quinta-feira, 27 de abril de 2017

Por que menos não é mais, e sim melhor (Ovelhas Desgarradas - 14)

Reprodução do filme 'A Vida Secreta de Walter Mitty' - Samuel Goldwyn Films


Uma das frases mais repetidas da atualidade é a famosa "menos é mais". Quem usa esta antítese quer dar a entender que está menos apegado a coisas (em geral) ou a pessoas (mais raramente), e que isto é positivo em sua vida. Ok, vamos lá, eu mesmo usei muito esta frase, até assistir em DVD, em fevereiro do ano passado, A Vida Secreta de Walter Mitty, produção norte-americana de 2013, dirigida e estrelada por Ben Stiller. 

O filme recebeu críticas diversas, ora sendo exaltado como um poderoso impulso para as pessoas deixarem suas rotinas medíocres e se abrirem para altos propósitos, ora sendo execrado como um equivalente cinematográfico da literatura de auto-ajuda. Creio que ambos os lados têm um pouco de razão, portanto se fosse escrever uma resenha do filme o recomendaria com ressalvas. Mas este texto não é para analisar o filme como um todo, e sim convidar você a pensar a partir do frame que ilustra o post.

Nesta cena, Mitty (Stiller), de costas, toma um café em Los Angeles com Todd Maher (Patton Oswalt), de camisa florida. Todd é um funcionário do site de relacionamentos eHarmony (que existe na vida real), que telefonou várias vezes a Mitty para ajudá-lo a completar o perfil que ele. Mitty, criara no site (sim, isso é altamente improvável, é uma das ressalvas que tenho ao filme). Com diversas viagens curtas ao exterior num período breve de tempo, Mitty é detido pela polícia numa escala aérea em L.A. Os tiras perguntam se ele conhece alguém na cidade, e ele indica Todd, que vai resgatá-lo. De lá, saem para um café onde começam a falar da vida e lá pelas tantas Todd profere a frase que desde então substituiu para mim em definitivo a antiga 'menos é mais': Menos é melhor.

E por que dizer que Menos é melhor é preferível a falar que menos é mais? Penso tratar-se de uma questão de coerência de pensamento. Vivemos numa civilização que idolatra o 'mais', num arco que você pode estender desde quem tenha mais dinheiro até quem atinge mais visualizações no YouTube, ao infinito e além. É a visão acumuladora que estrutura nossa sociedade ocidental capitalista. 

Então no momento que você diz que 'menos é mais', você dá uma conotação positiva à palavra 'mais', gerando a meu ver uma ambiguidade. Você exalta ter menos CDs acumulados na estante, por exemplo, mas se refere a este fato como se ele fosse 'mais', ou seja, justamente o termo ligado à acumulação vista como positiva. Numa palavra: estamos quantificando o "menos".

Ao passo que quando dizemos 'menos é melhor', empregamos uma palavra que expressa um avanço, uma melhoria, enfim. Passamos então a qualificar, e não mais quantificar, o 'menos'. Esta me parece a opção mais lógica; por isso, digo que Menos é melhor. 

E você? Para você, menos é mais ou é melhor? Concorda ou discorda do que eu disse? Convido a todos para seguirmos o debate na caixa de comentários.

  • Making-off do texto - Meu 46º texto publicado no LinkedIn, teve originalmente o título "Por que menos seria mais?". Postado em 4 de julho de 2016, foi acessado 22 vezes até hoje, na maioria por leitores de Macapá, Belém e Rio de Janeiro; nenhum deles aceitou o convite feito no final do texto, que saiu do ar lá no LinkedIn sem ter recebido comentários. 
  • Atualização 4.6.17, 0h18: Encontrei agora nas Lembranças do Facebook publicação minha de um ano atrás mencionando este texto como o primeiro de mais uma série. 



As "férias" na verdade foram o período de três semanas que eu passei em São Luís, com meu notebook fora de combate após eu derramar café nele (não façam isso, pessoas!) momentos antes de pegar o ônibus que me levou de Belém pra capital do Maranhão. Nesse período, planejei o lançamento do blog Fabio Gomes Foto & Cinema - que acabou indo ao ar no dia 23 de junho, quando eu já me encontrava em Maceió, e a tal série de textos. Uma amiga chegou a sugerir o tema "quem espera sempre alcança", que eu achei muito parecido com "o tempo cura tudo", que eu já mencionara. Enfim, de todo modo a tal série não chegou a sair, resumindo-se a este único texto, cuja repercussão, como mencionei acima, foi escassa (se bem que dentro da média que minhas publicações atingiam no LinkedIn).



  • Atualização 17.11.17 - Mais uma vez as Lembranças do Facebook trouxeram à tona rascunhos deste texto, dos quais eu não lembrava conscientemente ao escrevê-lo:


Isso de dizer que "Menos é mais" induz a pensar que vc está valorizando a qualidade em vez da quantidade, mas é ilusão, pois vc ainda situa como valor a obter o 'mais'.
Se a intenção é de fato valorizar a qualidade, o certo é dizer que MENOS É MELHOR


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