quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Opinião Cinema: Crô em Família


Por Bianca Oliveira,
de Macapá





Quem acompanha minhas críticas sabe que elas sempre têm um quê de opinião própria e o outro é mais técnico; pois bem, essa aqui será um pouco (muito) mais pessoal. Mas antes de chegarmos lá, deixa eu resumir um pouco do filme Crô em Família para vocês.

Crô (Marcelo Serrado) é o mordomo surgido na novela Fina Estampa, de Aguinaldo Silva (2011-12), seu sucesso foi tão grande que o personagem já está em seu segundo filme (o primeiro foi Crô - O Filme, de 2013). Aqui ele se encontra em uma péssima fase, mesmo com o sucesso da escola de etiqueta que agora comanda. Crô enfrenta um turbulento divórcio e ainda perde seu "filho" (um cachorrinho muito lindo), em suma encontra-se vulnerável e sozinho. Tudo fica ainda mais complicado quando uma suposta “família biológica” (obs: o personagem é órfão) aparece de surpresa em sua casa. Com a sua vida de cabeça para baixo e precisando se sentir amado, o mordomo acolhe sua nova família, mesmo que todos seus amigos digam que eles são impostores.




Dirigido por Cininha de Paula e com roteiro original de Aguinaldo Silva, o longa apresenta estereótipos absurdos, possui um desenvolvimento confuso, personagens entram e saem a todo momento sem acrescentar nada à trama, e ainda há uma montagem atrapalhada que chega a ser cansativa. Mas existe uma coisa que salva, na verdade, que faz tudo valer a pena. 

Lembram que eu iniciei a resenha falando que ela teria um caráter muito mais pessoal? Pois é: gostaria de agradecer as mensagens que tenho recebido falando o quanto as pessoas têm sentido saudade das minhas resenhas, que ando sumida etc. Eu desapareci por aqui, porque há três meses a minha mãe faleceu e isso me desmotivou completamente a escrever, na verdade, a viver como um todo.

Além da tristeza de perder uma mãe o que mais eu sinto é medo da solidão e como ela era a minha única família (filha única e nós duas fomos abandonadas pelo meu pai) eu estava com medo de viver sozinha, sem uma família.

Mas por que falar isso? O que tem a ver com vocês? Bom, era um dia comum em que fui ver um filme nacional, sem muita animação. E adivinhem sobre o que era esse filme? FAMÍLIA! Mas não uma comum, Crô era órfão e passou o filme inteiro fazendo de tudo para aceitar sua nova família, perdoando tudo a todo custo, se ferindo e machucando, tudo porque eles eram a única família que ele tinha (ou que acreditava que tinha). Não quero ficar dando spoilers, mas quero dizer que a mensagem final é bem simples: família não significa ter o mesmo sangue, o mesmo DNA, ter uma família é ter alguém que te ame, que se importe e cuide de você.

Agora imaginem como essa mensagem me tocou, eu que perdi a minha única família encontrei em um filme qualquer (que parecia besta) consolo; senti a mensagem de uma forma incrivelmente pessoal, e sem dúvida alguma, senti ali forças para continuar.

Dizem que o cinema é só ficção, que não tem importância na vida real, mas a minha ele mudou, ele me encorajou e me fez enxergar que eu vou ter minha família, mesmo não sendo de sangue e nunca se comparando a minha mãe, mas nós construímos nossa família, o que importa é termos pessoas que nos amam e que amamos. Hoje eu escolhi ser menos técnica e apenas absorver a mensagem, na verdade, eu escolhi agradecer a sétima arte por me ajudar a passar por essa fase. Viva o cinema!





sábado, 25 de agosto de 2018

Leonel Brizola, o criador do Sambódromo

Foto: Fabio Gomes


O ex-governador do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, falecido na segunda, 21, será sempre lembrado como o líder da Campanha da Legalidade (que em 1961 garantiu a posse de João Goulart como presidente) e como um grande incentivador da educação. Ele também ficará na história do carnaval carioca, como o responsável pela construção do Sambódromo.

De acordo com Sérgio Cabral, em seu livro As Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Lumiar, 1996), a idéia do Sambódromo surgiu em 1983, para solucionar um impasse que vinha se arrastando, com a queixa da sociedade em relação ao monta-desmonta das arquibancadas, que deixava a Marquês de Sapucaí livre para o trânsito apenas 4 meses por ano. Após cogitações de realizar o desfile na Av. Presidente Vargas ou no Maracanã (!!!), Brizola anunciou em 11 de setembro que o desfile seria mesmo na Sapucaí, após a construção no local da Passarela do Samba - nome que em seguida o povo esqueceu, para consagrar o espaço como Sambódromo. As obras, supervisionadas pelo filho do governador, João Otávio Brizola, iniciaram em seguida, ficando prontas às vésperas do carnaval.

O desfile de 1984, o primeiro a ser realizado no Sambódromo, foi o único em que se cumpriu a finalidade social da obra projetada por Oscar Niemeyer. O espaço sob as arquibancadas, destinado a que a população carente pudesse assistir ao desfile, a partir de 1985 foi ocupado por mesas e cadeiras, vendidas por preços maiores que os dos lugares de arquibancada, só perdendo para o custo dos camarotes (felizmente, o espaço dos camarotes seguiu sendo aproveitado por 210 salas de aula fora do período de desfiles).

A obra foi muito criticada. O carnavalesco Fernando Pamplona questionou a decisão do secretário de Cultura, Darcy Ribeiro, de não querer decorar o Sambódromo, contrariando uma tradição do carnaval e indo contra concurso da Riotur para decoração com resultado já anunciado. O diretor de harmonia da Beija-Flor, Laíla, viu como negativa a distância entre os sambistas e os espectadores das arquibancadas, esfriando o desfile. O Jornal do Brasil questionava a origem dos recursos para o projeto - o próprio João Otávio admitiu à Última Hora o estouro do orçamento: a previsão inicial era de 5 bilhões de cruzeiros, mas o Sambódromo custou 24 bilhões.

