segunda-feira, 31 de julho de 2017

Pernambuco na Feira do Livro de Porto Alegre (Ovelhas Desgarradas - 24)

A identidade entre os povos pernambucano e gaúcho tem sido destacada em boa parte dos eventos da programação da 54ª Feira do Livro de Porto Alegre, que tem Pernambuco como estado convidado.

No evento oficial de abertura, na noite da sexta, 31 de outubro, o Secretário Especial de Cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna, convidou o Rio Grande do Sul para ser o estado homenageado da 7ª Bienal Internacional do Livro de Pernambuco, a se realizar no Recife de 2 a 12 de outubro de 2009. O convite foi logo em seguida reforçado pelo diretor da Cia. de Eventos, Rogério Robalinho, e imediatamente aceito pela governadora do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius. Robalinho inclusive usou em seu convite um trecho da letra do Hino de Pernambuco - referindo-se à "terra dos altos coqueiros e das águas quentes" -, sem saber que uma das surpresas do cerimonial era justamente a interpretação do hino pernambucano pela cantora Fernanda Souza e um grupo de instrumentistas porto-alegrenses, caracterizados como uma banda de forró.

Já no sábado, durante a abertura de sua aula-espetáculo Nau, Ariano Suassuna (foto) contou quatro "causos do Romualdo", um dos personagens do escritor gaúcho Simões Lopes Neto, considerado um precursor do regionalismo, de quem o autor do Auto da Compadecida declarou-se um leitor apaixonado.

Os repentistas Ivanildo Vila Nova e Raimundo Caetano também homenagearam Mário Quintana, durante suas duas apresentações na tarde do sábado, 1º, e na noite do domingo, 2, no Espaço Pernambuco Nação Cultural, ao lado do estande de Pernambuco. No sábado, grande número de pessoas aplaudiu os violeiros, principalmente quando o tema dos versos eram Grêmio e Internacional. Houve dois improvisos sobre motes sugeridos pela platéia; um deles, Patativa do Assaré foi um gênio cearense; o outro foi sobre a Feira de Caruaru, terra de Ivanildo - e também da pessoa que pediu o improviso, o militar Michael Araújo, pernambucano há três anos servindo em Porto Alegre. Michael ficou surpreso ao saber da homenagem da Feira do Livro a Pernambuco, da qual tomou conhecimento no próprio sábado: "Achei muito legal, é importante mostrar nossa cultura para os gaúchos".

No domingo, o público porto-alegrense pôde acompanhar ainda duas apresentações do cantor e poeta Allan Sales,  cearense radicado no Recife. Além de citar em algumas de suas músicas ícones gaúchos como Bento Gonçalves e Teixeirinha, interpretou "Vira, Virou", de Kleiton e Kledir. Allan também declamou um poema inédito sobre a capital gaúcha, no estilo "nos dez de galope na beira do mar", que escreveu a bordo do avião que o levou de Recife a Porto Alegre, e autografou seu cordel recém-lançado Gaúcho e Pernambucano, Baluartes da Nação, ilustrado por J. Borges. Uma reprodução das gravuras de capa e contracapa, bem como suas matrizes, estão expostas no estande de Pernambuco.



  • Making-off do texto - Em 2008, fui correspondente do programa de rádio Café Colombo, de Recife, por uma quinzena - mais exatamente durante a realização da Feira do Livro de Porto Alegre, que naquele ano homenageava Pernambuco. Entrei em contato com a produção do programa, especializado em literatura, em setembro, e quase ao final de outubro chegamos a um acerto. Foi a única vez em minha carreira de jornalista cultural que fui pago para fazer um trabalho como free-lancer que não se resumiu a um texto - o fato de ter ocorrido mostra que isso não chega a ser impossível de acontecer, porém o fato de ter sido uma só vez ao longo de mais de 25 anos comprova que sonhar em se manter sendo free-lancer nesta área é utópico. 
  • Esta foi minha segunda matéria publicada no site do programa, em 3.11.08. O título definitivo foi dado pela equipe do Café Colombo. Originalmente, o título era maior e tinha uma linha de apoio:

IDENTIDADE ENTRE PERNAMBUCO E RIO GRANDE DO SUL
EM DESTAQUE NO INÍCIO DA FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
RS será o estado convidado da VII Bienal do Livro de Pernambuco


  • Falei mais demoradamente da aula-espetáculo de Ariano Suassuna, mencionada no terceiro parágrafo, num boletim também de 3.11, incluído posteriormente no artigo Três momentos com Ariano Suassuna

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Opinião Cinema: Homem-Aranha - De volta ao lar

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro



O Homem-Aranha foi criado em 1962 por Stan Lee e Steve Ditko, mas só ganhou destaque de fato, nos cinemas, com o filme Homem Aranha, de Sam Raimi, em 2002. Apesar de ser tão importante para o universo cinematográfico da Marvel, o aracnídeo não poderia ser usado pois seus direitos cinematográficos eram da Sony. Após acordos e mais acordos, finalmente temos o queridinho nas telas, com um filme leve, divertido e com a promessa de ser um dos maiores carros chefes do mundo da Marvel, agora resta saber se ele conseguirá...



