quinta-feira, 27 de abril de 2017

Por que menos não é mais, e sim melhor (Ovelhas Desgarradas - 14)

Reprodução do filme 'A Vida Secreta de Walter Mitty' - Samuel Goldwyn Films


Uma das frases mais repetidas da atualidade é a famosa "menos é mais". Quem usa esta antítese quer dar a entender que está menos apegado a coisas (em geral) ou a pessoas (mais raramente), e que isto é positivo em sua vida. Ok, vamos lá, eu mesmo usei muito esta frase, até assistir em DVD, em fevereiro do ano passado, A Vida Secreta de Walter Mitty, produção norte-americana de 2013, dirigida e estrelada por Ben Stiller. 

O filme recebeu críticas diversas, ora sendo exaltado como um poderoso impulso para as pessoas deixarem suas rotinas medíocres e se abrirem para altos propósitos, ora sendo execrado como um equivalente cinematográfico da literatura de auto-ajuda. Creio que ambos os lados têm um pouco de razão, portanto se fosse escrever uma resenha do filme o recomendaria com ressalvas. Mas este texto não é para analisar o filme como um todo, e sim convidar você a pensar a partir do frame que ilustra o post.

Nesta cena, Mitty (Stiller), de costas, toma um café em Los Angeles com Todd Maher (Patton Oswalt), de camisa florida. Todd é um funcionário do site de relacionamentos eHarmony (que existe na vida real), que telefonou várias vezes a Mitty para ajudá-lo a completar o perfil que ele. Mitty, criara no site (sim, isso é altamente improvável, é uma das ressalvas que tenho ao filme). Com diversas viagens curtas ao exterior num período breve de tempo, Mitty é detido pela polícia numa escala aérea em L.A. Os tiras perguntam se ele conhece alguém na cidade, e ele indica Todd, que vai resgatá-lo. De lá, saem para um café onde começam a falar da vida e lá pelas tantas Todd profere a frase que desde então substituiu para mim em definitivo a antiga 'menos é mais': Menos é melhor.

E por que dizer que Menos é melhor é preferível a falar que menos é mais? Penso tratar-se de uma questão de coerência de pensamento. Vivemos numa civilização que idolatra o 'mais', num arco que você pode estender desde quem tenha mais dinheiro até quem atinge mais visualizações no YouTube, ao infinito e além. É a visão acumuladora que estrutura nossa sociedade ocidental capitalista. 

Então no momento que você diz que 'menos é mais', você dá uma conotação positiva à palavra 'mais', gerando a meu ver uma ambiguidade. Você exalta ter menos CDs acumulados na estante, por exemplo, mas se refere a este fato como se ele fosse 'mais', ou seja, justamente o termo ligado à acumulação vista como positiva. Numa palavra: estamos quantificando o "menos".

Ao passo que quando dizemos 'menos é melhor', empregamos uma palavra que expressa um avanço, uma melhoria, enfim. Passamos então a qualificar, e não mais quantificar, o 'menos'. Esta me parece a opção mais lógica; por isso, digo que Menos é melhor. 

E você? Para você, menos é mais ou é melhor? Concorda ou discorda do que eu disse? Convido a todos para seguirmos o debate na caixa de comentários.

  • Making-off do texto - Meu 46º texto publicado no LinkedIn, teve originalmente o título "Por que menos seria mais?". Postado em 4 de julho de 2016, foi acessado 22 vezes até hoje, na maioria por leitores de Macapá, Belém e Rio de Janeiro; nenhum deles aceitou o convite feito no final do texto, que saiu do ar lá no LinkedIn sem ter recebido comentários. 
  • Atualização 4.6.17, 0h18: Encontrei agora nas Lembranças do Facebook publicação minha de um ano atrás mencionando este texto como o primeiro de mais uma série. 



As "férias" na verdade foram o período de três semanas que eu passei em São Luís, com meu notebook fora de combate após eu derramar café nele (não façam isso, pessoas!) momentos antes de pegar o ônibus que me levou de Belém pra capital do Maranhão. Nesse período, planejei o lançamento do blog Fabio Gomes Foto & Cinema - que acabou indo ao ar no dia 23 de junho, quando eu já me encontrava em Maceió, e a tal série de textos. Uma amiga chegou a sugerir o tema "quem espera sempre alcança", que eu achei muito parecido com "o tempo cura tudo", que eu já mencionara. Enfim, de todo modo a tal série não chegou a sair, resumindo-se a este único texto, cuja repercussão, como mencionei acima, foi escassa (se bem que dentro da média que minhas publicações atingiam no LinkedIn). 




quarta-feira, 26 de abril de 2017

Sobre o botão 'Gratidão' do Facebook (Ovelhas Desgarradas - 13)

Por um mundo com mais gratidão!


O Facebook surpreendeu o mundo neste domingo de Dia das Mães, oferecendo mais uma opção de botão 'Curtir': o "Gratidão", simbolizado por uma flor lilás. O novo botão foi lançado sem aviso algum (ao menos não vi nada a respeito, me corrijam se eu estiver falando uma grande bobagem). Nas poucas horas desde que o descobri, já é o botão que mais tenho usado nas postagens de amigos, e inclusive criei esta montagem que ilustra o post. 

Talvez a equipe de Mark Zuckerberg tenha buscado um substituto à altura para o botão 'Yay', que não chegou a ser lançado no Brasil, na leva anterior de 'reações'. O que se comentou à época é que as pessoas não estavam usando o 'Yay', que traduziria um certo encantamento com algo postado, porque não tinham entendido a função do botão (o que, a ser verdade, diz muito sobre a sociedade atual). Daí o caráter mais didático do atual botão, traduzido em uma palavra (à semelhança dos 'Curtir', 'Amei' e 'Triste'), e não uma interjeição (a exemplos dos 'Uau', 'Haha' e 'Grr'). 

