sábado, 24 de setembro de 2016

Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos, o maior compositor brasileiro, é autor de mais de mil músicas. São peças de vários gêneros, como concertos, sinfonias, suítes, quartetos de cordas, sonatas, bailados, arranjos para coro, peças para pequenos conjuntos e para grande orquestra.

Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro em 1887. Seu pai, Raul Villa-Lobos, violoncelista amador, reunia em casa um grupo de amigos que tocava música de câmara. Com a tia Zizinha, o jovem Heitor aprendeu a amar a obra de Johann Sebastian Bach. Ainda pequeno, incentivado pelo pai, Heitor iniciou-se no aprendizado de clarinete e violoncelo. Muitos anos depois, Villa-Lobos lembrava o papel paterno em sua formação musical:

- Meu pai, além de ser homem de aprimorada cultura geral e excepcionalmente inteligente, era um músico prático, técnico e perfeito. Com ele, sempre assistia a ensaios, concertos e óperas.

A mãe de Villa-Lobos, dona Noêmia, é que não gostava muito desse interesse pela música, pois queria que o filho fosse médico. Um pouco maior, ele passou a freqüentar as rodas de boemia onde se fazia o melhor choro da época.

Villa-Lobos aprendeu na escola da vida. Chegou a freqüentar o Instituto Nacional de Música, aos 20 anos. Mas não suportou a rigidez da disciplina e da falta de espírito criativo da escola. O INM não era o lugar de sua música, e sim da música-papel, como ele dizia:

- Há três espécies de compositores: os que escrevem música-papel, segundo regras ou modas; os que escrevem para ser originais e realizar algo que outros não fizeram e, finalmente, os que escrevem música porque não podem viver sem ela. Só a terceira categoria tem valor.

Com toda a certeza, Villa-Lobos pertence à terceira categoria. Sua grandeza está no fato de ter conseguido uma mistura perfeita do folclore brasileiro com a música de concerto européia, com a marca da sua forte personalidade. Ele não se limitou a recolher temas do povo e os harmonizar, como tantos já haviam feito. Nem se contentou em reproduzir modelos de além-mar, caso de outro grande compositor brasileiro, Carlos Gomes. Alguns autores como Alexandre Levy e Brasílio Itiberê já haviam utilizado temas populares em obras sinfônicas antes de Villa-Lobos. Mas estes temas quase sempre eram citações, nunca se alterando a fórmula que já vinha pronta da Europa. Villa partiu da riqueza musical do nosso povo para chegar a formas novas de composição na área da música de concerto, como os Choros, as Bachianas Brasileiras, as Serestas e as Cirandas.


Villa-Lobos viajou por praticamente todo o Brasil de 1905 a 1912. As condições para fazer tal aventura na época eram as mais precárias possíveis. Durante sua estada na Amazônia, por volta de 1910, sua mãe mandou rezar uma missa pela alma do filho que ela já julgava morto. Imaginem a surpresa de dona Noêmia, tempos depois, ao ver o filho ressuscitando no Rio de Janeiro...

Curiosamente, as composições de Villa-Lobos nessa época não têm ainda a marca nacional que é tão exaltada por seus admiradores e que seria de esperar de quem estava em contato tão íntimo com as manifestações genuínas do povo. Villa estava ainda influenciado pelo italiano Giácomo Puccini e pelo impressionismo francês, tendo dado o subtítulo de “Désesperance” à sua “Primeira Sonata-Fantasia”, de 1912.


O casamento com a pianista Lucília Guimarães, em 1913, fez com que Villa-Lobos voltasse a se fixar no Rio. Ocupava-se então em tocar violoncelo em orquestras de teatro de revista e salas de espera de cinema. Em 1915, pela primeira vez sua música foi executada publicamente, primeiro em Friburgo (RJ) e pouco depois no Teatro São Pedro (atual João Caetano), do Rio de Janeiro. Foi o início das polêmicas com a imprensa, principalmente com o crítico Oscar Guanabarino, que acusava o compositor de “demolidor da tradição musical”.

Villa-Lobos participou da famosa Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, em São Paulo. Já chegou para se apresentar sendo vaiado. É que ele estava com um sapato num pé e um chinelo no outro, além de se apoiar numa bengala. Como vestia uma casaca, o conjunto ficava parecendo uma provocação. A platéia assobiava, gritando: “Xô, fora o capenga!” Mas o caso é que o compositor estava atacado de gota na ocasião. Durante o concerto, novas vaias. Um músico devia tocar um instrumento nada comum: uma folha de zinco. A grita do público foi tanta que a direção do Teatro Municipal mandou baixar a cortina em meio à execução. Villa não se importou, afinal estava acostumado a ser vaiado. (anos mais tarde, Tom Jobim diria que Villa-Lobos se orgulhava de ser “o mais vaiado do mundo”). Aliás, como se comprova na frase a seguir, Villa não tinha tal platéia em conceito muito melhor:

- O auditório de concertos é quase sempre formado de elites sociais que, na verdade e na maioria das vezes, não gostam da música, e sim do gênero, estilo ou autor que está na moda.