A trama começa com o antagonista, mostra como Michael Keaton se tornou o Abutre, de uma forma bem detalhada e interessante. Depois dessa abertura, já acompanhamos a vida de Peter Parker pós-Guerra Civil, que dividiu os Vingadores, vemos o jovem com todos os seus medos, inseguranças e paixonites, tentando sobreviver à adolescência e ao mesmo tempo sendo um “super-herói”.

É interessante observar a passagem do tempo e amadurecimento do personagem. No início, temos um jovem imaturo, extremamente infantil e que persegue a todo custo o ideal de ser um Vingador, já no final percebemos a pessoa que ele está se tornando e aprendemos com ele as grandes lições que levará para o resto da vida.


O que eu mais quero elogiar nessa resenha é o vilão. Finalmente um vilão de verdade, com causas de verdade, que não está lá só para engrandecer o personagem principal. É uma história real que poderia acontecer com qualquer um - tirando a parte da tecnologia alienígena, é claro - mas vemos um cara normal, desempregado, que só estava cansado, sem saída e queria dar o melhor para sua família... E se fosse com a gente? Qual caminho seguiríamos? E se víssemos nosso sustento ser destruído por um megaempresário? Entende como isso é de verdade? Não são supermotivos vindos do além sem lógica alguma, ou um cara louco com uma arma, eu realmente queria ver muito mais daquele personagem. O mérito maior é de Michael Keaton, que com sua bela atuação trouxe um equilíbrio para seu personagem, algo que estávamos sentindo falta, que não vemos constantemente nas produções da Marvel.

Falando em elenco, Tom Holland foi outro que estava com uma grande química com seu personagem, ele estava à vontade com seu papel. Vemos um Peter como a gente, mais pé no chão, ansioso para ser um “adulto”, um nerd, fã de quadrinhos, que tem medos, que sofre, que se apaixona, mas, diferente dos outros filmes, esse carrega consiga problemas mais próximos dos nossos, a dor de se afastar do crush para salvar o mundo do pai do crush - quem nunca, não é? O elenco todo estava muito bem, inclusive os coadjuvantes, eu só queria um pouco mais da Tia May (Marisa Tomei) e Liz (Laura Harrier), porém, parecia que todos estavam com a mesma sincronia e energia, o que ajudou muito a criar a atmosfera de colegial.



A direção de Jon Watts estava normal, nada de imagens extraordinárias com lutas inesquecíveis, apenas um filme que estava tudo certo, no seu devido lugar e apesar de, no 3° ato, o tempo ter sido mais lento do que deveria, e não conseguir manter o sentimentalismo e a linguagem ser um pouco chatinha, tudo isso não tirou as coisas boas de um roteiro que também estava no caminho certo, cumprindo seu papel mas sem perder o carisma e que deixou vários ganchos à solta, detalhes que incitam algo a mais que talvez esteja por vir. Mesmo não sendo um filme de apresentação do personagem, pois todos já o conhecem, sentimos que tem coisa a mais, como se esse aracnídeo ainda estivesse no começo de uma longa jornada.

O filme é mais simples do que imaginávamos, nem desperta ódio da mídia e nem paixão dos fãs. Ele cumpre o que promete, faz seu dever direito, segue todas as regrinhas e não comete grandes deslizes. Não saímos do cinema com a sensação de ser uma grande obra-prima, mas pelo menos, não saímos também com a sensação de ter jogado dinheiro fora.







quarta-feira, 26 de julho de 2017

Estátuas de Léo Santana em Maceió

Estátua de Graciliano Ramos


Ao dar uma volta pela praia da Pajuçara na manhã de 3 de julho, fotografei a estátua em homenagem a Graciliano Ramos que fica na enseada da praia. 

Um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, Graciliano era alagoano de Quebrangulo, onde nasceu em 1892, tendo falecido no Rio de Janeiro em 1953. 

