domingo, 4 de junho de 2017

Bate-Papo com Monarco



O líder da Velha Guarda da Portela fala de Lupicínio Rodrigues, Cartola, Noel Rosa, Candeia, Zeca Pagodinho...

Gravado em 27 de junho de 2004 no Santander Cultural (Porto Alegre)

FABIO GOMES - Monarco, eu havia marcado uma entrevista com o senhor...

MONARCO - Vamos fazer, só um momentinho que vou tirar umas fotos com o pessoal...

F - Tranqüilamente.

M - ... para marcar a minha presença, a minha lembrança aqui nesse Estado bonito, maravilhoso que é o Rio Grande do Sul, terra do nosso saudoso Gegê, Getúlio Vargas, ah! Um baixinho que... Dr. Leonel Brizola, é isso aí... Lupicínio Rodrigues! (canta "Ela Disse-me Assim", de Lupicínio Rodrigues) "Ela disse-me assim/ Tenha pena de mim, vá embora/ Vais me prejudicar, ele pode chegar, tá na hora/ Eu não tinha motivo nenhum para lhe recusar..." Eu vi a entrevista do Lupicínio... porque eu era fã dele desde garoto. "Se Acaso Você Chegasse" (Lupicínio Rodrigues - Felisberto Martins) (canta) "Se acaso você chegasse" - sucesso de 37, isso, e "Cadeira Vazia" (Lupicínio Rodrigues -Alcides Gonçalves)(canta) "Entra, meu amor, fica à vontade...", Chico (Francisco Alves) gravou. Então era fã do Lupicínio em menino. De repente... como o destino foi bom pra mim, rapaz. Eu guardando carro no Jornal do Brasil e o rapaz que entrevistava, chamava Simon Khoury, né:

- Monarco! Sabe quem é que vai ser entrevistado aqui hoje? Teu ídolo: Lupicínio Rodrigues!

- Ah, meu Deus! Que hora que ele vem?

- Dez horas ele tá chegando aí.

Aí eu largava às nove, né, tomei banho, fiquei prontinho. Daqui a pouco ele salta daquele carro, aquele carecão... Aí olhei: "É ele!" Aí, rapaz, eu fiquei assim no vidro até o final da entrevista. Ele tomou uma garrafa de uísque! Aí perguntaram a ele qual era o verso que ele gostava mais, dele. Ele falou que todas as coisas que ele fazia era com amor, com o coração, ele gostava, mas tinha um que marcou (cita "Felicidade"): "Felicidade fica lá detrás do mundo,/ Onde eu vou em um segundo/ Quando começo a pensar". Perguntaram a ele se ele tinha algum herdeiro musical, assim, ele lembrou um rapaz de São Paulo, chamado Lúcio Cardim: "Esse rapaz, ele escreve umas músicas, assim, com um estilo meu, né? (canta) 'Eta dor de cotovelo dos infernos/ Desse jeito não vai dar para esperar/ Qualquer dia tomo um fogo às escondidas/ Saio e choro por aí a lhe buscar', compreendeu? E "Matriz e Filial" é muito bonita. Mas aquela que diz: "Teu destino sempre é voltar chorando/ Arrependida me pedindo pra ficar", isso é Lupicínio, né? Ou é do Lúcio Cardim? 

- É do Lúcio. 

M - Ah, é do Lúcio Cardim! Tu vê, o estilo, o estilo igualzinho. Lupicínio era o orgulho do Rio Grande do Sul. Quando chegava no Rio, "seqüestravam" ele, seguravam ele, não deixavam... escondiam ele, Lupicínio. Agora, não sei por que cargas d'água ele se apaixonou pela voz do Jamelão e tudo que ele fazia novo levava pro Jamelão gravar. Tornou-se o maior intérprete do Lupicínio. Foi o Chico, primeiramente, depois veio... A Linda (Batista) gravou muito ele... "Vingança", já pegou... Eu sugeri, para uma escola de samba do 2º grupo, o Lupicínio como enredo (Unidos do Jacarezinho, 1987, "Lupiciniando na Sapucaí"). E o filho dele (Lupicínio Rodrigues Filho) foi, desfilou lá, Jamelão desfilou, compreendeu? Esse ano eu vou ser enredo da Unidos do Jacarezinho. É, eu sou enredo: "Monarco, Voz e Memória do Samba: um Passado de Glória". Os garotos já tão fazendo o samba lá, me param no meio da rua:

- Monarco! Tu nasceu quando?

