sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Opinião/Cinema: Vidas Partidas

Por Bianca Oliveira
do Rio de Janeiro



Vidas Partidas é um filme inspirado na trajetória da biofarmacêutica cearense Maria da Penha Maia Fernandes, inspiradora da Lei Maria da Penha, promulgada há 10 anos para punir de forma severa a violência doméstica contra a mulher. 

A ação é ambientada no Recife dos anos 1980. Graça (Naura Schneider) e Raul (Domingos Montagner) formam um casal apaixonado, com duas filhas. Mas, diferentemente do que seria considerado padrão na época (ou mesmo hoje, para alguns), é o salário da esposa, Graça, que constitui a principal fonte de renda da família; Raul está num período dedicado apenas aos estudos, findo o qual Graça consegue um emprego de professor universitário para ele. E é ai que tudo muda, Raul se torna cada dia mais agressivo, possessivo, ciumento e suas frustrações pessoais se refletem na forma agressiva com que trata sua família; em contrapartida, Graça está cada dia mais reconhecida em seu trabalho.





Vidas Partidas tinha tudo para se tornar um belíssimo trabalho mas o máximo que conseguiu foi ser algo caricato. Do ponto de vista técnico, faltou uma melhor direção de atores, todos se perdem frequentemente e em um mesmo diálogo há exageros de um lado e sutileza demais do outro. Outro ponto a observar é que, mesmo com a ação se passando no Nordeste, o sotaque ouvido em cena é do Sul (algo comum em produções da TV Globo, por exemplo). A própria direção de arte apresenta problemas, com objetos e peças do figurino modernos demais para a época retratada.  

Porém,  o que mais me incomodou foi a falta de sensibilidade tanto do diretor Marcos Schechtman quanto do roteirista José Carvalho. Como é que num filme em que o tema é violência doméstica contra a mulher o ponto de vista escolhido para conduzir a história é o do marido, Raul? Em muitas cenas parece que direção e roteiro tentam justificar as atitudes agressivas de Raul, romantizando a violência. Há uma cena de sexo forçado que é bem forte, mas o jeito que ela foi abordada parecia que a vítima estava gostando - sendo que a esposa estava sendo abusada sexualmente pelo próprio marido, alguém em que ela deveria poder confiar! Como ela poderia estar gostando? Faltou empatia, sensibilidade, se colocar no lugar da outra pessoa e principalmente dar voz a vítima, é ela que precisa e não tentar justificar e passar a mão no agressor.

É bom lembrar que, segundo uma pesquisa do Instituto Avon/Ipsos - Percepções sobre a violência doméstica contra a mulher -, a violência doméstica atinge 2 milhões de mulheres no Brasil. A cada 4 minutos uma mulher é atendida no SUS depois de sofrer esse tipo de agressão; mas apenas 63% das agredidas denunciam. O filme aborda um tema muito sério e poderia até ajudar mais mulheres agredidas a se sentirem encorajadas a denunciar. 

Dito tudo isso, há sim pontos positivos que precisam ser ressaltados. Schechtman conduziu perfeitamente as cenas de contexto erótico, sem falsos pudores, o que é algo bom já que dificilmente o cinema brasileiro faz isso, principalmente com casais de meia idade. As cenas de violência são bem “verdadeiras”, elas impactam, são fortes, como deveriam ser.

O trabalho de direção, somado ao dos fotógrafos Elton Menezes e Rafael Rahal, resultou em sequências apresentadas através de ângulos diferentes e incomuns, o que nos deixou mais próximos do que estava acontecendo em cena. Além disso, Schechtman usou técnicas que ajudaram muito no clima de suspense, como a iluminação, a trilha sonora e o enquadramento que trouxe toques até de terror em certas cenas. Aliás, esse tom de suspense é uma das melhores coisas do longa. Outro ponto positivo é a linha do tempo, as cenas se alternam entre 1982, 1992 e 2006, sem seguir a ordem cronológica, instigando a curiosidade do espectador. 



O elenco está bem entrosado, principalmente Naura e Domingos. Naura, também uma das produtoras do longa, demonstra personalidade e força no olhar, conseguindo transmitir a dor de sua personagem e a ilusão também. Já Domingos é o ator certo para esse filme, pois ele consegue mudar rapidamente os jeitos e expressões faciais, desde uma ternura singela até a agressividade e fúria que seu personagem tem. Os dois tiveram uma boa sintonia com as participações especiais de Jonas Bloch, Milhem Cortaz e Denise Weimberg.

Há uma beleza sim no filme, mas infelizmente ela acaba se perdendo quando lembramos que o tema principal acabou não sendo tão destacado quanto deveria, o que me decepcionou bastante.