segunda-feira, 15 de maio de 2017

Etapas em Combustão (Ovelhas Desgarradas - 20)

Recentemente, duas pessoas próximas, ambas jovens cantoras, me contaram (uma sem saber da outra) que entraram em contato com artistas com um tempo de carreira maior. Coincidentemente, as duas, ao relatarem a eles seus planos para o futuro, em médio e longo prazo, receberam um balde de água fria - nas falas dos dois "veteranos", havia a mesma expressão: Você está querendo queimar etapas!

Ou seja: seria uma transposição, em termos de carreira musical, da velha piada de veteranos sobre calouros que, já na primeira viagem, "querem sentar na janelinha" - em outras palavras, querem figurar em lugar de destaque. Só que, na visão dos veteranos, os novatos ainda não mereceriam tal destaque, pois haveria 'N' etapas a percorrer, e pulá-las, ou ignorá-las, ou descartá-las, seria equivalente a uma 'queima'.

Mas quem é que define isto, ainda mais numa carreira artística? O primeiro disco de Marisa Monte - MM, lançado em 1989 -, era ao vivo. Em 2007, Mallu (ainda assinando com o sobrenome Magalhães) pegou uma grana que tinha juntado, gravou quatro canções suas e as postou no MySpace e do dia pra noite teve um expressivo número de audições - detalhe, ela estava com apenas 15 anos. Anitta era só um ano mais velha quando, em 2009, começou a postar vídeos em seu canal do YouTube; dois anos depois, este material acabou atraindo a atenção do produtor Batutinha, garantindo à cantora o seu primeiro contrato profissional.

No campo musical, há valores que evidentemente não mudaram, como o talento. Mas quem é que define quando, por exemplo, é o momento de uma cantora ou uma banda lançar seu primeiro disco, seja apenas na internet, seja físico? Ou de cantar apenas composições próprias, ou escritas especialmente para sua voz, e não ficar repetindo a eterna parada de sucessos que se escuta nos bares da vida? Ou largar o circuito de barzinhos e se aventurar no palco de um teatro? Penso que cabe a cada artista decidir quando é este momento - até porque, se for de fato prematuro, a resposta não se fará esperar.

De todo modo, falando agora como público, hoje em dia quando conheço - seja pessoal, seja virtualmente - algum/a artista ou banda, vou logo perguntando onde posso ouvir seu trabalho. Não são raras as bandas que lançam singles ou mesmo EPs no Soundcloud antes mesmo do primeiro show. Curiosamente, de um escritor não se cobra que tenha publicado um número X de contos em revistas literárias antes de lançar seu primeiro livro.

Há outro fator também que parece animar os 'novatos' a "queimar etapas": o estabelecimento de seu próprio status como artistas. Como já me disse o violonista gaúcho Maurício Marques numa entrevista de 2005: Parece que passei a existir depois do CD. Isto é maluco, você estuda e toca anos a fio, grava com muitos, vai a todos os festivais (eu já fui a todos e já devo ter umas boas 300 gravações) mas você só existe se tiver um disco. Para grandes contratantes, você precisa enviar junto com seu projeto de show a ser vendido... um CD (ou seja, se você não tiver, está fora do jogo).

Logo, se você decidiu que vai viver de arte, o momento em que seu trabalho estará disponível para ser apreciado por fãs e gerar contratações tem que ser decidido por você, eventualmente por sua equipe de produção (caso você já a possua), e não seguir um manual que nunca existiu.

Se você tem uma mensagem que considera importante mostrar ao mundo, faça isso, o que não faltam hoje são canais que o possibilitem. Nossos ouvidos agradecem.


Belém, 18.4.16


  • Making-off do texto - Meu sétimo texto para o Digestivo Cultural foi publicado na data citada acima e é desde então meu maior sucesso por lá, já tendo sido lido 2.258 vezes até hoje. Com o mesmo título, foi publicado de forma reduzida em 26 de abril de 2016 no espaço "Papo Cabeça" que eu escrevia dentro da Coluna RoraimaRockNRoll, do Victor Matheus Mattos, veiculada em duas mídias: o jornal Folha de Boa Vista, da capital de Roraima, e o blog RoraimaRockn'Roll

Nenhum comentário:

Postar um comentário