terça-feira, 2 de maio de 2017

Os blogs poderão voltar a ser mais relevantes que as redes sociais? (Ovelhas Desgarradas - 15)

Foto e design: Fabio Gomes


versão original deste texto, intitulada "Eu blogo, tu blogas?", entrou no ar ontem em minha coluna no Digestivo Cultural. Quem é do meio jornalístico sabe que muitas vezes os textos são escritos com uma certa antecedência, o que foi o caso com este, escrito em 24 de junho. Não tinha eu como imaginar que, apenas dez dias depois, um dos temas dominantes no debate público seria o futuro das redes sociais como as conhecemos hoje, em virtude da mudança do ranqueamento do feed de notícias do Facebook.

O assunto logo repercutiu aqui no LinkedIn Pulse:
  • Eden Wiedemann foi taxativo ao afirmar: O Facebook vai acabar. (a análise dele lembra em alguns pontos a que fiz para a coluna Papo Cabeça, ainda em 2012, intitulada O Facebook não pode ser seu único canal de comunicação profissional).

  • Gina Bianchini lançou um convite para que criemos redes sociais melhores, nas quais as pessoas se conectariam por interesses em comum, o que também é a proposta da nova rede social do criador do Orkut; intitulada Hello, estará disponível apenas para dispositivos móveis. A entrevista de Orkut Büyükkökten a Paula Candiago Soprana e Bruno Ferrari pode ser lida aqui. 

  • Enquanto escrevo esta introdução, Fernanda Pompeu acaba de publicar em seu Diário Digital um questionamento sobre quão confiáveis são as informações que as pessoas publicam em seus perfis nas redes sociais, onde "todo mundo é legal".

  • Já Renê Fraga apresenta uma visão mais otimista, a começar pelo título de seu artigo: Novo Feed de Notícias do Facebook vai salvar a internet! Isto porque, com a limitação do conteúdo que aparece no feed do Facebook,  "As marcas e profissionais terão que procurar novas formas de introduzir seus conteúdos e até mesmo retomar esforços em mídias como o Twitter, LinkedIn, Google+, YouTube e, por que não, os Blogs."

Então, nesse momento em que os blogs podem voltar a ser parte importante da websfera, compartilho com vocês uma reflexão sobre minha trajetória de blogueiro ao longo dos últimos sete anos.

***

Em 23 de junho, coloquei no ar aquele que é meu 12º blog - Fabio Gomes Foto & Cinema. Como o nome já indica, naquele espaço estarei destacando meu trabalho com as imagens, ao contrário de quase todos os anteriores, voltados para o jornalismo cultural. Eu já divulgava meus filmes e fotos em uma fan page no Facebook, mas conforme vinha intensificando meu trabalho nesta área (audio)visual, fui sentindo a necessidade de ter um local específico na internet. Num blog (assim como num site), você pode gerenciar melhor o aspecto das publicações, assim como o público dispõe de ferramentas para localizar facilmente o que procura, dois aspectos em que o Facebook historicamente deixa a desejar. 

Enquanto configurava as diferentes áreas do novo blog, foi inevitável ficar me sentindo como em 2009, quando criei meu primeiro blog que teve destaque, o Som do Norte. Ao longo desses sete anos pouca coisa de fato mudou no bom e velho Blogger. A facilidade de uso é a mesma, assim como o caminho para localizar e implantar algumas funcionalidades continua tortuoso. De toda forma, ao menos para mim, o Blogger é bem mais fácil de operar que seu congênere Wordpress - ao menos mais intuitivo.

Minha primeira experiência com blogs foi em 2003, ano em que o formato se impôs como uma novidade na websfera brasileira. Criei um blog do qual confesso que já nem lembro o nome, até porque ele só esteve no ar uns poucos dias, e para o qual não produzi conteúdo original, limitando-me a republicar nele textos sobre cinema. Mais especificamente, resenhas de filmes, escritas para meu site Brasileirinho, lançado no ano anterior. Minha intenção era entender a ferramenta; cumprida essa meta, excluí o blog. A experiência talvez tenha ocorrido em maio, pois em 9 de junho daquele ano lancei dentro do Brasileirinho o informativo Mistura & Manda, que incorporava algumas características de blog - atualização periódica (semanal, aos domingos), textos curtos e o convite para que a pessoa comentasse e enviasse sua opinião (ou, no caso, "misturasse e mandasse"); este último cumpria a função da caixa de comentários de um blog. Além de ser postado no site, o M&M era enviado por e-mail a assinantes. O M&M seguiu sendo atualizado até o começo de 2009.

Minha experiência seguinte com blog foi como colaborador do Protocolo do Incenso - Ritual & Atração, criado pela jornalista e atriz paulista Vanessa Morelli, ali por 2008, e que já não está no ar. Posteriormente colaborei também com o Falando das Telas, do crítico de cinema Ruy Jobim Neto, também sediado em São Paulo (2009); com o blog do Coletivo Megafônica (Belém, 2011); e sou colaborador permanente do Roraima Rock'n'Roll, do músico e produtor Victor Matheus, desde seu lançamento em 2010. 

Minha opção por trabalhar com blog, e não site, ao me propor a abordar a musicalidade da Amazônia, em meados de 2009, foi em parte pela facilidade de uso, já comentada ao início desse texto, e também porque os blogs viviam talvez seu momento de maior prestígio e influência no Brasil, ao contrário do que ocorria seis anos antes. Para ilustrar a popularidade que o Som do Norte obteve logo de saída basta dizer que em dezembro de 2009, com apenas quatro meses no ar, enquete realizada pelo blog para escolher a Música do Ano recebeu mais de 21 mil votos! 

