sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Noel Rosa cantou o horário de verão

O horário de verão deste ano começou no domingo, 15. O governo o vem adotando anualmente desde 1985. Protestam uns, alegam desconforto biológico uns outros, outros uns apontam a pouca economia resultante etc., mas a tradição é mantida. 

O que ninguém mais tem feito é cantá-lo. Em 1931, quando pela primeira vez o Brasil recorreu ao horário de verão, Noel Rosa compôs e gravou dois sambas ironizando o fato. Destinadas ao carnaval de 1932, as composições não chegaram a ser sucesso. 

Um dos sambas, "O Pulo da Hora", também ficou conhecido pelo seu primeiro verso: "Que Horas São?".


 Infelizmente o áudio está muito baixo :/


Já o outro, intitulado "Por Causa da Hora", era identificado no selo do disco como "samba do horário". Se sua última estrofe era francamente gozadora ("Eu que sempre dormi durante o dia/ Ganhei mais uma hora pra descanso/ Agradeço ao avanço/ De uma hora no ponteiro./ Viva o dia brasileiro!"), dois versos do refrão remetiam ao surrealismo que a mudança de horário poderia causar: "Olho, ninguém me responde/ Chamo, não vejo ninguém".





  • Making-off do texto - Uma das notas do Mistura e Manda nº 74, de 8.11.04, numa época em que o horário de verão era adotado a partir de novembro, e não de outubro, como ocorre desde 2008. (No original, eu falava em "começou na terça, dia 2").

  • Sim, curiosamente, no ano em que a nota foi publicada originalmente, o horário foi implantado numa terça, 2 de novembro, e não num domingo, como é de praxe. Não recordo mais, e não consegui localizar agora, o motivo desta alteração pontual.

  • Ambas as composições são de Noel Rosa, e tanto elas quanto os fonogramas incluídos na postagem se encontram em domínio público. 


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Amapá: Coletivo Cenopoesia expõe poemas na FLIST

Os poetas Ana Anspach, Barbára Primavera, Bruno Muniz, Carla Nobre, Cláudia Patricia, Celestino Filho, Marven Franklin, Mary Paes, Pedro Stkls e Thiago Soeiro, que formam o Coletivo Cenopoesia, levam a exposição Biomas Poéticos para a Feira Literária de Santana (FLIST), que acontece no período de 26 a 29 de outubro, na Praça Cívica do município, no horário de 18h às 22h.

Nos quatro dias de exposição, os visitantes poderão entrar em contato com os olhares singulares de cada um dos poetas sobre o lugar onde vivem e como as paisagens do seu cotidiano interferem em suas criações. É o encontro de olhares que se movem nas palavras de cada um dos artistas presentes.

O grupo busca com a exposição despertar no público visitante a vida que pulsa na palavra, instigando aos leitores e admiradores dos poemas todo o lirismo que guarda esta arte.

A exposição será realizada a convite do SESC Amapá e está será a segunda vez que é apresentada ao público.


Poema de Mary Paes ilustrado por Augusto Minighitti
(Foto: Thiago Soeiro)


sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Músicas de Noel Rosa em Domínio Público


No dia 1º de janeiro de 2008, a parte da obra de Noel Rosa que é de autoria apenas dele, ou criada junto com parceiros que houvessem falecido até 31 de dezembro de 1937, passou ao domínio público. No dia 5, Overmagrani publicou no Overmundo o texto Noel Rosa é nosso!, apresentando uma lista das obras liberadas, elaborada pelo Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a música de nº 120, "Samba anatômico" - não por ela estar fora da ordem alfabética, mas porque Noel não compôs música com este nome  (ver Observação B). Há outras questões: de vários dos títulos da lista, não se conhece a melodia e, em alguns casos, nem a letra - na prática, delas só restou mesmo o título; também não era mencionada obra alguma feita com parceiro falecido antes de Noel.

Resolvi então colaborar com o uso criativo do legado artístico de Noel, cruzando as informações da lista com musicografias elaboradas por outros estudiosos de sua obra, em especial a relação feita por João Máximo e Carlos Didier, autores de Noel Rosa, uma Biografia, cuja pesquisa durou 7 anos e que não recebeu contestações significativas ao longo dos 18 anos que decorrem do lançamento da única edição (Linha Gráfica/ UnB, 1990). As diferenças de minha lista em relação à da FGV são comentadas ao final. 

