sábado, 24 de setembro de 2016

Villa-Lobos

Heitor Villa-Lobos, o maior compositor brasileiro, é autor de mais de mil músicas. São peças de vários gêneros, como concertos, sinfonias, suítes, quartetos de cordas, sonatas, bailados, arranjos para coro, peças para pequenos conjuntos e para grande orquestra.

Villa-Lobos nasceu no Rio de Janeiro em 1887. Seu pai, Raul Villa-Lobos, violoncelista amador, reunia em casa um grupo de amigos que tocava música de câmara. Com a tia Zizinha, o jovem Heitor aprendeu a amar a obra de Johann Sebastian Bach. Ainda pequeno, incentivado pelo pai, Heitor iniciou-se no aprendizado de clarinete e violoncelo. Muitos anos depois, Villa-Lobos lembrava o papel paterno em sua formação musical:

- Meu pai, além de ser homem de aprimorada cultura geral e excepcionalmente inteligente, era um músico prático, técnico e perfeito. Com ele, sempre assistia a ensaios, concertos e óperas.

A mãe de Villa-Lobos, dona Noêmia, é que não gostava muito desse interesse pela música, pois queria que o filho fosse médico. Um pouco maior, ele passou a freqüentar as rodas de boemia onde se fazia o melhor choro da época.

Villa-Lobos aprendeu na escola da vida. Chegou a freqüentar o Instituto Nacional de Música, aos 20 anos. Mas não suportou a rigidez da disciplina e da falta de espírito criativo da escola. O INM não era o lugar de sua música, e sim da música-papel, como ele dizia:

- Há três espécies de compositores: os que escrevem música-papel, segundo regras ou modas; os que escrevem para ser originais e realizar algo que outros não fizeram e, finalmente, os que escrevem música porque não podem viver sem ela. Só a terceira categoria tem valor.

Com toda a certeza, Villa-Lobos pertence à terceira categoria. Sua grandeza está no fato de ter conseguido uma mistura perfeita do folclore brasileiro com a música de concerto européia, com a marca da sua forte personalidade. Ele não se limitou a recolher temas do povo e os harmonizar, como tantos já haviam feito. Nem se contentou em reproduzir modelos de além-mar, caso de outro grande compositor brasileiro, Carlos Gomes. Alguns autores como Alexandre Levy e Brasílio Itiberê já haviam utilizado temas populares em obras sinfônicas antes de Villa-Lobos. Mas estes temas quase sempre eram citações, nunca se alterando a fórmula que já vinha pronta da Europa. Villa partiu da riqueza musical do nosso povo para chegar a formas novas de composição na área da música de concerto, como os Choros, as Bachianas Brasileiras, as Serestas e as Cirandas.


Villa-Lobos viajou por praticamente todo o Brasil de 1905 a 1912. As condições para fazer tal aventura na época eram as mais precárias possíveis. Durante sua estada na Amazônia, por volta de 1910, sua mãe mandou rezar uma missa pela alma do filho que ela já julgava morto. Imaginem a surpresa de dona Noêmia, tempos depois, ao ver o filho ressuscitando no Rio de Janeiro...

Curiosamente, as composições de Villa-Lobos nessa época não têm ainda a marca nacional que é tão exaltada por seus admiradores e que seria de esperar de quem estava em contato tão íntimo com as manifestações genuínas do povo. Villa estava ainda influenciado pelo italiano Giácomo Puccini e pelo impressionismo francês, tendo dado o subtítulo de “Désesperance” à sua “Primeira Sonata-Fantasia”, de 1912.


O casamento com a pianista Lucília Guimarães, em 1913, fez com que Villa-Lobos voltasse a se fixar no Rio. Ocupava-se então em tocar violoncelo em orquestras de teatro de revista e salas de espera de cinema. Em 1915, pela primeira vez sua música foi executada publicamente, primeiro em Friburgo (RJ) e pouco depois no Teatro São Pedro (atual João Caetano), do Rio de Janeiro. Foi o início das polêmicas com a imprensa, principalmente com o crítico Oscar Guanabarino, que acusava o compositor de “demolidor da tradição musical”.