Em 1923, Villa-Lobos fez sua primeira viagem à Europa. Foi financiado pelo milionário Carlos Guinle, uma das maiores fortunas do Brasil na época. Quando desembarcou em Paris, perguntaram-lhe com quem iria estudar. A resposta de Villa foi ao mesmo tempo arrogante e humilde:

- Não vim estudar com ninguém, vim mostrar o que eu fiz. Se gostarem ficarei, senão voltarei para minha terra.

Em Paris, conviveu pouco mais de um ano com Igor Stravinski, Manuel De Falla, Serguei Prokofiev e Maurice Ravel, além de ter o apoio decisivo de um admirador seu de muitos anos, o pianista polonês Arthur Rubinstein, que lançou na Europa muitas peças para piano do brasileiro, como “A Prole do Bebê”. Mais tarde, o autor homenagearia o intérprete com um retrato psicológico em forma de música: “Rudepoema”. E não só isso. O ator e compositor Mário Lago, vizinho de Villa-Lobos nos anos 1920, contou no livro Na Rolança do Tempo que a amizade dos dois, autor e intérprete, chegou a tal ponto que o sisudo Rubinstein saiu no bloco de Villa-Lobos no carnaval de 1925 fantasiado de baiana, com torso de seda e tudo.



Obs: o pianista não interpreta a obra completa, 
mas vale a pena conhecer este raro registro de 1940!

Em novembro de 1925, Villa-Lobos promoveu um concerto de novas obras suas. O local? O mesmo Instituto Nacional de Música que ele abandonara na juventude. O poeta Manuel Bandeira dizia na ocasião que “o Rio de Janeiro desconhecia as obras mais importantes do compositor, principalmente porque faltavam respeito e afeto a um músico que sem favor podemos colocar entre os seis ou sete nomes mais fortes da atualidade musical, ao lado de um Stravinski”.

O maestro voltou à Europa em 1927, percorrendo França, Polônia, Inglaterra e Espanha já como verdadeira celebridade. Quando já se pensava que o índio de casaca, como o chamava Menotti del Picchia, só viria ao Brasil a passeio, uma revolução mudou tudo. Villa-Lobos estava em São Paulo fazendo uma série de apresentações, em 1930. Num belo dia, foi acordado no hotel pela polícia e levado à presença do interventor João Alberto. Mas o susto passou logo: o político informou que era pianista amador e queria saber se Villa teria projeto de educação musical. Ele tinha. Poucos meses depois, aconteceria num estádio de futebol a Exortação Cívica, primeira concentração de canto orfeônico (como Villa chamava o canto a três ou quatro vozes), reunindo 12 mil estudantes. O estilo de interpretação era por ele assim definido:

- O canto orfeônico é uma das mais altas cristalizações e o verdadeiro apanágio da música, porque, com seu enorme poder de coesão, criando um poderoso organismo coletivo, ele integra o indivíduo no patrimônio social da Pátria.

Villa-Lobos foi muito criticado por deixar de lado a carreira na Europa e assumir uma secretaria criada especialmente para ele pelo presidente Getúlio Vargas. Até hoje há quem o chame de oportunista, ou de promotor de eventos que lembravam as cerimônias de Mussolini e Hitler. Logo ele, que quase fora preso na Alemanha por se recusar a bater continência ao Führer. Em defesa de Villa-Lobos, podemos garantir que seu envolvimento em política fora da passagem pela secretaria era nulo. Aliás, no auge da repressão do Estado Novo, em 1941, o compositor achou que o melhor era cuidar da carreira e saiu da secretaria. Mesmo promovendo eventos com até 20 mil crianças cantando, ele nunca parara de compor. Nesta época, já estava fazendo seu ciclo de peças mais importante, o das Bachianas Brasileiras. Ele dizia ter encontrado no sertão nordestino temas folclóricos que lembravam a música barroca de Bach, vindo daí sua inspiração para a série.

A música de Villa-Lobos foi pouco aproveitada pelo cinema em vida do autor. O diretor que mais usou suas obras nesse período foi Humberto Mauro, para quem escreveu as suítes “O Descobrimento do Brasil”. O Descobrimento do Brasil, o filme, foi realizado em 1937 e tem poucos diálogos, ouve-se praticamente a música do Villa o tempo todo.



Sim! Filme completo!


Depois de Mauro, sua música só voltou às telas com o Cinema Novo. O diretor Glauber Rocha dizia que o compositor era o modelo de artista para o movimento. Um dos projetos não realizados de Glauber era filmar a vida de Villa-Lobos, com Tom Jobim no papel-título. Praticamente todos os grandes filmes do Cinema Novo têm alguma música de Villa, como Deus e o Diabo na Terra do SolMacunaíma e Terra em Transe. Em Hollywood, Villa-Lobos só musicou um filme: A Flor que não Morreu (1959). Ah, e o compositor brasileiro chegou a aparecer em carne e osso num desenho animado de Walt Disney, Alô, Amigos (1942), contracenando com o próprio Disney, o Pato Donald e o Pateta.


Heitor Villa-Lobos faleceu em 17 de novembro de 1959. Mas sua obra está aí, disponível, viva. Diferente do que acontece com a maior parte dos compositores chamados eruditos brasileiros, lembrados só muito raramente ou esquecidos mesmo. Os CDs com suas músicas dificilmente param nas lojas especializadas. Há muitos sites na internet sobre Villa-Lobos. Recomendamos o site do Museu Villa-Lobos (www.museuvillalobos.org.br), onde há uma boa biografia e se pode ouvir o compositor tocando piano, violão e falando. Sua obra também é permanentemente gravada e executada por artistas populares e eruditos.

