quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Moraes Moreira conta em cordel a história dos Novos Baianos

(Ovelhas Desgarradas - 36)

Moraes Moreira, depois de consagrado como cantor, compositor e violonista, lançou-se um desafio: o de ser, também, escritor. Nasceu assim o livro A História dos Novos Baianos e Outros Versos, que teve programação especial de lançamento nesta quinta, 13 de novembro, na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. A partir do final da tarde, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, Moraes conversou com jornalistas, realizou recital e autografou o livro.

- Eu tenho quase quarenta anos de carreira, lancei 40 CDs, mas nenhum desses trabalhos me deu tanto prazer quanto fazer este livro - revelou, durante o recital.

Para contar a história dos Novos Baianos, Moraes escolheu a forma poética do cordel, por ser esta, no seu entender, a que melhor permite tratar de amor, humor, informação, verdade. Todos estes ingredientes compõem a trajetória do grupo que trocou a Bahia por São Paulo e depois pelo Rio de Janeiro, onde viveu em comunidade, primeiro num apartamento em Botafogo e depois num sítio na zona oeste, até que a chegada dos primeiros filhos dos vários casais que formavam o grupo tornaram a experiência comunitária inviável.

No recital, Moraes contou episódios desta história, intercalando na conversa com o público trechos do livro. Uma das passagens que arrancou mais gargalhadas da platéia foi o contato dos jovens músicos com João Gilberto, conterrâneo de Galvão (ambos nasceram em Juazeiro, BA). João voltava, no começo dos anos 1970, de longa temporada nos Estados Unidos e Galvão fez questão de apresentá-lo ao grupo. Primeiramente, houve um encontro de João com Galvão, Moraes e Paulinho Boca de Cantor, fora do apartamento; na ocasião, João revelou que sempre sonhara em viver em comunidade - "criar um grupo que tocasse junto e morasse junto" -, dizendo que se sentia realizado com o fato de os Novos Baianos, mesmo sem saber, terem colocado em prática sua idéia. Na primeira vez, porém, que João foi ao apartamento de Botafogo, o baixista Dadi, que não o conhecia, deu um falso alarme, achando que alguém de terno batendo ali só podia ser da polícia... (as várias outras visitas de João foram mais tranqüilas).

No recital, Moraes esteve excelente. Mostrou que está mesmo em fase literária - abriu a apresentação com uma música inédita em que fala dos grandes escritores brasileiros, como Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Vinicius de Moraes, Erico Verissimo e muitos outros, e leu seu poema inédito "A Grande Arma é o Livro". 

Como cantor, Moraes continua muito bom, à exceção de algumas músicas que compôs mas não gravou (por exemplo, "A Menina Dança"), em que o tom que escolheu não lhe dava o conforto vocal necessário. Já o compositor consagrado, que fez a platéia cantar do começo ao fim clássicos como "Preta Pretinha" e "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira", mostrou-se também um artesão capaz de compor uma jóia como uma música em que, através do mote "em todo o lugar do Brasil tem samba", combina citações de melodias as mais diversas, com uma unidade final e beleza impressionantes. O verso inicial, que fala do Brasil, cita o "Hino Nacional"; ao mencionar Ary Barroso, cita "Aquarela do Brasil"; quando se fala em Lupicínio Rodrigues, a linha melódica de "Felicidade" é referida; na vez de Adoniram Barbosa, passa o 'Trem das Onze"... Todas essas nuances só conseguem ser claramente transmitidas, é necessário dizer, através da excelente técnica que Moraes atingiu no violão - como exemplo, bastariam as citações de Ravel ("Bolero") e Jobim ("Insensatez") em "O Brasil tem Concerto". E não era preciso mais que seu violão e sua voz para garantir a animação do bloco carnavalesco final ("Bloco do Prazer"/ "Coisa Acesa"/ "Festa do Interior"/ "Eu Também Quero Beijar").


  • Making-off do texto - Encerrando o resgate de ovelhas-texto sobre a Feira do Livro de Porto Alegre de 2008, esse texto que foi o boletim da Agência de Notícias Brasileirinho em 14.11.08. 
  • Gravei entrevista com Moraes no camarim do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, antes do recital. 
  • Da publicação original, constavam um trecho da entrevista, em áudio, de Moraes falando de seu contato com Waldir Azevedo (mais um áudio que hospedei no MP3Tube e perdi) e outro para a leitura do poema inédito (áudio também perdido). Segue a transcrição do poema:
A grande arma é o livro

Nessa terra generosa
Existem tantas mazelas
Só pra você se lembrar
Posso citar uma delas,
Pra nós é um desafio
Mudar os dados concretos
Milhares de analfabetos
Ainda tem o Brasil

Qual é o nosso papel
Diante dessa agonia
Do que a gente é capaz
Cadê a cidadania?
O que fazer com os tais
Que do saber sentem fome?
E mal assinam o nome
Chamados “funcionais”

Estamos assim rasgando 
Nossa Constituição.
É um dever do Estado
Promover Educação.
Exijo desses senhores
Agindo sob esse signo
Um tratamento mais digno
Para os nossos professores

Que seja a escola um prazer
Dentro do seu dinamismo
Não só por obrigação
Nem assistencialismo.
Meu sonho aqui eu confesso:
Eu quero a nossa gramática
Da forma mais democrática
- Que todos tenham acesso –

Eu trago em mim a certeza
Bem viva na consciência
Quanto maior a instrução
Menor é a violência.
Passando por esse crivo
Traçamos outros destinos
E para os nossos meninos
A grande arma é o livro

Contendo em suas páginas
Quem sabe, um grande segredo
Para poder desvendá-lo
Nunca é tarde nem é cedo.
Mesmo que custe dinheiro
Eu digo: não custa nada
Nem precisa de tomada
O livro é um companheiro!

E sempre traz um assunto:
Em prosa ou em poesia
Religião ou ciência
Romance, filosofia,
Sabedoria aos montes
E seja de qualqer forma
O fato é que nos transforma
E alarga o nosso horizonte

Podemos levá-lo à praia
Deixá-lo na cabeceira
Na bolsa, para a viagem
Um pouco na prateleira.
Queremos ao nosso lado
O que constrói, o que ergue.
O genial Gutemberg
Deixou um grande legado.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

54ª Feira do Livro de Porto Alegre

(Ovelhas Desgarradas - 35)


Ao longo do período em que cobri a 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, em 2008, para o site do Café Colombo, elaborei também algumas pautas para meu site Jornalismo Cultural. Além de textos maiores como o publicado aqui ontem, mantive na capa do blog um mural atualizado várias vezes com pequenas notas. Algumas já foram publicadas neste blog em outras ocasiões (veja aqui e aqui). Seguem-se as que permaneciam 'desgarradas'.


  • 100% filósofa - Em debate com a jornalista Cláudia Laitano, realizado na tarde do domingo, 9 de novembro, a filósofa Márcia Tiburi anunciou que não pretende seguir escrevendo livros de ficção nem artigos para revistas. Sua idéia é dedicar-se exclusivamente ao que a alegra: a filosofia.

  • Machado de Assis comentado - Vários eventos da Feira homenageiam Machado de Assis, no ano em que se completa um século da sua morte. Um debate na tarde da segunda, 3 de novembro, no Centro Cultural Érico Verissimo, teve como assunto a recente edição pela L&PM do texto fixado dos três principais romances de Machado: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba Dom Casmurro. Participaram da mesa Luís Augusto Fischer, idealizador da edição, Carolina Chang, responsável pela editoração da obra, e os professores de Literatura Antonio Marcos Vieira Sanseverino, Carla Vianna e Homero José Vizeu Araújo, que escreveram comentários e elaboraram as notas das edições. Carla chamou a atenção para o narrador pouco comum de Quincas Borba - o livro é todo narrado em terceira pessoa, mas este narrador supostamente neutro volta e meia emite opiniões, além de ir aos poucos incorporando a loucura que acomete Rubião (chega, por exemplo, a falar na vitória de Napoleão III sobre Guilherme I na Guerra Franco-Prussiana de 1870, quando na realidade aconteceu o contrário). Já Sanseverino disse que hoje quem vai ler Memórias Póstumas de Brás Cubas já tem consciência de que Machado inovou ao apresentar um narrador defunto, mas que não há mais como medir o impacto que isso causou a quem, em 1880, leu pela primeira vez este romance em folhetim.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Fernando Monteiro e a morte do leitor

(Ovelhas Desgarradas - 34)

Quem Matou o Leitor? era a bombástica pergunta-título do bate-papo entre dois escritores na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre: o pernambucano Fernando Monteiro e a gaúcha Cíntia Moscovich, realizado no dia 7 de novembro de 2008 no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo.