- Ô rapaz! Pra fazer samba não precisa nem falar em dados biográficos! Pega a minha obra e vem cantando!

F - De onde vem esse apelido, "Monarco"? 

- Ah, "Monarco" foi em Nova Iguaçu. Que eu nasci em Cavalcante e fui morar em Nova Iguaçu. Quando cheguei em Nova Iguaçu, né, pequeno ainda, né, e comecei a me enturmar, fugir um pouquinho de casa e conhecer os amiguinhos. Foi quando um camarada tava lendo uma revistinha pequena... Gibi, era um gibi, Super-Homem, que tinha uns negócios... e o camarada proferiu essa palavra: "... não sei o quê não sei o quê o monarco não sei o quê...", aí eu comecei a rir. Achei gozado! Garoto bobo, tinha 5 ou 6 anos. Aí ele: "Tá rindo por quê, seu monarco?" Aquilo bateu, ficou como um visgo ali agarrado. Todo mundo vinha, os garotos: "Monarco!", nas minhas costas me batendo, aí eu fiquei assim bobo:

- Que que aconteceu?

- Que que aconteceu que você é um monarco. Tá rindo de quê, seu monarco?

Aí pronto, aquilo pegou, ficou até hoje. Quebrou muitos protocolos. Fui trabalhar na ABI (Associação Brasileira de Imprensa), né, descobriram que meu apelido era Monarco na ABI. Herbert Moses era o presidente. Eu escovei muito a mesa de bilhar francês pro (Heitor) Villa-Lobos jogar. Ele não gostava de jogar sinuca, ele jogava era bilhar francês, era um jogo de carambola... Ele chegava 3 e meia, 4 horas da tarde, botava lá o paletó e eu escovava a mesa pra ele jogar bilhar francês. O Nássara não saía de lá, aquela época. Barão de Itararé...

 (interrompendo, emocionado) - Tu é o pai do Diniz, né...

M - Mauro Diniz. Meu filhão. Mauro, o Mauro, ele é arranjador, músico e compositor, grava... Tá gravando bem aí. E tem o menor, que é o Marcos Diniz, que tá chegando agora, mas numa linha jocosa, assim: (canta "Caviar", de Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz) "Você sabe o que é caviar?/ Não comi, nunca vi, eu só ouço falar". Esse é o menorzinho, que já tá botando as unhas de fora (canta "Parabólica", de Luiz Grande, Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz):

"A parabólica/ Foi trazida por um temporal/ Que eu achei no mato, botei no barraco na cara de pau/ O meu barraco hoje está valorizado/ Só por causa de uma antena/ Que eu coloquei no telhado/ Pois a parabólica/ Foi trazida por um temporal/ Que eu achei no mato, botei no barraco na cara de pau".

O moleque tá botando as unhas de fora.

F - O seu filho tá gravando muito com o Zeca Pagodinho, né?

M - É, ele é do Trio Calafrio - é ele, Barbeirinho e o... o...

F - Luiz Grande.

M - Luiz Grande. É isso aí. Viu como tu sabe?

F - É, justamente.

