quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Bastidores: Minha Carta à Revista Diapason sobre o "Dossiê Villa-Lobos"


São raras as ocasiões em que o leitor tem acesso a bastidores do fazer do jornalismo cultural. É quase como se a matéria chegasse pronta à página do jornal ou revista, ao transmissor de rádio ou TV, ao site da internet.

Um momento em que esse processo foi exposto encontra-se no livro Caetano - Esse Cara, de Heber Fonseca (Revan, 1993): no capítulo Midas (versus mídia) - Uma entrevista em "Veja", Heber transcreve uma entrevista de Caetano Veloso a Antônio Chrysóstomo, publicada em 16 de junho de 1977, seguida da carta do compositor questionando a edição de suas declarações, um relatório de Chrysóstomo a seus editores Carmo Chagas e Zuenir Ventura e, por fim, a transcrição integral das fitas que registraram a conversa entre Caetano e Chrysóstomo. Não, não parece grande, É grande - o capítulo ocupa mais de 30 páginas do livro. Recomendo.


O caso em questão é bem mais singelo. Trata-se da edição da carta que enviei em 11 de julho de 2006 à revista Diapason Brasil, em função de incorreções que encontrei nas matérias do "Dossiê Villa-Lobos" publicado em seu nº 3 (julho/agosto de 2006); minha correspondência, devidamente editada, foi incluída na seção "Cartas" do nº 4 (setembro/outubro). Quero deixar claro que, ao contrário do que ocorreu no exemplo anterior, em que Caetano se queixava da edição, eu não a contesto, apenas quero aproveitar a oportunidade para mostrar ao leitor o "outro lado" do jornalismo cultural. Publiquei este comparativo pela primeira vez no antigo site Jornalismo Cultural em 2007, quando possivelmente a revista já nem circulava mais. Seu último número a chegar a Porto Alegre foi justamente o 4, com Beethoven na capa, em que minha carta saiu. O site que era informado na publicação também já está fora do ar. 

Mas enfim, vamos lá. O "Dossiê Villa-Lobos" abrangia seis matérias (entre ensaios e entrevistas), mais discografia, cronologia e biografia, indo das páginas 26 a 51 do nº 3 de Diapason Brasil, a versão brasileira, editada em São Paulo, da revista francesa Diapason, especializada em música de concerto.

Para melhor entendimento da edição, a cada parágrafo de minha carta original, segue-se o trecho publicado no nº 4 da revista, em negrito itálico:



"Prezados Senhores, na qualidade de jornalista cultural especializado em música, venho cumprimentá-los pela excelente edição nº 3 de sua revista Diapason, tanto pelo Dossiê Villa-Lobos, quanto pela raríssima difusão de conhecimento sobre o jornalismo musical russo.

Venho cumprimentá-los pela excelente edição nº 3 da revista Diapason, tanto pelo Dossiê Villa-Lobos, quanto pela raríssima difusão de conhecimento sobre o jornalismo musical russo.

Acerca do Dossiê Villa-Lobos, tenho algumas observações a fazer:

Algumas observações:

- Sobre o artigo “O Verdadeiro Tropicalista” (Gilberto Mendes): com certeza a placa afixada na Place St. Michel, 13, é muito honrosa, mas não corresponde à verdade. Villa-Lobos não viveu nesta casa, nem mesmo em Paris, “de 1923 a 1930”, como consta na placa. Em sua primeira estada na capital francesa, em 1923-24, Villa hospedou-se primeiramente na residência de amigos; de 1924 a 27, permaneceu no Brasil. Em 1927, retornando a Paris, com intenção de permanecer, morou então em tal endereço. Dali só voltaria ao Brasil por breve período em 1929. Sua estada aqui em 1930 também seria provisória, não tivesse Villa aproveitado a chegada de Getúlio Vargas ao poder para apresentar ao novo presidente seu plano de educação musical.

Sobre o artigo “O Verdadeiro Tropicalista” (Gilberto Mendes): com certeza a placa afixada na Place St. Michel, 13, é muito honrosa, mas não corresponde à verdade. Villa-Lobos não viveu nesta casa, nem mesmo em Paris, “de 1923 a 1930”, como consta na placa. Em 1923-24, hospedou-se na residência de amigos; e de 1924 a 1927, permaneceu no Brasil.