01) Agora
02) Amor de Parceria
03) Arranjei um fraseado
04) Até amanhã
05) Belo Horizonte (ver Observação A)
06) Canção do galo capão
07) Cansei de implorar
08) Cansei de pedir
09) Capricho de rapaz solteiro
10) Choro
11) Cidade mulher
12) Com que roupa?
13) Condeno o teu nervoso
14) Contraste
15) Cor de cinza
16) Coração
17) Cordiais saudações
18) Dama do cabaré
19) Disse-me-disse
20) Dona Aracy
21) Dono do meu nariz
22) É preciso discutir
23) Envio essas mal traçadas
24) Espera mais um ano
25) Estamos esperando
26) Eu não preciso mais do seu amor
27) Eu sei sofrer
28) Eu vou pra Vila
29) Festa no céu
30) Fita amarela
31) Foi ele
32) Fui uma Vez (ver Observação A)
33) Gago apaixonado
34) A Genoveva não sabe o que diz
35) João-Ninguém
36) O maior castigo que eu te dou
37) Malandro medroso
38) Marcha da primavera
39) Mardade de cabocla
40) Maria-fumaça
41) Mentir
42) Mentiras de mulher
43) Meu barracão
44) Minha viola
45) Mulata fuzarqueira
46) Mulato bamba
47) Mulher indigesta
48) Não brinca não
49) Não me deixam comer
50) Não morre tão cedo
51) Não tem tradução
52) Negócio de turco
53) No baile da flor-de-lis
54) Nos três dias de folia
55) Nunca... jamais
56) Nuvem que passou
57) Onde está a honestidade
58) Paga-me esta noite
59) Palpite infeliz
60) Para atender a pedido
61) Pela décima vez
62) Pesado 13
63) Picilone
64) Por causa da hora
65) Por esta vez passa
66) Pra esquecer
67) Precaução inutil
68) O pulo da hora
69) Quando o samba acabou
70) Quando pelas aulas ando
71) Que a terra se abra
72) Quem dá mais?
73) Quem não dança
74) Quem ri melhor
75) Rapaz folgado
76) Remorso
77) Riso de criança
78) Roubou, mas não leva
79) São coisas nossas
80) Século do progresso
81) Seja breve
82) Seu Jacinto
83) Seu Zé
84) Silêncio de um minuto
85) Tipo zero
86) Três apitos
87) Tudo que você diz
88) Último desejo
89) Vagolino de cassino
90) Verdade duvidosa
91) Você é um colosso
92) Você, por Exemplo (ver Observação A)
93) Você Sabe de Onde eu Venho? (ver Observação A)
94) Você vai se quiser
95) Voltaste (pro subúrbio)
96) Vou te ripar I
97) Vou te ripar II
98) O X do problema
99) Yolanda

Observações:
  • (A) Coloquei em negrito as músicas que não constam da relação publicada pelo Overmundo
  • (B) Não existe música de Noel com o nome "Samba anatômico", expressão usada como identificação do gênero musical de "Coração". Na época em que Noel atuou, era de praxe colocar no selo do disco, ao lado do nome de cada música, qual seu gênero musical. Alguns compositores usavam isso para dar a sua criação um caráter mais humorístico, como neste caso, ou mais solene - Ary Barroso fez isso ao classificar "Aquarela do Brasil", um samba, como "cena brasileira"

Músicas com melodia perdida

Alô Beleza * Baianinha * Chuva de vento * Cumprindo a promessa * É difícil saber fingir * Fita de cinema * Mas quem te deu tudo isso? * Numa noite à beira-mar * Por você sou capaz * Pra lá da cidade * Quem parte não parte sorrindo * Saí do presídio * Só você * Vingança de malandro

Músicas com letra e melodia perdidas

Brincadeira de roda * Coisas do sertão * Juju * Lira abandonada * Madame honesta * Meu bem * Muito riso, pouco siso * Proezas de seu fulano * Saí da tua alcova (parcialmente perdida) * Vaidosa

MÚSICAS DE NOEL ROSA COM PARCEIROS FALECIDOS ATÉ 31/12/1937

Esta é a parte mais delicada da lista. Noel Rosa compôs com muitos parceiros, alguns famosos como Ismael Silva e Lamartine Babo, outros de breve passagem pela música, sendo mais difícil a localização de seus dados biográficos. A inclusão de obras nesta parte da lista será feita à medida em que eu me certifique de que os co-autores efetivamente faleceram até o final do ano de 1937. Na dúvida, não ultrapass(ar)ei.

