quinta-feira, 20 de abril de 2017

Será que uma geladeira conectada é algo tão bom assim? (Ovelhas Desgarradas - 11)



Neste quinto e penúltimo texto da série Choque de realidade, deixarei de lado os temas mais densos abordados ao longo da semana, como o sistema eleitoral e a carga tributária de nosso país, para falar de algo mais de nosso dia-a-dia. No caso, de um objeto que está presente na imensa maioria de nossas casas: a geladeira.

Hoje parece que ela sempre existiu, mas sua adoção nas casas norte-americanas tem cerca de um século (data de 1913) e no Brasil não chega a 70 anos (a primeira fábrica de geladeiras no país foi criada em 1947 em Brusque, SC). Em pouco tempo, esse eletrodoméstico se mostrou indispensável à vida moderna, e talvez seja por isso que, quando alguém começa a falar da chamada Internet das Coisas, quase sempre o primeiro exemplo, apresentado como algo genialmente bom é: sua geladeira estará conectada com o supermercado, e avisará os itens que forem acabando, aí o supermercado automaticamente irá repondo, entregando direto em sua casa. Nossa, que legal, não? Hum, pensando bem, talvez não. Ou não tanto.

Só aí nessa ideia "linda" eu vejo vários problemas (e pelo visto só eu vejo, todo artigo que menciona esta futura maravilha é sempre entusiástico). Vamos a eles:
  1. Quem garante que eu vou querer novamente todos os itens que forem se esgotando? Posso ter comprado uma nova marca de margarina para experimentar, e ela não ter me agradado, então por que a compraria novamente? 

  2. Quem garante que eu vou querer novamente os itens esgotados, sempre na mesma quantidade? Posso ter recebido hóspedes durante um feriadão e eventualmente aumentado o consumo de cerveja, mas obviamente não vou precisar de (sei lá) dez engradados toda semana.

  3. E quando eu viajar? Não faz sentido algum encher a geladeira com alimentos que não irei consumir até retornar.

  4. Como seria escolhido o supermercado que me atenderia, considerando que, mesmo nos municípios de médio porte brasileiros, sempre há pelo menos duas redes que concorrem pela preferência dos consumidores? Como eu poderia ter certeza que os preços desta rede que me atenderia seriam sempre mais baratos que os da concorrência?

  5. Que garantia eu teria que os itens que me fossem entregues (no caso de gêneros hortifrutigranjeiros) seriam os melhores disponíveis no estoque? (Quando o sistema de vendas pela internet foi implantado em Porto Alegre, ainda nos anos 90, consumidores reclamavam das folhas de alface rasgadas e dos tomates murchos que recebiam)

  6. E, para piorar a situação: quem foi que disse que tudo o que vende no supermercado é guardado na geladeira? A maioria das frutas (banana, maçã, abacaxi, manga, tangerina etc) fica em travessas na mesa da cozinha. Arroz, feijão, macarrão, sal, açúcar, café, biscoitos são mantidos em sua embalagem ou então em potes ou latas (iremos conectar tudo isto?) E também o supermercado jamais foi um entreposto comercial apenas de venda de alimentos - há os itens de higiene, os de limpeza, material escolar e cada vez mais tudo o que você possa imaginar. Outro dia aqui em Belém vi no supermercado uma moça verificando o preço de... pneus (sim!). 

Ou seja, isto tudo posto, na melhor das hipóteses conectar a geladeira com o supermercado pode diminuir um pouco a necessidade de ir com frequência às compras, mas jamais as poderia eliminar. Então, o tão festejado avanço tecnológico me parece, no mínimo, meio inútil. Na pior das hipóteses, pelo grau e volume de informações sobre os hábitos de consumo de nossas famílias que estaremos entregando a uma empresa privada específica, me soa até perigoso.

  • Making-off do texto - Embora este texto quase tenha encerrado a série Choque de Realidade, foi o que lhe deu origem. O desenvolvi a partir de ideias postadas no Facebook (eventualmente posts meus mais densos se transformam em artigos, como aconteceu com este). Publicado em 23 de abril de 2016, foi meu 40º texto a sair no LinkedIn. Até hoje, foi lido 29 vezes, na maioria por pessoas de Macapá, São Paulo, Brasil e Maringá, A imagem, não creditada, é do Google Images. O tema segue atual, haja vista que hoje mesmo o colunista Guy Perelmuter escreveu sobre "A Internet das Coisas" em sua coluna no Estadão/Economia e Negócios (no link original o conteúdo é exclusivo para assinantes) - e lá está, entre os equipamentos conectáveis citado, a geladeira...

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