Criticado ou não, Brizola agiu em relação a este assunto, guardadas as devidas proporções, de forma semelhante à Legalidade: identificou uma dificuldade, imaginou o melhor modo de resolvê-la e fez. Seu Sambódromo mudou o carnaval do Rio de Janeiro e inspirou obras semelhantes em São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte.

  • Making-off do texto - Texto publicado no Mistura & Manda do site Brasileirinho em 28.6.2004, uma semana após o falecimento de Leonel Brizola, e republicado hoje aqui a propósito do aniversário de 57 anos do Movimento da Legalidade. Em 25.8.61, o presidente Jânio Quadros renunciou e os ministros militares se opunham à posse do vice-presidente eleito, João Goulart. Brizola organizou a resistência da sociedade civil a partir de Porto Alegre, garantindo a possa de Goulart no dia 7 de setembro.

  • A foto que ilustra o post é inédita, e mostra Leonel Brizola nos estúdios da Rádio Guaíba (Porto Alegre) e foi feita quando o ex-governador esteve no RS para a comemoração dos 40 anos da Legalidade, em agosto de 2001. Brizola participou do programa Espaço Aberto, comandado por Armando Burd (à direita). Vemos também à esquerda o radialista Fernando Veroneze. Em 2001 o dia 25 de agosto caiu num sábado, então como o programa ia ao ar de segunda a sexta, a foto ou é do dia 24 (sexta) ou 27 (segunda). Foi a única vez que vi Brizola vivo.

  • A Guaíba tinha um estúdio na esquina das ruas Caldas Júnior com Andradas, visível da rua através de um vidro (o que no jargão de rádio se chama "aquário"). Tirei a foto com minha Zenit de filme, aproximando a objetiva o máximo possível do vidro, de modo a reduzir o reflexo. Creio ter obtido um bom resultado ao captar esta imagem. 

  • Posteriormente, estive no velório de Brizola, no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, na noite de 23 de junho de 2004. O ex-governador foi velado entre a tarde deste dia e a tarde do dia seguinte, seguindo então seu corpo para ser sepultado em São Borja (RS).

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Opinião Cinema: Jurassic World: Reino Ameaçado

Por Bianca Oliveira,
de Macapá




Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros, que Steven Spielberg lançou em 1993, se tornou um verdadeiro marco no cinema mundial, ocupando atualmente o 27º lugar na lista das maiores bilheterias de todos os tempos. Sua arrecadação recorde na época motivou a produção de quatro sequências: The Lost World: Jurassic Park (1997), Jurassic Park 3 (2001), Jurassic World: O Mundo dos Dinossauros (2015) e agora este Jurassic World: Reino Ameaçado

A história começa três anos depois que o parque foi destruído pelos dinossauros no filme anterior. Essas criaturas - que sobreviveram mesmo após a ilha Nublar ter sido abandonada – estão com risco de extinção novamente, pois um vulcão está prestes a entrar em erupção na ilha. Para salvar os dinossauros, Owen (Cris Pratt) e Claire (Bryce Dallas Howard) voltam ao local, porém as coisas nem sempre são como planejamos e aí ocorre uma grande reviravolta no filme.



O roteiro da dupla Colin Trevorrow e Derek Connolly é preguiçoso. Os vilões são estereotipados, os personagens mal construídos, os temas são iguais aos dos filmes antigos, tudo soa batido, temos aquela sensação de que já vimos aquilo em cena.

Ainda bem que Reino Ameaçado tem como grande trunfo o diretor Juan Antonio Bayoná. Ele consegue transmitir um senso de iminente perigo com a manipulação de sombras e luzes. Diferente dos outros da franquia, nesse longa temos um tom mais próximo do horror e do medo, não é mais uma aventura, agora é suspense, há morte do início ao fim - não aquela morte nítida, escancarada, mas aquela que você percebe pela estética, pela movimentação. Isso tudo graças à direção e também pela fotografia de Oscar Faura, pela montagem dinâmica de Bernat Vilaplana e até pela trilha sonora de Michael Giacchino. São os detalhes que fazem a diferença aqui. Chris Pratt continua bem como Owen e Bryce finalmente incorporou a Claire; a sua atuação melhora 100%, a personagem dessa vez é mais humana, amável e está sem saltos (risos). 



O filme no geral não é ruim, mas também não é bom, está faltando uma conciliação maior entre direção e roteiro. Quem sabe no próximo isso aconteça. 

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Opinião Cinema: Os Incríveis 2


Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Os Incríveis 2 retoma a história do mesmo ponto que parou o primeiro filme em 2004: no estacionamento com o ataque do Escavador. O mundo ainda condena os super-heróis, por causa das diferenças e pelo rastro de destruição que eles deixam durante as batalhas; dessa forma, a família Pêra é obrigada a ter um emprego comum e uma vida entediante. Tudo muda quando os multimilionários Winston e Evelyn Deavor resolvem influenciar a opinião pública e derrubar a lei que proíbe os heróis de usarem os seus poderes. E adivinhem quem é escolhida para isso? Nada mais, nada menos que a Mulher-Elástica. E o Sr Incrível? Para ele fica a missão de assumir a casa e a família.

Escrito e dirigido por Brad Bird, Os Incríveis 2 traz à tona questões importantes sobre gênero, sonhos e desejos. Vemos que o homem deve dividir as tarefas domésticas com a esposa, e que o papel de dona-de-casa, atribuído à mulher, é tão louvável e difícil quanto salvar o mundo. Tudo é questão de meio-termo, onde um pode cooperar com o outro; isso é visto não só na relação entre esposa/marido, mas com os irmãos milionários e até com as crianças Violeta e Flecha. O vilão é potencialmente perigoso e bastante atual: nós somos iludidos facilmente por telas, ficamos tão vidrados que esquecemos do mundo lá fora. O que é mais atual que isso?

