sábado, 12 de novembro de 2016

Entrevista: Wany Sampaio - Mitos Amondawa



A pesquisadora da Universidade Federal de Rondônia fala do livro Mitos Amondawa.

Entrevista realizada por e-mail em 12 de outubro de 2005

JORNALISMO CULTURAL - Wany, você é uma das autoras do livro Mitos Amondawa (Edufro, 2004), ao lado de Vera da Silva e Valdemir Miotello. Como se deu o seu contato com o povo Amondawa? 

WANY SAMPAIO - Na verdade, nós não somos autores do livro. Somos apenas os organizadores, porque os indígenas é que são os narradores dos textos míticos. Aliás, são narrativas lindas, que podem explicar muito sobre o universo mítico do povo Amondawa. O meu primeiro contato com esse povo se deu por volta de 1993, quando eu iniciava também o meu mestrado em Lingüística. Naquela época, os Amondawa eram ainda recém-contactados (os seus primeiros contatos com o não-índio aconteceram por volta de 1986) e ainda conservavam muito de sua tradição, cultura, costumes, rituais, enfim. Eu iniciei um estudo sobre a língua Amondawa, então, a fim de descrevê-la e trabalhar com o processo de redução de língua escrita, pois até então a sociedade era ágrafa. Os Amondawa queriam uma escola e então nós fizemos, em conjunto, a primeira cartilha de alfabetização, em caráter experimental, para testar um alfabeto que pudesse ser utilizado naquela escrita. Funcionou relativamente bem. Daí pra cá, tenho desenvolvido diversos trabalhos com a comunidade Amondawa, continuo colaborando com a escola, desenvolvendo trabalhos de pesquisa em Lingüística e Antropologia. A Vera é mestre em Antropologia; ela foi minha aluna de graduação e hoje mora na Inglaterra, mas continuamos trabalhando em conjunto, porque fazemos parte do mesmo grupo de pesquisa do CNPq/ Universidade Federal de Rondônia - onde eu trabalho - e também da universidade em que ela trabalha - Universidade de Portsmouth -, em que faço estágio pós-doutoral. O nosso grupo participa de um grupo internacional, com seis universidades da Europa, financiado pela União Européia e hoje desenvolvemos um grande projeto chamado Estágios da Evolução no Desenvolvimento do Uso de Sinais. Bom, voltando à questão, então, a nossa relação com os Amondawa se tornou extremamente consistente e produtiva. Ressalto que temos o total apoio da FUNAI, e trabalhamos em parceria com o Setor de Educação dessa instituição, na cidade de Porto Velho.

JC - Que estratégias vocês utilizam para realizar o estabelecimento da gramática Amondawa?

WANY - Nós iniciamos o trabalho de descrição da língua com as metodologias tradicionais em Lingüística e Antropologia (base estruturalista). Como não sabíamos nada daquela língua, optamos por trabalhar com os métodos chamados "calhambeque" porque tínhamos mais segurança na sua utilização e também porque nós próprias estávamos iniciando um aprendizado. Além do mais, são métodos eficientes para implantação de escritas, que era o nosso primeiro objetivo, naquele momento. Fizemos levantamentos lexicais, estabelecemos os fones e fonemas de língua e depois demos continuidade com sentenças simples, complexas, até chegar aos textos propriamente ditos. Hoje estamos testando novas metodologias, através do atual projeto. Usamos jogos, maquetes, seqüências de gravuras, filmes etc. Com isto, temos textos mais naturais. Nós descrevemos a morfologia lexical e depois passamos a fazer as relações significativas dentro das construções sintáticas e textuais. É um trabalho que dá trabalho! E exige muita concentração, muito estudo analítico, para que possamos fazer um descrição pelo menos razoável. Estamos tentando organizar uma gramática descritiva do Amondawa para que ela possa ser utilizada pelos professores indígenas. Mas isso ainda vai levar alguns anos de trabalho.

JC - Como os índios encaram este processo? Você vem observando mudanças ao longo do período de convivência com eles em relação à presença das equipes da Unir?

WANY - Os índios participam de todo o processo. Hoje já temos dois professores indígenas (um homem e uma mulher) em processo de formação. Com exceção dos mais velhos, todos os Amondawa escrevem na sua língua materna; e isso começa muito cedo porque os bebês vão pra escola com suas mães, então eles rapidamente se familiarizam com os materiais escolares. É claro que temos hoje um grande problema pra resolver, que é o estabelecimento da ortografia. As escolhas devem ser feitas pela comunidade... e isso não é muito fácil, porém é uma necessidade que os próprios índios, alunos e professores já estão sentindo; então eu acho que o momento chegou.... e teremos de trabalhar com isso no ano de 2006. Muita coisa mudou na sociedade Amondawa. Depois do contato, é impossível que tudo se mantenha igual... os índios são pessoas que têm inteligência, vontade, sonhos... Não podem ser mantidos em uma redoma de vidro e serem objetos de observação nem de ideologias românticas. Hoje temos energia elétrica, casas de madeira, TV, geladeira, fogão a gás, panelas de pressão, enfim, coisas da cultura não-índia que trazem maior conforto... Os índios se organizam socialmente em associações, grupos de discussão etc. É uma forma de se manterem índios, dentro de uma sociedade que os quer engolir e dizimar. É nesse sentido que o trabalho das universidades se torna muito importante, porque nós podemos contribuir com esse processo que é um caminho para a libertação dos povos oprimidos sem que eles percam a sua identidade enquanto indígenas.

JC - Quais devem ser os próximos passos do projeto?

WANY - O próximo passo do trabalho, com relação à escola Amondawa, é a construção coletiva de algumas regras que fixem a ortografia, porque todos já dominam à escrita. Com relação ao projeto de pesquisa que desenvolvemos com o financiamento da União Européia, deveremos trabalhar, nos próximos dois anos, com as construções metafóricas sobre o espaço, o tempo e o movimento. Essas são questões que nos permitirão analisar como os Amondawa representam o mundo no nível conceitual, ou seja, que tipos de figuras podem eles, através de suas linguagens (oral e gestual) utilizar para traduzir sua concepção de espaço, tempo e movimento e como é que isso é veiculado pela cultura. A nossa equipe está construindo instrumentos de coleta de dados - e já estamos testando alguns - que serão também aplicados na Tailândia. Como o grupo se constitui de lingüistas, antropólogos, psicólogos, biólogos, zoólogos etc, também serão desenvolvidos trabalhos com macacos (para estudar também a evolução no uso de signos e sinais); esse trabalho será realizado através do Museu de Zoologia de Roma. Uma outra parte do grupo trabalhará com o uso de sinais e signos nas relações mamãe-bebê com populações da Índia... enfim. É bastante coisa! Mas a nossa grande questão é: O QUE SIGNIGICA SER HUMANO? (What it means to be human?). Tradicionalmente se diz que o que distingue o homem dos outros animais é a capacidade da linguagem. Propomos a tese de que o que distingue o homem dos outros animais não é a capacidade da linguagem, mas a capacidade de organizar os signos e sinais e transformá-los em linguagem. Estamos trabalhando com diversos tipos de populações humanas, de indígenas a industrializadas, porque concebemos que o homem é único.


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