Embora os números de venda de livros se mantenham em ascensão, Monteiro acredita que as simples estatísticas não servem para elucidar o caso. Mesmo dizendo ser uma bobagem temer-se pelo fim do livro, acredita que está morto aquele leitor que entrava numa livraria buscando uma obra que poderia mudar sua vida. Hoje, o leitor que entra numa livraria certamente procura um livro de auto-ajuda, ou uma obra ligada a religião, ou um lançamento sobre um fato do momento e/ou temas étnicos (citou O Livreiro de Cabul, de Åsne Seierstad, como um exemplo desta tendência). A literatura propriamente dita estaria portanto disputando um quarto lugar nas livrarias - em tese, porque Monteiro elaborou, no final do ano passado, uma lista dos 100 livros mais vendidos ao longo de 2007, sem levar em consideração o ano do lançamento. Dos 100, considera que apenas oito sejam obras que seu "leitor ideal" buscaria (os títulos aparecem na ordem em que Monteiro os citou):

 Na Praia - Ian McEwan
 O Homem Comum - Philip Roth
 O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry
 obras de Doris Lessing (Prêmio Nobel de Literatura 2007)
 O Passado - Alan Pauls
 O Apanhador no Campo de Centeio - J. D. Salinger
7º obras de Gabriel García Márquez
 Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago

Considerando que todas as outras 92 obras pertenciam a alguma das três tendências dominantes, Monteiro faz eco à opinião que ouviu do escritor alemão Günter Kunert numa recente edição da Feira do Livro de Frankfurt: o motor interno da nossa atenção mudou e não se encaixa mais com atividades como a leitura, que exigem um ritmo mais lento, um nível de atenção difícil de obter na era da televisão e da internet.

Ao preferir livros de interesse utilitário ou ligados ao factual, o leitor médio automaticamente rejeita tudo que lhe pareça pertubador. Monteiro citou o recente texto "Um Impasse Trágico no Mercado Editorial", de Chico Lopes: aqueles que hoje repetem a frase de Torquato Neto ("é preciso desafinar o coro dos contentes") sabem que falam somente para seus pares. O grande público cada vez mais tenderá a aceitar apenas o que for eufórico ou imediatamente digerível. Em função disso, as editoras evitam correr riscos; o mercado está contaminado pela febre do êxito. Monteiro vê as editoras inacessíveis para autores de qualidade:

- Um autor com texto mais difícil, mais artístico, tem dificuldade para publicar em qualquer lugar do mundo.

Este quadro não se restringe apenas à literatura, atinge a cultura como um todo - e já podia ser antevisto há tempos nas manifestações de importantes cineastas. Em palestra que Monteiro assistiu em 1969 no Centro Esperimentale di Cinematografia di Roma, o italiano Pier Paolo Pasolini alertava para o risco da ditadura da sociedade de consumo de massa. Já no texto "A Pele da Serpente", que Monteiro leu publicado na revista O Cinéfilo, de Lisboa, em 1973, o sueco Ingmar Bergman dizia que já então via a cultura como uma pele de serpente, oca, que só parecia viva por estar sendo carregada por milhares de formigas: "Literatura, cinema, pintura, música, teatro são feitos para um público cada vez mais distraído, assemelhando-se à pele desta serpente: morta, privada de seu veneno". Pouco tempo depois, Bergman afastou-se do cinema, encerrando a carreira no auge.

Voltando a tratar especificamente da literatura, Monteiro confessou-se chocado quando, na mesma Feira de Frankfurt onde ouviu Kunert, viu Paulo Coelho receber o tratamento de grande escritor, idêntico ao dispensado hoje nos Estados Unidos a um Paul Auster:

- Há não muito tempo, apenas escritores do nível de um Vladimir Nabokov é que eram qualificados como grandes autores.

Também não escondeu seu desconforto com o fato de Paulo Coelho estar em segundo lugar numa lista que circula na internet, a dos escritores brasileiros mais admirados (Monteiro Lobato encabeça a relação). Manifestou espanto ainda ao ter tomado conhecimento de uma atividade da programação da Feira de Porto Alegre: um encontro da série "Leituras Compartilhadas", anunciado da seguinte forma: "11 Minutos - Charles Kiefer compartilha, como leitor-guia, o prazer de ler Paulo Coelho." Cíntia Moscovich afirmou que, mesmo não tendo estado presente no evento realizado no dia 4, tinha certeza de que o patrono da Feira não teria feito um ato de louvor; lembrou inclusive um comentário do patrono, de que é através dos lucros proporcionados pelas vendas de autores como Paulo Coelho que as editoras conseguem recursos para investir no lançamento de jovens autores. Monteiro respondeu que gostaria que Kiefer estivesse certo em seu raciocínio, mas não acredita muito nessa possibilidade.

Kiefer fala de Paulo Coelho - Ouvido com exclusividade pelo site Jornalismo Cultural no dia 8, o patrono Charles Kiefer confirmou que são os lucros gerados pela venda de autores como Paulo Coelho que permitem às editoras investir no lançamento de muitos outros autores, com maior qualidade artística. E negou que o evento do dia 4 tenha se constituído num elogio ao livro 11 Minutos:

- Eu dediquei onze minutos para ler o livro 11 Minutos e tive que parar, porque achei horrível, não gostei do livro. Na verdade, eu fiz uma longa exposição, mostrando pra platéia as diferenças entre a literatura de mercado (um conceito que circula na área da Sociologia da Literatura) e a literatura, que chamei ali de literatura artística. Na literatura de mercado, a gente teria Morris West, Sidney Sheldon, Paulo Coelho; na literatura artística, Tchecov, Stendhal, Flaubert, Raduan Nassar. Nenhum professor (de Literatura) - e é isto que eu sou, mais que um escritor - vai dizer, de sã consciência, que um Paulo Coelho se equivale a um Raduan Nassar, de jeito nenhum.

Kiefer estabeleceu como traços distintitivos entre as duas espécies de literatura a produção e o consumo. Na literatura de mercado, o escritor pensa na venda; já o autor de literatura artística está preocupado com sua própria subjetividade.

- Do ponto do consumo, eles também são diferentes. A literatura de mercado circula entre o público não-especializado. Um Paulo Coelho é pouco lido na universidade ou por outros escritores - enfim, por aqueles elementos do sistema literário que compõem o cânone.

A única equivalência que Kiefer encontra entre Paulo Coelho e autores da literatura artística é que o autor de Onze Minutos se dedica à ficção; seus livros não são de auto-ajuda:

- Ele trata sempre de um tema mítico-místico, oferecendo uma panacéia para a população. Ele faz ficção, ele inventa histórias. Agora, se essas histórias são boas ou não, aí são outros quinhentos. Elas são fantasiosas, românticas, mal-acabadas, mal construídas, com uma linguagem que beira a literatice, com figuras de linguagem paupérrimas, com lugares-comuns entrondosos, com erros gramaticais... Ele não permite que seus livros sejam revisados no Brasil porque considera seu texto como sagrado. Bom, um escritor que considera o próprio texto sagrado, pra mim, eu não posso levá-lo em consideração como escritor. Pode ser um bom marqueteiro, mas não um bom escritor.


  • Making-off do texto - Publicado no site Jornalismo Cultural em 10.11.08. Pela extensão do texto, não cheguei a incluí-lo no pacote da cobertura que realizava da Feira do Livro de Porto Alegre para o site do Café Colombo. 


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Entrevista: Homero Fonseca


(Ovelhas Desgarradas - 33)

O escritor e jornalista pernambucano Homero Fonseca esteve no Rio Grande do Sul entre os dias 3 e 5 de novembro de 2008, participando da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, justamente num momento de importantes mudanças em sua vida, onde a palavra de ordem é "desacelerar". Três dias antes de viajar ao Sul, Homero afastou-se do cargo de superintendente de edição da revista Continente Multicultural, onde trabalhou nos últimos oito anos; e ao retornar a Pernambuco, passou a dividir sua semana entre São José da Coroa Grande e o Recife, equilibrando seu tempo entre novos projetos literários e a curadoria da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, como ele mesmo nos explica nesta entrevista gravada no último dia de sua recente estada em Porto Alegre, 5 de novembro.

FABIO GOMES - Quais foram as circunstâncias que levaram o senhor a optar por sair da revista Continente?