Do muito que se fala diariamente, em todos os lugares, sobre o Facebook, boa parte versa sobre seu caráter 'viciante' e visando o lucro. O novo botão (como, de resto, seus 'irmãos' já disponíveis antes) me parece imune a estes "males". Pra começo de conversa, visar o lucro é o natural de toda empresa digna deste nome. Só não visam o lucro, a rigor, o governo e as ONGs - se bem que o primeiro deve zelar pela manutenção de superávit nas contas públicas, e as segundas também necessitam recursos para manter suas atividades, então buscar o lucro, por si só, não me parece algo tão condenável. Já a questão de vício é mais pessoal, cada um é que pode avaliar isto.

Evidente que não desconheço que há um direcionamento na timeline, que não chega a exibir tudo que é postado nas fanpages que curtimos (ao diminuir artificialmente a difusão, o Facebook busca lucrar com conteúdo pago, cabendo a cada página decidir se paga ou não. Eu, por exemplo, jamais fiz o que o site chama de 'impulsionar publicação', mas não condeno quem o faz, cada um decide como quer gerir sua vida).

Aproveitando que hoje é Dia das Mães, cabe lembrar outra condenação comum ao Facebook: o site saberia sobre cada um de nós mais que nossas respectivas mães. Bom, não que eu tenha procuração para defender o 'Face', mas vamos lá: o Facebook só sabe sobre você o que você informar a ele. Quando digo isso, costumo ouvir como resposta: Ah, mas é uma invasão de privacidade, eles usam essas informações para ficar direcionando anúncios pra gente

E qual o problema, pergunto eu? Jornal, revista, rádio, TV, outros sites, toda a informação que sempre consumimos na vida sempre esteve cercada por anúncios - e os filmes também estão recheados de patrocínios e merchandising. Faço com os anúncios do Facebook o mesmo que fiz com todos os outros desde sempre: ignoro-os solenemente (quando ainda assistia TV, deixava o aparelho mudo na hora dos comerciais). O Facebook não tem o poder demoníaco de forçar você a comprar o que você não quiser, nem mesmo de induzi-lo a clicar em um anúncio.

Eu ao menos nunca cliquei num anúncio no Facebook. Aliás, desde hoje de tarde só tenho clicado no botão 'Gratidão', pois entendo que é disso que o mundo precisa (e também por outro motivo: esse lançamento sem alarde, numa data comemorativa voltada para a família, pode ser uma ação que não ultrapasse o dia de hoje). Enfim, nunca pensei que iria dizer isso, mas:

- Gratidão, Facebook!

P.S. na madrugada de 10 de maio - Como eu havia mencionado no texto, havia o risco de o referido botão não passar de uma ação transitória, ligada apenas ao Dia das Mães. Confere: na primeira hora da madrugada de hoje (horário brasileiro), o botão de Gratidão sumiu do Facebook. Não durou 48 horas; assim como surgiu sem anúncio, desapareceu sem aviso. Uma pena. 

  • Making-off do texto - Meu 44º artigo para o LinkedIn, foi publicado em 8 de maio de 2016, abordando o tema que de fato centralizou todas as atenções no Facebook naquele domingo. Lido 87 vezes até hoje, na maioria por internautas de Macapá, Rio de Janeiro e São Paulo, com 4 "gostei". O botão de 'Gratidão' com efeito nunca mais foi liberado, mas até onde tenho conseguido perceber o Facebook cumpriu sua promessa de não excluí-lo das postagens onde ele foi utilizado. 
  • Atualização 8.5.17: Com a liberação, hoje, das Lembranças do Facebook de um ano atrás, pude comprovar que, de fato, onde o botão 'Gratidão' foi usado, as marcações foram mantidas. Parabéns, Facebook. Só falta agora liberá-lo de novo, agora pra uso permanente né.
  • Atualização 11.5.17:  Em meu Facebook pessoal, o uso do botão 'Gratidão' foi liberado novamente a partir das 19h30. :) 
  • Atualização 17.5.17: Em algum momento desta madrugada, o botão 'Gratidão' foi desabilitado novamente pelo Facebook. Ele segue aparecendo nas postagens onde foi utilizado. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Você não precisa ter contas a pagar (Ovelhas Desgarradas - 12)



Você jamais irá ver alguém bradando aos quatro ventos que está endividado. Quando algo assim é dito, será sempre a alguém muito próximo, e geralmente a sotto voce. Mesmo com toda a crise reinante, no Brasil e no mundo, espera-se que o ser humano adulto e vacinado seja capaz de não acumular dívidas - em outras palavras, do ser humano se espera que saiba gerir convenientemente suas contas a pagar, evitando que se acumulem. Vale dizer, dívidas são vistas negativamente porque expressam sua falta de controle no pagamento de suas contas.

Por outro lado, ter contas a pagar é no mais das vezes dito como algo positivo. Exemplos não faltam. Uma cena clichê em melodramas televisivos é quando, em meio a uma discussão, um filho ou filha recém-adulto faz lembrar a seu pai ou sua mãe que já tem mais de 18 anos, e ouve como resposta: "Você será adulto (ou adultaquando sair da minha casa e pagar as suas contasenquanto morar debaixo do meu teto terá que respeitar as minhas decisões". Um exemplo da vida real? Ok: há tempos uma amiga minha postou em seu Facebook: "Tem tanta gente se metendo no que eu faço que tou pra lançar a promoção: Pague minhas contas e ganhe o direito de falar sobre a minha vida". 