- E a linha deles é uma linha jocosa. O Mauro é mais romântico, né? O Mauro é: (canta "Parabéns pra Você", de Sereno, Ratinho e Mauro Diniz) "Parabéns pra você/ Por tentar me enganar/ Me ferir por prazer/ Num capricho vulgar"... O Mauro já vem nessa linha, me acompanhando. Já o moleque já... é jocoso, né? (fala trecho de "Conflito", de Barbeirinho do Jacarezinho e Marcos Diniz)"Ô que conflito,/ Roubaram o cabrito/ Do seu Benedito", sei lá, compreendeu? Mas eu deixo ele, eu nunca cheguei perto dele e: "Ô, pára de fazer isso. Faz assim..." Eu não. Deixa ele. Ele cria nisso, ele cria nisso, ele vem nessa, nesse lance jocoso e o Zeca gosta, compreendeu? 

F - O Zeca convidou a Velha Guarda da Portela pra participar do Acústico (projeto da MTV Brasil que resultou em um programa de TV, um CD e um DVD), e também vocês participaram do filme do Paulinho da Viola (Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje, de Izabel Jaguaribe)...

M - Paulinho adora a gente. Paulinho fala assim, Paulinho diz: "Ó, se acabar vocês aí, acabou tudo". O Zeca convida a Velha Guarda sempre. O Zeca, ele tem um respeito pela gente muito grande, entendeu, ele é como se fosse um filho nosso. Ele inclusive, ele é afilhado da Velha Guarda da Portela. E agora é meu padrinho de casamento. Ele me ligou: "Porra, que rolo danado, tu é meu padrinho, agora eu sou teu padrinho também, como é que é isso?" Eu digo: "É, tá tudo bem...". Que agora eles inventaram esse negócio de 5, 6 padrinhos de casamento, minha mulher que inventou isso.

- Minha filha, não é um só?

- Não, agora pode ser...

- Então você que sabe.

Aí convidou o Zeca, Zeca aceitou. Foi o primeiro a chegar. Aí o jornalista perguntou:

- Zeca, por que você chegou cedo?

- Não, eu cheguei... eles que chegaram atrasado. Eu gosto de chegar cedo.

Aí tirou logo aquele paletó, pendurou lá, com a fralda da camisa do lado de fora, e cerveja pra dentro. É o modo dele, não adianta, que ninguém muda ele. É a simplicidade em figura de gente, aquele garoto. O meu padrinho de casamento foi ele, Lan, que talvez você não conheça ...

F - Lan, o cartunista!