HOMERO FONSECA - Eu passei oito anos na revista, com muita honra e com muito prazer. Fui primeiro editor executivo, depois editor, diretor editorial e por último superintendente de edição. E realmente, foi uma etapa importante da vida. Agora eu estou partindo para desacelerar um pouco meu ritmo diário de trabalho. Vou morar com minha esposa em São José da Coroa Grande, mas vou manter um escritório no Recife, onde irei dois, três dias por semana para fazer contatos. De São José, continuarei trabalhando no meu laptop, o mundo hoje, a partir do advento da internet, é uma aldeia global como (Marshall) McLuhan nunca sonhou. Eu tenho vários projetos em andamento. O primeiro é a própria curadoria da Bienal 2009, que a partir de agora temos que nos debruçar com muito afinco. Além da Bienal, eu tenho três projetos de livro em processo de análise no MinC (Ministério da Cultura), para receber o certificado da Lei Rouanet, que são sobre toponímia de três estados nordestinos, a exemplo do que eu fiz com Pernambucânia - O que Há nos Nomes das Nossas Cidades (2006) - procurando, numa perspectiva multidisciplinar, o significado dos nomes das cidades do ponto de vista histórico, etimológico, cultural, filológico, geográfico etc. E tenho o esboço de outro romance, ainda sem título. De São José eu acho que vou conseguir fazer com mais tempo e com mais tranqüilidade.

FABIO GOMES - Um dos anúncios que já foi feito aqui na Feira do Livro de Porto Alegre, relativo à próxima Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, é que o Rio Grande do Sul será o estado homenageado em 2009. Vocês já têm alguma diretriz a seguir para a montagem dessa programação?

HOMERO FONSECA - Veja só: em primeiro lugar vamos ressaltar que nisso há uma recíproca. Houve o convite da Feira do Livro de Porto Alegre, que já está na sua 54ª edição, é a mais tradicional do Brasil, provavelmente da América Latina, é um belíssimo evento cultural, e que neste ano homenageou Pernambuco, proporcionando a vinda de duas dezenas de escritores, que viemos debater, lançar livros, apresentar nossas obras, fazer intercâmbio com o público e outros escritores. Como recíproca, como contrapartida, nós vamos, levar uma delegação gaúcha à próxima Bienal do Recife. Agora, não podemos adiantar nada, porque vamos formalizar à Câmara Riograndense do Livro, que é a promotora da Feira daqui, o convite para que ela lidere esse processo, em articulação com outras entidades locais, Governo do Estado, Prefeitura de Porto Alegre, para dizer quem serão os convidados, que elementos culturais gaúchos serão levados para o público pernambucano. Na nossa participação aqui este ano, a literatura foi o foco, os escritores foram os protagonistas. Mas isso não é uma coisa isolada. Isso está dentro do universo cultural geral de Pernambuco. Então nós trouxemos pra cá a literatura de cordel, as xilogravuras de J. Borges, emboladores, violeiros, músicos, dançarinos... O Ariano Suassuna deu a aula-espetáculo Nau, que é uma grande síntese da cultura pernambucana e nordestina, com imensa receptividade. Isso também nós esperamos que os gaúchos façam, que levem outros aspectos importantes (de sua cultura), como uma forma de dar maior conhecimento mútuo de nossas culturas, dos nossos saberes. Pode parecer um discurso provinciano - mas não é - o fato de que nós denunciamos, e os gaúchos concordam com isso, essa hegemonia que há séculos se estabelece no eixo Rio-São Paulo, como se só se escrevesse, houvesse música, houvesse cultura no Rio e São Paulo. E esse intercâmbio Rio Grande-Pernambuco - e que vai continuar, tanto aqui quanto lá, com outros estados - vai proporcionar uma demonstração da diversidade cultural brasileira, que não passa só por aquilo que é produzido no Rio e São Paulo. Nós não negamos o que é produzido lá; nós negamos é que seja a única coisa válida em termos de cultura brasileira.

FABIO GOMES - Eu vi no estande de Pernambuco aqui na Feira uma entrevista sua à Globo Nordeste, falando que a idéia inicial para seu romance Roliúde (2007) tem alguma ligação com o grande escritor pernambucano Hermilo Borba Filho. Qual é a ponte que liga a idéia do romance a Hermilo, e quanto há de Hermilo no resultado final?

HOMERO FONSECA - Eu não sou o mais indicado a dizer algo sobre o resultado final, os leitores e os críticos é que vão dizer. Pra mim, muito me honra qualquer vinculação com Hermilo, que foi não só um grande romancista e contista, como grande dramaturgo, diretor de teatro, estudioso da cultura popular, pesquisador, animador cultural - um líder cultural pernambucano da maior importância. A coisa aconteceu quando eu tava lendo um livro sobre Pré-História do Nordeste. Veja como são tortuosos os caminhos da literatura... O livro (Pré-História do Nordeste do Brasil) é de autoria da professora da Universidade Federal de Pernambuco, Gabriela Martin. Lá pras tantas, ela se referindo àquelas inscrições rupestres, àquelas pinturas de caverna, ela diz que aquilo não é arte, as pessoas às vezes confundem, aquilo é comunicação. Às vezes, comunicação com o sagrado, às vezes comunicação de documentação da vida cotidiana. A partir daí, ela faz uma digressão sobre a necessidade humana de se comunicar, de contar história em variadas circunstâncias... Todo tipo de sociedade tem esses contadores de histórias, essas pessoas que fazem esse registro da memória coletiva. E aí diz que Hermilo Borba Filho, certa vez, tinha se referido a um personagem que ele conheceu na Amazônia que era um contador de filmes, que ia de barco pelo Rio Amazonas subindo, enveredando pelos igarapés, parando pelas aldeias e aldeolas e narrando os filmes e ganhando dinheiro. Quando eu li esse trechinho do livro da Pré-História nordestina, eu digo "Nossa Senhora! Que personagem maravilhoso! Que personagem de ficção! Como se pode desenvolver a história de um camarada desses!" E comecei a esboçar o romance. Aliás, esse romance que eu vou concluir agora, eu já vinha começando a pensar nele, abandonei porque esse (Roliúde) veio mais forte. E comecei a me dedicar a construir o personagem, um contador de história. Teria que ser um personagem pícaro, de grande oralidade, de grande verve pra poder prender e fascinar as platéias a ponto de viver disso, ganhar dinheiro com isso. Só que no iniciozinho eu já percebi que não podia fazer exatamente como Hermilo tinha falado, na Amazônia, porque eu não conheço a Amazônia, não conheço os costumes, a mentalidade, a fauna, o meio-ambiente... como é que ia ser? Então eu vi que poderia ser no Nordeste, onde é comum ter contadores de filmes amadores, nas casas de família, nos colégios, nas praças e tal; apenas o transformei num profissional. E por esse caminho tortuoso eu produzi Roliúde, tendo esse personagem picaresco, Bibiu, como protagonista. E diria que o que há de comum com Hermilo - que em nenhum momento eu tomei como modelo, nada disso -: eu sempre li Hermilo, conheço boa parte da obra dele, admiro muito, mas sem dúvida a temática tem a ver, o homem inserido naquele seu espaço regional sem ser regionalista, sem ser provinciano, em nenhum momento negando sua configuração própria, o seu caráter próprio e ao mesmo tempo universal.

FABIO GOMES - Já falamos de Pernambucânia Roliúde. Antes desses, o senhor lançou outros quatro livros, Viagem ao Planeta dos Boatos (1996), A Vida é Fêmea (2000), Mário Melo: A Arte de Viver Teimosamente (2001) e Pequeno Teatro da Vida (2002). Um livro-reportagem, uma biografia, e dois livros de contos e crônicas. 

HOMERO FONSECA - Mário Melo é um perfil, não chega a ser uma biografia. Viagem ao Planeta dos Boatos é um livro-reportagem. Eu sempre amei a literatura, mas enveredei pelo jornalismo para ganhar a vida. São duas atividades paralelas, ambas trabalham com a palavra, mas não se confundem em nenhum momento. E de um campo você aprende pra ir para o outro. Por exemplo: da literatura, eu aprendi para o jornalismo a tentar escrever de maneira mais elegante, de maneira menos comum. Do jornalismo para a literatura, eu aprendi a observação da vida, dos tipos humanos, que vão ser minha matéria-prima para a ficção. Agora, a literatura exige sugestão, exige ambigüidade, exige que o leitor tenha uma parcela de construção do texto, do conteúdo, do personagem, enquanto que no jornalismo é o contrário: você tem que ter o possível de precisão, de objetividade, de deixar claro para o leitor os fatos que aconteceram. Essas duas vertentes então sempre estiveram próximas a mim. O primeiro livro foi justamente um livro-reportagem, sobre um fenômeno que aconteceu no Recife em 1975. Foi uma grande enchente, seguida de um boato de que a barragem do Tapacurá havia estourado, provocando um pânico coletivo na cidade. Fiz matéria pro jornal, na época eu trabalhava no Estadão. Em seguida, fui aprofundando, vendo aquilo à luz da psicologia social, da sociologia, do jornalismo, da política, da cultura, comparando com outros casos semelhantes de pânico produzidos por rumores e produzi esse primeiro livro. Meu segundo livro foi de contos, A Vida é Fêmea. São contos de uma temática só: mulheres em ação erótica, urbanas, liberadas, com nível de informação muito grande, com o grande problema da responsabilidade por sua liberdade, que é a essência da questão existencial, e também com suas indecisões. É bem diferente de Roliúde. Aí não tem nada a ver com cultura popular nem com oralidade. Há outra oralidade... (risos).