O que depreendemos dos exemplos? Que, ao contrário de estar endividado, poder dizer que paga as suas contas é visto com bons olhos em nossa sociedade. O que não é de espantar, considerando que vivemos numa sociedade competitiva, capitalista e onde cada vez mais o que é valorizado não é o ser (ou você é ou você não é, isso não se muda facilmente) nem mesmo o ter (ter custa dinheiro, que, segundo Noel Rosa já dizia em 1930 "não é fácil de ganhar"), e sim o parecer que tem (também conhecido como 'ostentação', conceito consagrado pelo Rei do Camarote em 2013).

Na busca de ostentar um status social que ainda não têm, ou mesmo jamais terão, muitas pessoas perdem o controle dos gastos, e é aí que as contas se transformam em dívidas. Mas, claro, esta é uma situação extrema. Em condições normais de temperatura e pressão, as pessoas têm dois tipos de despesas:
  • pagamentos recorrentes (que também podem ser chamados "assinaturas"), e que são as populares 'contas' de telefone fixo ou móvel, acesso à internet, energia, TV a cabo, Netflix etc, e também os pagamentos por garantias futuras, sem ligação com o fornecimento imediato de produto ou serviço (exemplos: plano de saúde, seguro de vida ou de bens..). Podem ter valor fixo ou variável, e geralmente devem ser pagas em um determinado dia do mês, sob pena de cobrança de multa e juros, além do corte do fornecimento do serviço, quando aplicável; e 
  • consumo propriamente dito, que é quando você compra um produto (ex: uma melancia) ou remunera um prestador de serviço (ex: o técnico de informática que ajeitou seu tablet que tinha se espatifado no chão). Este pagamento, uma vez efetuado, quita seu compromisso com o fornecedor, seja do produto, seja do serviço. Alguns bens de valor mais elevado, porém, como casas ou carros, têm seu valor parcelado para melhor encaixe no orçamento, gerando então prestações, cujo pagamento geralmente é mensal (em um mecanismo geralmente chamado de crédito ou crediário). Empréstimos bancários seguem a mesma lógica, pois são um serviço, sendo as parcelas as prestações que você paga ao banco, remunerando a ele o dinheiro que lhe adiantou. 

Uma dívida se configura quando você não consegue pagar, nas datas aprazadas, seus pagamentos recorrentes e/ou as prestações (ou parcelas). As punições variam conforme, basicamente, o tempo que você levar para "honrar" a dívida (o termo em si já denota como estar endividado é desonroso em nossa sociedade): vai dos já citados multa e juros, com suspensão do serviço (quando aplicável), até o lançamento de seu nome no famigerado SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), o que basicamente impedirá que você... contraia novas dívidas, já que não poderá assumir consumo em prestações, ou ainda alguns tipos de pagamentos recorrentes.


Tecnicamente você será considerado negativado em termos de crédito no mercado, e seu nome constará no SPC por até cinco anos, ou até a data em que você conseguir pagar a dívida. E basicamente é isso, nada mais na sua vida irá mudar. Mas é claro que numa sociedade em que o parecer que tem é valorizado como na nossa, ficar impedido de assumir novas dívidas soa meio como se a pessoa fosse jogada num limbo social. Mas não se preocupe: a não ser que você conte para alguém, ninguém irá lhe olhar feio na rua, porque na verdade ninguém saberá, só você, a empresa que lhe colocou no SPC e as lojas que eventualmente consultassem seu cadastro, caso você tentasse abrir algum crediário (mas é claro que você não irá fazer isso, né?). 

Vamos convir que, num ambiente de crise econômica, um certo nível de incerteza paira sobre todos nós, então endividar-se deveria ser um acidente de percurso e não a regra. Há quem se empenhe em encaixar o máximo de parcelas em seu orçamento mensal, o que pode ser temerário ante uma eventual perda de emprego (para quem é assalariado) ou uma baixa procura de seus produtos ou serviços (para quem é autônomo). Porque uma verdade é que as despesas são certas, já as receitas nem tanto (veja-se a situação de vários estados brasileiros, onde o pagamento de funcionários públicos tem sido parcelado ou atrasado por meses a fio - embora sigam com o direito a receber seus salários, estes funcionários deixam de saber quando isso irá ocorrer, o que faz com que eles não possam honrar os pagamentos recorrentes nas datas estabelecidas, e acabem sujeitos a pagar multas e juros, ou em casos extremos serem negativados). Então evitar assumir pagamentos recorrentes e prestações em excesso - em português claro, evitar se endividar - é uma excelente dica. 

Mas, assim como você não é obrigado a se endividar, você pode muito bem viver sem contas a pagar, ou ao menos buscar enxugar isso ao máximo. Eu, por exemplo, desde que cancelei em setembro do ano passado minha última assinatura de internet móvel (devido à boa oferta de wi-fi hoje em dia na maior parte das cidades brasileiras), não tenho pagamentos mensais recorrentes a fazer. Todo valor que sai do meu bolso hoje paga consumo - seja de alimentação, seja de moradia ou hospedagem, seja da compra de passagens aéreas ou de ônibus, eventualmente algum item de vestuário e despesas com cultura/lazer (ingressos de cinema, show ou teatro, por exemplo), além de apostas em loterias (afinal, como poderei ganhar na MegaSena se não jogar?). Quando não estou em Macapá, desocupo o quarto que alugo na cidade, evitando assim ter despesas com um imóvel que não estarei usando. Ao viajar sempre me hospedo em lugares onde já haja wi-fi, o que elimina a necessidade de pagar acesso à internet (além de água, luz e telefone fixo, já que opto por ficar em hostels ou em quartos alugados diretamente com o proprietário). Celular? Uso apenas chips pré-pagos (em todas, eu disse TODAS, as vezes que eu assumi pagamentos recorrentes de operadoras de telefonia, seja para 'linhas de conta', seja para internet pós-paga, após os seis meses iniciais, as empresas começavam a cobrar por itens que eu não havia contratado, o que eu só descobria ao analisar a conta detalhada, e a briga pela devolução desses valores, quase sempre pequenos, me consumia vários dias por mês; na conta seguinte, lá estava a cobrança indevida novamente!). Ou seja, você vê que é perfeitamente possível viver sem se endividar nem mesmo ter contas a pagar.