Além disso, ele deve ser o músico brasileiro com maior número de biografias e estudos da obra. Citemos alguns:

  • O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos, de João Carlos Ribeiro (organizador). São Paulo, Martin Claret, 1987 (de onde saiu a maior parte das frases do maestro que citamos neste texto).
  • O Romance de Villa-Lobos, de C. Paula Barros. Rio de Janeiro, A Noite, 1950.
  • Villa-Lobos, de Lisa Peppercorn. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro, Ediouro, 2000.
  • Villa-Lobos (Coleção A Vida dos Grandes Brasileiros - vol. 10), de Francisco Pereira da Silva. São Paulo, Três, 2001.
  • Villa-Lobos - Alma Brasileira (Série Identidade Brasileira), de Maria Maia. Rio de Janeiro, Contraponto, 2000.
  • Villa-Lobos e Chopin: O Diálogo Musical das Nacionalidades, de Lúcia Silva Barrenechea e Cristina Capparelli Gerling, in: Três Estudos Analíticos - Villa-Lobos, Mignone e Camargo Guarnieri, de Cristina Capparelli Gerling (organizadora). Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2000.
  • Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira, de Bruno Kiefer. Porto Alegre, Movimento, 1986, 2ª edição.
***


Making-off do texto - Assim como a biografia que escrevi de Elis Regina, este texto originalmente foi concebido como um trabalho de aula, nascendo como roteiro de um dos quatro programas que fiz para uma disciplina de prática de rádio, durante o curso de Jornalismo na UFRGS, em 2000. Ao gravar o roteiro, convidei o ator Álvaro Rosacosta para interpretar Villa-Lobos, cabendo a ele ler as frases destacadas em itálico neste artigo. Desde 1999, Álvaro estava em cartaz nos palcos gaúchos vivendo o maestro na montagem A Família do Bebê, da Cia. Terpsí Teatro de Dança; com direção de Carlota Albuquerque, a montagem tinha trilha original de Gustavo Finkler (do grupo Cuidado que Mancha) e incluía peças de Villa-Lobos como "A Prole do Bebê". O texto foi publicado em 2003 no site Brasileirinho e teve como consequência direta o artigo Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach, de 2004, republicado aqui no sábado passado. Versão anterior deste texto chegou a ser publicada aqui no blog em 2014, ilustrada apenas com fotos.

  • A presença de Villa-Lobos no elenco de Alô, Amigos é confirmada pelo site Adoro Cinema (veja aqui), mas o compositor não consta desta versão integral dublada disponível no YouTube. Isto talvez se deva ao fato de que, segundo a página do filme na Wikipedia, o estúdio Disney ter feito oito diferentes versões da obra a partir de 1946. 


domingo, 18 de setembro de 2016

Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach

O ciclo de nove "Bachianas Brasileiras" é um dos destaques no conjunto da obra de aproximadamente mil músicas de Heitor Villa-Lobos (1887-1959 - ao lado em foto de autoria desconhecida, feita c.1922). Ele mesmo afirmava isso. Alguns críticos chegam a esboçar que o ciclo dos "Choros" tem igual peso, mas ninguém se arrisca a apontar a superioridade deste sobre aquele. Basta lembrar que duas das peças mais gravadas de Villa-Lobos são desse ciclo: a "Ária (Cantilena)" que abre a "Bachianas Brasileiras nº 5" e a "Tocata (O Trenzinho do Caipira)", quarta parte da "Bachianas Brasileiras nº 2". A motivação para compor as obras do ciclo, de acordo com o próprio Villa-Lobos, foram as semelhanças que encontrou entre músicas folclóricas do sertão brasileiro e a obra do alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750).

(Antes de prosseguir, duas observações importantes: 1ª, o uso do nome do ciclo no plural, mesmo quando se trata de uma música isoladamente, era prática usual de Villa-Lobos tanto em relação aos "Choros" quanto com as "Bachianas Brasileiras"; 2ª, geralmente, fala-se em "movimentos" das "Bachianas Brasileiras" - exemplo: "O Trenzinho do Caipira" seria o 4º movimento da "Bachianas nº 2". Ocorre que dentro de cada "movimento" há significativas alterações de andamento, assinaladas na partitura - assim na "Bachianas nº 2" temos um Tempo de Marcha dentro da 2ª parte, "Ária", que inicia e termina num clima de modinha. Desta forma, eu prefiro adotar o termo "parte", em vez de "movimento", para melhor compreensão).

Villa-Lobos afirmou a influência de Bach em sua obra muitas vezes ao longo da vida, tendo esporadicamente incluído a seu lado nomes como os do francês Florent Schmitt (1870-1958) e do russo Igor Stravinsky (1882-1971)(embora ele tenha usado o termo "me interessaram", e não "me influenciaram", em entrevista ao português Fernando Lopes Graça em 1958). Vários comentaristas ampliaram a lista, com os nomes dos austríacos Franz Joseph Haydn (1732-1809) e Wolfang Amadeus Mozart (1756-1791), dos alemães Richard Wagner (1813-1883), Robert Schumann (1810-1858), Felix Mendelssohn-Bartoldy (1809-1847) e Ludwig van Beethoven (1770-1827), do italiano Giácomo Puccini (1858-1924), do húngaro Franz Liszt (1811-1886), do francês Claude Debussy (1862-1918) e do polonês Fréderic Chopin (1810-1849); entre aqueles que ao menos admirava, constavam ainda os franceses Paul Dukas (1865-1935) e Vicent d'Indy (1858-1931).