As lições estão lá e são equilibradas com as cenas de ação e de humor – como falar da maravilhosa cena do Zezé lutando com o Guaxinim? Tudo tem uma harmonia, o roteiro comete algumas falhas, inclusive as mesmas falhas do primeiro filme – parece até proposital, né? Aliás, tem muita coisa de 2004 e isso é maravilhoso! O que é bom ficou, e a animação foi a que mais evoluiu. Cada textura se sobressai, os tecidos das roupas são bem realistas, e torna-se quase palpável a pele, o cabelo, a água. A experiência é real, mesmo sendo uma animação.

É muito bom ver essa família, que tanto amamos, em cena de novo. Os adultos ficam saudosistas, as crianças entram no mundo novo, no fim todo mundo ganha. Já quero o 3 logo, tomara que não precisemos esperar mais 14 anos.



domingo, 22 de julho de 2018

El Sol Rubio (Zé Celso fala de Hélio Eichbauer)

Helio Eichbauer, talvez o maior cenógrafo de teatro brasileiro de todos os tempos, faleceu na sexta, 20, no Rio de Janeiro, aos 76 anos. 

Em sua memória, republico aqui no blog texto do diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, que publiquei originalmente no site Jornalismo Cultural em 2007. Mantive a ortografia vigente na época, bem como a forma original da escrita livre de Zé Celso.

Ilustrando o post, a capa do LP
Estrangeiro (1989), de Caetano Veloso, que utilizou o cenário do segundo ato da montagem de 1967 do Teatro Oficina para O Rei da Vela, de Oswald de Andrade. 

***

EL SOL RUBIO

Por José Celso Martinez Corrêa


Dois Sóis iluminaram o Tropicalismo,

dois Helios Cosme & Damião:

o Oiticica,

que libertou as artes plásticas do quadro,

trouxe pro corpo dançante no parangolé

e pro espaço todo,

na instalação ambiental,

tropical;

e

o Eichbauer = agricultor de carvalhos,

EL HELIO, Éliogabalo

que de uma velinha de sebo,

acesa no Rei da vela,

na escuridão da ditadura militar,

acendeu o SOL no Teatro

Oficina, brasileiro e mundial.

Como o outro Hélio nas artes plásticas,

no Teatro, esse Helio,

trouxe, pro corpo do ator, a pintura modernista,

conseqüentemente pro corpo do mundo,

aquilo que somente os quadros coloridamente pintavam.


O corpo: quatro baldes de água, 


um pacote de sal(Bertolt Brecht), 


Helio trans - humanizou,


fez virar entidade,

médium

de tudo,

antena-carne de arte

e antropofagiou a Cenografia mundial,

pendurada como carne,

num açougue de urdimentos,

para ser comida

e se expandir não somente pelo Teatro,

mas pela cidade,

pelas extensões corporais em todas as mídias.

Sua "Cenografia" e seus "Figurinos" antropofagiaram todos os teatros e modas,

do mundo: dos construtivistas russos

ao teatro de revista da Praça Tiradentes,

até o da Sociedade de Espetáculos,

(para ser prático: para ser mais específico,

o próprio vestido negro de noiva de Heloísa de Lesbos, Helio tirou do baú de sua tia, esposa do embaixador brasileiro em Praga - um vestido pretinho, da pompa dos grandes rituais oficiais.)

revolucionaram todo visual brazyleiro,

descolonizaram totalmente a imagem cega

que tínhamos de nós mesmos,

e contagiaram:

o Cinema - vide "Macunaíma" de Joaquim Pedro, e muitos outros filmes;

a Moda - vide o desfile da Rhodia em 1968, lançando a Linha Internacional Tropicalista;

a Arquitetura - vide o Novo Teatro Oficina, terreiro eletrônico de Lina Bardi e Edson Elito;


o comportamento - a religação teatro-arte popular orgyástica brazyleira 


and pop global e


muito mais.

O Teatro Oficina, incendiado por um terrorista de direita em 1966, em 1967, ressurgia das cinzas como o Novo Teatro Oficina, o número II, dos grandes cenógrafos arquitetos artistas, Flávio Império e Rodrigo Lefèvre.

Eu havia pedido um teatro brechtiano (estava totalmente colonizado pelo Berliner Ensemble) a Flávio Império, contra a vontade dele, que tinha se encantado com teatro incendiado, sem teto,

e nos escombros berrava feliz:

"Acabou a casinha dos pequeno-burgueses, olhem o céu!"

O palco que o artista Flávio fez para Helio fazer O rei da vela, sim, um palco onde somente foi feita esta peça, porque, depois de tudo, aquele palco não tinha mais sentido, a ação precisou se expandir pelo espaço todo, como o próprio Flávio sacou, quando fizemos juntos o filho do Rei, Roda viva, expandindo a cena por todo o espaço do teatro e fora dele.

O teatro de O rei da vela tinha o, muito em moda, palco giratório elétrico,

uma arquibancada frontal de cimento,

tudo à mostra,

refletores, urdimentos, araras...

Helio pendurou os cenários dos 4 atos

em cordas, aparecendo todos, de cara.

No chão, criou ribalta de teatro bem antigo, muitas latas de óleo da Shell, vermelhinhas

com sua conchinha amarela.

Tudo contrastava escandalosamente com aquele teatro sóbrio, de tijolinhos expostos, poltronas azuis de couro.

Helio criou o Tarô do Brasil rodando em falso no mesmo mecanismo,

toda metáfora que Oswald-Poeta viu.

Todas as máscaras do jogo do mecanismo da "Sociedade de Espetáculo" do poder brasileiro, exposto na sua antigüidade e pretensão à modernidade progressista.

No primeiro ato, Abelardo I.

Barriga postiça, criada por Helio, de um delirante Ademar de Barros-Ubu Rei, sobrancelhas em triângulo preto e bigodes pintados de carvão,

rosto rosadinho de palhaço ,

batom vermelho-sangue nos lábios,

tudo em cima de uma máscara riscada, enquadrando o rosto,

vazando os traços de jogo da velha,

para fora, no pescoço e na testa,

charuto na mão,

girava no palco abrindo os janelões

do escritório de usura de Abelardo & Abelardo para a paulicéia desvairada e financista.