Encerro esta série de textos convidando você a repensar sua planilha de gastos mensal e localizar o que pode ser diminuído ou mesmo eliminado. Com certeza, você irá se surpreender!


  • Making-off do texto - Minha 41ª publicação para o LinkedIn foi este sexto e último artigo da série Choque de Realidade, publicado às 18h de 23 de abril de 2016 (no mesmo dia, mas à meia-noite, eu postara o artigo anterior, Será que uma geladeira conectada é algo tão bom assim?). A imagem, não creditada, é do Google Imagens. Foi lido 74 vezes até hoje, na maioria por internautas de Macapá, São Paulo e Sorocaba, e recebeu 2 "gostei". 


segunda-feira, 24 de abril de 2017

Fotografia: Inquietações de Ana Lira

Em texto recente ("O todo é maior que a soma das partes"), relatei como concluí, a partir de reflexões durante a realização da minha exposição As Tias do Marabaixo em Belém (março-abril/17), que uma exposição, além de ser uma reunião temporária de obras de arte é, ela própria, uma forma de arte. Nesse texto, quero falar como aprendi com a fotógrafa pernambucana Ana Lira que uma exposição pode ser muito mais que uma reunião de obras de arte (sejam quadros, fotografias, esculturas) reunidas numa galeria num período X de tempo. 

Conheci Ana anos atrás, durante a realização de um Intercom (Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação) em Belo Horizonte - se não me engano numa palestra sobre pirataria musical na internet (eram os tempos da Napster), em que ao final o palestrante, que não poupara saliva para condenar o que considerava uma prática ilegal, acabou confessando que também baixava seus MP3s...Ana também chegou a me entrevistar para o extinto site Rabisco, de Recife, sobre o interesse em que o Ministério da Cultura teve, na gestão Gilberto Gil, de me incumbir de continuar as pesquisas de Bernardo Alves sobre aspectos indígenas da origem do samba. Mais tarde, foi a Ana que repassei minhas primeiras câmeras fotográficas de filme, duas Zenit, uma delas a que comprei em 1991! (e que, segundo ela me disse pelo chat do Facebook, ainda funcionava em junho de 2015!!!). Enfim, embora não nos vejamos ou falemos com frequência, Ana é uma pessoa que admiro muito, e fiquei muito feliz ao saber que meu retorno a Belém coincidia com uma estada prolongada dela por aqui, em virtude da realização da etapa Norte da itinerância de sua exposição Não-Dito. Contemplada em edital nacional (Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015), Não-Dito ficou em cartaz de 11 de janeiro a 24 de fevereiro de 2017, no MABEU (Museu de Arte Brasil-Estados Unidos), que funciona junto ao CCBEU (Centro Cultural Brasil-Estados Unidos).

O edital garantia a exposição em si e a edição do catálogo relativa à etapa de Belém; porém Ana entendeu necessário ir além e se programou para estar na capital paraense durante todo o período da mostra. Aliás, ela chegou ainda antes, participando de atividades na Associação FotoAtiva perto do Natal do ano passado. 


Ana Lira (de amarelo) conversa
com visitantes da exposição
- 16.2.17


A permanência prolongada da artista na cidade acabou sendo fundamental para a concretização de uma série de atividades paralelas, inserindo a proposta da exposição na comunidade local de uma forma que eu nunca havia visto, nem suspeitava ser possível. Além de algumas oficinas de confecção de máscaras (uma delas aparece na foto ao lado), as principais atividades foram as do chamado "grupo de leitura", que se reunia aos sábados à tarde. Num deles, Ana e a equipe que trabalhou na exposição fizeram uma marcha que saiu da Praça Batista Campos e foi até o MABEU. Em outros sábados, o MABEU foi o ponto de partida para que visitantes da mostra fossem levados até lugares icônicos da capital paraense como o Mercado Ver-o-Peso e o espaço cultural Coisas de Negro, este no distrito de Icoaraci. Em outras ocasiões, o grupo permanecia na galeria, mas debatendo temas que iam muito além da exposição em si. Pessoalmente, não participei de muitos desses encontros, já que desde o final de janeiro voltei a estudar Espanhol, justamente no horário em que eles eram realizados. As ideias de Ana Lira que exponho ao longo do texto vieram desses encontros do MABEU, incluindo uma visitação especial para a imprensa, na véspera da vernissage, e ainda do Café Fotográfico da FotoAtiva de 20 de fevereiro, onde Ana foi a convidada. 

