, com João do Vale, Zé Kéti e Nara Leão, tendo roteiro de Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes. O primeiro show de Roberto Carlos no Canecão, em 1970, produzido por Mièle & Bôscoli, marca o começo do padrão de show solo que domina o mercado atual, cujo ápice é sem dúvida Falso Brilhante, com Elis Regina, roteiro dela e de César Camargo Mariano, que ficou 15 meses em cartaz entre 1975 e 1977; a produção contava ainda com atores e corpo de baile. 
A rigor, é possível pensar num roteiro de show como equivalente ao texto de uma peça de teatro – sem contar que muitas vezes intérpretes, ao cantar, usam recursos cênicos como gestos e expressões faciais. Quem sabe, então, ainda chegue o tempo em que, assim como peças de Nelson Rodrigues são montadas em vários pontos do Brasil, um mesmo roteiro de show possa estar sendo produzido em diversas cidades país afora, com o devido destaque para seu roteirista. 
* Publicado originalmente na coluna Papo Cabeçado blog RoraimaRock'n'Roll - 22.3.16

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