sábado, 22 de outubro de 2016

Opinião Cinema: Madame Satã



Grande ano, 1932. Não politicamente, é certo: São Paulo pegava em armas para exigir a convocação de uma Assembléia Constituinte para a qual o “governo provisório” de Getúlio Vargas já marcara eleições. Mas, na área do samba, incomparável. O rádio era autorizado por lei a veicular anúncios, passando a incluir cada vez mais a música popular em sua programação. Vivia-se o auge da incrível dupla Francisco Alves e Mário Reis, abastecida por pérolas de Noel Rosa, Ismael Silva, e outros bambas, como Lamartine Babo – este, aliás, o grande vencedor do carnaval, com o controverso “O Teu Cabelo Não Nega”, cujo disco não indicava os verdadeiros autores da marcha, os Irmãos Valença. Carmen Miranda já arrancava suspiros dos rapazes – arrancaria mais ainda em breve. Já na música romântica, Vicente Celestino era o maior cartaz. É, grande ano, 1932.

Pois não foi preciso usar mais que esse ano para Karim Aïnouz contar a história de Madame Satã (Brasil, 2002, 100min), o célebre transformista da Lapa. O bairro das quatro letras era o reduto boêmio do Rio de Janeiro (então Capital Federal) e por seus bares, cafés, cabarés e prostíbulos (dizia-se “casa de tolerância”) passava a nata da música brasileira.

João Francisco dos Santos (Lázaro Ramos) era o que hoje seria definido como um excluído: negro, pobre, homossexual. O futuro Satã não levava desaforo para casa e envolvia-se seguidamente em brigas, como quando tenta entrar no seletíssimo clube High Life, freqüentado apenas pela elite... branca. João trabalha como camareiro da vedete Vitória (Renata Sorrah), que é tudo o que ele quer ser. Um dia, a estrela o pega com a roupa que ela, Vitória, deveria usar dali a pouco em cena. Revoltada, ela o humilha. João foge, não sem antes ferir a estrela e obrigar o empresário dela (Floriano Peixoto) a lhe pagar os salários atrasados.

A polícia invade a casa onde João mora com Laurita (Marcélia Cartaxo), a filha desta e Tabur (Flávio Bauraqui), outro transformista, que o ajuda em golpes de “suador” (onde eles atraem rapazes prometendo amor para furtar dinheiro). João foge, mas, a conselho de um rapaz que o ama (apesar de ter caído no “suador”), Renatinho (Fellipe Marques), entrega-se. Aliás, a concisão da seqüência da entrega, prisão e soltura demonstra um grande domínio da narrativa cinematográfica.


Solto, João procura seu velho amigo Amador (Emiliano Queiroz), dono de um bar, que lhe oferece emprego. Vendo aí sua grande oportunidade artística, João, a pretexto de comemorar o aniversário de Laurita, é autorizado a fazer um espetáculo (onde canta “Noite Cheia de Estrelas”, de Cândido das Neves). Um incidente após o espetáculo quase faz João perder a cabeça, mas ele (incrivelmente) se controla.

O grande sucesso autoriza João a repetir a dose, interpretando “Mulato Bamba” (Noel Rosa), e “Ao Romper da Aurora” (Ismael Silva – Lamartine Babo – Francisco Alves). Mas há outro incidente, a reação de João é outra e isso, digamos, muda seus planos imediatos para a vida.



O filme, que até aí vai num ritmo delicioso (mal se percebe o tempo passar), apela então para a velha solução de letreiros tipo “depois disso, nosso herói fez isso, isso e aquilo”. Felizmente, alternando com um desfile do bloco Caçadores de Veado, ao som de uma grande batucada - escrita especialmente para a fita pelos diretores musicais, Marcos Suzano e Sacha Amback. Eles foram felizes tanto nos temas que criaram quanto na seleção de repertório – que incluiu, além dos sambas já citados, “Fita Amarela” (Noel Rosa), “Na Batucada da Vida” (Ary Barroso – Luiz Peixoto) (aliás, música de 1934) e o campeoníssimo “Se Você Jurar” (Ismael Silva – Nilton Bastos – Francisco Alves).

Filmado na própria Lapa, Madame Satã consegue se destacar como um dos melhores filmes num ano de boa safra do cinema brasileiro – basta pensar em Cidade de Deus, Abril Despedaçado, Avassaladoras,A Festa de Margarette, Bellini e a Esfinge. Grande ano, 2002.



  • Making-off do texto - Publicado originalmente no site Brasileirinho em 2003. Também fez parte da minha brevíssima primeira experiência com blogs, no mesmo ano - republiquei num blog alguns textos sobre filmes saídos no site, para testar a ferramenta. 

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