sábado, 1 de outubro de 2016

Opinião Música: O Disco Americano do Caetano



O melhor o tempo esconde
Longe, muito longe
(“Trilhos Urbanos”, Caetano Veloso)

Caetano Veloso não tinha como saber, mas os versos com que abriu seu disco americano (Caetano Veloso, Nonesuch, 1986) de certa forma previam o que aconteceria com a gravação: ficou escondida longe, muito longe do público brasileiro, que só pôde conhecê-la quando a PolyGram (hoje Universal) se dignou a lançá-la aqui, em novembro de 1990.

Este disco foi gravado em dois dias, direto, sem playback nem nada, numa sala alugada especialmente, depois de uma apresentação em Nova York que Caetano considerou péssima mas arrancou elogios dos críticos americanos. Apesar da rapidez, é um bom disco. O baiano selecionou um repertório de composições suas que vão do começo da carreira (“Coração Vagabundo”, uma das melhores faixas, é de 1967) a canções do seu LP anterior de estúdio, Velô (1984)(“O Homem Velho” e “Pulsar”, esta uma parceria com o poeta Augusto de Campos). Aliás, em “Pulsar” Caetano não tocou violão, o único acompanhamento é o bater de um sino, além da participação do guitarrista Toni Costa fazendo eco em uma palavra (justamente “eco”!). Há alguma percussão em várias canções, mas sempre discretamente. Mais discreto ainda, é possível detectar um teclado em “Nega Maluca” (Fernando Lobo – Ewaldo Rui)/“Billie Jean” (Michael Jackson)/“Eleanor Rigby” (John Lennon – Paul McCartney).

Aliás, a propósito do medley (tá assim no encarte!), ressalte-se a versatilidade do repertório de Caetano, pois em três LPs lançados em 1986 – este nos EUA, Totalmente Demais (PolyGram) e Melhores Momentos de Chico e Caetano (Som Livre), ambos ao vivo -, só uma faixa se repete: justamente esta colagem, embora no disco do programa Chico e Caetano "Eleanor Rigby" não estivesse presente.

É louvável a preocupação que Caetano teve, variando o estilo de acompanhamento ao violão ao longo do disco. Também lançou mão de alguns recursos vocais, como o assobio na excelente “Trilhos Urbanos” e a bocca chiusa em “O Homem Velho” e “Odara”. Já em “Terra”, os malabarismos no começo da faixa, antes de começar a tocar, deixaram a desejar, num dia em que ele não interpretou bem esta que é uma de suas mais belas criações. Outro momento não muito feliz é “Eu Sei que Vou te Amar” (Tom Jobim – Vinicius de Moraes), com leve citação de “Dindi” (Tom Jobim – Aloysio de Oliveira) - a voz de Caetano está irregular, em geral não alcançando o tom nesse clássico da bossa nova.

A bossa nova, aliás, está presente em um dos grandes momentos do disco: “Get Out of Town” (Cole Porter), a única inédita do LP, é feita numa levada de bossa muito boa, com respeitável solo de violão. Inédita, claro, no sentido de nunca ter sido gravada antes por Caetano, já que se trata de um clássico lançado em 1938. 

  • Making-off do texto - Originalmente, fiz esta apreciação do disco em dezembro de 1990 para o espaço de comentário que eu mantinha na Rádio Revista de Bento Gonçalves (RS), iindo ao ar pouco antes do meio-dia entre os anos de 1990 e 1992. É dos meus raros textos curtos para rádio que ainda circulam. Adaptado em 2003 para publicação no site Brasileirinho, chegou a ser incluído em 2005 na primeira versão da apostila do curso de Jornalismo Cultural. 
  • OBS: Na Wikipedia, consta que o disco teria sido gravado em setembro de 1985, o que bate com a informação que eu tinha à época, de o registro ter ocorrido após os shows do baiano em Nova York. Já na biografia disponível no site oficial do artista, afirma-se que a gravação se deu em maio de 1986. Na dúvida, deixo as duas informações aqui ao final, sem alterar o texto original.. 


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