Parcerias com Canuto (falecido em 27/11/1932)

100) Esquecer e Perdoar
  • Outra música de ambos, Cadê Trabalho, tem melodia perdida
Parcerias com Henrique Brito (falecido em 11/12/1935)

101) Meu Sofrer
102) Queimei Teu Retrato


  • Making-off do texto - Publicado no Brasileirinho em março de 2008, deu início à divulgação sistemática naquele site da obra de Noel Rosa em domínio público, material que agora estamos divulgando aqui no blog Jornalismo Cultural. 
  • Originalmente minha publicação trazia também a lista divulgada pelo Overmundo. Como o link ainda se encontra no ar, optei por não repetir a lista aqui novamente.
  • Na lista do Overmundo, além do inexistente "Samba anatômico", consta outra música com título errado: "Seu José", certamente uma menção a "Seu Zé". 
  • O Overmundo trazia ainda como sendo de autoria de Noel Rosa e em domínio público a música "Faz Três Semana", que em texto de setembro de 2008 (que irá sair aqui em breve) eu demonstrei não ser de Noel nem estar com os direitos liberados. 
  • Na minha lista inicialmente constava a música "Vejo Amanhecer", que depois excluí por descobrir não ser obra exclusiva de Noel Rosa (em breve contaremos também aqui esta história). 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Entrevista: Jornalismo Cultural nos dias atuais

Em 27 de setembro, Mateus Santana, estudante de Jornalismo do UNIAN (Centro Universitário Anhanguera de Niterói, RJ), enviou-me as seguintes perguntas, para um trabalho de grupo referente a Jornalismo Cultural e a atuação do profissional da área nos dias atuais. Estas são as respostas que enviei em 3 de outubro. 

***

que gravei em Belém em 17.5.17


Porque o jornalismo cultural é importante, na sua visão?

Permitam-me reproduzir o conceito de Jornalismo Cultural que exponho no meu livro de mesmo nome, à pág. 8 (obra disponível em http://www.jornalismocultural.com.br/jornalismocultural.pdf):
Jornalismo cultural é o ramo do jornalismo que tem por missão informar e opinar sobre a produção e a circulação de bens culturais na sociedade. Complementarmente, o jornalismo cultural pode servir como veículo para que parte desta produção chegue ao público.  

Deste modo, podemos dizer que o jornalismo cultural é importante, primeiramente, por levar ao público informações sobre um setor da vida cotidiana com igual ou até maior importância que os demais - se no dia a dia, seja nas redações, seja nos lares em geral, se priorizam notícias sobre política e economia, é muito raro que alguém guarde ou mesmo colecione cadernos de jornal sobre assuntos econômicos. O mais certo é que os escolhidos para serem colecionados sejam cadernos sobre cultura; talvez o único assunto que igualmente mobilize o público neste sentido de guardar seja o esporte (em especial edições especiais e pôsteres de conquistas de campeonatos).

Além do papel complementar de levar a público parte da produção de bens culturais, auxiliando em sua difusão (exemplos seriam os CDs e livros encartados em edições de jornais ou revistas, ou publicação de capítulos de romance, contos, fotografias, reprodução de quadros, ou divulgação de músicas e até filmes inteiros em páginas de internet), atualmente acredito que uma importante missão do jornalismo cultural é demonstrar ao público em geral que a arte é fundamental na vida humana, e que a verdadeira arte tende a ser mais questionadora do que acomodada em relação ao estado de coisas vigente em nossa sociedade. 

Na sua opinião, existe espaço na imprensa brasileira para grandes reportagens sobre cultura, entretenimento, entre outros? 

Teoricamente falando, o espaço existe, a questão é que os grandes veículos não costumam cobrir eventos que não ocorram em suas cidades (salvo grandes exceções como o Oscar, por exemplo) nem têm aberto espaço para eventos que não estejam ligados a interesses econômicos dos grupos a que pertencem (podemos citar aí a generosa presença dos festivais Rock in Rio e Lollapalooza nos telejornais da Rede Globo, contra quase nenhuma presença de festivais da cena independente brasileira). 

O mesmo se repete na mídia impressa e nos espaços destes veículos na internet. Acrescente-se que mesmo os jornais de grande circulação nacional costumam limitar a cobertura cultural ao que aconteça no município onde têm sede, priorizando além disso a parte de agenda; a crítica, embora com menor presença do que tempos atrás, ainda é mais frequente que a reportagem. Geralmente quando questionados a respeito, os editores dos cadernos de cultura costumam alegar que não fazem reportagens por não haver verba para cobrir as despesas decorrentes (razão porque se vê muito release publicado na íntegra e pouca reportagem na imprensa em geral). 