M - Cartunista, compreendeu? Guilherme de Brito... Há um time de compositores ali em Mangueira que não é mole. Nelson (Cavaquinho)... (fala trecho de "Quando Eu me Chamar Saudade", de Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito) "Quem quiser fazer por mim, que faça agora." O Cartola... Conheci Cartola bem. Cartola se afastou de Mangueira, né, e as pessoas faziam samba pensando que o Cartola já tinha morrido. Aí (canta "Saudade de Mangueira", de Herivelto Martins) "Tenho saudade do terreiro da escola/ Desde o tempo do Cartola". Nego pensava que ele tinha morrido. Mas ele se afastou, ele deu um desacerto na vida, né, e aí chegou pra morar lá em Nilópolis, todo mundo: "Ih, quedê o Cartola?" "Morreu!", de repente ele aparece lavando carro lá em Ipanema, compreendeu, aí foram lá, descobriram ele. (canta "Não Faz, Amor", de Cartola e Noel Rosa) "Não faz, amor/ Deixa-me dormir/ Ó minha flor, tenha dó de mim/ Sonhei, acordei assustado/ Receoso que tivesses me enganado/ Eu não durmo sossegado." Noel Rosa botou segunda parte! As segundas são do Noel, que o Cartola, quando o Chico (Alves) viu a Mangueira passar... um grupozinho pequeno da Mangueira, que era um contingente de 20, 30 pessoas, que a Neuma era mocinha e me contou... O Chico viu e falou: "Isso deve ser do Cartola". Porque ele já tinha comprado "Divina Dama", do Cartola. Quando passou aquele "Não faz, amor/ Deixa-me dormir...", ele: "Olha que coisa bonita. Isso deve ser do Cartola". Quando foi no dia seguinte, ele foi à Mangueira, o Chico. Foi à Mangueira, chegou lá, o Cartola tava ardendo em febre, não deu nem atenção a ele, não pôde nem conversar. Ele aí foi ao Noel, compreendeu, e cantou pro Noel, o Noel aí botou, compreendeu, e o Chico gravou. Cartola e Noel Rosa! Fizeram muita coisa. "Qual Foi o Mal que Eu te Fiz?"... (canta) "Diz qual foi o mal que eu te fiz/ Eu não te faria essa ingratidão/ Foi um falso contra nossa amizade/ Não creia, não pode ser verdade". (canta "Tenho um Novo Amor", de Cartola e Noel Rosa) "Tenho um novo amor,/ tenho um novo amor..." Carmen Miranda. Cartola! Diz que o Noel também que botou a segunda, não tenho certeza. - "...que vive pensando em mim/ Não quer me ver..." O samba era "sujo nem rasgado/ Gosta que eu ando assim alinhado". O Chico comprou do Cartola e trocou pro feminino, mudou: "Não quer me ver triste nem zangada" - e a Carmen gravou - "Gosta que eu ande assim engraçada/ Tenho um novo amor,/ tenho um novo amor". 1932, eu não era nem nascido. Eles me contam a história, os mais velhos, eu fico prestando atenção. O Carlos Cachaça... Carlos Cachaça foi idolatrado por (Carlos) Drummond de Andrade! Justamente! Noel... o Noel, rapaz, Noel, nem sei, sabe? Você vê: ele andou em Mangueira ali atrás do Cartola, o próprio Carlos Cachaça dizia. Ele atravessava a rua 8 de Dezembro e ia lá no barraco procurar o Cartola. Cartola morava com uma escura gorda... dizem que Cartola gostava de mulher gorda, até o Carlos Cachaça que falava isso. Então a Deolinda agarrava o Noel e metia a cabeça do Noel numa tina, pra poder o Noel ficar bom pra... porque ele tomava todas, né? Bebia mais que o Cartola, inclusive. E era vagabundo, que não trabalhava. O Cartola saía, saía pruma obrazinha, usava um chapeuzinho coco - foi aí que botaram o apelido de Cartola - pra não cair o cimento, e o Noel não fazia nada pra ninguém, compreendeu? Já gravava mais do que o Cartola e tudo, já tava... Noel, já tava, nessa época o Noel já tava gravando já com aquela turma do Estácio, com Ismael (Silva), aquele sucesso dele (canta "O Orvalho Vem Caindo") "O orvalho vem caindo/ Vai molhar o meu chapéu...", com Kid Pepe, (canta "Até Amanhã") "Até amanhã/ Se Deus quiser/ Se não chover/ Eu volto pra te ver, ó mulher..." O moleque era bom! "Feitiço da Vila" (Vadico - Noel Rosa)... Grande Noel Rosa! Eu nasci em 33, ele morreu em 37. Eu me lembro, eu era pequeno mas eu me lembro quando a minha irmã falou: "Quem morreu foi Noel Rosa". Aquilo pra mim foi uma coisa que eu não... não sabia quem era Noel Rosa. Quando o tempo foi passando é que eu fui... Noel Rosa! Esse camarada não tem igual (canta "Último Desejo"):

"Nosso amor que eu não esqueço/ E que teve o seu começo/ Numa festa de São João/ Morre hoje sem foguete/ Sem retrato e sem bilhete/ Sem luar e sem violão..."

Ah, quê isso! Não fazem mais isso. Agora é "a barata da vizinha caiu na minha cama". Por isso é que ele taí até hoje! O Noel taí vivo até hoje, e gravando, compreendeu? Justamente! Aí, "Com que Roupa", garota de 12, 13 anos canta isso aí. Você canta Noel Rosa aí, todo mundo canta. "Com que Roupa" é de 1930, compreendeu? É isso aí. (canta "Mulato Bamba") "Esse mulato forte é do Salgueiro/ Viajar no tintureiro era seu esporte/ Já nasceu com sorte/ E desde pirralho/ Vive à custa do baralho/ Nunca viu trabalho." (risadas) Fala, Noel!