Graciliano morou em Maceió entre 1930, quando renunciou ao cargo de prefeito de Palmeira dos Índios, e 1936, quando, preso após a Intentona Comunista do ano anterior, foi levado ao Rio de Janeiro - seu período na prisão foi retratado no livro Memórias do Cárcere. Na capital alagoana, publicou uma de suas obras-primas, São Bernardo, em 1934, e escreveu Angústia

A escultura que o homenageia foi inaugurada em 30 de novembro de 2015, e é de autoria do artista mineiro Léo Santana (também o criador da estátua a Carlos Drummond de Andrade instalada na praia carioca de Copacabana). A prefeitura de Maceió escolheu a praia de Pajuçara como local da homenagem porque o escritor residiu nas proximidades.





  • Atualização 28.7.17 - Hoje, ao passar novamente pela estátua do Graciliano, reparei que foi colocada a placa que o identifica. 




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Outras estátuas de Leo Santana em Maceió


Desde o dia 14 de julho, existem três obras do escultor mineiro Léo Santana localizadas à beira-mar aqui na capital de Alagoas. Além das que reverenciam Graciliano Ramos e Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, existe agora uma escultura do ator Paulo Gracindo. Vamos falar destas duas últimas. 

A estátua de Aurélio Buarque foi inaugurada em 30 de novembro de 2015, poucos minutos depois da da estátua do Graciliano. De todas as três, é a mais propícia a selfies, pois apresenta o escritor sentado num banco de pedra junto à praia da Ponta Verde, próximo de onde ele costumava dar seu mergulho no tempo em que morou em Maceió.

Aurélio Buarque residiu na capital de Alagoas em vários períodos. Primeiro, a partir de 1923, quando, aos 13 anos, veio de Passo de Camaragibe, onde nasceu, para estudar... e ensinar: aos 14 anos já dava aulas de Português. Saiu de Maceió para estudar Direito no Recife, onde se formou em 1936, retornando para lecionar Português, Francês e Literatura no Colégio Estadual de Alagoas até 1938, quando se transferiu para o Rio de Janeiro. Depois de colaborar com diversos dicionários desde 1941, lançou o seu dicionário, considerado modelo da língua portuguesa falada no Brasil, em 1975. Eu mesmo cheguei a ter duas versões do dicionário: uma edição de bolso, apelidada Aurelinho, e o Dicionário Aurélio Infantil da Língua Portuguesa, ilustrado por Ziraldo e lançado em 1989. 



Foto de 2.7.17


Nesta foto ao lado, que fiz no dia 4, pode-se notar uma falha no óculos que Aurélio segura junto ao dicionário que leva seu nome. O mesmo problema que sofre outra estátua de Léo Santana, a de Carlos Drummond de Andrade, no Rio de Janeiro: periodicamente os óculos da escultura são furtados ou danificados e precisam ser substituídos. 

A estátua de Paulo Gracindo foi inaugurada na sexta, 14, com a presença de seu filho, Gracindo Júnior, e vários outros familiares, na praia da Pajuçara, próximo ao local onde ficava a casa de sua mãe. Embora tenha nascido no Rio de Janeiro em 16 de julho de 1911, Paulo Gracindo se considerava alagoano, pois toda sua família era daqui e ele chegou a Maceió com poucos dias de nascido para só sair aos 20 anos, para ser ator no Rio de Janeiro, onde atuou em rádio, cinema e TV até falecer em 1995. Foi em Maceió que teve seus primeiros contatos com o teatro amador. E ele sempre se sentiu ligado a Alagoas; em cena do documentário Paulo Gracindo – O Bem Amado, dirigido por Gracindo Jr. em 2007, perguntado sobre qual seu prato favorito, o veterano ator responde de imediato: "Sururu". 




Nesta foto, que fiz no sábado, 15, vemos que esta escultura tem, junto aos pés da estátua, uma placa com o nome do homenageado, o que não é usual em obras do estilo, mas que agora aqui em Maceió está sendo usado tanto na estátua de Gracindo quanto na de Graciliano. 

  • Atualização 2.8.17: Hoje vi que também foi colocada a placa identificando Aurélio Buarque de Holanda. 



* Publicado originalmente no blog


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Opinião Cinema: Mulher Maravilha

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Diferente de Batman e Superman, heróis que têm inúmeros filmes e uma longa história no cinema, a Mulher Maravilha nunca conseguiu de fato levar sua história para as telas; na década de 1970 houve a série de TV estrelada por Lynda Carter e nada mais. É por isso, que este filme carrega consigo tanta responsabilidade. Pois, ele é o primeiro longa sobre uma super-heroína dirigido por uma mulher, e Patty Jenkins é a segunda mulher  a dirigir um longa com orçamento de mais de US$ 100 milhões. Sem contar todas as polêmicas que o filme esteve envolvido. A personagem foi “declarada” Embaixadora Honorária para o Empoderamento das Mulheres da ONU, mas após apenas dois meses, uma petição assinada por de 45 mil pessoas fez com que ela fosse destituída do cargo, tudo isso porque “a escolha reforçava a objetificação da imagem feminina”. Afinal, é feminista ou não?