Enquanto os grandes veículos, que poderiam fazê-las, preferem não se dedicar às grandes reportagens, os veículos independentes muitas vezes gostariam de suprir esta lacuna, porém não dispõem dos recursos necessários. 

Na sua opinião, que competências deve ter um jornalista cultural?

Um jornalista cultural é, antes de mais nada, um jornalista, então deve ter todas as competências que se exige para a profissão - ter acesso às fontes, fazer uma apuração correta, redigir bem e cumprir prazos. A especificidade da editoria Cultura, aliada às expectativas do público que consome este tipo de informação, faz com que seja preferível e até imprescindível que o jornalista cultural saiba escrever com uma certa elegância. Uma boa dose de cultura geral também é recomendável; por mais que um profissional admire Dança, se estiver numa redação poderá um dia ser escalado para cobrir Teatro, ou um festival de Cinema, e geralmente há pouco tempo para se informar do básico sobre cada linguagem antes de partir para o evento. De todo modo, um bom grau de curiosidade e uma mente aberta sempre são importantes para se trabalhar com Cultura.



sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Noel Rosa, Cantor

Ao longo do tempo, as gravações feitas por Noel Rosa têm recebido pouca atenção. Entre 1930 e 1936, ele gravou 42 músicas de sua autoria, entre elas clássicos como "Com que Roupa?", "Gago Apaixonado", "Feitiço da Vila" e "Conversa de Botequim" (as duas últimas, parcerias com Vadico).

Em 21 dessas músicas - ou seja, exatamente metade deste repertório - , Noel convidou alguém para dividir o vocal; a recordista foi Marília Batista, que gravou com ele 6 sambas, mas a lista inclui parceiros como Ismael Silva, João de Barro, Artur Costa e ainda I. G. Loyola, João Petra de Barros e Léo Vilar (mais tarde líder dos Anjos do Inferno). Curiosamente, Noel dava preferência a fazer duetos nas músicas que compunha de parceria – são 13 duetos em músicas com parceiros, contra apenas 8 em obras assinadas exclusivamente por ele. Desconheço o motivo.

A obra gravada do Poeta da Vila, deste modo, aponta em duas direções. Numa, ao fazer tantas parcerias vocais, Noel mostrou-se um artista do seu tempo: como cada disco tinha apenas duas músicas, e muitos cantores lançavam vários discos por ano, esses duetos ocasionais eram muito comuns. Noutra, ao gravar regularmente suas composições, o que era raro na época, Noel antecipou o que é quase uma regra hoje, quando são poucos os artistas exclusivamente cantores.

A pouca atenção mencionada para esta obra gravada se reflete nas lacunas das discografias das biografias de Noel escritas por Almirante e João Máximo & Carlos Didier, onde não consta o número da matriz de cada disco, dado importante para que se consiga estabelecer, mesmo que de modo aproximado, em que data cada música foi gravada e até mesmo em que gravadora. Nosso levantamento traz os números de todas as matrizes.

Só posso atribuir essas lacunas ao descaso com que a obra de Noel como cantor tem sido tratada. Embora haja muitos relatos do sucesso que ele fazia cantando no rádio e em shows, e a venda expressiva de discos como o "Com que Roupa?", também se sabe de restrições que Noel recebia por não ter um "vozeirão", o que era muito valorizado em seu tempo.

Certamente outro fator que contribuiu para a pouca difusão das gravações de Noel ao longo do tempo foi o fato de ele, num período bastante curto, ter atuado em várias gravadoras, que nem sempre tinham depois repertório suficiente para um LP ou CD inteiro (na Victor, hoje parte da Sony Music, por exemplo, Noel gravou apenas quatro músicas). Assim, só quando do lançamento da caixa de CDs Noel Pela Primeira Vez (Velas/Funarte, 2000), o público teve acesso à totalidade das interpretações de Noel para suas próprias músicas. Sim, porque, como o conceito da caixa era de músicas assinadas por Noel, não havia como incluir o samba "Sentinela, Alerta!", de Ary Barroso, que o Poeta da Vila gravou em dupla com João Petra de Barros.