Villa-Lobos participou da famosa Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, em São Paulo. Já chegou para se apresentar sendo vaiado. É que ele estava com um sapato num pé e um chinelo no outro, além de se apoiar numa bengala. Como vestia uma casaca, o conjunto ficava parecendo uma provocação. A platéia assobiava, gritando: “Xô, fora o capenga!” Mas o caso é que o compositor estava atacado de gota na ocasião. Durante o concerto, novas vaias. Um músico devia tocar um instrumento nada comum: uma folha de zinco. A grita do público foi tanta que a direção do Teatro Municipal mandou baixar a cortina em meio à execução. Villa não se importou, afinal estava acostumado a ser vaiado. (anos mais tarde, Tom Jobim diria que Villa-Lobos se orgulhava de ser “o mais vaiado do mundo”). Aliás, como se comprova na frase a seguir, Villa não tinha tal platéia em conceito muito melhor:

- O auditório de concertos é quase sempre formado de elites sociais que, na verdade e na maioria das vezes, não gostam da música, e sim do gênero, estilo ou autor que está na moda.


Em 1923, Villa-Lobos fez sua primeira viagem à Europa. Foi financiado pelo milionário Carlos Guinle, uma das maiores fortunas do Brasil na época. Quando desembarcou em Paris, perguntaram-lhe com quem iria estudar. A resposta de Villa foi ao mesmo tempo arrogante e humilde:

- Não vim estudar com ninguém, vim mostrar o que eu fiz. Se gostarem ficarei, senão voltarei para minha terra.

Em Paris, conviveu pouco mais de um ano com Igor Stravinski, Manuel De Falla, Serguei Prokofiev e Maurice Ravel, além de ter o apoio decisivo de um admirador seu de muitos anos, o pianista polonês Arthur Rubinstein, que lançou na Europa muitas peças para piano do brasileiro, como “A Prole do Bebê”. Mais tarde, o autor homenagearia o intérprete com um retrato psicológico em forma de música: “Rudepoema”. E não só isso. O ator e compositor Mário Lago, vizinho de Villa-Lobos nos anos 1920, contou no livro Na Rolança do Tempo que a amizade dos dois, autor e intérprete, chegou a tal ponto que o sisudo Rubinstein saiu no bloco de Villa-Lobos no carnaval de 1925 fantasiado de baiana, com torso de seda e tudo.



Obs: o pianista não interpreta a obra completa, 
mas vale a pena conhecer este raro registro de 1940!

Em novembro de 1925, Villa-Lobos promoveu um concerto de novas obras suas. O local? O mesmo Instituto Nacional de Música que ele abandonara na juventude. O poeta Manuel Bandeira dizia na ocasião que “o Rio de Janeiro desconhecia as obras mais importantes do compositor, principalmente porque faltavam respeito e afeto a um músico que sem favor podemos colocar entre os seis ou sete nomes mais fortes da atualidade musical, ao lado de um Stravinski”.

O maestro voltou à Europa em 1927, percorrendo França, Polônia, Inglaterra e Espanha já como verdadeira celebridade. Quando já se pensava que o índio de casaca, como o chamava Menotti del Picchia, só viria ao Brasil a passeio, uma revolução mudou tudo. Villa-Lobos estava em São Paulo fazendo uma série de apresentações, em 1930. Num belo dia, foi acordado no hotel pela polícia e levado à presença do interventor João Alberto. Mas o susto passou logo: o político informou que era pianista amador e queria saber se Villa teria projeto de educação musical. Ele tinha. Poucos meses depois, aconteceria num estádio de futebol a Exortação Cívica, primeira concentração de canto orfeônico (como Villa chamava o canto a três ou quatro vozes), reunindo 12 mil estudantes. O estilo de interpretação era por ele assim definido:

- O canto orfeônico é uma das mais altas cristalizações e o verdadeiro apanágio da música, porque, com seu enorme poder de coesão, criando um poderoso organismo coletivo, ele integra o indivíduo no patrimônio social da Pátria.

Villa-Lobos foi muito criticado por deixar de lado a carreira na Europa e assumir uma secretaria criada especialmente para ele pelo presidente Getúlio Vargas. Até hoje há quem o chame de oportunista, ou de promotor de eventos que lembravam as cerimônias de Mussolini e Hitler. Logo ele, que quase fora preso na Alemanha por se recusar a bater continência ao Führer. Em defesa de Villa-Lobos, podemos garantir que seu envolvimento em política fora da passagem pela secretaria era nulo. Aliás, no auge da repressão do Estado Novo, em 1941, o compositor achou que o melhor era cuidar da carreira e saiu da secretaria. Mesmo promovendo eventos com até 20 mil crianças cantando, ele nunca parara de compor. Nesta época, já estava fazendo seu ciclo de peças mais importante, o das Bachianas Brasileiras. Ele dizia ter encontrado no sertão nordestino temas folclóricos que lembravam a música barroca de Bach, vindo daí sua inspiração para a série.