No seu terno, fantasia de executivo de ponte aérea, como em todos os trajes da peça, de homens ou mulheres,

uma seta de pano,

apontando o sexo.

Chamava por um botão sonoro seu secretário Abelardo II, vestido de fantasia de guerrilheiro

com farda de domador,

trazendo também uma máscara, dividida esquizofrenicamente ao meio.

O primeiro socialista do Teatro Brasileiro

tinha um rosto riscado pela metade:

Uma, já de Rei da vela,

outra, levando, em torno do olho, uma ferida de porrada,

sangue em forma de rosácea,

como todas as personagens do Teatro do Oprimido da jaula de devedores também tinham levado.

Ao mesmo tempo, essa mesma máscara em torno de um dos olhos, estava enorme, num tapete, enorme gota de sangue pingado espalhando em sol vermelho purgando amarelo(?).

Ao lado direito da boca de cena, um bonecão tomando todo pé direito do teatro,

tendo escondido debaixo das calças um Abelardão,

canhão caralho que somente se revelava quando tesudo, ereto,

esporreando luzes de fogo e

fuzilando os Clientes Devedores Inadimplentes.

Os Devedores vinham de uma jaula ,

abrindo-se para os fundos do Teatro Oficina II, em que o palco ocupava somente meia área da que ocupa agora a pista do terreiro eletrônico.

Os objetos eram todos fálicos:

castiçais, imenso lápis de ponta em cúpula russa, por exemplo, da Secretária,

uma espécie de Emília do Monteiro Lobato, tranças louras artificiais, bundona aplicada, tendo em torno dos olhos a mesma rosácea de sangue de Abelardo II e do tapete,

na máscara branca de faces rosadinhas de boneca cabaço.

Heloísa de Lesbos

entrava de Marlene, terno branco, chapéu panamá, bengala,

um V branco de linho,

superpondo-se ao seu terno masculino

no lugar do sexo.

A entidade (sim porque Helio criou, repito, entidades do tarô da corte brazyleira)

tinha no rosto a mesma máscara de jogo da velha,

toda branca, lábios rubros de Kabuki,

na testa o V negro belíssimo de vampira

máscara de Tarsila do Amaral.

Fumava uma cigarrilha imensa, apitando fumaça em seus deslocamentos de diva, pela cena.

Esses figurinos e maquiagem foram criados, todos, com os atores.

Helio pedia a todos que se desenhassem e imaginassem suas meias, roupas de baixo, de cima, adereços das personagens e lhe encaminhassem.

No trabalho de Heloísa,

Ítala Nandi e Helio construíram uma obra prima. Dina Sfatt e Estér Goes fizeram o mesmo papel, mas a máscara era tão forte, que, muitas vezes, não é possível distinguir as atrizes nas fotos.

Máscaras obras-primas de criação do Teatro Brazyleiro,

Teatro de Entidades,

irmãs do Kabuki, do Nô, da Comeddia dell'arte.

Criação vinda do Modernismo, da Antropofagia de 1967,

no fim dos 1960,

quando as últimas tribos

dos antropófagos da Amazônia

desapareciam

e retornavam a sampa.

O Intelectual

portava a farda da Academia Brasileira de Letras e uma faca de madeira com sangue respingando seco.

No final do ato,

o Americano era anunciado por Abelardo II, que estirava um tapete de curvas de Copacabana.

Detalhes, "pequena maravilha", como dizia Eugenio Kusnet,

o que mais interessa na nossa arte,

necessários para perceber a riqueza de sinais que a arte de Helio espalha por tudo,

vírus de peste nova, contagiando todos.

O segundo esplendoroso ato coroava o teatro de revista da Praça Tiradentes, com um telão tarsilamente pintado da Baía de Guanabara,

que depois Caetano Veloso internacionalizou na capa do disco Estrangeiro,

e que hoje é capa de um livro escrito pelo professor de literatura americano Cristopher Dunn: Brutality Garden,

o melhor estudo sobre o Tropicalismo já escrito no mundo.

As personagens que, na rubrica, Oswald-Poeta pedia vestidas “na mais furiosa fantasia tropical” estão materializadas,

no tarô da oligarquia brazyleira em iconografia exaltação & esculhambação.

Toda a corte da Família da Burguesia Rural Brasileira, coroada com ramos e frutos rubros de sua exploração mono-máxima: o café.

Dona Cesarina, a matriarca,

inspirada em uma dama socialite paulista de 400 anos de criação de porcos, como Oswald dizia.

A metade do corpo com o jabot rendado, rolos altos no cabelo, a maquiagem de perua, corpete de fino veludo, luvas verdes em renda, com os dedos de fora. Isso da cintura pra cima. Da cintura pra baixo:

pernas à mostra das vedetes,

meias verde arrastão e coturnos dourados com salto da Praça Tiradentes,

bunda realçada caprichosamente com duas chamadas de cortinas esvoaçantes,

em que Cesarina esbaldava-se

no balanço romântico campestre,

todo enfeitado de cobras e flores,

no limite da plataforma do palco,

lançando foguetes com os muitos quilos da atriz,

em cima dos espectadores.

Um enorme leque de plumas de Lady Windermere e um sorvete banana-split na vertical, derramando "leje de pica" do seu cume,

sorvido com voracidade,

no passeio nobre, sobre o palco girótorio ao som de "Casinha pequenina" arranjado por Rogerio Duprat.

Totó Fruta do Conde,

"O Pederasta" da FamILHA Papai Mamãe, vestido de odalisca, de tamanquinho português com meias brancas curtas.

Helio revelava, aí, a origem dos brilhos dos concursos de fantasia do carnaval e das escolas de samba do Rio:

a famosa temporada dos Ballets Russes,

com Nijinski, no Municipal do Rio,

que apaixonaria sobretudo os viados cultos da época, que legaram a grandiosidade dos brilhos ao carnaval brazyleiro. Os tamanquinhos com meias brancas geraram muita polêmica. Clodovil clamava: "Jamais uma bicha brasileira, por mais pobre que seja, usaria tamancos com meias brancas!!!!!!!!!"

