domingo, 8 de maio de 2016

Opinião Cinema: Sinfonia da Necrópole

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro



Imagine um musical que se passa em um cemitério misturando romance, suspense, crítica, humor e um toque de “terror” também. Sim, esse é o Sinfonia da Necrópole que, acima de tudo, é um filme ousado que tirou muitas risadas e aplausos da plateia presente no Paulínia Film Festival em 2014 (onde ganhou o prêmio de Melhor Trilha Sonora). A diretora e roteirista Juliana Rojas resolveu inovar mesmo, nada de fazer um filme voltado para aquele público que só busca entretenimento, o que ela busca é quem queira um material inovador e alternativo. E com certeza ela conseguiu isso, criando personagens apaixonantes, carismáticos e naturais - e tudo isso na sua primeira experiencia solo dirigindo (antes ela já co-dirigira dois longas e um curta).

A história também é muito interessante. Deodato (Eduardo Gomes) é um aprendiz de coveiro, que foi indicado por seu tio para trabalhar no cemitério, mas seu chefe vive reclamando porque ele é sensível demais, medroso e tem crises recorrentes. Ele precisa trabalhar ao lado de Jaqueline (Luciana Paes), uma mulher forte, independente que tem como função reorganizar o cemitério, que está lotado, ou seja, uma boa quantidade de túmulos precisa ser transferida para um cemitério vertical, assim poderá abrigar mais corpos e consequentemente o dono vai ganhar mais dinheiro. Mas Deodato consegue ver coisas sobrenaturais com o passar do tempo, afinal, é claro que os mortos que ali estão não iam gostar que mexessem com seu descanso eterno.



O título é uma referência ao filme São Paulo, Sinfonia da Metrópole (1929) de Rodolfo Lustig e Adalberto Kemeny, uma critica social relacionado aos espaços. E Sinfonia da Necrópole, além de ser engraçado, também nos mostra os interesses comerciais, especulação imobiliária e como o mundo anda tão chato e monótono, ao mesmo tempo que tem um ar de esperança e de romance entre os protagonistas, nada disso em um jardim ou uma casa bonita, mas em um cemitério (o filme foi rodado em três cemitérios diferentes em São Paulo). A criatividade da diretora é fantástica.

O filme é belo do começo ao fim, e seus números musicais então, nem se fale. Cada detalhe, batucada, tudo foi nitidamente planejado. As letras, compostas por Juliana com Marco Dutra, são sempre de acordo com o momento, conduzindo a história de um modo muito puro. É o próprio elenco que canta - Juliana disse que não queria que eles cantassem maravilhosamente e sim que soassem de forma natural, nada muito musical de Hollywood.

O que parece mesmo é que tudo é uma brincadeira, os atores claramente se divertem tanto atuando quanto cantando. Aliás, Eduardo Gomes é nitidamente carismático e talentoso, ele se diverte, canta, pula e ainda assim não perde a concentração e sabe o momento exato de usar cada expressão. Luciana Paes também, ela demonstra que sabe o que está fazendo e eu tenho certeza que ela vai ter uma trajetória muito bonita, porque talento tem de sobra aí.  E o que falar dos coadjuvantes então? Eles conseguem dar um charme extra ao longa, são inseridos de uma forma suave e gostosa e provavelmente conseguem tudo isso porque são personagens reais sem qualquer idealização.


Eu espero que todo mundo assista esse filme um dia, de verdade. Não há nele mega-efeitos, nem nomes de peso mas há uma bela história, com músicas provocantes e que ficam na mente com aquele clima de romance que todos gostam e que vai fazer você sair gargalhando da sala. É um verdadeiro sopro de esperança e originalidade no nosso cinema nacional, que finalmente está conseguindo enxergar outros artistas.


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