Saiba mais:
  • Veja o clipe do livro Roliúde no YouTube:  




  • Making-off do texto - Nono e último texto que tive publicado no site do Café Colombo, em 1.12.08, já depois do final da Feira do Livro de Porto Alegre daquele ano, que homenageou Pernambuco. 
  • O título que utilizei aqui é do meu original. No site, o texto saiu com o título Homero Fonseca detalha seus planos para o Café Colombo, e esta introdução: "O jornalista Homero Fonseca tomou uma decisão corajosa. Abandonou um projeto bem sucedido de revista cultural para se dedicar integralmente à literatura. Pelo que se pode tomar do seu mais recente livro, Roliúde, quem poderá sair ganhando são as letras brasileiras." 
  • Também publiquei esta entrevista no site Jornalismo Cultural, ainda em 2008. O vídeo não estava inserido, apenas seu link ao final. Outros materiais linkados no original se perderam: um trecho da entrevista em que Homero falava de sua participação no Sarau Elétrico, em Porto Alegre, e outro onde ele lia o 1º capítulo de Roliúde - este último eu havia hospedado no MP3Tube, que hoje não está mais no ar. 
  • Roliúde foi adaptado para o teatro em 2011 (veja um compacto em vídeo no blog de Homero Fonseca); em 2017, foi enredo da escola de samba Colorado do Brás, de São Paulo, com o título "Luz, câmera, ação! A Colorado apresenta: a Roliúde no Sertão". 
  • Falando na revista Continente, a cobertura que fiz da participação de Pernambuco na Feira acabou me gerando um convite inesperado: a CEPE me chamou para ser seu representante em Porto Alegre. Cheguei a ficar com diversos exemplares de obras lançadas pela editora, mais números recentes da revista, enquanto esperava por alguma autorização ou documentação necessária para eu iniciar o trabalho, porém os meses se passavam e nada de isto acontecer, até que um belo dia o diretor que me convidara me mandou um e-mail revelando que, por norma interna da CEPE (que é de propriedade do governo do Estado de Pernambuco), não podem ser contratadas pessoas que não sejam pernambucanas... Ao menos a empresa assumiu a despesa postal da remessa dos exemplares que haviam ficado comigo.. 
  • Ainda em dezembro, voltei a escrever um e-mail para o Café Colombo, desta vez me candidatando a ser correspondente do programa em Porto Alegre em caráter permanente, e não apenas ligado a um evento específico. Houve interesse, mas fui informado de que a produção não dispunha de verba para isto. 


quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Fim de Feira

(Ovelhas Desgarradas - 32)


Em entrevista coletiva realizada na manhã da terça, 18 de novembro, a Câmara Riograndense do Livro (CRL) divulgou os números finais da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. O volume de vendas atingiu 424.046 livros, o que representa uma queda de 8% em relação a 2007. Em função do corte nas verbas solicitadas à Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do estado, este ano não se realizou a pesquisa dos livros mais vendidos. O presidente da CRL, João Carneiro, acredita que este fato contribuiu para uma menor concentração das vendas em poucos títulos, aumentando o fenômeno que denominou como "bibliodiversidade".

Já a freqüência de público aos eventos aumentou muito: a programação artística foi prestigiada por 10.355 pessoas, o que inclui os encontros com escritores e shows realizados na Tenda de Pasárgada, no Centro Cultural CEEE Erico Verissimo e no Espaço Pernambuco Nação Cultural. A coordenadora de programação para o público adulto da Feira, Jussara Rodrigues, destacou a participação do estado homenageado:

- Pernambuco veio alegrar a Feira, deixá-la mais leve de forma muito gostosa. A aula-espetáculo de Ariano Suassuana foi uma abertura de luxo.

A grande atração musical pernambucana do último final de semana da Feira foi justamente o grupo batizado de Fim de Feira. Com um repertório que privilegia o forró, o coco e o baião, intercalados com poemas ao estilo cordel, a banda fez rápidas apresentações nas tardes de sexta e sábado, contando com a participação do cantor Josildo Sá, e sendo antecedida por breve recital do poeta Chico Pedrosa, paraibano radicado em Pernambuco. Pedrosa disse vários poemas e contou causos, como o que narrava os apuros de motorista bêbado parado numa blitz. No domingo, como não havia sessões de autógrafos, todos tiveram mais tempo à disposição na Tenda de Autógrafos: tanto Chico Pedrosa quanto Fim de Feira (com Josildo Sá) se apresentaram durante uma hora. O grupo Fim de Feira privilegiou o repertório de seu CD A Revolução dos Pebas, tocando "Sina de Passarinho" (Bruno Lins - Manoel Filó - Tonzinho) e "Dona Jurema" (Bruno Lins -  Tonzinho). Já Josildo, além de interpretar "O Canto da Ema" (D. Ayres Viana - Alventino Cavalcante - João do Vale), homenageou os gaúchos cantando o samba "Se Acaso Você Chegasse" (Lupicínio Rodrigues - Felisberto Martins). Josildo Sá e Bruno Lins, vocalista do Fim de Feira, participaram também do grande espetáculo da noite do sábado, o da Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, regida pelo maestro Forró.

Inicialmente programado para o Auditório Barbosa Lessa do Centro Cultural CEEE Erico Verissimo, o show da Bomba do Hemetério foi transferido para o Teatro Sancho Pança, no Cais do Porto, um espaço bem mais amplo - o mesmo em que se realizou a aula-espetáculo Nau, de Ariano Suassuna. As cadeiras da frente do palco foram removidas, para que o público pudesse dançar à vontade ao som de frevos tradicionais como "Evocação" (Nelson Ferreira) e "Vassourinhas", tocados de modo nada tradicional - os arranjos do maestro Forró agregam influências do jazz; além disso, tanto o maestro quanto os músicos não apenas tocam, realizam verdadeiras performances no palco. Basta citar o arranjo de "Cabelo de Fogo" (Maestro Nunes), onde os instrumentistas formaram um círculo no palco, sentando-se e parando de tocar, prosseguindo a música através de vocalises (enquanto uns cantavam, outros pulavam e voltavam a se agachar).

Os escritores pernambucanos também foram bastante prestigiados pelo público no final da Feira. Assim como Jessier Quirino quinta e sexta, o poeta Marcus Accioly teve grande platéia em seus recitais na sexta e no sábado, tanto que foi convidado a tomar parte na I Maratona de Leitura de Contos, que foi das 10 às 20h do domingo. Como o nome indica, a maratona privilegiou a leitura, por escritores, de contos de autores gaúchos, de modo que a participação de Accioly, lendo seus próprios poemas, pode ser considerada uma honrosa exceção no evento.


  • Making-off do texto - Meu oitavo texto publicado no site do Café Colombo, em 19.11.08. Mantive aqui meu título original, já que a matéria saiu lá como Balanço da Feira do Livro de Porto Alegre. Embora tenha, sim, alguns números de vendas e público, a maior parte do texto segue reportando o destaque para os artistas pernambucanos na capital gaúcha. 
  • A cobertura que fiz da Feira para o Café Colombo irá encerrar na próxima publicação das Ovelhas Desgarradas. Em seguida, pretendo publicar também outros textos que fiz sobre a edição da Feira de 2008 e que divulguei na época em meus sites. 




quarta-feira, 9 de agosto de 2017

2º Boletim para o Café Colombo

(Ovelhas Desgarradas - 31)

Vamos ouvir hoje o segundo e último boletim que gravei para o programa Café Colombo. Ele foi ao ar no programa de 15 de novembro de 2008 e depois nunca mais esteve disponível em nenhum outro lugar, a exemplo do primeiro

Neste eu já estava mais à vontade, além de já contar com os programas adequados para editar áudio (embora o final dele ainda esteja "meio no facão", como dizemos no Sul). Não só eu gostei mais deste, como até a redação do programa elogiou a dinâmica. Além da minha fala, onde comentou episódio ligado à obra de Manuel Bandeira, ocorrido no Rio Grande do Sul na década de 1960, há uma sonora do escritor pernambucano Walmir Jordão (que viajou para Porto Alegre por conta própria, à parte da caravana oficial que seu Estado levou ao Sul). Jordão brincou com o fato, dizendo que, por ser autor de hai kais, não era considerado um "grande escritor).