João dos Divãs,

a sandalhona, a bolacha da FamILha ,

se vestia como uma menininha de Renoir,

de organdi rosa, sapatinhos de verniz,

meias brancas 3/4, mas bigodes de Samurai

e luvas de boxe, trazendo na calcinha um coração vagina vermelho bem almofadado.

Dona Poloca,

a Rainha Mãe, trazia trajes de veludo negro até os pés, botinhas do império, chapeuzinho-coroa de flores de café, um chicote fálico escravagista e um enorme terço de Marchadeira de 64.

Coronel Belarmino,

o Rei Caído do Café,

paletó escocês, chapéu de palha, fumando um mata-rato apoiado numa bengala com um único fio de barba branca do império, lembrando cacos de Clark Gable.

Perdigoto,

o filho fascista, fantasiado de verde-milico, condecorado com as insígnias dos ramos do café.

O Índio das Bolachas Aimoré,

tênis branco, cocar de vassoura, e saiote de penas de galinha, como os do “Guarany” do velho Municipal da infância de Hélio.

O Americano,

dourado: The golden man,

capacete safari, bermudas, meias 3/4, maquiadíssimo, galã de Hollywood da cena muda, de batom.

Walkíria Heloísa no segundo ato.

Trajava biquíni de metal, capa de plástico cinza longuíssima, uma mitra interplanetária e bélica na cabeça, lembrando já a Mulher Futurista de Maikovski do Percevejo, óculos escuros gigantes, vestida para os conchavos com o Americano e toda a Frente Sexual Agrária e Banqueira, no banho de mar,

seguida logo por:

Dona Poloca

com um maiô centenário de listras paulistas rubro-negras, sapatilhas, touquinha de banho, e um enorme xale negro espanhol: pronta para o banho.

Mas era a grande virada do segundo ato: encontrava um Abelardo I -

camisa verde de cetim, um lenço amarelo esvoaçante no pescoço, um bonezinho de plástico verde claro

comprado em quiosque de praia, calças de veludo creme -

absolutamente desesperado depois de tanto ser sugado pela FamILHA toda,

do dinheiro arrancado por Perdigoto para criar uma Milícia Rural Fascista para atacar os colonos do latifúndio,

aproximando-se da capitulação absoluta diante do "Nosso Senhor do Arame":

o Americano Banqueiro Imperialista.

Via-se, de repente, diante de Dona Poloca (ou Piroca) praieira e, num ímpeto, prometia-lhe suicidar-se,

testando o moralismo da Rainha, o CERNE da Tradição, FamILHA, Propriedade,

deixando um milhão de dólares,

se ela lhe revelasse seu maior desejo secreto de vida.

Poloca confessa:

"Ir para Petrópolis."

Abelardo I a seduz, comovido. Uma noite de amor para a primeira da anciã cabaço. Poloca cede. Um beijo sela o compromisso. Helio faz baixar, neste instante, um telão ao som do "Descobrimento do Brasil", de Villa-Lobos, com os versos pintados de Olavo Bilac - Criança, nunca verás um país igual a este -, concluindo o 2º ato num patético tragicomicorgyástico.

Para o terceiro ato,

Helio recriou as cortinas de correr da boca de cena, de Ópera Mambembe, com as máscaras douradas da Tragédia e da Comédia. A cena se abre solenemente, com a "Alvorada", de Carlos Gomes, com as luzes das Alvoradas das encenações, mais uma vez do Municipal de sua infância. Abelardo I veste um imenso robe rubro, um Ivã o Terrível, que agigantava o corpo de Renato Borghi, com uma enorme cauda de grande divo.

Heloísa era, agora, a do mito medieval,

trazia um traje branco com cintura logo abaixo do peito e um veludo vermelho de corrimento vaginal, cabelos soltos de diva wagneriana. Abelardo I foi golpeado por Abelardo II e escolhe o suicídio para passar o poder ao ex-socialista.

Despede-se da noiva, com:

"Dê-me o último beijo, meu cravo de defunto!". As cortinas se fecham ao som-clímax da "Alvorada" e o Abelardão, Bonecão, torna ereto seu cacete canhão e atira ejaculando tchaikoviskianamente.

O pano se reabre e Abelardo I, sentado na cadeira de rodas, tem no peito a rosácea de sangue em cetim vermelho do tapete do chão, e dos devedores, seu "útero coração de homem". Abelardo II entra todo transmutado em executivo, de colete prateado, óculos, e máscara completa de burguês, sem divisões socialistas, e presenteia Abelardo I com seu último lenço vermelho, que traz no bolsinho do paletó.

Disputam com o palco e a cadeira de rodas girando, numa alucinação cênica cinética.

A disputa termina com Abelardo II oferecendo, depois de muita onda, a vela da agonia do castiçal de Madame Lanale, instalada no altar de Getúlio Vargas = Mona Lisa, "o primeiro sorriso burguês", pedida por Abelardo I. Enquanto Abelardo I reza de quatro no chão com a vela, Abelardo II arranca-a nas mãos e penetra Abelardo I, enfiando a vela em seu rabo.

O ato se encerra com caveiras em tule negro, que baixam dos urdimentos, para o epílogo da peça: a missa negra trazida pela marcha nupcial do casamento de Abelardo II, ex-socialista, com a Burguesia Rural sobre o cadáver de Abelardo I.

Heloísa, de noiva de preto, com o famoso vestido pretinho oficial da tia de Helio, buquê de rosas negras nas mãos. A famILHA toda coberta de tules negros, tendo como padre, padrinho, o Americano, com os "braços abertos sobre a Guanabara"

como o Corcovado,

encerrando a peça com seu good business. O palco roda tocando a gravação original de Francisco Alves para "Aquarela do Brasil"

e um telão marginado por um friso negro de cartão de luto se desenrola de baixo para cima, ao som de percussão solene, tomando toda a boca de cena, com as falas do Hiorofante de A morta, de Oswald de Andrade:


"Respeitável Público ! 