A música de Villa-Lobos foi pouco aproveitada pelo cinema em vida do autor. O diretor que mais usou suas obras nesse período foi Humberto Mauro, para quem escreveu as suítes “O Descobrimento do Brasil”. O Descobrimento do Brasil, o filme, foi realizado em 1937 e tem poucos diálogos, ouve-se praticamente a música do Villa o tempo todo.



Sim! Filme completo!


Depois de Mauro, sua música só voltou às telas com o Cinema Novo. O diretor Glauber Rocha dizia que o compositor era o modelo de artista para o movimento. Um dos projetos não realizados de Glauber era filmar a vida de Villa-Lobos, com Tom Jobim no papel-título. Praticamente todos os grandes filmes do Cinema Novo têm alguma música de Villa, como Deus e o Diabo na Terra do SolMacunaíma e Terra em Transe. Em Hollywood, Villa-Lobos só musicou um filme: A Flor que não Morreu (1959). Ah, e o compositor brasileiro chegou a aparecer em carne e osso num desenho animado de Walt Disney, Alô, Amigos (1942), contracenando com o próprio Disney, o Pato Donald e o Pateta.


Heitor Villa-Lobos faleceu em 17 de novembro de 1959. Mas sua obra está aí, disponível, viva. Diferente do que acontece com a maior parte dos compositores chamados eruditos brasileiros, lembrados só muito raramente ou esquecidos mesmo. Os CDs com suas músicas dificilmente param nas lojas especializadas. Há muitos sites na internet sobre Villa-Lobos. Recomendamos o site do Museu Villa-Lobos (www.museuvillalobos.org.br), onde há uma boa biografia e se pode ouvir o compositor tocando piano, violão e falando. Sua obra também é permanentemente gravada e executada por artistas populares e eruditos.

Além disso, ele deve ser o músico brasileiro com maior número de biografias e estudos da obra. Citemos alguns:

  • O Pensamento Vivo de Heitor Villa-Lobos, de João Carlos Ribeiro (organizador). São Paulo, Martin Claret, 1987 (de onde saiu a maior parte das frases do maestro que citamos neste texto).
  • O Romance de Villa-Lobos, de C. Paula Barros. Rio de Janeiro, A Noite, 1950.
  • Villa-Lobos, de Lisa Peppercorn. Tradução de Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro, Ediouro, 2000.
  • Villa-Lobos (Coleção A Vida dos Grandes Brasileiros - vol. 10), de Francisco Pereira da Silva. São Paulo, Três, 2001.
  • Villa-Lobos - Alma Brasileira (Série Identidade Brasileira), de Maria Maia. Rio de Janeiro, Contraponto, 2000.
  • Villa-Lobos e Chopin: O Diálogo Musical das Nacionalidades, de Lúcia Silva Barrenechea e Cristina Capparelli Gerling, in: Três Estudos Analíticos - Villa-Lobos, Mignone e Camargo Guarnieri, de Cristina Capparelli Gerling (organizadora). Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2000.
  • Villa-Lobos e o Modernismo na Música Brasileira, de Bruno Kiefer. Porto Alegre, Movimento, 1986, 2ª edição.
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Making-off do texto - Assim como a biografia que escrevi de Elis Regina, este texto originalmente foi concebido como um trabalho de aula, nascendo como roteiro de um dos quatro programas que fiz para uma disciplina de prática de rádio, durante o curso de Jornalismo na UFRGS, em 2000. Ao gravar o roteiro, convidei o ator Álvaro Rosacosta para interpretar Villa-Lobos, cabendo a ele ler as frases destacadas em itálico neste artigo. Desde 1999, Álvaro estava em cartaz nos palcos gaúchos vivendo o maestro na montagem A Família do Bebê, da Cia. Terpsí Teatro de Dança; com direção de Carlota Albuquerque, a montagem tinha trilha original de Gustavo Finkler (do grupo Cuidado que Mancha) e incluía peças de Villa-Lobos como "A Prole do Bebê". O texto foi publicado em 2003 no site Brasileirinho e teve como consequência direta o artigo Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach, de 2004, republicado aqui no sábado passado. Versão anterior deste texto chegou a ser publicada aqui no blog em 2014, ilustrada apenas com fotos.

  • A presença de Villa-Lobos no elenco de Alô, Amigos é confirmada pelo site Adoro Cinema (veja aqui), mas o compositor não consta desta versão integral dublada disponível no YouTube. Isto talvez se deva ao fato de que, segundo a página do filme na Wikipedia, o estúdio Disney ter feito oito diferentes versões da obra a partir de 1946. 


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