F - A Portela chegou a desfilar na avenida com um samba da tua autoria?

M - Não. Portela desfilou com samba meu, sambas de terreiro que eu idolatrei ela, falando dela, como eu acabei de cantar agora: (canta "O Passado da Portela") "Um dia, um portelense de outrora...", (canta "Passado de Glória") "Portela, eu às vezes meditando/ Acabo até chorando...". Assim que ela desfilou, abrindo os desfiles com esses sambas. Agora, samba-enredo nunca porque nunca liguei muito pra samba-enredo, não é o meu forte. O meu forte é mais esse samba de terreiro, tirado, compreendeu, do coração... Sei lá, eu nunca entrei muito nessa, né? Andei fazendo até uns sambas-enredo lá e tudo, mas não fui feliz. Porque a escola de samba tá indo por um caminho muito... muito comercial, sabe, o negócio... Pra faturar, tão fazendo qualquer negócio. Qualquer negócio, eles tão fazendo. Tão desvirtuando, tão desvirtuando. Tinha um jornalista no Jornal do Brasil, chamava-se Juarez Barroso. Que inteligente! Aquele rapaz morreu novo porque bebia muita cana. Juarez Barroso. Ele escreveu na contracapa de um disco meu, um disco que o Lan fez a capa, ele escreveu:

"A meu compadre Monarco. Ao entrar na sede da Portela, em torno da cabine de som, estão retratados os verdadeiros sacerdotes do samba de Osvaldo Cruz".

Aí ele fala sobre o "perigoso desvio", ele fala, é, compreendeu... "vigiando todo o espaço vazio contra os perigosos desvios". Mas já desviou, não adiantou a gente ficar vigilante. A gente mantém o que a gente pode manter, né? Não entramos no modismo, compreendeu? Principalmente eu, que não me preocupo em fazer um samba comercial. Eu só vou fazer a música que eu faço com o coração. Então, que eu seja antiquado, que seja ultrapassado, que eu seja... deixa falar quem quiser. Mas eu me sinto bem assim. Ainda mais agora, que hoje eu ganho um dinheirinho com música. Passei fome ao lado desses sambas que hoje me dão um dinheirinho. Então agora mesmo é que eu não vou retroceder. Se não retrocedi até agora, não pulei o muro pro outro lado.... Eu cantei um samba agora, ainda há pouco: (canta "Vivo Isolado do Mundo", parceria com Alcides Dias Lopes) "Eu vivia isolado do mundo...", isso é 1947, compreendeu? Eu dou sorte é falando da Portela, né? Falando dela, que eu falo dela com carinho, né? (canta "De Paulo da Portela a Paulinho da Viola")

"Antigamente, era Paulo da Portela/ Agora é Paulinho da Viola/ Paulo da Portela, nosso professor/ Paulinho da Viola, o seu sucessor/ Vejam que coisa tão bela/ O passado e o presente da nossa querida Portela."

Aí eu entro com a segunda, a primeira é do Chico (Santana):

"Paulo, com sua voz comovente/ Cantava ensinando a gente/ Com pureza e prazer/ O seu sucessor na mesma trilha/ É razão que hoje brilha/ Vaidade nele não se vê/ Ó Deus, conservai esse menino/ Que a Portela do seu Natalino/ Saúda com amor e paz/ Quem manda um abraço é Rufino/ Pois Candeia e Picolino lhe desejam muito mais."

É a cultura dela que eu gosto de fazer. Compreendeu? Eu gosto de mexer com a cultura da Portela. Falar no Paulo, falar em Natal, falar em Rufino, Candeia. Candeia foi um líder, compreendeu, que morreu se batendo contra as injustiças sociais. Ele falava: "Cara, o crioulo, houve a abolição, mas continua marginalizado." Ele se batia nisso. É isso aí. (fala) "Tá invocado, sai, não encontra trabalho, vai jogar baralho". (canta "Dia de Graça", de Candeia)

"Hoje é manhã de carnaval, que esplendor/ As escolas vão desfilar garbosamente/ Aquela gente de cor/ Com a imponência de um rei/ Vão pisar a passarela/ Salve a Portela!/ Vamos esquecer os desenganos que passamos/ Vi...(pára, tenta se lembrar)

EDGAR (do Bebendo do Samba) - "Viver as alegrias..."