Não vos pedimos palmas!



Pedimos bombeiros!



Se quiserdes salvar vossa tradição e vossa moral, 



ide chamar os bombeiros ou, se preferirdes, a polícia!



Somos como vós mesmos, um imenso cadáver gangrenado!



Salvai vossas podridões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo!"


O elenco não voltava para agradecer, o público ficava perplexo e as mais inesperadas reações aconteciam, como um espectador chamando Oswald de Andrade para a porrada, ou enfurecidos que atiravam coisas no telão.

O elenco ficava atrás, protegido pelas paredes, apavorado, mas se deliciando com a reações. Helio quis completar soltando enxofre, ou algum cheiro que trouxesse a sensação do cadáver gangrenado, podre, brazyleiro. O elenco o convenceu a desistir da idéia.

26 anos depois fizemos juntos Ham-let.

O elenco havia treinado, com roupas de ensaios, as 6 horas do texto integral de Shakepeare e, mais uma vez, inaugurávamos, em 1993, um novo teatro: o terreiro eletrônico de Lina Bardi e Edson Elito, o atual Teatro Oficina.

Helio resolveu usar como base os figurinos dos ensaios, depurando-os com roupas-base: moletons negros, capas de veludo, coturnos de militares. Moletons brancos para a cena do duelo final. Depois, cada ator e atriz tinha uma consulta particular com ele, e com cordões coloridos de coringa, de jogral, ia criando um laço, um nó, uma maneira de uso para cada ator. Todos saíam exultantes das consultas. O cenário era o próprio Globe Theatre do Oficina, inaugurado com o teto móvel se abrindo para o céu poluído da Dinamarca, o subterrâneo como túmulo de Ofélia, e carrinhos que entravam e saíam como carros alegóricos pelados: um palquinho de rodas somente com chão e um alçapão, como um buraco de ponto. Uma enorme cortina transversal varando a pista do Oficina, coroas de papel dourado para os reis, e só. Ah! Um enorme caralho ejaculando confete na cena da entrada dos atores. Os figurinos da rainha foram feitos por Caio Rocha, estilista de São Paulo. Beleza Pura.

Duas experiências juntos e dezenas de peças de que fui espectador, como os inúmeros trabalhos com Luís Antonio, meu irmão, principalmente o extraordinário Percevejo de Maiakovski.

Tudo que pude ver com todas as companhias do Brasil, que criaram o melhor do teatro nesses últimos anos, até chegarem os shows com Caetano Veloso. Começando no Estrangeiro, para o qual reconstruiu o cenário do segundo ato do Rei da vela, numa parte do show e, em outra, um friso pintado de material luminoso que, do fundo do palco, acendia uma luz divina no espaço, censora, sensitiva, cybernética. Genial!

Felizmente, filmei a peça toda - que agora vai sair em DVD produzido pela Dueto Filmes, tanto a Versão-Cinema como a Versão-Teatro: 1º, 2º, 3º atos na ordem do espetáculo.

Em 1974, no sufoco dos 10 anos de ditadura militar, no dia 31 de março para o 1º de abril saímos pelas ruas de São Paulo, com os maravilhosos cenários de Helio. Era uma manhã chuvosa. Fomos, nós do Oficina Samba (assim nos chamávamos: o grupo que então vivia em comunidade no Teatro Oficina e não tinha mais condições, pela repressão militar, de fazer nada que desejava), até o cemitério da Consolação, procuramos o mausoléu de Oswald de Andrade, não encontramos. Topamos com o de Mário de Andrade e resolvemos rodar lá mesmo as cenas finais do filme Rei da vela, que estávamos montando.

Instalamos os cenários entre túmulos e os queimamos. Para nós, era como se precisássemos queimar aquele Brasil que o Rei da vela revelava, para nos libertarmos do jogo imutável dos dois Abelardos: I e II, sucedendo-se em aliança com as cortes oligárquicas, apadrinhados por Mr. Jones, torturando a JAULA. Era um ato de feitiçaria, de vodu, que tínhamamos que fazer. Filmamos, levamos as cinzas para a Praia da Boracéia, então deserta, e nós, os então ENJAULADOS no Teatro Oficina, saímos por aquela praia deserta, trocamos alianças com cinzas do cenário no corpo, e entramos no mar.

Saímos de lá outros, com o compromisso de expulsar de dentro de nós o jogo repetitivo ao infinito dos Abelardos que, até os dias hoje, domina o Brasil.

Fomos presos, exilados. Em Portugal, veio morar em nossa comunidade internacional o francês Gill de Stall, da nobreza de São Petersburgo, tornado um revolucionário dos anos 70, com quem me reencontrei em Paris, tornando-se um dos meus melhores amigos. Gill vendia, saindo das horas de aperto financeiro, desenhos de figurinos, pedaços de cenários dos Ballets Russes de um parente seu, que trabalhava na direção de arte com Diaghilev.

Além do valor inestimável da obra genial de Helio, aquele cenário queimado acabaria tendo, hoje, o valor dos quadros de Tarsila.

Tive fases de vergonha, de arrependimento, hoje assumo este ato necessário, que não se pode apagar, por amor aos fatos, sem culpa, mesmo porque Helio reconstruirá quase tudo e, no ano que vem, vamos tirá-los das cinzas e Fênix vai aparecer numa mega exposição que vamos fazer no SESC Pompéia, na qual estes cenários estarão reconstruídos.

Devo ter magoado Helio - que adoro - profundamente num primeiro momento. Mas ele sabe, óbvio, que fizemos esse ato exatamente porque queimávamos alguma coisa de valor incontabilizável, de grandeza estética trans-humana, que sacrificávamos aquilo pela vida do Brasil que temos que, mais que nunca, transformar, e nós, brazyleiros, estamos conseguindo.