A respeito de influência

Maria Maia, em Villa-Lobos - Alma Brasileira (2000) cita uma frase do maestro: "Logo que sinto a influência de alguém, me sacudo todo e pulo fora".

O termo "influência" parece carregar uma certa culpa, na língua portuguesa (e em outras também, senão ninguém se lembraria de denominar influenza ao vírus da gripe!). É comum lermos que "Fulano sofreu a influência de Beltrano", ou, mais suavemente, "Sicrano admite a influência de Fulano em sua obra". Parece a confissão de um pecado capital. Só que é impossível a um cidadão, principalmente artista, viver no mundo, tendo contato com outros cidadãos e com obras de arte, e não se influenciar. Se ele vai usar essa influência para melhorar ou piorar a obra que vier a produzir, é outra história. Na maior parte das vezes, inclusive, o artista não tem consciência das influências que utiliza em sua obra - ao menos não todas. A não ser, claro, no caso particular de bandas de rock atual, que anunciam que buscam, por exemplo, um guitarrista com influência de Jimi Hendrix...

Sobre Bach, é preciso que se diga que ele nunca saiu de seu país, nem parece ter se importado em algum momento com a divulgação ou preservação de sua obra. Durante quase 80 anos após seu falecimento, Bach era conhecido praticamente apenas pelo estudo de seus prelúdios e fuga para instrumentos de teclado. Foi assim que Haydn, Mozart e Beethoven tiveram contato com ele. Depois de sua redescoberta, promovida a partir de 1829 por Mendelssohn, a obra de Bach passou a ser editada, estando completamente disponível por volta do centenário de sua morte, em 1850. Isso permitiu que os compositores do período romântico pudessem estudá-lo. Mais que isso, propiciou que, no início do século 20, em meio a várias tendências de vanguarda, ocorresse o movimento Retorno a Bach, cuja principal figura era o alemão Max Reger (1873-1916). As outras principais figuras deste movimento Jovem Classicismo (ou Novo Classicismo) foram o italiano Ferruccio Busoni (1866-1924), os alemães Paul Hindemith (1895-1963) e Kurt Weill (1900-1950), o russo Dimitri Shostakovich (1906-1975)... e o brasileiríssimo Villa-Lobos.

O próprio Bach (ao lado em retrato de Elias Gottlob Haussmann feito em 1746) foi influenciado, naturalmente. Entre os compositores que ele apenas estudou, constam o francês François Couperin (1668-1733) e os italianos Antonio Vivaldi (1675-1741) e Tommaso Albinoni (1671-1751). Mas há as influências apontadas pelos estudiosos: o italiano Girolamo Frescobaldi (1583-1644), os alemães Johann Jacob Froberger (1605-1687) e Johann Pachelbel (1653-1705) e o dinamarquês Dietrich Buxtehude (1637-1707). Esse último devia ser muito bom MESMO, porque Bach, em 1705, foi capaz de andar a pé de Arnstald, na Turíngia, onde era organista, até Lübeck, capital do Holstein (ambas hoje integrando a Alemanha reunificada), para poder ouvir Buxtehude. O dinamarquês chegou a dar aulas para Bach durante alguns meses. Só para efeitos de comparação, a distância entre Arnstald e Lübeck, tomada em linha reta no mapa, é de aproximadamente 337 quilômetros - Bach teria percorrido o equivalente à distância entre Porto Alegre (RS) e Tubarão (SC), ou entre São Paulo e Ribeirão Preto. Nada como ter 20 anos!

Pra fechar esse capítulo de influências, temos que dizer que outros autores foram influenciados por Villa-Lobos. Um deles, curiosamente, teria sido Stravinsky, no entender de Tom Jobim (1927-1994) - aliás, também um dos discípulos de Villa, e não só musicalmente. Basta olhar a foto da capa do CD Antônio Brasileiro (1994) para ver que Villa estava influenciando até a imagem artística de Tom (que, compenetrado, acende um charuto, uma das marcas registradas de Villa - e de Jobim).


  • Adendo 2016 - Por algum motivo que não me ocorre agora, não cheguei a mencionar no texto original a existência das "Bachianinhas" do brasileiro Paulinho Nogueira (1929-2003). O próprio nome da série de Nogueira evidencia a influência do ciclo de Villa-Lobos. A "Bachianinha nº 1" é a mais famosa, aliás era a única que eu conhecia (na versão original de 1965 do próprio autor) à época que escrevi o texto (e cometi o inexplicável lapso de não mencioná-la). Resta (ao menos para mim) uma dúvida, trazida pelo adendo "nº 1" em seu título: quantas "Bachianinhas" Paulinho Nogueira teria composto? O site Discos do Brasil lista duas: a primeira com gravações do autor e também de seu aluno Toquinho, além de outros intérpretes, e a segunda apenas pelo próprio Nogueira, em disco de 1986. Uma rápida busca no Google permite acrescentar à lista de intérpretes da nº 2: Os Três Morais, Paulo Bellinati & Marco Pereira. Não localizei evidências de outras "Bachianinhas" fora estas duas. Já o site Super Partituras menciona ainda o choro "Bachianinho", de Ary Alves. Gilberto Gil, na letra de "Um Sonho" (1977), diz que a melodia assobiada por um velho presente a um congresso mundial de Economia parecia um prelúdio bachiano (e também um frevo pernambucano e um choro de Pixinguinha). 

