segunda-feira, 10 de abril de 2017

OK, a Educação é o caminho. Mas de que Educação estamos falando? (Ovelhas Desgarradas - 4)

 Reprodução/Facebook

É comum lermos, ouvirmos (e até dizermos) que "o caminho para resolver os problemas do Brasil é a Educação". Isso é dito diariamente nas ruas, nas escolas, nos meios de comunicação, nas redes sociais - incluindo o LinkedIn - e, a cada dois anos, é tema de campanhas eleitorais, já que ninguém em sã consciência irá se posicionar contra a Educação. Mas de que Educação estamos falando? Desta que está aí, que se mantém imutável em estrutura e conteúdo há, talvez, mais de século? Lembro de ter visto o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa (1920-2010) falar na TV que ele pegara por acaso um livro escolar de um de seus netos e ficara estarrecido ao se dar conta de que o que eles estudavam, em plena década de 1990, era absolutamente igual ao que ele vira na escola com a mesma idade, já lá se iam 60 anos! E acrescentava que aquilo não poderia estar certo...

Boa parte das críticas que vejo ao sistema educacional vigente se prendem ao que chamei acima de estrutura - ou seja, o velho esquema professor em pé falando + escrevendo com giz no quadro-negro + alunos copiando + provas cumulativas para aprovação bimestral e anual etc. Isto até nem é o mais grave em relação ao item estrutura, e sim o fato de a escola rejeitar qualquer contribuição externa, como se ela própria se bastasse. Quando a porta da sala de aula se fecha, é como se a escola propusesse aos alunos que esqueçam a vida lá fora por 50 minutos ou por um turno inteiro. Isto talvez fosse possível, e mesmo a única alternativa, até 15 ou 20 anos, mas hoje não é nem mais honesto intelectualmente o sistema de ensino se negar a ver a contribuição que a internet pode lhe dar, seja em termos de conteúdo, seja em termos de captar o interesse dos jovens, que têm no comparecimento à escola o único momento do dia em que estão acordados no qual se espera que ignorem a internet.


Enfim, como eu dizia, o mais grave nem é a escola apostar nessa estrutura praticamente centenária, sem atrativo no mundo de hoje (ser atrativo para o jovem é importante, sim, do contrário os índices de evasão escolar seriam bem menores). O mais grave é o total descolamento do conteúdo ministrado nas escolas brasileiras da realidade que nos cerca! Para deixar isto mais evidente, vou transcrever aqui o trecho de um abaixo-assinado lançado na semana que passou por jovens alunas do Colégio Anchieta, de Porto Alegre. O abaixo-assinado foi motivado pelo impedimento de as estudantes do colégio comparecerem às aulas vestindo shorts, isso numa época do ano em que a temperatura média durante o dia na capital gaúcha beira os 35º! Não se trata de uma simples questão de moda ou de estética, e sim a problematização da velha visão machista de sempre considerar o corpo feminino um objeto sexual. Enfim, para garantirem seu direito a usar a roupa que acharem melhor, e não a que o colégio impõe, as jovens lançaram uma petição online intitulada Vai Ter Shortinho, Sim! (não por coincidência, no começo do mês alunas do Colégio Rio Branco, de São Paulo, adotaram iniciativa semelhante, pelo mesmo motivo). O texto original do manifesto publicado pelas jovens gaúchas, a maioria na faixa dos 13 a 17 anos, incluía um parágrafo, posteriormente retirado, que é uma reflexão absolutamente lúcida que exemplifica à perfeição o que quero dizer:

"O Colégio Anchieta diz ser um colégio que ensina a pensar e fazer o futuro, mas nós não vemos nada de futuro em suas aulas e suas políticas. Não discutimos temas atuais, fenômenos sociais; não aprendemos política; nunca ouvimos falar de feminismo, machismo, sexismo, racismo e xenofobia em sala de aula; não aprendemos sobre opressão de classe, gênero e raça; não nos falaram sobre o desastre da Vale/Samarco nem sobre as operações anticorrupção acontecendo no Brasil; não nos explicam sobre cotas para universidade; não nos ensinam a diferença entre opinião e discurso de ódio; não nos ensinam o mínimo para compreender e para viver em sociedade."

O parágrafo seguinte, mantido no texto disponível no ar agora no site Change.org, começa sinalizando que elas compreendem o motivo destas lacunas todas: "A prioridade do sistema educacional brasileiro, atualmente, é ensinar para ENEM e vestibulares, entendemos. Mas a educação social e política não pode ser deixada de lado" (o grifo é do original). Ou seja, compreendem mas não aceitam. Certas elas!