Principalmente todos que fazemos arte no Brasil, porque a arte é a única a poder nos colocar no estado de criação, a única aliada da fatalidade da transformação, da morte e da vida, única "verdade", única certeza que temos. "Oh Tudo Cria! Oh Tudo Destrói!"

O rei da vela, no momento em que aconteceu, levou o Brasil a libertar-se do catecismo de Padre Anchieta e reencontrar-se no eterno retorno dos Caetés (tribo de Lula), devorando o Bispo Sardinha nos recifes do Nordeste. A peça de Oswald, enjeitada por anos, encontrou Helio Eichbauer, chegado de Praga, onde tive a felicidade imensa de conhecê-lo, formado por Svoboda, grande criador da Laterna Mágica de Luz, da Projeção Cinematográfica no Teatro.

Helio fez, então, um "trabalho" - uma feitiçaria, absolutamente inesperada para quem chegava com sua formação.

Trazia a luz teatral elétrica mais sofisticada, mas nos trópicos encontrou o destino que seu nome traz: o de ser o SOL da cultura brazyleira.

Da velinha de sebo,

acendeu um Sol que nos escancarou

o velhíssimo e belo Brasil

enforcado nos urdimentos,

ao mesmo tempo nos revelou

o Teatro Novo da Terra do Sol.

Tudo que o Modernismo, a Antropofagia, tinha anunciado, virou corpo,

no corpo transfigurinado dos atores,

na ação revolucionária das cores da cultura popular orgyástica do carnaval brazyleiro de 365 dias, numa peça que denunciava

a ação emperrada

por um Teatro do Mundo preso a velhas figuras de tarô.

Nunca mais poderemos ver o Brasil da mesma maneira.

O Sol deste agricultor de carvalhos,

vence as queimadas,

e está eternamente presente no país

que está renascendo no eterno retorno do mundo descatequizado.

Acho que Helio não foi ainda suficientemente reconhecido e exaltado como o grande artista que reinventou Teatro Brasileiro fora dos padrões coloniais.

E como não falar de sua dupla fértil com Martim Gonçalves,

reinventando o Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, na Venezuela!

De sua amizade (via Martim) criadora com Lina Bardi, que o venerava,

e da musa das musas, Dedé Veloso.

Eu poderia nunca mais sair desta batucada no computador exaltando este milagre de pessoa, vida-arte com quem tive, e ainda sonho ter, o prazer de criar e conviver.

Esta amizade dourada, adorada,

queria eu ter o poder de Walt Whitman

pra cantar, em letra, música e dança.

Helio, além de tudo, é um dançarino.

O Dançarino.

Vamos dançar neste Parangolé humano e vivo de Eichbauer, Apolo-Dionísio do irmão Apolo- Dionísio Oiticica.

Os gêmeos sagrados Cosme & DamiãoMaki

Sem esquecer que Dedé é o terceiro: o Doum

Do nosso Olimpo Teatral Brazyleiro:

A multidão que nos insPIRA!

Paixão ETHERNURA.

José Celso Martinez Corrêa

M E R D A


terça-feira, 5 de junho de 2018

Opinião Cinema: Verdade ou Desafio



Por Bianca Oliveira,
de Macapá


A Blumhouse Productions já produziu vários sucessos - podemos citar Corra! (2017), Whiplash (2014) e os quatro filmes da franquia Atividade Paranormal (2009, 2010, 2011, 2012). Ela é conhecida, justamente pela habilidade de transformar filmes com pequenos orçamento em sucessos com grandes lucros. E com Verdade ou Desafio não tem sido diferente: com um orçamento de 3,5 milhões de dólares, o longa já atingiu a receita de 72 milhões. Mas qual será o motivo? Será a qualidade do filme ou o peso do nome da marca?



Antes de chegarmos lá, precisamos entender a trama. Nela, somos apresentados a um grupo de adolescentes, cruzando a fronteira dos Estados Unidos e indo para o México em busca de diversão, festas e bebidas. Porém, eles conhecem um “estranho” que os convida para jogar verdade ou desafio”; o que não sabem é que esse jogo nada mais é que amaldiçoado (caso se recusem a jogar ou contem uma mentira, eles são mortos). Eles correm contra o tempo, tentando entender as motivações e soluções para se livrar dessa maldição.

Com um elenco principal com Lucy Hale (Pretty Little Liars), Violett Beane (The Flash) e Tyler Posey (Teen Wolf), o diretor Jeff Wadlow utiliza uma linguagem atual, com formato de Stories do Instagram no início e dando cara ao “vilão” – sempre que o demônio desafia, os personagens demonstram uma expressão sinistra, meio Coringa, meio V de Vingança). Mas Wadlow falha com o ritmo lento e cansativo da trama, com a inserção de sustos desnecessários, com a falta de clímax e com as mortes dos personagens - elas se tornam tão comuns que nem sentimos o “luto”, nem os personagens sentem mais, não tem repercussão nenhuma.

O roteiro  - escrito por Wadlow em parceria com Chris Roach, Michael Reiz e William Jacobs - deixa pontos soltos. Exemplos não faltam: por que o demônio se interessa tanto em questões inúteis e infantis? Quem traiu quem, quem mentiu para quem... isso soa até engraçado, sabe? Pois não faz sentido! Não tem mistério, pavor, tudo soa meio fútil. As conversas são bestas e o trio protagonista, apesar de talentoso, não tem carisma e nem química em cena.

Mesmo com tudo isso, o longa levanta questões importantes no desfecho, criticando a sociedade por seu uso da internet, e como ela pode tanto nos beneficiar quanto prejudicar. A importância de pensarmos em como podemos utilizar melhor as redes, de forma a não nos tornarmos tão vulneráveis e influenciáveis. São sim questões importantes e que precisam de atenção; é uma pena que o filme não as soube aproveitar tão bem assim.



quarta-feira, 23 de maio de 2018

Opinião Cinema: Os Vingadores: Guerra Infinita

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Quem acompanha minhas críticas aqui no blog, sabe que as minhas maiores reclamações sobre os longas da Marvel são relacionadas aos vilões rasos, que só servem para alavancar os heróis. Mas, meu irmão, isso está mudando! Primeiro com Killmonger de Pantera Negra, e agora em Os Vingadores: Guerra Infinita (calma! Eu sei que Loki foi extremamente importante também). Nesse filmezinho lindo nós somos puxados pelo vilão, sentimos a dor dele e até entendemos as suas escolhas. Aliás, esse é o maior diferencial do filme e é - também - o responsável por ele ter uma das maiores bilheterias da história (foi o primeiro filme a arrecadar 1 bilhão de dólares em apenas 11 dias!).