Villa encontra Bach no sertão

O contato de Villa-Lobos com as obras de Bach se deu ainda na infância, através do grupo de amigos de seu pai, todos músicos amadores, que tocavam em sua casa, duas vezes por semana. Quando a música interpretada era de Bach, o jovem Heitor saía da cama, em camisa de dormir, e se escondia embaixo da escada para escutar. Sua tia paterna Zizinha (Maria Carolina Rangel) sabia que bastava iniciar uma peça de "O Cravo Bem Temperado" ao piano para ver surgir o pequeno sobrinho.

Vários autores afirmam, em coro: Villa-Lobos, já adulto, localizou no sertão brasileiro músicas que, neste ou naquele aspecto (melodia, contraponto, modulação), tinham afinidade com aspectos da obra de Bach que ele conhecia da infância. Certo, mas quais aspectos seriam esses e onde ele os encontrou?

O único biógrafo a encarar o desafio foi o mais próximo de Villa, C. Paula Barros, autor de O Romance de Villa-Lobos (1950) e seu parceiro em clássicos como "O Canto do Pajé" (normalmente, Barros, Mário de Andrade e outros escritores que letraram músicas do maestro afirmavam, cheio de dedos, serem seus "colaboradores", como se usar o termo "parceiro" fosse uma ofensa...). Escreve Barros às páginas 36-37:


"Nas suas Bachianas, por exemplo, sente-se muito das cousas sertanejas. Nessa prodigiosa polifonia que é a nº 1, conseguida apenas com oito violoncelos, está nítido o panorama das caatingas, sob o galope dos touros bravos e dos vaqueiros. Julgamos que nessa obra mestra do artista, vive o mistério que povoa a alma do sertanejo.

Só depois que Villa-Lobos nos contou como havia encontrado esses elementos melódicos à maneira de Bach, em plenos sertões, em meio de vaqueiros e cantadores, foi que compreendemos bem como está adequado esse título de 'Bachianas Brasileiras'. 

(...) o jovem caçador de ritmos, um belo dia, meteu-se numa barcaça de pescadores do rio São Francisco, entre Bahia e Minas Gerais. Como seriam as cantigas e toadas daquela gente?... Aí ele, estupefato, anotou melodias arrítmicas semelhando músicas eslavas. De outra feita, no Espírito Santo, na fazenda de um tal Coronel Gervasio, teve ocasião de observar uma outra forma de música, de origem européia, porém, executada empiricamente, de modo todo especial. Música para uma dança rude, quase brutal, com bater de ombros, que em muitas ocasiões, lançavam os pares ao chão. Essa dança chama-se 'esquinado' e um dos seus objetivos é tornar (sic) um vencedor."

Aparentemente, tudo muito simples. Villa-Lobos, convencido dessa semelhança, teria escrito as "Bachianas" utilizando-se desses motivos populares e de citações de obras de Bach, certo?

Errado.

Só em uma "Bachianas" há citação popular direta, de acordo com Bruno Kiefer em Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira (1986): na nº 4, nas partes terceira - "Ária (Cantiga)" - e quarta - "Dança (Miudinho)". Quanto a trechos de obras do mestre de Leipzig... não há NENHUM! E agora, José? (como diria Carlos Drummond de Andrade num poema que Villa-Lobos musicou)

Kiefer nos socorre, esclarecendo: Villa "escreve à moda de Bach e brasileiramente!" Com ele concordam o musicólogo americano Ölin Downes e os brasileiros Andrade Bello, Andrade Muricy, Luiz Heitor, Arnaldo Senise e Maria Maia, entre outros.

Ainda é Kiefer que explica como essa síntese era possível. Primeiramente, Villa voltava, a partir das "Bachianas" 1 e 2, a escrever obras tonais com armadura de clave, ou seja, indicações de alterações de notas, através do emprego de bemóis e/ou sustenidos na partitura. Esse procedimento, bastante comum em música tonal ou modal, não vinha sendo empregado pelo compositor mesmo quando trabalhava em outras releituras de temas populares, como "A Prole do Bebê nº 2" (1921). Porém, a simples presença de armadura de clave em Villa não implicava necessariamente em música tonal, como no "Choros nº 5 (Alma Brasileira)" (1925). Nas "Bachianas", também é constante a simplicidade e o emprego de métodos muito próximos da tradição musical.

