quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Opinião Cinema: Aquarius

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro





Aquarius tem estado no meio de polêmicas o tempo todo. A equipe protestou em maio, no Festival de Cannes, com cartazes dizendo “Um golpe ocorreu no Brasil", "Resistiremos" e "Brasil não é mais uma democracia”.  O protesto foi criticado pelo jornalista Reinaldo Azevedo em seu blog no site da revista Veja, dizendo que "O dever das pessoas de bem é boicotar 'Aquarius'”. Mal podia imaginar Azevedo que o diretor do filme, Kléber Mendonça Filho, iria usar esta frase no cartaz publicitário de Aquarius (na foto abaixo, o cartaz com a frase e, ao lado, Reinaldo Azevedo), gerando novo protesto, desta vez de Azevedo. 




Além de toda essa polêmica, o filme foi primeiro liberado para maiores de 18 anos, por causa de algumas cenas de sexo, sendo finalmente aprovado para maiores de 16. Por fim, Mendonça Filho acusa a Comissão Especial responsável pela seleção do longa-metragem a ser indicado como candidato brasileiro ao Oscar 2017 na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira de boicotar seu filme. O Ministério da Cultura negou a acusação, mas de todo modo a obra indicada em 12 de setembro pela Comissão foi Pequeno Segredo, de David Schürmann, que só foi estrear comercialmente no dia 22 de setembro (Aquarius estreou três semanas antes); a praxe é que só se indique filmes que já foram exibidos. 

Enfim, dito isso tudo, vamos ao que está em jogo aqui: a qualidade e tudo de bom que Aquarius pode nos proporcionar, então chega de blá-blá-blá e vamos fazer aquele resumão!



O longa mostra a história de Clara (Sônia Braga), uma jornalista aposentada com personalidade forte, viúva e a última moradora do Aquarius. Um edifício antigo, em Boa Viagem (Recife), que é cobiçado por uma construtora que pretende derrubá-lo e construir um “Novo Aquarius”, mais moderno. Clara se recusa a vender seu apartamento por infinitos motivos que são mostrados durante as três partes em que o filme é dividido: “O Cabelo de Clara”, “O Amor de Clara” e “O Câncer de Clara”. Com tanta resistência, a construtora passa a assediar, provocar e fazer de tudo para que ela desista. 

Essa divisão é extremamente importante. O longa divide a personagem para então uni-la no final com tanta força que emociona, a cada olhar, gesto, música, vamos conhecendo mais e mais da personagem, conhecendo sua história e toda a sua luta. O diretor nos leva a mergulhar na relação da personagem com sua casa, conhecemos os quartos, corredores, paredes, móveis, mas não como em outros filmes, conhecemos intimamente, cada história ali vivida, existe uma tensão o tempo todo entre os dois, mas nada de grandes saltos ou coisas mirabolantes, a simplicidade ali é o ponto forte. 



Não é um filme fácil de ver e entender, nele não há espaço para divagações e esse mundo de redes sociais que estamos inseridos, o longa está em um formato diferente do habitual para o cinema brasileiro, mas com poder surreal. Kleber nos brinda com um roteiro fantástico, cheio de diálogos bem construídos e importantes que deixa com um clima como se algo fosse acontecer, o tempo todo, mas não acontece - como naquela cena dos carros saindo da garagem. O seu trabalho está impecável em cada momento, nas cenas, no figurino, na iluminação (o uso de tons quentes nos proporcionou toda a tensão que a personagem principal estava passando), a fotografia (ah Recife... S2) e a trilha sonora então? Essa merece um parágrafo inteiro. 




Clara respira música, e o filme também. A trilha sonora proporciona épocas e sensações que somente a música pode fazer com a gente. Como na melhor cena do filme em que Clara e Júlia (Júlia Bernat) trocam olhares de identificações ao ouvirem uma música no vinil - aliás, todas as personagens femininas parecem estar conectadas, com olhares, toques, sorrisos, lágrimas, tudo é compartilhado conosco. Maria Bethânia, Reginaldo Rossi, Queen, Taiguara e até forró, pop e Beatles, ouvimos música do começo ao fim, ela é uma das melhores partes do filme, inclusive. 

Sobre o elenco só há elogio, principalmente a protagonista. Sônia Braga, meu pai do céu, QUE MULHER! Não é a toa que ela foi escolhida a dedo, ela emprestou trejeitos, características, sensibilidade e toda a força que seu personagem precisava. Os seus olhares e descobertas estavam ali entregues de uma forma tão bonita quanto toda aquela luta de Clara. 

No fim, temos ali não só polêmicas fora dos cinemas mas dentro também. Em tela é questionado a moral sexual, a vida sexual de uma mulher após os 60, especulação imobiliária, desigualdade social entre tantos outros. Além de como o Brasil perde suas memórias em função de uma "inovação" que só beneficia de verdade os empresários da construção civil. 

Agora entendo porque Reinaldo Azevedo se incomodou tanto com esse longa, é difícil mesmo ver assim tantos questionamentos e redescobertas, mas sem dúvidas, há uma grande necessidade de preservação da memória em tempos que esquecemos de quase tudo. É um presente para a sociedade.


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