  • O texto era inédito até hoje, com exceção (novamente!) do segundo parágrafo. O título deste texto inspirou o novo título do texto publicado na semana passada
  • Fazia parte do pacote ainda a charge que abre o texto (charge que, escaneada por mim, ganhou o mundo, como contei em texto recente).
  • O levantamento mencionado no final do quarto parágrafo é a revisão completa da discografia original do Poeta Vila como cantor, compositor e instrumentista, e que será disponibilizada em futuras Sextas do Noel. As fichas técnicas dos CDs virtuais de Noel disponíveis para download aqui no blog já são baseadas neste levantamento. 

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Opinião Cinema: Lady Macbeth

Por Bianca Oliveira,
do Rio de Janeiro




Baseado em Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk (1865), do russo Nikolai Lenskov - que se inspirou na personagem da tragédia Macbeth (c. 1603-07), do inglês William Shakespeare -, o primeiro longa tanto do diretor William Oldroyd quanto da roteirista Alice Birch chega aos cinemas com uma nova visão da personagem que já inspirou tantas obras. Apesar de serem estreantes vemos, nitidamente, que eles não têm medo de arriscar e mostrar a sua verdade, provocando o público e nos apresentando a personagem mais complexa e delicada dos últimos tempos. 

Inglaterra, zona rural, 1865, Katherine (Florence Pugh) é trocada por terras por Boris (Christopher Fairbank) para se casar com seu filho Alexander (Paul Hilton). Alexander a trata como propriedade, não liga para sua esposa, nem sequer tenta “consumar” o casamento – quando chegar em casa manda a esposa tirar a roupa e virar para a parede, enquanto ele prefere se masturbar. Durante uma viagem de negócios do marido, Katherine se aproxima do empregado Sebastian (Cosmo Jarvis); os dois logo viram amantes e cúmplices. 

O filme é um misto de emoções. Uma boa parte é chata, monótona, repetitiva, a outra é surpreendente, um pouco assustadora e totalmente diferente. O longa tem como principais temas a sociedade, as relações de poder e principalmente o lugar da mulher. 



A personagem principal possui, no começo, uma vida muito  monótona, o que é mostrado em todas as ações diárias que se repetem como: o abrir da janela toda manhã, a escovação do seu cabelo pela criada Anna, as roupas apertadas e incômodas, isso serve para entendermos toda a opressão em que ela está inserida. Infelizmente, apesar da boa intenção, nós ficamos extremamente entediados, nunca imaginei isso, mas nos 10 primeiros minutos, eu quase levantei e fui embora – ainda bem que resolvi ficar e dar uma chance-. 

Graças a God o tom começa a mudar, para o sombrio, quando Sebastian aparece. A protagonista finalmente se liberta, todo o longa fica com suspense no ar, ficamos intrigados se ela está fazendo aquilo por amor, loucura ou puro egoísmo. Toda a produção é complexa, mas sem dúvidas, Katherine é uma das personagens mais fortes e confusas do cinema. Florence Pugh mesmo assim consegue interpretá-la de forma perfeita,  é um deleite a cada olhar, postura, fala, virada dramática. O resultado, nas telas, é realmente incrível, Pugh demonstra uma maturidade e um conhecimento invejável. 

Além de Florence, Naomi Ackie nos apresenta uma Anna com olhar vazio, triste, que não sabe o que fazer, de fato outra interpretação fantástica. Tirando elas, o elenco em si é bom, nada tão fantástico, apenas todo mundo fazendo sua interpretação certinha. 



O longa é direto, e isso é bom, tudo contado de forma clara, a ambientação toda é simples, só que de uma forma bonita, a casa principal não tem nada de glamourosa, não está cheia de objetos cênicos, tudo demonstra justamente aquelas tristeza e monotonias que comentei no começo. A direção de arte e figurino são realistas e detalhistas, a fotografia é simples, mas bonita, poucas cores, porém as mais vibrantes aparecem sempre do lado de fora, com planos mais longos, simbolizando a liberdade e a vida que Katherine não possui em casa. 

Lady Macbeth é um filme complicado, com falhas, que realmente nos deixa confusos sobre nossa opinião. Ele me fez ter medo, ficar confusa, querer ir embora, buscar detalhes na história e tantas outras sensações e emoções. E, incrivelmente, isso demonstra todo potencial do diretor, afinal, qual seria a melhor função do cinema do que não nos intrigar? Falando nisso, vou até assistir de novo para procurar mais detalhes e desvendar esse nó da minha cabeça.