As pianistas Lúcia Silva Barrenechea e Cristina Capparelli Gerling (autoras de Villa-Lobos e Chopin: O Diálogo Musical das Nacionalidades, in: Três Estudos Analíticos - Villa-Lobos, Mignone e Camargo Guarnieri, 2000) identificam na série o emprego de uma matriz tonal estável no longo prazo e discernível por cadências bem delineadas. Em Três Estudos Analíticos, Lúcia e Cristina citam ainda a visão do compositor Lorenzo Fernandez (expressa no artigo A Contribuição Harmônica de Villa-Lobos para a Música Brasileira, 1946). Fernandez "observou a maneira pela qual Villa-Lobos explora o uso de dissonância nas cadências: o compositor invariavelmente constrói acordes de tônica e dominante com tons agregados e apojaturas sem resolução. Este procedimento gera sonoridades em clusters e também acordes politonais. O uso da politonalidade tão disseminado nas décadas medianas do século vinte é no entanto apenas uma maneira de combinar e sobrepor sonoridades pouco comuns com um vocabulário tonal."

Outra característica constante na série é que cada parte de uma "Bachianas" tem nome duplo: à denominação clássica de música de concerto corresponde a designação do ritmo popular ao qual se remete - por exemplo, a primeira parte da "Bachianas nº 3 chama-se "Prelúdio (Ponteio)".

As "Bachianas": composição, estréia e comentários

Bachianas nº 1 - Composta em 1930, para conjunto de 8 violoncelos, teve a primeira audição dirigida pelo autor, em 22 de setembro de 1932. C. Paula Barros afirmava ver nela religiosidade e possível evocação ao pai do compositor, Raul Villa-Lobos - nada mais justo, afinal, ele "apresentara" Bach ao filho! Barros acrescenta: "As 'Bachianas nº 1' nos envolvem num esplendor de ritmos e motivos surpreendentes pela cor e pela sugestão do que mais possa haver de subjetiva brasilidade". Em outra passagem, diz encontrar nela "ecos dos ritmos das vaquejadas dos campos marajoaras". Adhemar Alves da Nóbrega, autor de um livro sobre o ciclo das "Bachianas", considera a 1 a mais original, principalmente para os "não iniciados". Sobre a terceira parte, "Fuga (Conversa)", o próprio Villa-Lobos comentava:

"A cabeça do tema inicial se caracteriza numa espécie de transfiguração de certas células melódicas, típicas e populares dos antigos seresteiros da Capital Federal, à maneira de Sátiro Bilhar. Bilhar (1861-1929) foi um velho e incorrigível boêmio, cantador e tocador de violão que acumulava as funções de funcionário público com a de seresteiro habitual. 
A forma e o estilo da fuga representam, primeiro, a espiritualização da maneira de Bach, e depois uma idéia musical da conversação entre quatro chorões, cujos instrumentos se disputam a primazia temática, em perguntas (sujeito) e respostas sucessivas, num crescendo dinâmico, mas sempre conservando a mesma cadência rítmica."




Bachianas nº 2 - Também de 1930, para orquestra, estreou em Veneza, sob regência de Alfredo Casella. Em sua primeira parte, "Prelúdio (Canto do Capadócio)", Kiefer detecta a substituição de uma importante característica de Villa, a invenção contínua, pela progressão, um procedimento típico do Barroco. Além disso, um sax tenor chora uma melodia bem modinheira-seresteira, num esquema geral ABA' (ou seja, executam-se dois movimentos da parte sem repetição, retornando após ao tema do primeiro movimento, modificado). A segunda parte, "Ária (Canto da Nossa Terra)", alterna modinha e tempo de marcha, com os violoncelos num pizzicato grave lembrando os baixos cantantes dos violões das serestas. A imponência do início da parte, para Kiefer, evoca inequivocamente Bach. No tempo de marcha, a atmosfera bachiana é deixada de lado. O clima é tonal. Um solo de trombone marca a terceira parte, "Dança (Lembrança do Sertão)", em que movimentos modais emolduram um centro tonal. Já a quarta parte, a célebre "Tocata (O Trenzinho do Caipira)", é atonal, pois sugere o bater de ferros de uma locomotiva em movimento. A "Tocata" possui uma letra composta pelo poeta Ferreira Gullar (1930-2016) no seu célebre Poema Sujo, que escreveu estando no exílio na Argentina, em 1975, e publicado no Brasil em 1976. Em 1978, Edu Lobo fez em seu LP Camaleão a primeira gravação da "Tocata" com a letra de Gullar, nomeada com o subtítulo usado pelo próprio original de Villa, "O Trenzinho do Caipira".




Bachianas nº 3 - Escrita em 1938 para piano e orquestra, só chegou ao público em 19 de fevereiro de 1947, com José Vieira Brandão ao piano, acompanhado da orquestra CBS regida por Villa-Lobos.



Bachianas nº 4 - Foi composta em 1930 para piano solo, tendo estreado com Vieira Brandão, em 27 de novembro de 1939. O arranjo para orquestra, de 1941, foi mostrado ao público em 15 de julho de 1942, regido pelo autor. O pianista Arthur Moreira Lima destaca, do ponto de vista do intérprete, "a grandiosidade do 'Prelúdio (Introdução)', a riqueza de timbres do 'Coral (Canto do Sertão)', a nostalgia da 'Ária (Cantiga)', interrompida por um ritmo sincopado típico do Nordeste, e a complexidade técnica da 'Dança (Miudinho)'". Para quem estranhou que a 4 tenha sido escrita antes da 3, esclarecemos que Villa costumava fazer isso - por exemplo, o "Choros nº 7" é de 1924, anterior ao 3, de 1925.