- Sobre o artigo “O Mito: ‘A Música Brasileira Começa Comigo’” (Maria Alice Volpe): na referência à classificação das obras de Villa que Adhemar Nóbrega atribuía ao próprio compositor, só são mencionados quatros grupos dos cinco referidos. O primeiro e o segundo estão corretos; já o citado por Volpe como terceiro é na verdade o quarto, e o que aparenta ser o quarto (“em controle total do universalismo”) se constitui no quinto. Falta o terceiro, “com transfigurada influência folclórica”, em que os destaques são os “Choros”, “A Prole do Bebê” nºs 2 e 3 e o “Rudepoema”.

(Omitido da edição)

- Há uma contradição sobre o caráter das composições de Villa-Lobos na época da primeira viagem à Europa. Enquanto em “A Dimensão Humana da Criação Artística”, Paulo Renato Guérios afirma que Villa só adotaria procedimentos modernos em sua composição após ouvir Stravinski em Paris, Rodolfo Coelho de Souza nos dá conta, em “O Pelé da Música Brasileira”, do conhecimento de Villa do panorama europeu através de seu contato com Alberto Nepomuceno e Frederico Nascimento. Afora esse contato referido, Coelho de Souza menciona bem a propósito que o Brasil recebia freqüentemente orquestras e elencos de ópera europeus, não só durante todo o período anterior à 1ª Guerra Mundial (foi justamente a ausência dessas orquestras que oportunizou o primeiro concerto com obras de Villa, em 1915), como também em parte do entreguerras, tornando-se raro desde então. Se a obra de Villa em 1918 fosse semelhante ao que um europeu de duas décadas anteriores faria, ela não teria despertado interesse nenhum em Arthur Rubinstein. O próprio “Noneto” foi escrito no Brasil, em 1923, antes da viagem.

(Omitido da edição)

- Jornalisticamente falando, lamento a omissão do crédito do entrevistador de Eero Tarasti. Aliás, a matéria parece inconclusa, pois na última pergunta o entrevistador indaga sobre semelhanças e diferenças entre Sibelius e Villa-Lobos e Tarasti apenas fala rapidamente sobre semelhança.

Lamento a omissão do crédito do entrevistador de Eero Tarasti.

- Em relação à “Bibliografia”, discordo de que o livro de Lisa Peppecorn seja uma “introdução decente”. Ela revela boa pesquisa, um certo apuro na apresentação do material, mas escorrega feio em atribuir a Villa uma (digamos) “falsidade ideológica” de anunciar em programas peças recém-compostas como se fossem de muitos anos antes (a “Suíte Popular Brasileira” para violão, que todos sabem ser de 1912, é jogada por Peppecorn para 1928!). O motivo por ela apresentado para isto seria até certo ponto elogioso: ela acredita que Villa poderia compor a qualquer momento imitando qualquer fase anterior sua. Pena que isso, além de negar a evolução natural do compositor, não seja em absoluto verdade. Recomendo a leitura do livro de Peppercorn apenas depois que o interessado já tenha tido contato com outras obras sobre Villa, de forma a mais facilmente separar o que é chute do que é real – e, por favor, há coisas verdadeiramente muito boas no livro.

Discordo de que o livro de Lisa Peppecorn seja uma “introdução decente”.

- Na “Cronologia”: o apelido da tia de Villa era Zizinha, e não Fifina; as “Bachianas Brasileiras nº 4” são de 1930; já as “Bachianas” 8 são de 1944.

Na “Cronologia”: o apelido da tia de Villa era Zizinha, e não Fifina; as “Bachianas Brasileiras nº 4” são de 1930; já as “Bachianas” 8 são de 1944.

Aproveito para sugerir a leitura de meus artigos sobre Villa-Lobos veiculados no site Brasileirinho - Villa-Lobos e Bachianas Brasileiras: Villa-Lobos e a Influência de Bach -, em que abordo muitos dos aspectos tratados no Dossiê.

(Omitido da edição)

Fabio Gomes"

A revista respondeu deste modo minha carta:

"Obrigado pelas correçõesO autor da entrevista com Eero Tarasti é o editor da Diapason brasileira."

A omissão mais grave da publicação de minha carta é a correção da classificação das obras de Villa pelo próprio, em que o leitor de Diapason Brasil é levado a crer que eram 4 grupos, e não 5. O editor de Diapason Brasil, autor da entrevista com Tarasti, é João Marcos Coelho. O livro de Lisa Peppercorn mencionado é Villa-Lobos (tradução de Talita M. Rodrigues), lançado pela Ediouro em 2000. Além das matérias que citei, o "Dossiê" incluía ainda "A Riqueza da Ambigüidade", de Vladimir Safatle.


  • Não fui o único a ficar insatisfeito com o Dossiê. Na mesma página, logo após a minha, a revista publicou a seguinte carta, desta feita admitindo claramente a edição do conteúdo:





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