Não-Dito é uma exposição que amplia a proposta do projeto Voto!, que Ana iniciou em 2012 quando desenvolvia imagens para o filme coletivo Eleições: Crise de Representação, que não chegou a ser finalizado. Ana conta que andava pelas ruas do Recife, naquele ano de eleição, pensando: "Se as pessoas sempre manifestam raiva da política, mas seguem votando nos mesmos candidatos, para onde essa raiva está sendo canalizada?". Até que constatou que esta raiva é dirigida ao material de propaganda política, tanto os 'santinhos' (pequenos flyers com foto, nome e número do candidato), quanto os cartazes afixados nas paredes e muros. A partir daí, passou a fotografar materiais onde fosse evidente essa ação deliberada do eleitor em modificar o material original. Conta ela que geralmente primeiro são furados os olhos e rasgada a boca das fotos, seguindo-se depois intervenções variadas. Ao longo do processo, Ana passou a registrar também a ação do tempo sobre o material que, passadas as eleições, permanece esquecido nas paredes, com suas cores sumindo gradativamente (primeiro o vermelho, depois o azul, por fim o amarelo, ficando o cartaz preto-e-branco até que nada mais seja visível). A foto abaixo mostra uma parede onde havia cartazes eleitorais.


Foto da visita de 16.2.17


Depois de circular por cidades do Brasil e também no Porto (Portugal), Voto! teve portanto seu conceito ampliado na exposição Não-Dito, que, segundo a própria Ana, "é uma exposição-plataforma-de-pesquisa-artística criada a partir do Voto!", sendo uma "forma de reintegrar projeto e contexto, ou seja, recolocar as fotografias dos cartazes de propaganda política em diálogo com expressões do cenário que motivaram a sua produção", incluindo trechos do filme Eleições: Crise de Representação e materiais coletados para fim de pesquisa. Em Belém também foi possível ver nas paredes do MABEU diversos panfletos e manifestos distribuídos à população por movimentos sociais, não só do Recife, mas também do Pará. Isso porque, vale frisar, por política Ana entende não apenas a realização periódica de eleições, mas mesmo e até principalmente a expressão direta do próprio povo, via manifestos, marchas e outras formas de reivindicação. 

Outro aspecto que traduz a inquietação de Ana é, na maior parte da mostra, abolir o modelo 'fotografia-impressa-pendurada-na-parede'. Boa parte do espaço do MABEU estava tomada por impressões das fotos dos cartazes políticos em superfícies transparentes de acrílico, nem sempre sendo possível determinar qual seria o lado 'certo' (se é que isso faz algum sentido nesse contexto), e também possibilitando que o visitante se visse refletido na própria imagem contemplada. Em outras galerias onde a mostra foi apresentada, havia paredes de vidro, ampliando ainda mais o conceito, não só permitindo que parte da cidade fosse vista, como também o próprio espaço expositivo tinha seu aspecto modificado  ao longo do dia em função do movimento do Sol. Depois que Ana ressaltou esse aspecto da montagem, no Café da FotoAtiva, voltei ao MABEU para fazer fotos especificamente buscando apreender esse caráter único-transitório-caótico da exposição, contrastando com minha atitude na primeira visita, em que procurei fotografar enquadrando peça por peça, o que acabaria ficando redundante com o próprio catálogo da mostra. Confesso que gostei mais dos resultados dessa segunda sessão. Vou postar algumas fotos de cada dia e convido você a dizer nos comentários qual lhe pareceu melhor, combinado? :)


  • Fotos da primeira sessão - 16.2.17







  • Fotos da segunda sessão - 22.2.17




Os "santinhos" produzidos especialmente para a exposição


  • Em tempo: a fala de Ana no Café Fotográfico me ensejou outra reflexão, mas esta fica para um próximo texto. 
  • Atualização 17.5.17: O "próximo texto" referido no item acima é este: O que te move?


quinta-feira, 20 de abril de 2017

Será que uma geladeira conectada é algo tão bom assim? (Ovelhas Desgarradas - 11)



Neste quinto e penúltimo texto da série Choque de realidade, deixarei de lado os temas mais densos abordados ao longo da semana, como o sistema eleitoral e a carga tributária de nosso país, para falar de algo mais de nosso dia-a-dia. No caso, de um objeto que está presente na imensa maioria de nossas casas: a geladeira.

Hoje parece que ela sempre existiu, mas sua adoção nas casas norte-americanas tem cerca de um século (data de 1913) e no Brasil não chega a 70 anos (a primeira fábrica de geladeiras no país foi criada em 1947 em Brusque, SC). Em pouco tempo, esse eletrodoméstico se mostrou indispensável à vida moderna, e talvez seja por isso que, quando alguém começa a falar da chamada Internet das Coisas, quase sempre o primeiro exemplo, apresentado como algo genialmente bom é: sua geladeira estará conectada com o supermercado, e avisará os itens que forem acabando, aí o supermercado automaticamente irá repondo, entregando direto em sua casa. Nossa, que legal, não? Hum, pensando bem, talvez não. Ou não tanto.

Só aí nessa ideia "linda" eu vejo vários problemas (e pelo visto só eu vejo, todo artigo que menciona esta futura maravilha é sempre entusiástico). Vamos a eles:
  1. Quem garante que eu vou querer novamente todos os itens que forem se esgotando? Posso ter comprado uma nova marca de margarina para experimentar, e ela não ter me agradado, então por que a compraria novamente? 

  2. Quem garante que eu vou querer novamente os itens esgotados, sempre na mesma quantidade? Posso ter recebido hóspedes durante um feriadão e eventualmente aumentado o consumo de cerveja, mas obviamente não vou precisar de (sei lá) dez engradados toda semana.

  3. E quando eu viajar? Não faz sentido algum encher a geladeira com alimentos que não irei consumir até retornar.

  4. Como seria escolhido o supermercado que me atenderia, considerando que, mesmo nos municípios de médio porte brasileiros, sempre há pelo menos duas redes que concorrem pela preferência dos consumidores? Como eu poderia ter certeza que os preços desta rede que me atenderia seriam sempre mais baratos que os da concorrência?