Bachianas nº 5 - A mais famosa do ciclo, para soprano e conjunto de 8 violoncelos. Teve a primeira parte, "Ária (Cantilena)", composta em 1938. Sua primeira audição se deu pela voz de Ruth Valadares Corrêa, também autora dos versos. A segunda parte, "Dança (Martelo)", só foi feita em 1945, após a conclusão da "Bachianas nº 9". Villa-Lobos levou a melodia pronta para Manuel Bandeira, convidando-o a escrever a letra, o que o poeta pernambucano fez, embora tal procedimento não fosse do seu agrado. A estreia da segunda parte aconteceu com Hilda Ohlin em Paris, a 29 de outubro de 1947. David Nasser escreveu nova letra para a primeira parte, gravada por Elizeth Cardoso com conjunto, em arranjo e regência de Radamés Gnattali em 1979. Para dar uma idéia da popularidade desta composição, basta lembrar o que o pianista Vieira Brandão ("Brandãosinho") contou a C. Paula Barros: tendo sido Villa chamado aos Estados Unidos em 1947 para escrever sob encomenda a opereta Madalena, os empresários da companhia sugeriram-lhe usar a "Bachianas nº 5" como abertura... Villa ameaçou voltar ao Brasil, suspendendo a temporada toda, fato que os levou a ceder. Felizmente eles eram de palavra, pois Villa não pôde ensaiar a companhia, devido a ter sido hospitalizado com gravidade antes da estréia da opereta, em 1948.



Bachianas nº 6 - Composta em 1938 para flauta e fagote, estreou em 24 de setembro de 1945.





Bachianas nº 7 - De 1942, para orquestra, teve primeira audição regida pelo autor, em 13 de março de 1944. Foi escolhida pelo diretor do Departamento de Difusão Cultural da Prefeitura do Distrito Federal, professor Francisco Gomes Maciel Pinheiro, para abrir um Festival Villa-Lobos no Teatro Municipal, em 29 de abril de 1950 (houve um segundo Festival pouco depois). Tendo o concerto sido aberto com as "Bachianas nº 7", a jornalista e musicóloga Beatriz Guimarães comentou com C. Paula Barros: "Bach deveria estar aqui para ouvir estas 'Bachianas'".


Bachianas nº 8 - Escrita para orquestra em 1944, foi uma das que estrearam fora de casa - em Roma, em 6 de agosto de 1947, com a Orquestra da Academia de Santa Cecília, regida pelo autor. É das poucas, junto com a 4, a ter duplo arranjo. Sua quarta parte foi transformada na "Fuga Vocal da Bachiana nº 8", para coro misto. Este arranjo foi incluído junto com músicas de Bach e outros no livro Solfejos Vol. 2 (1945), editado pelo MEC visando o ensino de música e canto orfeônico nas escolas. Sobre a obra, C. Paula Barros escreveu: "É um tema rico de coloridos vivos e que traduz a modinha brasileira, apaixonada e sentimental, como a expressão psicológica do povo brasileiro. E porque ela é tão acentuadamente nacional, nos faz vibrar violentamente". O regente francês Paul Paray, ouvindo a nº 8 numa noite em Paris, exclamou: "Il fait pleurer"... (Ele faz chorar).



Bachianas nº 9 - A última do ciclo, composta para orquestra de cordas, é de 1945. Contou com Eleazar de Carvalho dirigindo a orquestra que a apresentou ao público em 17 de novembro de 1948.



Outras obras de Villa com influência de Bach

Kiefer aponta como "bachiano" também o "Estudo nº 1 para Violão" (1929), tonal. Para encontrarmos ecos do mestre de Leipzig em outras obras, precisamos recorrer ao próprio Villa-Lobos. Adhemar Alves da Nóbrega citava numa palestra de 1970 uma classificação que Villa fizera de sua obra, dividindo-a em cinco agrupamentos, considerando a maior ou menor presença do folclore em cada um deles. As "Bachianas" estavam no 4º grupo, assim definido: "Com transfigurada influência folclórica, impregnada do ambiente musical de Bach". Junto às "Bachianas", figuravam a série de "Marchas" religiosas para orquestra (1913-25), o oratório "Vidapura" para orquestra (1919), as "Suítes 1 a 3 do Descobrimento do Brasil" (1937), "Sertaneja (3ª parte da Suíte para Canto e Violino)" (1923), "Poema de Itabira" para canto e orquestra (1943), "José" para coro a capela (1945), o "1º Quarteto de Cordas" (1915) e o "Allegro Troppo e Final (4º movimento do 1º Trio para Piano, Violino e Violoncelo)" (1911) e os "6 Prelúdios para violão" (1940).