A foto que ilustra o áudio é um frame do vídeo de uma entrevista que concedi ao programa Estúdio 36, da TV Com (Porto Alegre), em março ou abril de 2004.






terça-feira, 8 de agosto de 2017

Música popular nordestina em destaque na terra do chimarrão


(Ovelhas Desgarradas - 30)

Os músicos populares são, sem sombra de dúvida, as atrações que têm reunido maior público, dentro da programação que Pernambuco trouxe para a 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, que homenageia o estado nordestino.

Se é certo dizer que, no primeiro final de semana da Feira (1º e 2 de novembro), os cantadores Ivanildo Vilanova e Raimundo Caetano e o cantor e compositor Allan Sales foram muito aplaudidos, não há como comparar com o grande número de pessoas que acorreu à Praça da Alfândega, ao lado do estande de Pernambuco, para assistir as duas apresentações dos emboladores Caju e Castanha, nas noites de sábado e domingo, dias 8 e 9.

A dupla esbanjou bom humor e demonstrou grande habilidade e velocidade no raciocinar e no cantar, arrancando aplausos e gargalhadas do público gaúcho com suas emboladas falando das diferenças entre os ricos e os pobres, da mulher bonita pra mulher feia ou musicando divertidas histórias de cordel como a que fala do "Futebol no Inferno" - onde a final do campeonato é disputada entre os times de Satanás e de Lampião. O futebol também foi tema do improviso da dupla no show de domingo, ao abordar os dois grandes times do Rio Grande do Sul, Grêmio e Internacional - naturalmente, um dos números que mais empolgou o público presente.

Entre uma e outra embolada, Castanha contou divertidas histórias como a da participação da dupla numa edição do Rock in Rio (sim!). A idéia é que os emboladores fizessem uma breve apresentação no intervalo de duas bandas de rock. Como levaram uma das maiores vaias de sua carreira (com direito a uma hola de "E... fora!"), o que era pra ser breve passou a ser brevíssimo: após cantar uma música, Caju e Castanha agradeceram e saíram. Também falaram dos apuros que passaram ao viajar aos Estados Unidos para um show em Los Angeles: eles não falam inglês e quem os contratou não providenciou intérpretes...

No domingo, Caju e Castanha fizeram questão de saudar seus conterrâneos Ronaldo Aboiador e Toinho do Acordeon, que assistiam a seu show. Ronaldo e Toinho cantaram na Feira nas tardes de sábado e domingo, com um repertório em que predominava o aboio. Chegado ao Nordeste como uma herança ibérica, de raiz moura, servindo então basicamente para chamar o gado, o aboio se desenvolveu como um interessante estilo musical, que tem sido utilizado pelos compositores da região para cantar amores e fazer crítica social, como bem demonstrou Ronaldo em seus shows, encerrados com um aboio-improviso sobre a participação de Pernambuco na Feira. Em ambos os dias, também foi homenageado o Rei do Baião, Luiz Gonzaga - no sábado, Ronaldo cantou "Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Humberto Teixeira)/"A Volta da Asa Branca" (Luiz Gonzaga - Zé Dantas) e no domingo "O Xote das Meninas" (Luiz Gonzaga - Zé Dantas). Toinho também variou as músicas que solou nas duas apresentações: dia 8, tocou "Milonga para as Missões" (Gilberto Monteiro); dia 9, "Brasileirinho" (Waldir Azevedo).



  • Making-off do texto - Sétimo texto da minha cobertura do evento para o site do Café Colombo, publicado lá em 16.11.08
  • Como de hábito, o título definitivo foi dado pela redação do Café, o meu original era: MÚSICOS POPULARES SÃO DESTAQUE NA PROGRAMAÇÃO DE PERNAMBUCO NA FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
  • No original, havia um último parágrafo, que suprimi ao republicar aqui. Dizia: "O áudio dos improvisos está disponível no boletim de 12/11/08 da Agência de Notícias Brasileirinho, no link http://www.brasileirinho.mus.br/arquivoanb/121108.htm". Porém o Brasileirinho já saiu do ar e os áudios foram hospedados por mim no site MP3Tube, mais um dos serviços pré-Soundcloud que saíram do ar e levaram com ele todos os nossos arquivos. Se eu encontrar esses áudios nos meus HDs, vou incluí-los aqui. Eram um improviso de Ronaldo Aboiador e o Desafio do Gre-Nal, por Caju e Castanha. 
  • Leitores atentos poderão ter percebido que houve um pulo do quinto para o sétimo texto. E o sexto? Este realmente é um mistério. Posso dizer que ele se chama A poesia matuta de Jessier Quirino em Porto Alegre e foi publicado no site do Café Colombo em 14.11.08. Porém não consigo abrir o site (pedi a ajuda de uma amiga jornalista que igualmente não conseguiu). Os textos que tenho publicado aqui eu estou resgatando do meu Gmail, porém este texto não localizo de modo algum! Isso é que é Ovelha Desgarrada: a que se recusa terminantemente a ser resgatada! Se eu um dia o achar, ou por outra o site resolver seu problema de codificação, publicarei então esta Ovelha perdida. 

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Paulo Santos e a Revolução pernambucana de 1817


(Ovelhas Desgarradas - 29)

O jornalista pernambucano Paulo Santos afirmou, em debate realizado na 54ª Feira do Livro de Porto Alegre no domingo, 9 de novembro, que decidiu escrever sobre a Revolução de 1817 ocorrida em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte na forma de um romance histórico, que intitulou A Noiva da Revolução, porque esta era sem dúvida a melhor forma de transmitir a beleza da história desse movimento, inteiramente desconhecido do público atual. Seu companheiro de mesa, o escritor gaúcho Alcy Cheuiche, autor de diversos romances históricos, defendeu este gênero literário, juntamente com o cinema, como eficientes popularizadores da História, embora saiba das restrições feitas por historiadores:

- O próprio Exército francês apontou um capítulo do romance Os Miseráveis, de Vitor Hugo, como a melhor descrição da batalha de Waterloo, superando a infinidade de livros de historiadores que também trataram do tema.

Santos não demorou a descobrir as causas do quase completo esquecimento da Revolução, vista apenas de passagem nas aulas de História do Ensino Médio: foi um movimento que propunha, há quase 200 anos, a abolição da escravatura, a República, a igualdade entre todas as pessoas e a participação política das mulheres - este último item nem a Revolução Francesa ousara propor, em 1789. Por ser a primeira afronta direta à autoridade do monarca português desde a criação do reino de Portugal, no século 12, a memória da Revolução de 1817 foi abafada durante todo o período do Império (a família real brasileira descendia da portuguesa). Só com o advento da República sua história começou a circular mais amplamente, inclusive com a comemoração de seu centenário em 1917. Mais adiante, porém, o Estado Novo, ao pretender o Brasil um país unitário, cerceou o espaço para liberdades regionais ou sua lembrança, deitando novamente sobre o movimento uma sombra da qual ele só saiu quando do lançamento do livro de Paulo Santos, no ano passado.

Depois disso, rapidamente o tema voltou à ordem do dia: o governador Eduardo Campos decretou como Dia da Bandeira de Pernambuco a data de 2 de abril, como referência à criação da bandeira revolucionária, que segue sendo usada pelo Estado de Pernambuco. Em votação popular, o dia 6 de março, data do início do movimento, passou a ser o feriado de data magna do Estado. Além disso, Santos tem feito várias palestras sobre o tema para professores de História - e até para os integrantes do centenário Maracatu Leão Coroado, pois já havia se perdido no tempo a referência de que seu nome de batismo homenageava José de Barros Martins, um dos líderes da revolução, apelidado de Leão Coroado por ter cabelo comprido, menos na parte superior da cabeça, calva. Outro ponto digno de nota é que, em sua pesquisa, Santos encontrou vários textos de historiadores analisando aspectos ou conseqüências do movimento, mas não uma cronologia estabelecendo a seqüência correta dos fatos; elaborou uma e incluiu-a na obra.

