segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Retrofoguetes, ativar! (Ovelhas Desgarradas - 38)

Banda baiana é destaque na nova
 safra do instrumental brasileiro

  
Um dos momentos mais felizes da minha carreira de jornalista cultural foi entrevistar o flautista Altamiro Carrilho, em 2003, para o site Brasileirinho. Uma das coisas que ele disse que mais me marcaram foi, ao lembrar as caravanas que nos anos 1950-60 divulgavam a música brasileira no exterior: “O sucesso das caravanas foi enorme, porque nós tocávamos 90% de música instrumental. Sem barreiras de idioma. O idioma é uma barreira enorme fora do Brasil. Elis Regina chegou a ir numa das últimas caravanas. Com todo o sucesso que ela conseguia no Brasil, lá fora ela perdia para meus instrumentistas. Por causa do idioma. Agora, instrumental era sempre sucesso garantido.”

O espaço para a música instrumental no Brasil era realmente maior naquela época, depois uma série de interesses da indústria fonográfica “decretou” que só música cantada (de preferência, com refrão pegajoso) podia fazer sucesso - e o que não se encaixava nisso era tratado como algo à parte. Aos poucos, com o declínio das majors e a articulação da cena independente, isso foi mudando, graças a Deus. Lembro da minha alegria ao constatar que, entre os melhores shows do Festival Varadouro, em Rio Branco, Acre, em 2008, em que naturalmente predominavam na programação bandas que cantavam, vários dos shows de destaque eram instrumentais: Pata de Elefante (RS), La Pupuña (PA) e os peruanos do Bareto, que “fizeram aquele que foi para mim o grande show do Varadouro 2008. Não só para mim, com certeza, afinal foi este o único show que fez as pessoas dançarem na segunda noite”, escrevi no site Jornalismo Cultural.

Foi por meio dos paraenses da Pupuña que vim a conhecer o som dos Retrofoguetes. Este grupo baiano - formado por Morotó Slim (guitarra), CH (baixo) e Rex (bateria) - convidou seus amigos nortistas para tocarem este ano no Trio Foguetão, no carnaval de Salvador. O trio da banda integra o projeto Retrofolia, que visa resgatar antigas tradições carnavalescas, e que neste ano contou com um baile de salão e dois desfiles, um no Barra-Ondina e outro no Pelourinho, sem haver cordas separando as pessoas, nem abadás vendidos a preços exorbitantes. O próprio fato de sair sem cantor no carnaval já é por si só um resgate: nenhum trio elétrico tinha cantor até que Moraes Moreira letrou “Double Morse”, de Dodô e Osmar (rebatizando a música como “Pombo Correio”), e saiu no trio deles, em 1976 – o resto da história você já sabe.

Já o som dos Retrofoguetes, com certeza, de tradicional não tem nada! Associados com a surf music desde o primeiro disco – Ativar Retrofoguetes! (2003) –, hoje sua alquimia sonora funde ingredientes tão diversos quanto o rockabilly, o tango, jazz, funk, soul, polca e... mambo, como vamos ouvir em seguida, em “Maldito Mambo!”, faixa do CD Chachachá (Indústrias Karzov, 2009). O disco coleciona reconhecimentos: para a revista Rolling Stone Brasil, foi um dos 25 melhores nacionais de 2009; para o jornal A Tarde (Salvador), ficou em 3º lugar; e para a revista e portal Rockpress, ele foi o melhor e ponto. Curte o som!




  • Making-off do texto - A banda Retrofoguetes fez uma pausa nas atividades entre 2012 e 2013, retornando como quarteto, mantendo apenas Rex da formação mencionada no texto; os novos integrantes são Julio Moreno (guitarra), André T (teclados) e Fábio Rocha (baixo). 
  • O texto tem uma 'pegada' de script pra rádio, mas de fato foi meu artigo de estreia na coluna "Curtissom", que escrevi por breve período de 2010 no site Prosa em Verso, da escritora e editora Tatiana Monteiro, residente à época em Cordeiro (RJ). Minha amiga virtual há pelo menos um cinco anos nessa época, Tatiana me convidou para integrar a equipe na reformulação de seu site, carinhosamente chamado "P&V". A matéria entrou no ar em 23 de março de 2010 e chegou a ser republicada no site Brasileirinho, hoje fora do ar. 
  • A foto mostra um momento do evento Retrofolia, realizado em Salvador em fevereiro de 2010. Creio que já tenha sido enviada a mim pela assessoria da banda sem crédito para o autor. 
  • Foi minha primeira coluna em site após ter começado a minha "fase blog". Coube a mim escolher o tema e o nome da coluna, sobre os quais assim falei num "texto de perfil" solicitado pela Tatiana e que enviei em 17 de março: 

Tema: Música instrumental brasileira
Nome da coluna: Curtissom
Nome: Fabio Gomes
Periodicidade: Semanal
Dia da semana para entrada no ar: Terça-feira
  • pequena biografia: Fabio Gomes, jornalista, gaúcho, tem três livros publicados e edita os sites Brasileirinho e Jornalismo Cultural. Lançou em 2009 o blog Som do Norte. Tem participado de debates sobre Jornalismo Cultural e música brasileira em vários estados do Brasil.
  • tema da coluna e o porquê do nome dela: Escolhi escrever aqui toda semana sobre música instrumental brasileira por três motivos. Em primeiro lugar, brasileira porque não me considero suficientemente informado sobre a música de outros países para poder falar dela com propriedade. Em segundo lugar, porque este foi um tema do qual eu sempre gostei, que abordei sempre que possível nos diversos lugares onde trabalhei, mas nunca como tema principal, como será aqui. Terceiro, porque pela primeira vez na vida vejo que o chamado "grande público" vem aceitando a música instrumental como uma manifestação cultural tão válida quanto qualquer outra, e não mais algo "difícil" ou "chato". O nome é, como espero que dê pra notar, um trocadilho com a gíria "curtição" e a palavra "som" - que é o que, convenhamos, há para curtir numa música instrumental, que abdica do recurso à palavra, aparentemente de comunicação mais imediata - mas nem por isso mais eficaz, necessariamente.

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