Não tenho como confirmar ou refutar tal classificação, afinal destas obras só conheço as da suíte "O Descobrimento do Brasil" (recomendo!) e os "Prelúdios" de 1940. Também não sei de ninguém que tenha conseguido, ou ao menos tentado, mostrar que não há Bach nessa ou aquela composição desta lista. Só posso dizer que, nas obras de Villa-Lobos que conheço escritas antes de 1917, noto influência de Puccini e do impressionismo francês, e praticamente nenhum traço brasileiro. Notem que o "Estudo nº 1" citado por Kiefer não figura nesta relação - no total dos cinco agrupamentos, as únicas peças para violão que Villa arrolou foram os "Prelúdios" de 1940. (Sobre esta série, cabe observar que há registro de que Villa tenha efetivamente composto seis prelúdios, mas o último se perdeu. Cada um dos cinco restantes apresenta um subtítulo homenageando alguma característica do Brasil, exceto o "Prelúdio nº 3 em Lá menor", cognominado "Homenagem a Bach", sendo a única composição, fora da série das "Bachianas", em que Villa presta tributo a seu ídolo.)


Arranjos de Villa-Lobos para obras de Bach

No período em que compôs as "Bachianas Brasileiras", Villa-Lobos dedicou-se paralelamente a escrever arranjos para obras de Bach. São de 1930 as transcrições para violoncelo e piano dos "Prelúdio e Fuga" nºs 10 e 14 e o "Prelúdio nº 8". Em 1938, foi a vez dos arranjos para orquestra do "Prelúdio e Fuga nº 4", regido por Villa a 1º de maio de 1944; antes, a 3 de abril de 1944, ele dirigira a estréia de "Tocata e Fuga nº 3" e "Prelúdio e Fuga nº 6" (assisti a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, regida pelo fantástico Henrique Morelembaum, executar este arranjo a 22 de agosto de 2000 e devo dizer que era possível distinguir aqui e ali o estilo ou ao menos alguns maneirismos típicos do Villa). Também de 1938, o arranjo para "Fantasia e Fuga nº 3" permaneceu inédito.

Já em 27 de outubro de 1941, Edoardo Guarnieri regeu as estréias dos arranjos de Bach que Villa escrevera naquele ano, todos para orquestra de violoncelos: "Fugas" nºs 1, 5 e 21; "Prelúdio e Fuga nº 8" e "Prelúdios" nºs 14 e 22.

Durante o período em que dirigiu a SEMA (Superintendência de Educação Musical e Artística) do Distrito Federal, Villa-Lobos realizou arranjos para coro de muitas obras de Bach. O maior destaque desse ciclo foi a apresentação da "Missa em Si menor", cuja primeira audição no Brasil, comemorando os 250 anos do alemão, se deu através do Orfeão de Professores no Teatro Municipal do Rio, em 9 de novembro e 11 de dezembro de 1935. O Orfeão era um coro de cerca de 250 professores das redes municipal, federal e particular da Capital da República, criado por Villa em 1932.

No primeiro ano da SEMA, em 1932, Villa arranjou e dirigiu a estréia de "Fuga nº 5", para 4 vozes, "Fuga nº 21", para 5 vozes, e "Prelúdio nº 22", para coro misto a capela. Estes dois últimos foram interpretados pelo Orfeão, sob direção de Villa, na comemoração do Dia da Pátria, no Teatro João Caetano do Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1932. As obras voltaram a ser cantadas no Concerto aos Operários, no mesmo local, a 28 de abril de 1935, e, juntamente com o "Prelúdio nº 14", a 18 de dezembro de 1937, na primeira parte do Concerto Cultural Popular, no Municipal, desta vez em novos arranjos sem palavras.

Em 23 de junho de 1933, regeu a estréia dos arranjos das "Fugas" nº 1 e 8, ambas para 4 vozes, escritos no mesmo ano. Em julho, aconteceu a primeira audição de seu arranjo para coro misto à capela do "Prelúdio nº 8". Esta obra apareceu, arranjada para coro misto a 6 vozes, no livro Corais de Diversos Autores, editado pelo MEC.

Em 1934, novo arranjo para coro misto a capela: "Prelúdio nº 14", incluído depois no livro Obras Corais, Originais e Arranjos, numa versão para 4 vozes.

Enfim

Com isso, creio que fica em definitivo desautorizado dar crédito ao que diz a jornalista americana Lisa Peppercorn em seu livro Villa-Lobos, afirmando que a partir de 1930 o compositor "chamou de Bachianas Brasileiras tudo o que compunha (como havia feito alguns anos antes ao usar o nome de Choros para uma série de obras) mesmo que não houvesse nenhuma relação íntima entre a composição e o seu título". Eu, hein?


  • Making-off do texto - Escrevi esse texto em 2004, a partir de uma pergunta de uma estudante de História mineira, que tendo lido uma biografia que eu publicara de Villa-Lobos no site Brasileirinho, quis saber - mais a título de uma curiosidade pessoal - se haveria mesmo influência de Bach na obra do compositor brasileiro. Comecei a ler o material de que dispunha (os livros citados ao longo do texto) e me dei conta de que a influência era não só real, como admitida pelo própria Villa - e mais, no livro de C. Paula Barros (raramente citado pelas outras fontes) eu tinha a chave da história toda! Isto me animou a fazer este que eu considero, modéstia às favas, um de meus melhores textos. Basta dizer que motivou, em 2008, uma consulta que recebi de um dos maiores críticos de arte do país, Olívio Tavares de Araújo, a quem se encomendara um artigo sobre Villa-Lobos (já contei esta história aqui). Este artigo é citado no verbete da Wikipedia Bachianas Brasileiras