sábado, 5 de novembro de 2016

Homenagem a Mario Quintana

Bruna Lombardi e Mario Quintana


Mário Quintana foi o grande homenageado do 23º Seminário Brasileiro de Crítica Literária na PUCRS (Porto Alegre), realizado entre os dias 5 e 7 de dezembro de 2006. Nada mais justo, afinal, estávamos no ano do centenário do poeta, nascido a 30 de julho de 1906 em Alegrete (RS) e falecido a de 5 de maio de 1994 na capital gaúcha.

O seminário apresentou no dia 6 uma mesa-redonda com o poeta Armindo Trevisan, amigo e estudioso de Quintana, a poetisa e atriz Bruna Lombardi, musa do homenageado, e a atriz Elena Quintana, sobrinha do autor de A Rua dos Cataventos; já no dia 7 foi a vez do professor Antônio Carlos Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, proferir a palestra Um Olhar sobre Quintana. A seguir, apresentamos os principais trechos de cada pronunciamento:

Armindo Trevisan - "A poesia de Mário Quintana me interessa fundamentalmente por três aspectos: 1º, por sua autenticidade; 2º, pela sua intransigência - ele impõe o silêncio à velocidade desmesurada; 3º, por ser a um tempo simples e complexa: ela tende ao classicismo, apesar de apresentar também um caráter modernista.

A autenticidade corresponde ao que a pessoa está sentindo; o mundo interior do homem - idéias, sentimentos, emoções - é impressionante. O universo animal é mais simples, sua expressão se esgota em pios, uivos, latidos. Já a fala humana vem da necessidade de revelar o mundo oculto e rico que cada ser humano tem.

Quintana tem uma capacidade impressionante de poetizar coisas que para outra pessoa passariam como algo comum. Além disso, ele só aparentemente levava tudo na brincadeira, no fundo era um trágico. Para ele, o que não era poesia era fofoca; então tudo o que não podia ser dito de forma sublime para ele não tinha nenhum valor."

Bruna Lombardi - "Conheci Mário Quintana quando vim lançar meu primeiro livro, No Ritmo Dessa Festa (1976), na Feira do Livro de Porto Alegre. Ele estava na minha fila de autógrafos, eu o chamei para a frente - eu brincava dizendo que ele era o falso humilde (ele era humilde, mas sabia tudo!). Conversamos muito, eu fiquei aqui alguns dias e combinamos de tomar um chá anual. Nosso contato era mais de trocar cartas, imagina hoje com a internet, seria uma maravilha receber um e-mail dele todo dia! Uma vez me pediram pra eu publicar as cartas, eu recusei, hoje acho que seria legal. Eu sempre mandava meus poemas novos a ele, que fazia comentários. Pra mim foi um privilégio ter conhecido Mário, uma figura rara; penso que poderia ter sido mais assídua, mas a vida da gente é muito corrida.

Eu admirava muito a inteligência, o senso de observação e a informalidade do Mário. Ele gostava das coisas muito simples; nelas, está toda a resposta que você possa procurar. Mário observava a natureza, as criações de Deus, com uma sensibilidade muito grande. A poesia não é feita de grandes barulhos, ela é um riachinho que corre. Se você presta atenção nela, ela te dá um monte de respostas.

Mário Quintana nunca se deixou seduzir pelo falso brilho, vaidade, fama, esses valores tão usados na sociedade hoje. Algumas pessoas deviam ser preservadas como exemplo de comportamento. Quando penso no Mário, penso em valores bons, como honestidade, simplicidade. Ainda bem que a poesia dele está aí, ela serve como uma referência. Há dois pilares que sustentam as relações entre as pessoas: a solidariedade e a solidão. Escrever é um ato solitário. Mário vivia num quarto de hotel, com seu pequeno mundo, levava uma 'vida comum', mas sabemos que não era uma vida comum. A preservação desse dom da poesia que o levou a uma vida solitária é que tornou a poesia dele grande, em qualquer lugar do mundo."

