sexta-feira, 12 de maio de 2017

Pare de dizer que você tem problemas (Ovelhas Desgarradas - 19)


Se há algo que eu recomendo fortemente para o ano que se aproxima, é que você pare de achar que tem problemas. "Mas por quê?", você poderia me perguntar. E minha resposta seria: "Porque as palavras têm força". Na verdade, não é preciso ser um especialista em Neurolinguística para perceber isto. Basta lembrar de toda a sabedoria popular associada ao poder do pensamento positivo.

De certa forma, não deixa de ser curioso que, numa sociedade que valoriza tanto a posse de coisas (tema, aliás, brilhantemente abordado por Milton Jung no LinkedIn), se prefira dizer que "temos problemas", e não que "estamos com problemas". Em geral, afora a menção a problemas, nossa tendência para expressar coisas não palpáveis é o uso da expressão "estar com" - podemos estar com saudades, ou com alguma doença, ou com vontade de viajar, ou com um palpite para jogar na Mega Sena. Já o verbo "ter" é costumeiramente associado a objetos que possuímos, seja do tamanho que forem - de um alfinete a uma casa ou um carro.

E quando você tem alguma coisa, é porque de algum modo essa relação não é facilmente modificável. Que o diga o cantor Belchior, que abandonou dois carros há cerca de sete anos (um no estacionamento do aeroporto de Congonhas, em outubro de 2008, e outro na garagem de um flat também localizado na cidade de São Paulo, em março de 2009. Fonte: Época). A propriedade de um carro, por si só, acarreta uma série de consequências jurídico-econômicas; você inclui o carro em sua declaração de Imposto de Renda e recolhe anualmente o IPVA, entre outras obrigações legais. De modo que diferentemente de um alfinete que eventualmente entorte ou enferruje, e que você pode jogar num cesto de lixo ou abandonar ao deus-dará e ninguém voltará a associá-lo a você, um carro não pode ser simplesmente largado por aí; a documentação do veículo seguirá em seu nome, e você será responsável pelos prejuízos que ele acarretar ou danos que vier a sofrer decorrentes do abandono. Em resumo: você diz que tem um carro porque sua relação com este objeto não pode ser facilmente modificada a qualquer momento.

Você percebe então o que está em jogo quando diz que tem um problema? Você está, de algum modo, afirmando que possui com o problema um vínculo cuja dissolução não é nada simples. Ao passo que se você mudar o verbo - e a forma de encarar a situação - para "estou com um problema", você modifica o quadro para algo com o que pode lidar: se você está com saudades de alguém, você entra em contato com a pessoa e marca um reencontro; se você está com uma doença, você vai procurar tratamento; se você está com vontade de viajar, você pesquisa preço de passagens, se agenda e viaja; e se você está com um palpite para a Mega Sena, você vai a uma lotérica e aposta (boa sorte!).

Notaram a diferença? Enquanto dizer que "temos um problema" nos paralisa - já que em nossa cultura materialista, "ter" é algo desejável, você raramente se mobiliza para deixar de ter algo que possua -, pensar que "estamos com" alguma coisa de certa forma nos impele, nos convida à ação, para que o estado agora imperfeito se modifique para a situação sonhada.

Fica então minha sugestão para 2016 (que na verdade vale para qualquer tempo): pare de achar que você tem um problema, comece a se dizer que está com um problema (o que lhe fará agir para que deixe de estar com ele) ou mesmo que apareceu um problema - afinal, o que aparece, e não lhe pertence, é melhor que desapareça, não é mesmo?

Um feliz e produtivo 2016 a todos nós!

Macapá, 11/1/2016

  • Making-off - Esse texto tem toda a cara de mensagem de começo de ano, não é? Pois foi com esse intuito mesmo que ele foi escrito para ser publicado no Digestivo Cultural (meu quarto testo por lá, lido 1791 vezes até hoje), onde saiu com o título Em 2016, pare de dizer que você tem problemas, que evidentemente tinha que ser mudado para a republicação aqui. Também no começo do ano passado, cheguei a postar o texto no meu finado LinkedIn. A foto é minha, creio que feita em Macapá em algum momento de 2015. É talvez meu único texto onde eu mencione Belchior, um dos grandes nomes da MPB, falecido em 30 de abril de 2017, aos 70 anos. 

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