A revolução iniciou porque o brasileiro Domingos José Martins, nascido no Espírito Santo, queria se casar com Maria Teodora, filha de um comerciante português estabelecido no Recife, que era contra a união. Maria tinha 17 anos em 1817 e namorava Domingos desde os 13. O livro de Santos tem duas linhas narrativas: a de Domingos, através de seu diário, e a de Maria Teodora, através das observações que faz sobre o diário do marido (é a Maria Teodora que Santos recorre ao escrever sobre episódios não totalmente esclarecidos, que desta forma aparecem como opinião da personagem). O casamento de ambos, uma semana após o início da revolução, também era em si revolucionário, ao ser uma união por amor numa época em que os pais, atendendo seus próprios interesses, é que escolhiam com quem os filhos se casariam. A união durou pouco, porém: Domingos foi preso e executado ao final do movimento, que durou 74 dias. Maria Teodora manteve-se viúva por três anos, até casar novamente com um marido com quem teve 27 filhos.

Cheuiche viu muita semelhança nos ideais da Revolução pernambucana e na Revolução Farroupilha, deflagrada no Rio Grande do Sul em 1835, que também teve uma célebre história de amor: a de Anita e Giuseppe Garibaldi. A catarinense Anita abandonou o marido para unir-se ao italiano Garibaldi, lutando ao lado dele em dois continentes - na Europa, tinham como causa a unificação da Itália. Outra ligação entre os movimentos é uma curiosidade: no Rio Grande do Norte, os revoltosos perderam o controle de Natal para os portugueses e transferiram sua sede para o interior, adotando o nome de República de Porto Alegre (porque, por coincidência, a cidade escolhida para capital tinha o mesmo nome da capital gaúcha). Cheuiche lançou a idéia de realizar um simpósio entre estudiosos gaúchos e pernambucanos para estudar as semelhanças entre os dois movimentos revolucionários.

O fato mais curioso levantado por Santos liga o ex-imperador Napoleão Bonaparte ao movimento pernambucano. O embaixador da República de 1817 nos Estados Unidos, Cruz Cabugá, queria aproveitar a experiência de soldados franceses exilados na América do Norte e propôs o seguinte: eles iriam para Recife lutar com Domingos Martins e Leão Coroado, e em troca um destacamento pernambucano iria libertar Napoleão na ilha de Santa Helena! Apenas quatro soldados aceitaram a proposta, mas nenhum navio chegou a sair para Santa Helena porque os franceses só chegaram ao Recife quando a revolução já havia sido derrotada e eles foram imediatamente presos.



  • Making-off do texto - Meu quinto texto publicado no site do Café Colombo, em 12.11.08. O título que usei aqui é o mesmo que o site colocou, resumindo meu título original:

PAULO SANTOS RECUPERA MEMÓRIA
DA REVOLUÇÃO PERNAMBUCANA DE 1817

  • Como de hábito, recebeu uma breve introdução dos redatores do site: Do nosso correspondente na Feira do Livro de Porto Alegre, o jornalista especializado em cultura Fabio Gomes. 


sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Luiz Melodia 2011

Não conheci pessoalmente o cantor e compositor Luiz Melodia, falecido na manhã de hoje aos 66 anos, nem estive em nenhum show seu - mesmo tendo divulgado um deles. Falo de sua participação no Baile Livre, Leve e Solto, realizado em Macapá em 7 de maio de 2011 pela cantora Juliele, de quem eu era assessor de imprensa na época. Gravando na época o segundo disco, a artista promoveu na época uma série de Bailes, onde recebia grandes nomes da MPB, tanto em Macapá, quanto em Belém. 

Curiosamente, a participação de Melodia neste show em Macapá gerou uma série de pautas que o tornaram nome frequente no meu blog Som do Norte até o final de 2011. O blog Jornalismo Cultural só entrou no ar em agosto daquele ano, então na ocasião o Som do Norte era meu principal veículo de jornalismo cultural, por isso eventualmente eu publicava lá pautas que seriam mais adequadas para cá. A seguir, um compacto do que escrevi sobre Melodia naquele ano, agrupado por temas. 


  • Melodia no Baile Livre, Leve e Solto

No release que anunciou a primeira edição do Baile em Belém, realizado em 2 de abril de 2011, adiantei que o Baile seguinte em Macapá seria no começo de maio e teria Luiz Melodia como convidado. A data do evento - 7 de maio - foi noticiado por Manoel Cordeiro, então diretor musical de Juliele, via Twitter em 17 de abril; o maestro também informou que seu filho Felipe Cordeiro seria a outra participação especial. 

Ao publicar, em 4 de maio, o release do Baile do dia 7, permiti-me fugir da fórmula mais biográfica que habitualmente eu fazia em meus textos de assessoria, e procurei mostrar o que cada artista escalado para a noite tinha em comum com o tema do evento. Abaixo, um trecho:

Neste quarto Baile Livre, Leve e Solto, o terceiro em Macapá (houve outro em Belém, em abril), estarão reunidos três artistas que têm em comum o fato de, em algum momento da carreira, terem se permitido:
  • Juliele, que depois de uma breve temporada de shows quando lançou seu primeiro CD, em 2007, recentemente parou de advogar e permitiu-se assumir a música como atividade principal
  • Felipe Cordeiro, que depois de um início de carreira onde fazia canções dentro do cânone clássico na MPB, e atuava principalmente como instrumentista e compositor, permitiu-se incorporar elementos kitsch e pop em sua arte, passando também a cantar
  • Luiz Melodia, que depois de gerar uma certa estranheza no início de carreira (afinal, era do morro carioca de São Carlos, onde surgiu a pioneira Escola de Samba Deixa Falar, mas não fazia samba), recentemente permitiu-se fazer lindos discos de samba.
Permita-se curtir muito este Baile Livre, Leve e Solto!

Na época eu residia em Belém, então nem sempre a produção de Juliele bancava minha ida a Macapá para acompanhar os Bailes. Desta forma, foi a jornalista Mariléia Maciel que redigiu o texto informando a chegada de Melodia e Felipe a Macapá, em 6 de maio. 

Para reportar o que teria sido o show, recorri a uma seleção de tweets e posts no Facebook, que publiquei já no dia seguinte. 

***

  • Melodia e a CPI do Ecad


Durante a estada em Macapá, Melodia encontrou-se com o senador Randolfe Rodrigues, que na ocasião estava dando início à CPI que investigou o ECAD e acabou gerando uma série de mudanças na arrecadação e distribuição dos direitos autorais no Brasil. O apoio do cantor à iniciativa do parlamentar foi notícia em dois blogs amapaenses, repercutida em 9 de maio no Som do Norte

A maior repercussão em especial foi de um parágrafo do post "CPI do Ecad", publicado no blog de Alcinéa Cavalcante, e reproduzida no meu texto: 
Melodia parabenizou o senador amapaense pela iniciativa e se colocou à disposição dele para contribuir com a CPI. Contou que a última vez que recebeu créditos do Ecad foi nos anos 80. De lá pra cá não sabe para onde vai o dinheiro que é recolhido pela execução de suas músicas. Vale lembrar que de norte a sul, suas músicas, como “Pérola Negra” e “Estácio, Holly Estácio” são tocadas há décadas todos os dias.

A mesma informação foi incluída em texto de Gisele Barbieri, assessora de Randolfe, sobre a mobilização para criação da CPI, texto que publiquei no dia 10

O ECAD sem demora contestou a afirmação, enviando no dia 13, através de sua assessoria, um comunicado que reproduzi na íntegra no dia seguinte. 

Busquei contato então com a assessoria de Melodia para que a questão fosse esclarecida - nessa busca, cheguei inclusive a falar por telefone com o próprio senador Randolfe. No dia 16, recebi da assessora do artista, Jane Pinto Reis, e-mail assinado pelo próprio Melodia, e que fora enviado por ele à associação à qual pertence, a Abramus:

"Não desmentindo o senador e apoiando a CPI por uma melhora geral de distribuição dos direitos autorais de uma forma justa para todos, venho esclarecer que em momento algum disse não estar recebendo os meus direitos de execução pública ao longo dos últimos anos. Só comentei o fato que é sabido de que tem que haver uma melhor distribuição. Coloco a Abramus, minha sociedade desde 2003, à disposição para esclarecimentos, e espero que de nenhuma forma esse mal-entendido atrapalhe o trabalho do senador Randolfe.

Luiz Melodia"
***

  • Melodia no 2º CD de Juliele


A terceira e mais extensa pauta que fiz ligada a Melodia em 2011 se relaciona à inclusão de uma canção sua no disco que Juliele estava gravando na ocasião. Noticiei em 10 de maio que, na passagem por Macapá, Melodia entregara à cantora amapaense uma parceria sua com Renato Piau. Cheguei a dizer que a canção seria gravada em dueto por Luiz Melodia e Juliele. A gravação inclusive interromperia o processo de masterização do disco, que já era considerado concluído pela cantora e seu maestro Manoel Cordeiro.