Elena Quintana - "O tio Mário gostava de escrever mais à noite, quando os telefones não tocam. A idéia podia vir a qualquer momento, ele a anotava e olhava à noite. Algumas vezes já escrevia o poema, outras deixava a idéia na gaveta. Certas ocasiões buscava esses rascunhos na gaveta, juntava vários e fazia o que chamávamos 'rezar': pegava o poema, ficava lendo, relendo em voz alta, resmungando, buscando a melhor forma. Quando o poema estava mais perto de estar pronto, ele lia mais alto. Ele não gostava de música, assim como outros poetas (João Cabral de Melo Neto, Ferreira Gullar, Carlos Drummond de Andrade...). Às vezes ele me pedia um palpite, mas quase nunca seguia o que eu sugeria! Só uma vez eu pedi pra mudar uma palavra: ele escreveu 'ignominiosa' e eu sugeri 'criminosa'; na hora ele deixou como estava, mas na última edição que revisou, ele me atendeu. (Elena se refere ao poema "Cocktail Party": "Não tenho vergonha de dizer que estou triste/ Não dessa tristeza ignominiosa dos que, em vez de se matarem, fazem poemas: / Estou triste por que vocês são burros e feios/ E não morrem nunca..."). Os poemas dele podiam levar muito tempo para ficarem prontos - "Cronologia" levou 40 anos!

Mário Quintana dizia que a única saída para os jovens poetas (que ele chamava natimortos) era participar de todos os concursos que pudessem. Numa das poucas palestras que fez, deu este conselho aos iniciantes: 'Escrevam, reescrevam, voltem a escrever. Não publiquem!'. E é uma verdade, muitos autores publicam muito jovens, depois com 40 anos se arrependem do que tinham escrito.

Ele gostava de ler os poemas, dizia que poema não pode ser declamado, e sim 'dito', 'lido como prosa'. Não gostava de declamadoras, só da Berta Singerman."

(Intervenção de Trevisan: "São raríssimos os autores que lêem bem seus próprios poemas: Quintana era um, Drummond já não era. A questão das declamadoras é que, no passado, como não havia bons microfones como os de hoje, às vezes se recorria à impostação da voz para conseguir preencher grandes auditórios. Interpretar poemas é uma coisa muito difícil.")

Antônio Carlos Secchin - "Em seus cinco primeiros livros, Mário Quintana vai do soneto com métrica não-ortodoxa (A Rua dos Cataventos, 1940) à prosa poética (Sapato Florido, 1948), passando pelo verso livre (Canções, 1946). Estilo, para ele, era a falta de capacidade de não ser repetitivo. Nesses cinco primeiros livros (a relação inclui, além dos citados, O Aprendiz de Feiticeiro, 1950Espelho Mágico, 1951), há um eu lírico constante, marcado por uma relação ávida com o mundo e maravilhado com ele.

Quintana está entre o clássico (pela tendência a seguir modelos fixos como o soneto) e o romântico (por sua espontaneidade). Sua obra se distancia tanto da geração de 1922 (novamente pela atração por formas fixas) quanto da de 1945 (da qual não tem nenhuma das características principais: pompa, solenidade, seriedade temática, vigilância lexical e restrição vocabular).

A poesia de Quintana parte de um choque, de algo fortuito, que ele reelabora, ferindo nossa sensibilidade anestesiada. Nesse ponto, ele se aproxima de Manoel de Barros e seus 'inutensílios': Quintana desfuncionaliza a realidade. Basta ver o título de seus livros: A Rua dos Cataventos, Sapato Florido, Espelho Mágico, Baú de Espantos, A Cor do Invisível. A um objeto com função determinada, liga-se uma característica inesperada, que o desfuncionaliza. Esse desvio de função remete ao surrealismo. É um olhar criador, e não reprodutor da realidade."


  • Making-off do texto - Publicado originalmente em dezembro de 2006 no site Jornalismo Cultural.

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