sábado, 8 de outubro de 2016

Pixinguinha em Porto Alegre

Estatua_PixinguinhaO compositor, flautista, saxofonista e maestro Pixinguinha (Alfredo da Rocha Vianna Filho, 1897-1973), eternamente lembrado por ser o autor de “Carinhoso”, apresentou-se duas vezes em Porto Alegre, em 1927 e 1969.

Não se pode dizer propriamente que as apresentações de 1927 foram de Pixinguinha: ele integrava o conjunto Oito Batutas (então formado por ele, Pixinguinha, na flauta e saxofone, e mais Donga no violão, violão-banjo e cavaquinho, Esmerino Cardoso no trombone, Bonfiglio de Oliveira ao pistom, João Batista Paraíso ao saxofone, Mozart Correia no piano, Aristides Júlio de Oliveira à bateria, Alfredo de Alcântara no pandeiro e Vidraça no ganzá). Como se pode ver, os integrantes do conjunto eram nove, o que levou o jornal O Estado, de Florianópolis (SC), a perguntar: “Mas qual deles não é Batuta?”. Pixinguinha com certeza era um grande destaque nos shows, já era um flautista famoso, mas nem os jornais sabiam ao certo como escrever seu nome - a revista carioca Careta o chamara de “Pinxinguim” no ano anterior.

Já em 1969, Pixinguinha foi o homenageado do Show de Melodias, promovido pelo Liceu Musical Palestrina e pelo jornal Zero Hora. Ninguém mais tinha dúvidas sobre quem ele era ou como se escrevia seu nome.

Antes de 1927, Pixinguinha poderia ter vindo a Porto Alegre uma vez com os Oito Batutas, não fosse a pressa dos argentinos. No final de novembro de 1922, o diretor do Teatro Empire de Buenos Aires contratou o grupo para se apresentar na capital argentina. O consulado emitiu o visto para os músicos em 1º de dezembro e no dia 7 aconteceu a estréia no Empire. Pelo jeito, um funcionário do consulado deve ter levado o visto para o conjunto no cais do porto, de onde eles embarcaram no navio sem nem piscar.

Era a primeira temporada no exterior dos Batutas após o retorno de Paris, onde eles estiveram sete meses no mesmo ano de 1922. O êxito na Argentina durou quatro meses, acabando em abril de 1923 por uma briga que dividiu o grupo. Donga (famoso por ser autor do primeiro samba de sucesso, “Pelo Telefone”) voltou ao Brasil com outros três integrantes e pouco depois criou o grupo Oito Cotubas. Mas, para o bem da música brasileira, Donga e Pixinguinha não demoraram a fazer as pazes. A pressa do início e a briga do final da viagem impediram uma prática comum na época para os artistas que iam a Buenos Aires e Montevidéu: escalas para apresentações em Porto Alegre, principalmente porque as viagens eram de navio.


Os Oito Batutas - década de 1920


Foi justamente de navio o deslocamento dos Batutas na vinda de 1927. Contratados pelo empresário Vitor Busch, eles iniciaram a excursão em Florianópolis em 28 de agosto, exibindo-se depois em Blumenau, Joinville, Curitiba e Porto Alegre. É possível que só ao retornar ao Rio de Janeiro, em outubro, é que Pixinguinha tenha sabido da morte de seu irmão China, ex-vocalista dos Batutas, que não viajara por estar muito doente.

Na visita de 1969 - por sinal, a última vez que Pixinguinha saiu do Rio de Janeiro - o maestro veio de avião - o Electra da Varig. Ele chegou em 29 de outubro para o show do dia 31, uma sexta-feira.

As apresentações dos Batutas duraram vinte dias em setembro de 1927, nas exposições do Menino Deus, numa promoção da Companhia Cervejaria Brahma, comemorando a inauguração das suas instalações na avenida Cristóvão Colombo, 545 (nos anos 1990, foi inaugurado no local o Shopping Total). As exposições do Menino Deus, na atual avenida Getúlio Vargas, 1384 (numa área que hoje é a sede da Secretaria Estadual da Agricultura), foram as precursoras da Expointer. A permanência prolongada favorecia o intercâmbio com artistas locais. Durante um jantar com integrantes do Regional Espia Só, Pixinguinha os aconselhou a tirar “regional” do nome e acrescentar “jazz”, mudando também o repertório, o que teria contribuído, segundo o jornalista Antônio Goulart, para o sucesso do grupo porto-alegrense.

