terça-feira, 25 de abril de 2017

Você não precisa ter contas a pagar (Ovelhas Desgarradas - 12)



Você jamais irá ver alguém bradando aos quatro ventos que está endividado. Quando algo assim é dito, será sempre a alguém muito próximo, e geralmente a sotto voce. Mesmo com toda a crise reinante, no Brasil e no mundo, espera-se que o ser humano adulto e vacinado seja capaz de não acumular dívidas - em outras palavras, do ser humano se espera que saiba gerir convenientemente suas contas a pagar, evitando que se acumulem. Vale dizer, dívidas são vistas negativamente porque expressam sua falta de controle no pagamento de suas contas.

Por outro lado, ter contas a pagar é no mais das vezes dito como algo positivo. Exemplos não faltam. Uma cena clichê em melodramas televisivos é quando, em meio a uma discussão, um filho ou filha recém-adulto faz lembrar a seu pai ou sua mãe que já tem mais de 18 anos, e ouve como resposta: "Você será adulto (ou adultaquando sair da minha casa e pagar as suas contasenquanto morar debaixo do meu teto terá que respeitar as minhas decisões". Um exemplo da vida real? Ok: há tempos uma amiga minha postou em seu Facebook: "Tem tanta gente se metendo no que eu faço que tou pra lançar a promoção: Pague minhas contas e ganhe o direito de falar sobre a minha vida". 

O que depreendemos dos exemplos? Que, ao contrário de estar endividado, poder dizer que paga as suas contas é visto com bons olhos em nossa sociedade. O que não é de espantar, considerando que vivemos numa sociedade competitiva, capitalista e onde cada vez mais o que é valorizado não é o ser (ou você é ou você não é, isso não se muda facilmente) nem mesmo o ter (ter custa dinheiro, que, segundo Noel Rosa já dizia em 1930 "não é fácil de ganhar"), e sim o parecer que tem (também conhecido como 'ostentação', conceito consagrado pelo Rei do Camarote em 2013).

Na busca de ostentar um status social que ainda não têm, ou mesmo jamais terão, muitas pessoas perdem o controle dos gastos, e é aí que as contas se transformam em dívidas. Mas, claro, esta é uma situação extrema. Em condições normais de temperatura e pressão, as pessoas têm dois tipos de despesas:
  • pagamentos recorrentes (que também podem ser chamados "assinaturas"), e que são as populares 'contas' de telefone fixo ou móvel, acesso à internet, energia, TV a cabo, Netflix etc, e também os pagamentos por garantias futuras, sem ligação com o fornecimento imediato de produto ou serviço (exemplos: plano de saúde, seguro de vida ou de bens..). Podem ter valor fixo ou variável, e geralmente devem ser pagas em um determinado dia do mês, sob pena de cobrança de multa e juros, além do corte do fornecimento do serviço, quando aplicável; e 
  • consumo propriamente dito, que é quando você compra um produto (ex: uma melancia) ou remunera um prestador de serviço (ex: o técnico de informática que ajeitou seu tablet que tinha se espatifado no chão). Este pagamento, uma vez efetuado, quita seu compromisso com o fornecedor, seja do produto, seja do serviço. Alguns bens de valor mais elevado, porém, como casas ou carros, têm seu valor parcelado para melhor encaixe no orçamento, gerando então prestações, cujo pagamento geralmente é mensal (em um mecanismo geralmente chamado de crédito ou crediário). Empréstimos bancários seguem a mesma lógica, pois são um serviço, sendo as parcelas as prestações que você paga ao banco, remunerando a ele o dinheiro que lhe adiantou. 

Uma dívida se configura quando você não consegue pagar, nas datas aprazadas, seus pagamentos recorrentes e/ou as prestações (ou parcelas). As punições variam conforme, basicamente, o tempo que você levar para "honrar" a dívida (o termo em si já denota como estar endividado é desonroso em nossa sociedade): vai dos já citados multa e juros, com suspensão do serviço (quando aplicável), até o lançamento de seu nome no famigerado SPC (Serviço de Proteção ao Crédito), o que basicamente impedirá que você... contraia novas dívidas, já que não poderá assumir consumo em prestações, ou ainda alguns tipos de pagamentos recorrentes.


