quarta-feira, 12 de abril de 2017

O horário comercial não faz (mais) sentido (Ovelhas Desgarradas - 6)

Google Images (edição: Fabio Gomes)


Passando outro dia por dezenas de lojas vazias, comentei o fato com alguém, e a resposta veio pronta: Ah, é a crise! Na hora, concordei mas depois fiquei com o assunto na cabeça e acabei concluindo que o que me chamou a atenção, na verdade, é a situação normal do comércio ao longo do ano, independentemente de haver uma crise declarada ou não. Tanto que à véspera de datas como Dias das Mães e Natal, quando as lojas ficam (enfim) cheias, isso sempre vira notícia. O tema ficou alguns dias na minha cabeça, quando cheguei a uma conclusão que não é nova, nem é tão brilhante, e nem mesmo minha: O horário comercial não faz (mais) sentido! (O mais entre parênteses vai ali como atenuante, talvez um dia já haja feito...)

Que a ideia não é minha, é fato. Nos anos 1990, um prefeito de Porto Alegre (se lembro bem, Raul Pont) encaminhou para a Câmara de Vereadores um projeto flexibilizando o horário de funcionamento das empresas sediadas e/ou estabelecidas no município. A ideia por trás do projeto era até singela: o  fato de escolas, indústrias, lojas e repartições públicas iniciarem seu funcionamento em horários muito próximos (entre 7h30 e 9h) é responsável pela lentidão do trânsito nas grandes cidades todas as manhãs, o mesmo se repetindo ao final da tarde, na volta pra casa. Se parte do comércio, por exemplo, passasse a abrir às 15h, essa pressão seria reduzida, com a demanda por deslocamento se distribuindo melhor ao longo do dia. A proposta foi amplamente rejeitada pela opinião pública da capital gaúcha e, até onde recordo, nem chegou a entrar na pauta de votação da Câmara.

Muitas vezes, todos estamos de acordo com a existência de um problema, porém poucos se mostram dispostos a ajudar a construir uma solução.

(Parêntese; talvez a sociedade gaúcha ainda estivesse ressabiada pelo 'calendário rotativo' que o ex-governador Alceu Collares implantara ao tomar posse, em 1991, o qual previa a divisão do alunado estadual em três grupos, um dos quais começaria o ano letivo em março, o segundo em maio e o terceiro em julho, o que faria com que os prédios escolares fossem utilizados o ano inteiro. Implantado sem prévia discussão, o calendário foi alvo de severas críticas e não chegou ao final do governo do próprio criador.)

Fosse ou não um eco da decepção com o calendário rotativo, o fato é que a reação à simples proposta de tornar os horários mais flexíveis evidenciou que, muitas vezes, todos estamos de acordo com a existência de um problema, porém poucos se mostram dispostos a ajudar a construir uma solução.

E seguimos achando normal que todos iniciem trabalho e aulas simultaneamente. Quem trabalha em escritório ainda tem o final da tarde e os sábados para fazer suas compras; já quem trabalha em lojas depende muitas vezes da boa vontade da chefia para poder resolver questões simples do dia-a-dia como ir a um banco, tratar da saúde (sua ou dos filhos), comparecer a uma repartição pública e até mesmo fazer compras em outra loja.  Enquanto isso, o trânsito nas grandes cidades fica cada vez mais congestionado e as lojas continuam vazias praticamente o ano todo. Até quando??



  • Making-off do texto - Publicado em 20 de março de 2016, foi meu 26º texto para o LinkedIn, atingindo até hoje o volume de 85 leituras, a maioria de Macapá, seguindo-se Belém e São Paulo, mais 12 "gostei" e 2 comentários. 











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