sábado, 29 de outubro de 2016

Zé Celso: Tropicalismo, Oswald & Outras Bossas




O diretor José Celso Martinez Corrêa, um dos maiores nomes do teatro brasileiro, esteve no Solar dos Câmara (Porto Alegre) em 24 de julho de 2004, narrando sua batalha para convencer o Grupo Sílvio Santos a desistir de construir um shopping center no terreno destinado às arquibancadas do Teatro Oficina, no bairro da Bela Vista (São Paulo). Zé Celso confessa que não sabe como isso vai terminar, mas revelou que Sílvio sensibilizou-se com a causa em recente visita ao Oficina. Pudera: a recepção cantada que lhe prepararam iniciou com uma "Ave Maria" e durou cerca de uma hora e meia. Só depois disso tratou-se de negócios. A mais recente adesão à causa de Zé Celso é do arquiteto Oscar Niemeyer, que projetou uma arquibancada em curvas, com desníveis que tanto podem acomodar espectadores como compor a cenografia - seriam ideais, por exemplo, para a peça que o Oficina deve estrear em novembro: Os Sertões - A Luta (I), com as três primeiras expedições a Canudos (a quarta expedição fica para a peça que encerra o ciclo iniciado em 2002 com Os Sertões - A Terra, seguida de duas partes de Os Sertões - O Homem). Mas é pouco provável que o projeto de Niemeyer possa ser executado até novembro.

Com destacada atuação na época do Tropicalismo (dirigiu as duas únicas peças que se considera integrarem o movimento, O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, e Roda-Viva, de Chico Buarque, em 1968), Zé Celso considera que o Tropicalismo não acabou. Ao contrário, está cada vez mais forte: "Em todo o mundo, São Paulo, Nova York, Londres, a periferia está comendo o centro". As manifestações culturais mais fortes de hoje vêm da periferia, como o hip hop, o funk e o rap. "Não é o centro, que se mantém conservador e burguês, que renova a cultura".

Isso não é de hoje, observa: a periferia já legou manifestações como o samba e o maracatu, cercados de um certo luxo - característica que foi abandonada por produtores culturais que, ao longo do século 20, colocaram a arte a serviço de causas sociais, econômicas ou políticas. "A arte tem que ser feita pela arte. O teatro militante apequenou o teatro, o importante era a militância." Vê uma certa culpa cristã no processo, que levaria os praticantes do teatro militante a um resultado visualmente feio e artisticamente discutível. Cita como exemplo o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal. Ressalva: Zé Celso respeita Boal como artista, mas crê que hoje a mensagem do Teatro do Oprimido já não tem razão de ser.

- Vivemos um outro momento. O rap trouxe novamente à cena a rima, abriu a possibilidade de fazer uma coisa rimada, o teatro em versos. Hoje é possível você encenar uma peça em versos de Shakespeare por causa do rap. No tempo dos pequenos burgueses (provável referência à peça Os Pequenos Burgueses, do russo Máximo Gorki, que o Oficina montou em 1963) não tinha como você fazer isso.

Resultado de imagemLamenta que, dos dois cinqüentenários importantes assinalados em 2004, só se fale do suicídio de Getúlio Vargas e se esqueça completamente da morte de Oswald de Andrade, também ocorrida em 1954:

- Oswald em 1928 já dizia que não era mais modernista: era pós-moderno, e datava o início do Brasil a partir do dia em que os índios devoraram o bispo Sardinha (esta manifestação de Oswald, inspirado pela tela Abaporu, de Tarsila do Amaral, funda o Movimento Antropofágico). Oswald é um artista fundamental para o Brasil, mas não é reconhecido. Não é conhecido. Ainda quero montar dele a peça O Homem e o Cavalo, que é uma maravilha. É uma peça escrita contra o stalinismo, mas não ficou datada. É atualíssima.

Roda-viva (declarações de José Celso Martinez Corrêa exclusivas ao Brasileirinho):
  • O Chico Buarque sofreu muita pressão na época do Roda-Viva. A maioria dos amigos dele era contra.
  • Uma das músicas do Roda-Viva, "Sem Fantasia", teve uma gravação horrível no disco Chico Buarque e Maria Bethânia ao Vivo (1975). Um não ouvia o outro, e vinha aquela orquestra forte em cima.
  • Uma bela gravação é "Cálice" (Chico Buarque - Gilberto Gil), com Bebel Gilberto e Miúcha (no LP Miúcha e Tom Jobim, 1979).
  • Bebel se inspira muito no pai dela (João Gilberto), que é O rigor.
  • Adoro João Gilberto.
  • Fiz um show, cantando, com José Miguel Wisnik no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio em 5 de maio. Combinamos de voltar a apresentá-lo.
  • Além dos poemas e das peças, Oswald tem livros com estudos filosóficos que pouquíssima gente conhece.
  • Caetano Veloso só foi conhecer Oswald quando o Oficina montou O Rei da Vela, mas intuitivamente já estava praticando o Antropofagismo.
  • Participei como ator do clipe da música "O Estrangeiro", do Caetano.
  • Gilberto Gil não gosta de teatro. Só respeita o Oficina, mas não gosta de mim pessoalmente.
  • Quero muito vir com Os Sertões a Porto Alegre, no (festival de teatro) Porto Alegre em Cena, mas isso depende da decisão da organização do festival. Fica caro porque é muita gente (60 pessoas em cena), mas pode ser feita uma estrutura cênica mais simples que a que fazemos no Oficina.
  • Tô com uma saudade do Caetano!

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Making-off do texto - Zé Celso esteve em Porto Alegre a convite da Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz, que anualmente realiza seminários e debates sobre temas teatrais. Após assistir o debate, aberto ao público, fui convidado por Zé Celso para jantar com a organização do evento, no Bar do Beto (se não me engano, o da av. Venâncio Aires), onde então pude colher as declarações exclusivas reproduzidas na parte final do texto. 
  • A saga imobiliária do Teatro Oficina, 12 anos depois dos episódios relatados no começo do texto, ainda não acabou, como podemos ler no mais recente post publicado por Zé Celso em seu blog: Vitória da nossa paixão


2 comentários:

  1. Gosto do Zé Celso, apesar d ter reservas au Oficina. Assim, tambem, como prefiro Gil a Caetano, apesar d respeitar muito o 70tismo d Caetano.

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