  5. Que garantia eu teria que os itens que me fossem entregues (no caso de gêneros hortifrutigranjeiros) seriam os melhores disponíveis no estoque? (Quando o sistema de vendas pela internet foi implantado em Porto Alegre, ainda nos anos 90, consumidores reclamavam das folhas de alface rasgadas e dos tomates murchos que recebiam)

  6. E, para piorar a situação: quem foi que disse que tudo o que vende no supermercado é guardado na geladeira? A maioria das frutas (banana, maçã, abacaxi, manga, tangerina etc) fica em travessas na mesa da cozinha. Arroz, feijão, macarrão, sal, açúcar, café, biscoitos são mantidos em sua embalagem ou então em potes ou latas (iremos conectar tudo isto?) E também o supermercado jamais foi um entreposto comercial apenas de venda de alimentos - há os itens de higiene, os de limpeza, material escolar e cada vez mais tudo o que você possa imaginar. Outro dia aqui em Belém vi no supermercado uma moça verificando o preço de... pneus (sim!). 

Ou seja, isto tudo posto, na melhor das hipóteses conectar a geladeira com o supermercado pode diminuir um pouco a necessidade de ir com frequência às compras, mas jamais as poderia eliminar. Então, o tão festejado avanço tecnológico me parece, no mínimo, meio inútil. Na pior das hipóteses, pelo grau e volume de informações sobre os hábitos de consumo de nossas famílias que estaremos entregando a uma empresa privada específica, me soa até perigoso.

  • Making-off do texto - Embora este texto quase tenha encerrado a série Choque de Realidade, foi o que lhe deu origem. O desenvolvi a partir de ideias postadas no Facebook (eventualmente posts meus mais densos se transformam em artigos, como aconteceu com este). Publicado em 23 de abril de 2016, foi meu 40º texto a sair no LinkedIn. Até hoje, foi lido 29 vezes, na maioria por pessoas de Macapá, São Paulo e Maringá. A imagem, não creditada, é do Google Images. O tema segue atual, haja vista que hoje mesmo o colunista Guy Perelmuter escreveu sobre "A Internet das Coisas" em sua coluna no Estadão/Economia e Negócios (no link original o conteúdo é exclusivo para assinantes) - e lá está, entre os equipamentos conectáveis citados, a geladeira...

quarta-feira, 19 de abril de 2017

O sistema tributário brasileiro é caótico (Ovelhas Desgarradas - 10)



O título deste quarto artigo da série Choque de realidade não é de minha autoria. Eu o extraí de uma declaração da atual presidente da República, Dilma Rousseff, em entrevista à Rádio Terra, de Goiânia, em 2 de junho de 2010, pouco antes do início da campanha eleitoral ao fim da qual o povo brasileiro lhe concedeu o primeiro mandato. Disse Dilma ao radialista Sandes Junior:

- O sistema tributário brasileiro é caótico, é confuso, não é transparente e ninguém sabe o que está pagando. (reproduzido de reportagem de O Globo)

O tema estava na ordem do dia; o também pré-candidato José Serra, no dia seguinte, criticou que "quem paga mais imposto são os que ganham menos de três salários mínimos". Já o então presidente Luís Inácio Lula da Silva, em discurso no mesmo dia 2, no  encerramento do Seminário de Alto Nível da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), em Brasília, havia feito a seguinte relação entre carga tributária e potencial de investimento social do Estado: 

 - Tem muita gente que se orgulha de dizer: “No meu país, a carga tributária é de apenas 9%”; “No meu país, a carga tributária é (de) apenas 10%”. Quem tem carga tributária de 10% não tem Estado! O Estado não pode fazer absolutamente nada. Está aí, cheio de exemplos para a gente ver. É só percorrer o mundo para a gente perceber que exatamente os Estados que têm as melhores políticas sociais são os que têm a carga tributária mais elevada - o trecho é citado em reportagem de O Globo, reproduzido no site do Sindifisco-RS

De fato, há países com carga tributária superior à do Brasil e que também são conhecidos por assegurarem o bem-estar dos cidadãos (em 2012, enquanto nossa carga atingia os 34,4%, a da Dinarmarca chegava a 49%), o que vem a confirmar o dizer de Lula. Mas o que torna o caso brasileiro beeem diferente é a imensa quantidade de tributos, nas várias esferas de governo (municipal, estadual e federal): em setembro de 2015, outra matéria d'O Globo, reproduzida no site do IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) dava conta de que temos em vigor 92 tributos, e ainda se discute a volta da CPMF, que seria o 93º. A já citada Dinamarca tem, entre taxas e impostos, apenas 14. Outra característica brasileira era citada nessa mesma reportagem por Fernando Zilveti, advogado tributarista e professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo: "O Brasil é o país com a maior carga tributária em impostos invisíveis pagos na ponta do consumo".

Esta para mim é a grande questão, que me levou a escrever este artigo. Quando se fala em impostos, muita gente pensa no Imposto de Renda , IPVA ou IPTU - ou seja, aqueles que em algum momento do ano você é solicitado a recolher. Mas a maior parte da carga tributária vem dos impostos que você paga sem sentir, ao fazer compras no supermercado, adquirir uma passagem de avião ou abastecer o carro. Segundo reportagem publicada no iG em agosto de 2014, nada menos de 45% dos brasileiros não sabem que pagam impostos ao ir às compras - mesmo que essa informação apareça discriminada nas notas fiscais. A reportagem reproduzida no site do IBPT informava que no Brasil "os impostos sobre o consumo equivalem a 70% da arrecadação. No Chile, eles são responsáveis por 50,1% da arrecadação, no Japão, por 18%, no México, por 54% e nos EUA, 17,9%, segundo dados da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)" (dados de 2015)

Na mesma matéria o presidente executivo do IBPT, João Eloi Olenike, assim avaliava a nossa carga tributária: 

— Quando se leva em conta o retorno baixíssimo que o brasileiro tem em termos de saúde, educação e segurança, é possível dizer que temos a maior carga tributária do mundo, já que ficamos em último lugar no ranking de benefícios oferecidos à população com esses recursos. O país não tem uma política tributária que taxe o cidadão de acordo com sua capacidade de contribuir. Tem uma política de arrecadação para fazer caixa, que é resultado da ineficiência do Estado em administrar seus recursos. 