O dueto porém já passou a ser dúvida em seguida (no release de 16 de maio informando a viagem de Juliele ao Rio para a gravação, eu falei que ela "talvez faça dueto com o próprio Melodia na faixa"), para ser enfim descartado já no boletim seguinte, de 19 de maio, que confirmou a viagem da cantora para o Rio no dia seguinte; neste texto, também, foi revelado o título da composição: "Sonho Real". 

Gravação concluída, o lançamento do CD chegou a ser anunciado (em 27 de maio) para sair até início de julho. No dia 28, o produtor executivo do disco, Carlos Lobato, me telefonou e reproduziu a gravação para que eu escutasse. Comentei no blog, minutos depois:
Embora seja evidente que ouvir uma canção por telefone não é exatamente o ideal, foi sim possível sentir o clima romântico da canção, uma letra em que um eu-lírico feminino se declara a seu amado. O blues que seria o andamento original da música ganhou ares de bolero no arranjo do maestro Manoel Cordeiro. 

Em julho, como o CD ainda não estava pronto para ser lançado, produzi um release que chegou a ser publicado em vários sites do país, creio que muito em função da minha sacada de destacar importantes nomes da MPB em seu título - Novo CD de Juliele terá inéditas de Luiz Melodia e Evaldo Gouveia; reproduzi-o no Som do Norte em 13 de julho. 

Em 9 de outubro, apresentei aos leitores do blog uma prévia do CD, justamente com o pré-lançamento de "Sonho Real". Infelizmente, naqueles tempos pré-Souncloud, hospedei o áudio no Goear, um site que era bom mas já foi desativado. 

Por fim, em 19 de dezembro, noticiei o show de lançamento do CD, intitulado Balé de Luz e tendo "Sonho Real" como sexta faixa, em Macapá.



Quem Forma o Leitor Adulto?


(Ovelhas Desgarradas - 28)

Os escritores pernambucanos André Neves e Lenice Gomes abriram o recital Manuel Bandeira - Eternamente Estrela, realizado na Tenda de Pasárgada, na quarta, 5 de novembro, com o poema "Trem de Ferro". Justificaram depois que a escolha se deveu ao refrão "pouca gente pouca gente pouca gente" - e, realmente, o público que prestigiava o recital não era muito numeroso. Isto, aliás, tem acontecido com boa parte dos eventos da parte adulta da Feira, salvo quando o autor ou o tema abordado são muito célebres.
Não é de espantar que isso tenha causado estranheza a autores que geralmente trabalham com o público infantil: devido ao trabalho de formação de leitores infantis, realizado continuadamente em escolas, os eventos da área infantil da Feira sempre têm grande público, informado e interessado. O mesmo não ocorre em relação ao público adulto.

Vamos pegar o caso específico de Pernambuco, estado convidado da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre. Embora há praticamente um ano a Câmara Riograndense do Livro, organizadora da Feira, tivesse proposto a homenagem, logo aceita pelo governo pernambucano, nada se fez ao longo deste período no sentido de promover e divulgar a literatura daquele estado junto ao público gaúcho. Assim, as pessoas que têm comparecido aos recitais e debates com autores como Homero Fonseca, Ronaldo Correia de Brito, Fernando Monteiro, Paulo Santos  e outros são os que já conheciam, por conta própria, suas obras, ou mesmo os que tiveram seu interesse despertado a partir da homenagem na Feira. Até aí, tudo bem, se fazem presentes os leitores interessados, mas, efetivamente, sem um trabalho prévio de divulgação não há como esse número ser muito expressivo.



  • Um dos poucos que manteve o mesmo título que coloquei, recebendo como de costume uma breve introdução da redação do site: Do nosso correspondente na Feira do Livro de Porto Alegre, Fabio Gomes, uma interessante análise sobre o evento e o problema de platéias. 
  • Este foi um "extra" que mandei pro site, não estava previsto no lote inicial solicitado, mas me pareceu relevante abordar a questão, então escrevi e mandei, colocando no título do e-mail a informação de que se tratava de um texto de opinião. 
  • A questão abordada me fez escrever para a Cia. de Eventos, responsável (ao menos na época) pela Bienal do Livro de Pernambuco, oferecendo meus serviços no sentido de divulgar escritores gaúchos no estado nordestino, tendo em vista a homenagem prevista para o Rio Grande do Sul na 7ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, em outubro de 2009. Chegamos a trocar alguns e-mails, mas acabei não sendo contratado. 


quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Boletim para o programa Café Colombo


(Ovelhas Desgarradas - 27)

Quando acertei com o programa Café Colombo, do Recife, especializado em literatura, fazer a cobertura da participação de Pernambuco na Feira do Livro de Porto Alegre 2008, um dos pedidos da produção era de que, além de textos para o site, eu enviasse boletins gravados em áudio, para serem veiculados no rádio. Mais exatamente no programa que vai ao ar aos domingos (desde 2002!) na rádio Universitária FM.


Fiz então dois boletins, um pouco precariamente porque eu não trabalhava com áudio na época (no ano seguinte, já tendo no ar o Som do Norte, conheci e passei a utilizar várias ferramentas de edição de áudio que em 2008 eu ainda ignorava). Os boletins chegaram a ser veiculados no programa, e desde então não estavam mais disponíveis em lugar algum. Nem no site do Café, que vem digitalizando todo o seu acervo, porém ainda não disponibilizou as edições de 2008. Isso é que é Ovelha Desgarrada, hein!

O áudio segue como o encontrei no meu e-mail, sem edição alguma. Foi gravado em 6.11.08 e veiculado no programa do dia 9.





quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Filme raro sobre Gilberto Freyre exibido em Porto Alegre (Ovelhas Desgarradas - 26)

A exibição do documentário em curta-metragem Gilbertianas Brasileiras, de Geneton Moraes Neto, nesta quarta, 5 de novembro, no Cine Santander Cultural (Porto Alegre) pode ser considerada histórica. Rodado em 1984, o filme fora exibido apenas uma única vez no Recife, logo após ficar pronto; em seguida, seu diretor mudou-se para a França, iniciando uma longa carreira no jornalismo que o levou a atualmente ser um dos editores do Fantástico (TV Globo). A sessão em Porto Alegre foi comentada pelo escritor e jornalista Homero Fonseca, ex-colega de Geneton na faculdade. Ex-diretor editorial da revista Continente Multicultural, Homero estava na capital gaúcha desde segunda-feira participando da 54ª Feira do Livro, e retornou ao Recife na manhã desta quinta.

Em Gilbertianas Brasileiras, as mesmas perguntas são feitas pela atriz Marilena Breda ao cantor e compositor Gilberto Gil e ao sociólogo Gilberto Freyre, sem que ambos interajam entre si ou com a atriz ao responder sobre temas como a ditadura militar, a juventude, a maconha ou a perguntas no estilo "o Brasil tem cura?". Homero Fonseca destacou que, mesmo considerando que na época um entrevistado tinha o dobro da idade do outro (Freyre estava com 84 anos, Gil com 42), as respostas de ambos são surpreendentemente parecidas. Ambos pareciam (para usar suas palavras) estar "pisando em ovos", muito preocupados com o caráter de "depoimento para a posteridade" que um filme desse tipo geralmente assume. Fonseca viu isto mais forte na participação de Gil: ao final, por exemplo, quando cabia a um opinar sobre o outro, Freyre classificou Gil como um grande artista, com personalidade artística definida; enquanto Gil disse ser Freyre uma pessoa "acima da mediocridade".

A sessão iniciou com outro curta sobre Gilberto Freyre: O Mestre de Apipucos, um dos primeiros trabalhos de Joaquim Pedro de Andrade, rodado em 1959 para compor um único filme com O Poeta do Castelo (documentário sobre Manuel Bandeira). O próprio diretor, porém, logo optou por desdobrar o que seria um média em dois curtas independentes. Em O Mestre..., mostra-se o que seria um dia na rotina do escritor Gilberto Freyre em sua casa no bairro recifense de Apipucos. No caso, uma rotina "produzida", já que Freyre encena - junto com sua esposa e os empregados da casa - os vários momentos de seu dia-a-dia. O texto que se ouve é do próprio Freyre, narrado por ele mesmo.

Os filmes tiveram exibição única ontem. Os  interessados em conhecer mais a obra de Gilberto Freyre podem visitar, também no Santander Cultural, a exposição Gilberto Freyre - Intérprete do Brasil, aberta à visitação até 15 de fevereiro de 2009.  