Falando em repertório, o que os Batutas tocaram aqui? Sambas, maxixes, choros e emboladas eram a base do seu show. Um êxito garantido era “Urubu Malandro”, com destaque para o solo de flauta de Pixinguinha. Não, eles não tocaram “Carinhoso”. Pixinguinha evitava tocar em público na época um choro só com duas partes, e não três, como era o “certo”. A música só foi lançada em 1929 (embora já estivesse pronta desde 1923, pelo menos - alugns autores falam em 1917), num lado B de um disco de 78 rotações (geralmente a música do lado B era “contrapeso” ao sucesso que se pretendia com o lado A - mas alguém aí já ouviu “Suspiros”, de Desmond Gerald, lado A daquele disco?). Em algumas gravações, saía como “Carinhos”... Mesmo com o passar do tempo, a estranheza de classificação da música continuava. Quando foi feita a primeira gravação da melodia com a letra de João de Barro, em 1937, por Orlando Silva, a gravadora Victor informava no selo do disco que se tratava de um “samba estilizado” (sic).

Em 1969, Pixinguinha ficou bem menos tempo em Porto Alegre. Tendo chegado em 29 de outubro, partiu a 1º de novembro. No dia 30, foi homenageado com um almoço nos pavilhões da FENAC, em Novo Hamburgo, após visitar a Feira da Habitação. Encontrou-se com o escritor Érico Veríssimo e o sambista Túlio Piva, este no Theatro São Pedro. Concedeu ainda entrevistas aos jornais Zero Hora e Diário de Notícias. A este, falou de sua relação com o álcool no início dos anos 40: “Tomava uma garrafa (de cachaça) por manhã”, declarou. Sua marca preferida era Virgínia. Um dia decidiu parar: chegou no botequim, o dono abriu a garrafa e Pixinguinha, fitando-a, resolveu resistir. Pediu um papel e escreveu um choro chamado “Briguei com Virgínia”. À Zero Hora, o compositor revelou que, mesmo “Carinhoso” sendo seu maior sucesso, sua obra preferida era “Ingênuo”, que tinha sido “feita com o coração”. Reclamava que a música do final da década de 60 era forçada, “de laboratório”, visando só o lucro. Mas destacava como positiva a aparição de Martinho da Vila.

No Show de Melodias, Pixinguinha recebeu do prefeito Célio Fernandes a chave da cidade, tocando depois acompanhado do ritmista Carijó. Tomaram parte ainda na apresentação no auditório Araújo Vianna (já na atual localização junto ao Parque Redenção) a Orquestra Filarmônica Popular de Porto Alegre regida por Voltaire Dutra, parte da OSPA, sob a regência de Manoel Gonzaga, e o tenor Amílcar Machado. A soprano Eni Camargo, diretora na época do Departamento de Cultura da Prefeitura, foi convidada especial da apresentação. Ao todo, mais de cem músicos atuaram na oitava edição do evento, criado pelo Liceu Palestrina, dirigido à época por Antônio Crivellaro.


  • Making-off do texto - Escrito como trabalho de aula durante o curso de Comunicação Social-Jornalismo na UFRGS (década de 1990, talvez 1997 ou 98). Lembro que a avaliação da professora foi de que o texto em si estava bom, mas dificilmente um jornal o publicaria sem estar ligado a uma matéria principal sobre algum lançamento que estivesse ocorrendo de obra ligada a Pixinguinha, ou pelo menos o aniversário de seu nascimento ou falecimento. O que eu particularmente acho um absurdo, não tem que ter data pra se falar dos grandes nomes da cultura do nosso país. Publicado originalmente no site Brasileirinho em 2003.


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