Tecnicamente você será considerado negativado em termos de crédito no mercado, e seu nome constará no SPC por até cinco anos, ou até a data em que você conseguir pagar a dívida. E basicamente é isso, nada mais na sua vida irá mudar. Mas é claro que numa sociedade em que o parecer que tem é valorizado como na nossa, ficar impedido de assumir novas dívidas soa meio como se a pessoa fosse jogada num limbo social. Mas não se preocupe: a não ser que você conte para alguém, ninguém irá lhe olhar feio na rua, porque na verdade ninguém saberá, só você, a empresa que lhe colocou no SPC e as lojas que eventualmente consultassem seu cadastro, caso você tentasse abrir algum crediário (mas é claro que você não irá fazer isso, né?). 

Vamos convir que, num ambiente de crise econômica, um certo nível de incerteza paira sobre todos nós, então endividar-se deveria ser um acidente de percurso e não a regra. Há quem se empenhe em encaixar o máximo de parcelas em seu orçamento mensal, o que pode ser temerário ante uma eventual perda de emprego (para quem é assalariado) ou uma baixa procura de seus produtos ou serviços (para quem é autônomo). Porque uma verdade é que as despesas são certas, já as receitas nem tanto (veja-se a situação de vários estados brasileiros, onde o pagamento de funcionários públicos tem sido parcelado ou atrasado por meses a fio - embora sigam com o direito a receber seus salários, estes funcionários deixam de saber quando isso irá ocorrer, o que faz com que eles não possam honrar os pagamentos recorrentes nas datas estabelecidas, e acabem sujeitos a pagar multas e juros, ou em casos extremos serem negativados). Então evitar assumir pagamentos recorrentes e prestações em excesso - em português claro, evitar se endividar - é uma excelente dica. 

Mas, assim como você não é obrigado a se endividar, você pode muito bem viver sem contas a pagar, ou ao menos buscar enxugar isso ao máximo. Eu, por exemplo, desde que cancelei em setembro do ano passado minha última assinatura de internet móvel (devido à boa oferta de wi-fi hoje em dia na maior parte das cidades brasileiras), não tenho pagamentos mensais recorrentes a fazer. Todo valor que sai do meu bolso hoje paga consumo - seja de alimentação, seja de moradia ou hospedagem, seja da compra de passagens aéreas ou de ônibus, eventualmente algum item de vestuário e despesas com cultura/lazer (ingressos de cinema, show ou teatro, por exemplo), além de apostas em loterias (afinal, como poderei ganhar na MegaSena se não jogar?). Quando não estou em Macapá, desocupo o quarto que alugo na cidade, evitando assim ter despesas com um imóvel que não estarei usando. Ao viajar sempre me hospedo em lugares onde já haja wi-fi, o que elimina a necessidade de pagar acesso à internet (além de água, luz e telefone fixo, já que opto por ficar em hostels ou em quartos alugados diretamente com o proprietário). Celular? Uso apenas chips pré-pagos (em todas, eu disse TODAS, as vezes que eu assumi pagamentos recorrentes de operadoras de telefonia, seja para 'linhas de conta', seja para internet pós-paga, após os seis meses iniciais, as empresas começavam a cobrar por itens que eu não havia contratado, o que eu só descobria ao analisar a conta detalhada, e a briga pela devolução desses valores, quase sempre pequenos, me consumia vários dias por mês; na conta seguinte, lá estava a cobrança indevida novamente!). Ou seja, você vê que é perfeitamente possível viver sem se endividar nem mesmo ter contas a pagar.

Encerro esta série de textos convidando você a repensar sua planilha de gastos mensal e localizar o que pode ser diminuído ou mesmo eliminado. Com certeza, você irá se surpreender!


  • Making-off do texto - Minha 41ª publicação para o LinkedIn foi este sexto e último artigo da série Choque de Realidade, publicado às 18h de 23 de abril de 2016 (no mesmo dia, mas à meia-noite, eu postara o artigo anterior, Será que uma geladeira conectada é algo tão bom assim?). A imagem, não creditada, é do Google Imagens. Foi lido 74 vezes até hoje, na maioria por internautas de Macapá, São Paulo e Sorocaba, e recebeu 2 "gostei". 


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