Isto me levou a no ano seguinte dedicar novo blog à sonoridade amazônica: o Música do Norte, onde só posto álbuns inteiros, sejam clássicos ou lançamentos. Já em 2011, transformei em blog meu antigo site Jornalismo Cultural, lançado em 2005, e criei meu único fan-blog, o Noel Rosa Sempre, para publicar notícias ligadas ao legado do artista e disponibilizar sua obra que se encontra em domínio público.  (OBS: o Noel Rosa Sempre saiu do ar em 18.9.16).

No ano seguinte, pus no ar meu blog mais ao estilo "internet roots", o Rapidola. O Rapidola começou em 2010 como um informativo do Som do Norte enviado a assinantes, ao estilo do Mistura & Manda, porém com um diferencial: não continha textos completos, apenas links, com uma breve frase de abertura, pinçada de uma das notícias linkadas. A seleção incluía posts de outros blogs que também falassem da música nortista. O Rapidola-blog nasceu para deixar acessíveis esses informativos, e a referência a 'roots' é porque eram exatamente assim os primeiros blogs da internet: uma coleção de links (duvida? Confira). Também em 2012, comecei a editar o blog da Poeta Amadio, de Porto Velho, artista cujo trabalho venho produzindo desde então (na época em que produzia vários artistas, acabei criando outro blog para divulgá-los, o Artistas Som do Norte).  Já o blog do projeto As Tias do Marabaixo está no ar desde 2014, quando comecei o trabalho de resgate e divulgação do Marabaixo, cultura tradicional de matriz africana típica do Amapá.

Os poucos blogs que lancei sem ligação com cultura ou comunicação tiveram vida curta. Em 2013, decidi criar um guia virtual de restaurantes econômicos, que geralmente ficam fora dos guias turísticos disponíveis no mercado. O Comendo Bem e Barato foi pensado para se viabilizar obtendo anúncios dos estabelecimentos citados no blog, o que acabou não se confirmando. Já o Apontam Estudos era uma antologia de posts publicados em meu Facebook pessoal. A criação da ferramenta 'Lembranças' pela rede social esvaziou o sentido desse espaço existir. 

Como já mencionei, vai longe o auge dos blogs no Brasil. A audiência foi caindo lentamente a partir de 2012; no começo de 2013, pareceu embalar novamente (lembro de ter falado sobre isso numa conversa que tive com alunos da PUC-SP em abril daquele ano - no mês anterior, o Som do Norte atingira 21 mil visitas únicas, marca jamais repetida), mas depois seguiu em queda, mantendo-se agora estável. Digamos que é um público pequeno, porém fiel. Claro que estou falando de meus espaços no Blogger, até porque não tenho acesso às estatísticas dos blogs de outros jornalistas. 

O novo blog Foto & Cinema atingiu 500 visitas nos primeiros 11 dias, uma média de 40 por dia, o que considero muito bom, tendo em vista que só o divulguei até agora em redes sociais. Mas nem ele nem nenhum outro dos que ainda estão ativos se comparam ao blog que desde o ano passado mantenho dentro do site Digestivo Cultural, o Cinema Independente na Estrada. Em média, meus posts lá têm 339 acessos, com a fantástica marca de 1.652 para o post inaugural do blog, que conta a história do projeto As Tias do Marabaixo (os números foram colhidos em 24.6.16).

Só para comparar, os posts do Som do Norte que atualmente chegam a 300 acessos são os de entrevistas ou lançamentos exclusivos. Aliás, exclusividade me parece ser a palavra-chave que justifica a manutenção de blogs, era assim no passado e hoje segue sendo. Desde o ano passado, parei de postar no Som do Norte agenda de shows - as informações sobre os shows em sua cidade você obtém hoje muito mais fácil através de redes sociais ou mesmo por Whatsapp. 

Considero sim que os blogs seguem sendo boas ferramentas, principalmente se quem o edita tem noções de HTML, que ajudam a compensar a limitação de recursos. Para quem gosta de publicar regularmente, um blog ainda é preferível às redes sociais (que vejo como seu complemento: grandes ferramentas para a difusão do conteúdo blogado), mais ainda se você pretende usar o blog como forma de oferecer serviços e produtos (o mural do Facebook, talvez propositalmente, não se presta muito bem a este fim).

Pra concluir: por muito tempo ouvi a pergunta, geralmente a propósito do Som do Norte: "Ah, seu blog é tão legal, por que você não o transforma num site?" Mas na verdade são coisas bem diferentes: cada vez mais, um site é recomendado se você quer publicar um conteúdo de forma institucional, com atualizações ocasionais. Para publicar regularmente e se manter pesquisável & localizável neste mar sem fim que é a internet, vá por mim: a melhor opção em 2016 segue sendo o bom e velho blog.



  • Making-off do texto - "Eu blogo, tu blogas?" é um raríssimo caso de texto meu escrito com muita antecedência que, ao finalmente sair, encontra o seu assunto na ordem da dia. Aproveitei o ensejo para republicá-lo no LinkedIn, com outro título e incorporando links de publicações recentes sobre o assunto - tão recentes que cheguei a incluir um texto de Fernanda Pompeu publicado enquanto eu redigia a introdução que abre este artigo, que foi o meu 47º texto a sair no LinkedIn, em 5 de julho de 2016, apenas um dia depois de "Eu blogo, tu blogas?" entrar no ar. Até hoje, o artigo recebeu 92 acessos, na maioria de leitores de Macapá, São Paulo e Curitiba, 3 comentários e 7 "gostei". Em linhas gerais os artigos seguem o mesmo texto, com algumas diferenças a partir do terceiro parágrafo (contando a partir do trecho "Em 23 de junho, coloquei no ar...."). 


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