A questão de não ensinar para o futuro (ou mesmo para o presente) não é exclusiva do Anchieta de hoje. Já era assim em 1985, quando, aluno da 8ª série da Escola Estadual Gen. Bento Gonçalves da Silva, em Bento Gonçalves (RS), vivi a primeira greve de professores da minha vida escolar (seriam pelo menos mais sete até minha formatura em Jornalismo) e percebi, do alto dos meus 14 anos, a incoerência entre os valores da escola, expostos em um mural do corredor (que dizia que a missão da instituição era "formar cidadãos conscientes e críticos da realidade"), e o discurso da direção do estabelecimento, que já no primeiro dia de aula pós-paralisação informou que não devíamos ficar discutindo a greve, pois ela já era passado, o fundamental agora era recuperar o conteúdo das disciplinas. Onde está aí a formação crítica do cidadão consciente? Sem nem suspeitar do que este seu conterrâneo pensou em 1985, as porto-alegrenses de hoje questionam essa mesma forma de pensar no cartaz que portam na foto que abre o post, publicada em matéria do site Catraca Livre - porque, evidentemente, nada mudou em 31 anos. Ou muito mais tempo, diria o Gaiarsa. (As outras fotos foram publicadas, respectivamente, nos sites dos jornais gaúchos Correio do Povo Zero Hora.)

A Educação brasileira precisa, sim, repensar sua estrutura e incorporar urgentemente os recursos que a modernidade proporciona. Mas não adianta empregar recursos digitais e, na esfera do conteúdo, seguir com a velha fórmula...de Bháskara e logaritmos e química inorgânica e uma série de outras coisas que jamais usaremos na vida. Estes conteúdos até podem ser mantidos, mas desde que se incorpore de uma vez por todas o preparo dos alunos para de fato serem cidadãos críticos e conscientes - o trecho do manifesto das estudantes do Sul, citado acima, poderia ser um bom ponto de partida. Isto não só faria com que, aí sim, a Educação fosse o caminho para a solução de todos, ou ao menos muitos, dos problemas nacionais. Faria também com que o sistema educacional brasileiro deixe de ser essa contradição onde não se fala da realidade atual até o final do Ensino Médio, porém temas atuais são cobrados na prova do ENEM. Vide o tema da redação do exame em 2015 - A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. Eu, que concluí o então 2º grau em 1988, nunca tive uma aula sobre isto. A julgar pelo manifesto que redigiram, as jovens alunas do Colégio Anchieta de 2016 também não. Haverá candidatos dispostos a encarar o tema desta forma nas eleições municipais deste ano e nas estaduais e federais de 2018? Oxalá!


  • Making-off do texto - Sendo um gaúcho que mora na Amazônia, raramente me chegam notícias do dia-a-dia do meu estado natal. Através do post de uma amiga no Facebook, pesquei que estava havendo algo incomum no Anchieta e fui me informar a respeito. Considerando a questão pertinente, publiquei este texto em 28 de fevereiro de 2016 - meu 22º texto para o LinkedIn, lido 71 vezes até hoje, na maioria por pessoas de Belém, com 3 clicando em "gostei". O abaixo-assinado do Anchieta foi entregue à direção da escola, tendo alcançado 27.268 assinaturas, depois de repercutir na imprensa nacional. Infelizmente o grupo criado no Facebook pelas estudantes porto-alegrenses para divulgar sua reivindicação foi hackeado e ocupado por pessoas contrárias à sua causa, poucos dias após a publicação do meu artigo. O abaixo-assinado das estudantes paulistas obteve, segundo o site onde ele foi hospedado, apenas 1024 assinaturas. Não tenho visto o tema mais em pauta. Por outro lado, quem tem acompanhado o noticiário sabe bem como anda o debate sobre Educação de forma mais ampla no governo do presidente Michel Temer: em 25 de maio, o ator Alexandre Frota visitou o ministro da Educação, Mendonça Filho, apresentando propostas para "ajudar o país", como disse em seu Instagram (desconhecia-se até então qualquer iniciativa do ator em prol da Educação). Já neste ano, em fevereiro, Temer sancionou a reforma do Ensino Médio, que entre outras coisas retirou História e Geografia do currículo obrigatório. Analistas comentaram que a reforma contribui para transformar os estudantes brasileiros em mão-de-obra não-questionadora para o mercado de trabalho, passando muito longe da formação de  'cidadãos conscientes e críticos da realidade' que eu já não encontrei na minha escola em 1985. 

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