A solução para isto tudo? A própria presidente Dilma, enquanto pré-candidata, a revelou aos 400 empresários do Fórum Empresarial de Goiás, repetindo em parte o que dissera à Rádio Terra: 

— Por que ninguém fez a reforma tributária até hoje? Porque é muito difícil. Primeiro, porque tem que alterar a Constituição. O sistema tributário é caótico? É. É confuso e pouco transparente, e ninguém sabe o que está pagando? Também é. 



  • Making-off do texto - Quarto artigo da série Choque de Realidade, publicado em 22 de abril de 2016 (minha 39ª colaboração com o LinkedIn). Foi acessado 29 vezes até hoje, na maioria por leitores de Macapá, Rio de Janeiro e Belém, recebendo 1 "gostei". A imagem veio de pesquisa por "caos imagem" no Google Images. Como se sabe, desde a publicação desse texto nenhum esforço foi feito pelo governo brasileiro para simplificar nossa carga tributária ou para transformá-la em mais e melhores serviços para nossa população - muito antes pelo contrário. 
  • Atualização 22.5.17: Ao abrir hoje as Lembranças do meu Facebook pessoal, encontrei um post de dois anos atrás, que de certa forma foi a origem deste texto, e de toda a série "Choque de Realidade". Já não recordo qual o amigo com quem teria tido esta conversa em Macapá em 2015, mas achei legal que ele, que estudou profundamente as leis, encontrou coerência neste meu raciocínio baseado totalmente em minhas experiência & opinião. 


Outro dia conversei com um amigo sobre o que eu acho do sistema tributário brasileiro, já que ele além de concordar comigo também é advogado resolvi compartilhar minha opinião aqui com vcs.
O sistema tributário brasileiro é injusto e no mínimo bitributa o contribuinte, senão vejamos:
- vc trabalha e recebe seu salário, que dependendo do valor já recolhe IR na fonte
- se vc apenas deixasse seu dinheiro depositado no banco rendendo, ia ser lindo, pois aí pagaria apenas um percentual sobre o rendimento (é essa a ideia atrás de um Imposto sobre a Renda)
- porém é evidente que vc vai usar seu salário para comprar alimentos, vestuário, transporte etc etc - e em qualquer compra que vc faça estará lá quem? quem? Ele, O IMPOSTO :P
- não bastasse isso, anualmente a Receita Federal chama vc para uma declaração curiosamente chamada de 'ajuste', onde vc tem que declarar de novo o que recebeu (o que ela já sabe, pois avalia mensalmente se deve te tributar ou não na fonte), e óbvio que convenientemente a Receita ignora oficialmente que boa parte desse valor vc já gastou, gerando impostos que alimentaram os cofres da União, de Estados e municípios.

terça-feira, 18 de abril de 2017

O sistema eleitoral brasileiro é arcaico (Ovelhas Desgarradas - 9)



No texto de ontem da série Choque de realidade, intitulado "Sua Excelência, o Mandato", manifestei minha estranheza com o fato de que a lei brasileira defina que, na linha de sucessão presidencial, o presidente da Câmara dos Deputados venha antes do seu colega do Senado, e também com o que considero excessiva preocupação com o cumprimento de mandatos, o que se traduz na previsão legal de que, mesmo que haja eleição para escolher novo presidente após algum impedimento legal, o novo mandatário deverá se limitar a completar o mandato do que houver sido afastado. 
Talvez essa preocupação em nossas leis (mais especificamente no parágrafo 2º do art. 81 da Constituição Federal) reflita uma preferência por evitar eleições frequentes, o que é compreensível se você pensar num quadro de votação e apuração manual - em especial a apuração, que numa eleição nacional poderia levar meses. Mas isto já poderia ser repensado, especialmente porque em 2016 já iremos realizar a 12ª votação com urnas eletrônicas (a contar de 1996, será a 6ª eleição municipal; houve ainda cinco eleições estaduais e federais, a mais recente sendo em 2014; mais o plebiscito do desarmamento, em 2005). 
Mas, pensando bem, a urna eletrônica está para a antiga urna de pano como a máquina de escrever estava para a pena de ganso - é apenas um meio mais moderno, automatizado, mas que não altera em si a natureza do processo realizado, no caso, a votação em si. A verdade é que o sistema eleitoral brasileiro é arcaico. Não estou me referindo à questão da representatividade política em si (se o ideal seria manter o sistema atual, ou mudar para voto distrital, por exemplo). Estou falando do comparecimento do eleitor brasileiro às urnas. 
Para começar, você se alista junto ao Tribunal Eleitoral do seu estado, que lhe designa uma zona e uma seção eleitorais. A seção eleitoral corresponde a uma sala, geralmente em uma escola, onde você deverá votar (ou ao menos comparecer no dia da votação, já que a própria urna eletrônica possui tecla para registrar voto em branco). Ou seja, no dia da eleição você precisa estar não só em sua cidade, como comparecer dentro do horário de votação à tal sala da tal escola. Se você votar em Porto Alegre, mas estiver em Canoas, não poderá votar. E se estiver em Porto Alegre mesmo, mas votar no Bom Fim e for a uma escola na Tristeza, também não poderá votar. Mas se estiver em Paris no dia da eleição, pode ir à embaixada do Brasil e votar para presidente da República...
Isto talvez fizesse sentido até décadas atrás, mas nos tempos digitais que vivemos é algo completamente irracional. Se podemos declarar Imposto de Renda pela internet, por que não poderíamos votar pela internet? Bastaria lançar no sistema o número do título de eleitor e o voto, e o próprio sistema impediria novos votos com o mesmo título. A apuração seria instantânea, pois o sistema dos TREs e/ou do TSE iria totalizando os votos ao longo do dia, apenas se esperando o momento do final da votação em todo o país para o anúncio dos resultados. Ter um sistema de votações mais ágil permitiria também que os cidadãos brasileiros pudessem ser mais fácil e frequentemente consultados, em forma de plebiscito, sobre grandes decisões nacionais. 
Punições para faltosos - Outro ponto a repensar no sistema eleitoral brasileiro é a infinidade de punições para quem não comparecer à votação. Vou reproduzir a seguir as punições previstas atualmente pelo Código Eleitoral:

"Lei nº 4.737 de 15 de Julho de 1965

Institui o Código Eleitoral.
PARTE PRIMEIRA
INTRODUÇÃO
Art. 7º O eleitor que deixar de votar e não se justificar perante o juiz eleitoral até 30 (trinta) dias após a realização da eleição, incorrerá na multa de 3 (três) a 10 (dez) por cento sobre o salário-mínimo da região, imposta pelo juiz eleitoral e cobrada na forma prevista no art. 367. (Redação dada pela Lei nº 4.961, de 1966)
§ 1º Sem a prova de que votou na última eleição, pagou a respectiva multa ou de que se justificou devidamente, não poderá o eleitor:
I - inscrever-se em concurso ou prova para cargo ou função pública, investir-se ou empossar-se neles;
II - receber vencimentos, remuneração, salário ou proventos de função ou emprego público, autárquico ou para estatal, bem como fundações governamentais, empresas, institutos e sociedades de qualquer natureza, mantidas ou subvencionadas pelo governo ou que exerçam serviço público delegado, correspondentes ao segundo mês subsequente ao da eleição;
III - participar de concorrência pública ou administrativa da União, dos Estados, dos Territórios, do Distrito Federal ou dos Municípios, ou das respectivas autarquias;
IV - obter empréstimos nas autarquias, sociedades de economia mista, caixas econômicas federais ou estaduais, nos institutos e caixas de previdência social, bem como em qualquer estabelecimento de crédito mantido pelo governo, ou de cuja administração este participe, e com essas entidades celebrar contratos;
V - obter passaporte ou carteira de identidade;
VI - renovar matrícula em estabelecimento de ensino oficial ou fiscalizado pelo governo;
VII - praticar qualquer ato para o qual se exija quitação do serviço militar ou [do] imposto de renda.
§ 2º Os brasileiros natos ou naturalizados, maiores de 18 anos, salvo os excetuados nos arts. 5º e 6º, nº 1, sem prova de estarem alistados não poderão praticar os atos relacionados no parágrafo anterior.
§ 3º Realizado o alistamento eleitoral pelo processo eletrônico de dados, será cancelada a inscrição do eleitor que não votar em 3 (três) eleições consecutivas, não pagar a multa ou não se justificar no prazo de 6 (seis) meses, a contar da data da última eleição a que deveria ter comparecido. (Incluído pela Lei nº 7.663, de 1988)
§ 4o O disposto no inciso V do § 1o não se aplica ao eleitor no exterior que requeira novo passaporte para identificação e retorno ao Brasil. (Incluído pela Lei nº 13.165, de 2015)"
São portanto, oito punições extras, afora as inerentes ao sistema (multa e exclusão), e se estendendo ao campo educacional, profissional, financeiro e mesmo civil (com a proibição de tirar passaporte ou documento de identidade). É um típico caso de punição desproporcional ao 'delito', o que já em 2006 foi objeto de projeto de lei do então senador Marco Maciel. O PLS 244/06 visava acabar com as punições extras, mantendo multa e exclusão, a seu ver suficientes para desestimular as abstenções. Na época da proposta, Maciel afirmou considerar as restrições extras "de constitucionalidade duvidosa", e que chegariam a violar princípios fundamentais do cidadão brasileiro (concordo). As restrições já previstas no Código Eleitoral se aplicariam então apenas aos brasileiros que não estivessem alistados eleitoralmente. Aprovado no Senado em julho de 2010, o PLS 244 foi remetido à Câmara dos Deputados, onde recebeu o número PL 7581/2010 e, após tramitar por comissões, foi considerado em agosto de 2010 pronto para ser submetido à votação no plenário, o que após 5 anos e meio ainda não aconteceu.
De resto, no atual sistema você só será multado se quiser - cabe ao eleitor faltoso procurar o TRE para solicitar a guia para pagamento da multa, o que evidentemente só irá fazer para evitar o rosário de punições previstas hoje na lei; o Tribunal de per si não irá tomar atitude alguma para multá-lo, limitando-se a excluí-lo do cadastro após a terceira falta sem justificativa. 

  • Making-off do texto - Terceiro texto da série Choque de Realidade, foi minha 38ª publicação no LinkedIn, em 20 de abril de 2016. Ao longo desse praticamente um ano no ar, o artigo foi lido 44 vezes, na maioria por pessoas de Macapá, Belém e São Paulo. A ilustração, não-creditada, é do Google Images. Excepcionalmente, optei por manter a formatação original do LinkedIn, para ressaltar as citações do Código Eleitoral. Para surpresa nenhuma, este é outro tema que segue passando longe da pauta do Congresso Nacional.