(Risadas gerais. Monarco cumprimenta Edgar)

M - ..."Viver as alegrias que sonhamos/ Durante o ano/ Pro nosso coração/ Com alegria e amor/ A todos sem distinção de cor/ Mas depois da ilusão/ Coitado!/ Negro volta ao humilde barracão/ (Mas depois da ilusão)/ Mas depois da ilusão/ Coitado!/ Negro volta ao humilde barracão/ Negro, acorda, é hora de acordar/ Não negue a raça/ Torne toda a manhã dia de graça/ Negro, não humilhes nem se humilhe a ninguém/ Todas as raças já foram escravas também/ E deixa de ser rei só na folia/ Faça de sua Maria um rainha/ Todos os dias/ E cante um samba na universidade/ E verás que teu filho será/ Príncipe de verdade/ Daí então/ Jamais tu voltarás ao barracão.(Risadas)

Só fiz um samba com esse rapaz, Candeia. Era pra ter feito muita coisa, mas eu gostava de fazer com os mais coroas, né? (canta "Preciso me Encontrar", de Candeia) "Deixe-ir, preciso andar/ Vou por aí a procurar/ Rir pra não chorar./ Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/ Ouvir os pássaros cantar..." (Risadas) Marisa (Monte) gravou. 

(Somos informados que o local precisa fechar. Monarco despede-se de cada um dos presentes, apertando sua mão e desejando felicidade. Ainda posaria pra mais algumas fotos)


  • Making-off do texto - Entrevista, ou melhor, bate-papo que gravei logo após o show comentado no texto anterior. Foi a única vez, se bem me lembro, que pedi credenciamento junto à Branco Produções, que gerenciava à época a programação musical do Santander Cultural, para entrevistar alguém. A ideia era fazer a gravação no camarim, mas como Monarco ficou próximo ao palco atendendo os fãs a solução foi fazer ali mesmo, o que, reconheço, acabou gerando um resultado melhor do que uma eventual gravação no camarim. 
  • "Tenho um Novo Amor" é parceria de Cartola com Noel Rosa, lançada por Carmen Miranda em 1932. 
  • Ao contrário do comentário do show, o bate-papo não foi publicado de imediato no Brasileirinho; foi mantido inédito na internet por algum tempo para ser o chamariz de venda do CD-Rom do site, que lancei em 1 de julho de 2004. Num tempo de acesso unicamente discado à internet, parecia uma boa ideia oferecer todo o conteúdo do site numa mídia física, que não exigisse você estar online para ler. Mas apenas parecia, já que ao longo de meses (cheguei a anunciar o CD novamente em setembro) não foi encomendado CD algum. 
  • O encontro com Monarco também foi tema de um comentário que gravei em 2 de julho e foi ao ar no dia seguinte no programa Samba da Minha Terra, produzido por Cristiane Molina e apresentado por Claudia Alexandre na Rádio América (São Paulo), com o qual eu colaborava na época - estive em São Paulo algumas vezes em meados de 2004, chegando a ser entrevistado ao vivo na rádio; nessa mesma viagem, assisti a um show do Trio Calafrio em Osasco. 
  • As fotos eu encontrei no Google Images, infelizmente sem créditos para os autores. 
  • Leonel Brizola, político gaúcho citado no começo da entrevista, falecera em 21 de junho de 2004. Em 2004, Lupicínio Rodrigues completou 90 anos de nascimento e 30 de morte. Monarco, nascido no Rio de Janeiro em 17 de agosto de 1933, segue em plena atividade. 

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