Vejam bem, não estou aqui para encher linguiça e nem colocar milhares de textos e teorias do feminismo, por isso é preciso um pouquinho saber da história dessa heroína. Ela foi criada em 1941, pelo psicólogo William Moulton Marston que admirava o movimento das sufragistas, que lutavam pelo direito ao voto das mulheres na década de 1920. Ele acreditava que mulheres deveriam ser ativas na sociedade, ter um papel combativo, guerreiro e político. Obviamente que, após a sua criação, o papel da heroína oscilou bastante, em algumas histórias tinha bastante representatividade e empoderamento, em outras era neutralizada, ícone de beleza e sexualizada, tudo dependia de quem era o autor. O fato é que a essência dela era feminista, ela tinha ideais e fez o possível para lutar por eles, tanto que em uma cena dos quadrinhos, quando seu namorado pergunta: “Quando é que vamos nos casar?”, ela responde: “ Quando o mal e a injustiça desaparecerem da Terra”.

Porém, qual a necessidade de viajar tanto assim no contexto histórico? Porque ai está o mínimo para você entendê-la e  Jenkins sabe bem disso, tanto que mergulhou e tratou com delicadeza toda sua história nesta produção. O filme já começa nos apresentando uma pequenina Diana, princesa das Amazonas, que vive em Themyscira. Toda a história dessa Ilha é suavemente explicada, mostrando o treinamento de Diana (Gal Gadot) com sua tia (Robin Wright), mesmo sua mãe, a rainha Hipólita (Connie Nielsen), sendo super protetora. O treinamento foi de grande ajuda quando o oficial da Aeronáutica dos Estados Unidos Steve Trevor (Chris Pine) cai com seu avião na costa da ilha,  trazendo consigo uma guerra para as Amazonas e mostrando uma visão mais cética do mundo. A partir daí  a história vai se desenvolvendo aos poucos e com delicadeza, mostrando a Primeira Guerra Mundial e a luta da princesa das Amazonas para acabar com a dor do mundo. Na verdade, o ponto mais importante é que a diretora mostrou, no decorrer das cenas, a perda da inocência de uma mulher.



Patty Jenkins eu te venero! Com que poesia, com que delicadeza você conduziu o filme, respeitando a história e cuidando de absolutamente cada detalhe.  Mergulhando na mitologia grega e nas HQs também. A transição de tempo também foi suave, em um ritmo calmo  sem ser entediante. O diretor  de fotografia Matthew Jensen foi outro que nos presenteou com imagens fantásticos, nada tão escuro, sombrio e cinza como veríamos em qualquer filme do Batman; o dourado, o vermelho o azul eram cores em evidência, as imagens da ilha eram alegres e fortes. Quando a ação passa para Londres, durante a guerra, temos o cinza e cores mais calmas mostrando a dor daquela época.


Os únicos pontos negativos estão relacionados à construção dos vilões, eles são fracos e tão didáticos que insultam nossa inteligência e a de Diana também. Aquela cena da morte de Steve também é patética, me perdoe quem adorou, mas não havia necessidade alguma de um coadjuvante dividir a atenção da cena com a protagonista, ficou parecendo que nossa Wonder Women dependia dele para crescer. O pior  erro, sem dúvidas, foi a  pirotecnia do terceiro ato - se o começo foi pura poesia, calma, respeitando cada história, no final tivemos uma horrível pressa, todos os efeitos foram desnecessários.


Gal Gadot é rainha. Tiverem tantas dúvidas de que ela conseguiria dar conta do recado, mas depois desse filme, duvido que alguém ainda tenha. A entrega ao seu personagem foi fantástica, o seu olhar, o seu gestual, a sua postura foram dignas da princesa Diana, ela estava perfeita.

Essa resenha ficou mais longa que o habitual, mas estamos diante de um marco histórico, então não tem como ser uma resenha curtinha, não é? Vale a pena assistir, não só pelas incríveis atuações e direção, mas, sem dúvida pelos questionamentos que o longa traz à tona, por ver a inocência de uma mulher megaprotegida sendo perdida e em seu lugar nascendo uma heroína, a mais valente, a mais forte, a rainha do mundo.