  • Making-off do texto - Minha terceira colaboração para o site do Café Colombo, publicado lá com o título "Gilbertinianas [sic] de Geneton Moraes Neto", em 6.11.08. Na breve introdução ao texto, o site me qualificou como "intrépido repórter". 
  • Geneton Moraes Neto, pernambucano do Recife, faleceu em 22 de agosto de 2016, aos 60 anos. 



terça-feira, 1 de agosto de 2017

Feira do Livro de Porto Alegre homenageia Pernambuco (Ovelhas Desgarradas - 25)

Pernambuco é o estado convidado da 54ª edição da Feira do Livro de Porto Alegre, que inicia nesta sexta e encerra no dia 16 de novembro. Estão confirmadas as presenças dos escritores Homero Fonseca, Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito, Fernando Dourado, Luiz Arraes, Fernando Monteiro, Miró, Lenice Gomes, Marco Polo, Lucila Nogueira, Marcus Accioly, Luzilá Gonçalves, Paulo Santos e Jessier Quirino (paraibano radicado em Pernambuco), além dos autores de literatura infantil Elma, André Neves, Luciano Pontes e Tati Móes. Integra ainda a caravana outro paraibano radicado em Pernambuco, Ariano Suassuana, que irá apresentar junto com o Grupo Arraial sua aula-espetáculo Nau, no Cais do Porto, no sábado, 1º/11. Também participam da caravana artistas como Caju e Castanha, Ivanildo Vila Nova, Allan Salles e a Orquestra Popular da Bomba do Hemetério, animando os finais de semana no Espaço Pernambuco Nação Cultural.



A vinda da caravana foi confirmada na tarde desta quinta, com a aprovação dos recursos solicitados pela Câmara Riograndense do Livro (CRL), organizadora da Feira, através da Lei de Incentivo à Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. Caso os recursos (da ordem de R$ 561.815,85) não fossem aprovados, estimava-se a necessidade de cancelamento de quase um terço dos eventos previstos. O orçamento da Feira gira em torno de R$ 2,4 milhões; R$ 850 mil são aportados via Lei Rouanet e o restante vem de patrocinadores e associados da CRL.

Fora da caravana, está garantida também a presença de Marcelino Freire, que ministra oficina de narrativas breves. Várias mesas temáticas irão debater o legado de Manuel Bandeira, falecido há 40 anos, e de autores pernambucanos como Osman Lins e João Cabral de Melo Neto. O sambista Bezerra da Silva, nascido no Recife, será tema de um sarau cultural.

Junto à praça, ocorrem também eventos paralelos como as exposições Gilberto Freyre - Intérprete do Brasil, sobre a vida e obra do autor de Casa-Grande e Senzala, e Ariano Suassuna: Iluminogravuras, a estética armorial, sobre o movimento criado pelo autor de Auto da Compadecida. Ambas as mostras poderão ser visitadas no Santander Cultural até 15 de fevereiro de 2009.

A Feira do Livro de Porto Alegre acontece anualmente na Praça da Alfândega, centro da capital gaúcha, desde 1955, sendo considerado o maior evento do gênero realizado a céu aberto na América Latina. O acesso a todos seus eventos é gratuito. No ano passado, foram vendidos na Feira 459.521 livros e realizadas 712 sessões de autógrafos.

Embora a Feira seja anual, não é em todos os anos que há estado convidado - em 2009, por exemplo, haverá um país homenageado, a França, em função das comemorações do Ano da França no Brasil. Igualmente nem sempre os critérios que levam à definição do estado ou país a ser festejado na praça são divulgados. A escolha de Pernambuco é justificada pela CRL em texto publicado na Revista da Feira do Livro pelas questões que aproximam gaúchos e pernambucanos, citando especificamente a valorização das tradições.


  • Making-off do texto - Por aquelas coisas que a internet apronta com a gente e não têm explicação, eu não achava este texto, que foi minha primeira colaboração para o site do Café Colombo, de jeito nenhum, então acabei publicando ontem aqui o segundo texto. Só depois disto encontrei o primeiro (Murphy explica). 
  • Este texto foi publicado no site do programa em 1.11.2008 com o título Café Colombo na Feira do Livro de Porto Alegre, e uma breve introdução: 

"Este ano a prestigiada Feira do Livro de Porto Alegre, em sua 54ª edição, faz uma homenagem aos autores pernambucanos. E o Café Colombo está lá para ver, ouvir e reportar o evento com o correspondente Fabio Gomes, jornalista especializado em cultura e editor do site www.jornalismocultural.com.br."






segunda-feira, 31 de julho de 2017

Pernambuco na Feira do Livro de Porto Alegre (Ovelhas Desgarradas - 24)

A identidade entre os povos pernambucano e gaúcho tem sido destacada em boa parte dos eventos da programação da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, que tem Pernambuco como estado convidado.

No evento oficial de abertura, na noite da sexta, 31 de outubro, o Secretário Especial de Cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna, convidou o Rio Grande do Sul para ser o estado homenageado da 7ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, a se realizar no Recife de 2 a 12 de outubro de 2009. O convite foi logo em seguida reforçado pelo diretor da Cia. de Eventos, Rogério Robalinho, e imediatamente aceito pela governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius. Robalinho inclusive usou em seu convite um trecho da letra do Hino de Pernambuco - referindo-se à "terra dos altos coqueiros e das águas quentes" -, sem saber que uma das surpresas do cerimonial era justamente a interpretação do hino pernambucano pela cantora Fernanda Souza e um grupo de instrumentistas porto-alegrenses, caracterizados como uma banda de forró.

Já no sábado, durante a abertura de sua aula-espetáculo Nau, Ariano Suassuna (foto) contou quatro "causos do Romualdo", um dos personagens do escritor gaúcho Simões Lopes Neto, considerado um precursor do regionalismo, de quem o autor do Auto da Compadecida declarou-se um leitor apaixonado.

Os repentistas Ivanildo Vila Nova e Raimundo Caetano também homenagearam Mário Quintana, durante suas duas apresentações na tarde do sábado, 1º, e na noite do domingo, 2, no Espaço Pernambuco Nação Cultural, ao lado do estande de Pernambuco. No sábado, grande número de pessoas aplaudiu os violeiros, principalmente quando o tema dos versos eram Grêmio e Internacional. Houve dois improvisos sobre motes sugeridos pela platéia; um deles, Patativa do Assaré foi um gênio cearense; o outro foi sobre a Feira de Caruaru, terra de Ivanildo - e também da pessoa que pediu o improviso, o militar Michael Araújo, pernambucano há três anos servindo em Porto Alegre. Michael ficou surpreso ao saber da homenagem da Feira do Livro a Pernambuco, da qual tomou conhecimento no próprio sábado: "Achei muito legal, é importante mostrar nossa cultura para os gaúchos".

No domingo, o público porto-alegrense pôde acompanhar ainda duas apresentações do cantor e poeta Allan Sales,  cearense radicado no Recife. Além de citar em algumas de suas músicas ícones gaúchos como Bento Gonçalves e Teixeirinha, interpretou "Vira, Virou", de Kleiton e Kledir. Allan também declamou um poema inédito sobre a capital gaúcha, no estilo "nos dez de galope na beira do mar", que escreveu a bordo do avião que o levou de Recife a Porto Alegre, e autografou seu cordel recém-lançado Gaúcho e Pernambucano, Baluartes da Nação, ilustrado por J. Borges. Uma reprodução das gravuras de capa e contracapa, bem como suas matrizes, estão expostas no estande de Pernambuco.



  • Making-off do texto - Em 2008, fui correspondente do programa de rádio Café Colombo, de Recife, por uma quinzena - mais exatamente durante a realização da Feira do Livro de Porto Alegre, que naquele ano homenageava Pernambuco. Entrei em contato com a produção do programa, especializado em literatura, em setembro, e quase ao final de outubro chegamos a um acerto. Foi a única vez em minha carreira de jornalista cultural que fui pago para fazer um trabalho como free-lancer que não se resumiu a um texto - o fato de ter ocorrido mostra que isso não chega a ser impossível de acontecer, porém o fato de ter sido uma só vez ao longo de mais de 25 anos comprova que sonhar em se manter sendo free-lancer nesta área é utópico. 
  • Esta foi minha segunda matéria publicada no site do programa, em 3.11.08. O título definitivo foi dado pela equipe do Café Colombo. Originalmente, o título era maior e tinha uma linha de apoio:

IDENTIDADE ENTRE PERNAMBUCO E RIO GRANDE DO SUL
EM DESTAQUE NO INÍCIO DA FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
RS será o estado convidado da VII Bienal do Livro de Pernambuco


  • Falei mais demoradamente da aula-espetáculo de Ariano Suassuna, mencionada no terceiro parágrafo, num boletim também de 3.11, incluído posteriormente no artigo Três momentos com Ariano Suassuna