É difícil fazer um resumo para vocês, tudo acontece muito rápido! O filme já começa com a cidade de Thor (Chris Hemsworth) sendo dizimada por Thanos (Josh Brolin); Loki (Tom Hiddleston) e Hulk (Mark Ruffalo) tentam ajudar mas acabam falhando. Isso faz com que o alter ego do Hulk, Bruce Banner, reúna os Vingadores - ou ao menos tentar reunir. A verdade é que há mortes, há dor e há destruição; o longa já tem um início sombrio, ele é todo subdividido em mundos, cada Vingador na sua própria missão em que o único objetivo é impedir Thanos de conseguir as jóias do infinito.

Não sei vocês, mas eu fiquei o tempo todo me perguntando: como seria possível reunir tantos heróis em uma única produção? Será que não ficaria confuso? A verdade é que não ficou! Os irmãos Joe e Anthony Russo conseguiram alinhar mundos distintos, sem deixar que o ritmo fosse prejudicado. Os Guardiões da Galáxia encaixam como uma luva no mundo de Thor, enquanto o time “terrestre” é bem representado por Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Homem-Aranha (Tom Holland) e Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch); e o universo Wakanda, cara!... Chega a arrepiar. As cenas de ação, apesar de ficarem escuras, são lindas e não posso deixar de falar dos papéis femininos – a união feminina me fez pular de emoção.

A direção é incrível, a sonoplastia e trilha sonora idem, porém o que chama atenção mesmo é o roteiro de Stephen McFeely e Christopher Markus. O que falar de Thanos? Como posso explicar, para vocês, que na metade do filme eu já queria dar um abraço nele? Ele é carismático, tem um peso emocional muito forte - principalmente por causa da relação com a Gamora (Zoe Saldana) - essa humanização é que é o grande triunfo da Marvel. Thanos não é um vilão que quer destruir a Humanidade por prazer, ele é utópico, do jeito dele, ele acredita que aquilo é o melhor para todos. Nós entramos no mundo dele, até entendemos suas razões. Esse é o grande diferencial do longa, finalmente temos um antagonista completo, alguém que tenha uma história para nos contar. Para mim, esse é o filme que mais tem carga emocional da Marvel, é intenso do começo ao fim. Os riscos são evidentes, nós não somos enrolados, ele parte logo para a ação, pois aquele evento tem urgência.



É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo, porém, ainda assim queremos mais, mais e mais. A transformação de Thor é incrível, o "trio terrestre" tem uma ótima sincronia; uma das peças chaves é a relação entre a Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e o Visão (Paul Bettany). O lado ruim é que com tanta informação Capitão América (Chris Evans), Viúva Negra (Scarlett Johansson) e Pantera Negra (Chadwick Boseman) foram os que ficaram mais apagados.

Sei que num filme como este há muito mais a destacar, então fiquem à vontade para ampliar esta lista nos comentários!







terça-feira, 22 de maio de 2018

Comunicação e Democracia

Já não lembro quem me sugeriu a leitura de O Papel do Jornal, de Alberto Dines (1932-2018), que lembro de ter lido aos 15 anos, em 1986. Nesse ano, a Summus Editorial relançou, atualizada, a obra que Dines publicara em 1974. Sem dúvida esta obra pensada a partir da crise do petróleo de 1973, e seus reflexos na disponibilidade de papel no mundo (num tempo pré-digital), e incorporando uma reflexão sobre a trajetória do Jornalismo no Brasil, com destaque ao período a partir de 1962 em que Dines comandou a renovação gráfica e editorial do Jornal do Brasil, foi uma das principais influências que me levaram a prestar vestibular para Jornalismo em 1990. Mais tarde, me habituei a acompanhar seu programa Observatório da Imprensa, transmitido desde 1998 pela TVE-RJ e que eu via na retransmissão da TVE-RS.

Meu único texto mencionando Dines é o que publico a seguir, falando de um congresso de Jornalismo do qual ele participou, em Porto Alegre, há 14 anos. Além de ter acompanhado sua palestra num lotado auditório da PUC-RS, lembro de tê-lo visto pouco depois concedendo uma entrevista no corredor da faculdade. Fiquei ali, a poucos metros, ouvindo respeitosamente o mestre. O texto saiu originalmente no site Brasileirinho nos primeiros dias de agosto de 2004 e - pode-se dizer - contribuiu, de algum modo, para que eu lançasse no ano seguinte o site Jornalismo Cultural, hoje este blog, já que a PUC-RS começara a questionar meus pedidos de credenciamento para a cobertura de eventos como este, já que o Brasileirinho era um site dedicado à cobertura de samba & choro - como se escrever sobre samba impedisse um jornalista de ter interesse em se manter atualizado sobre os principais debates envolvendo Comunicação e Democracia (Aliás, foi nesse congresso que o ex-ministro da Cultura Paulo Sérgio Rouanet qualificou como "um absurdo" o empenho de seu sucessor Gilberto Gil em registrar o Samba como patrimônio imaterial do Brasil, inspirado pela obra de Bernardo Alves. O samba-de-roda do Recôncavo Baiano foi registrado como patrimônio imaterial do Brasil em 5 de outubro de 2004 e declarado pela Unesco como "obra-prima do patrimônio oral e imaterial da Humanidade" em 26 de novembro de 2005). 


A foto que ilustra o post é de autoria de Ana Paula Oliveira Migliari (TV Brasil/EBC) e mostra Dines em dezembro de 2012. 


***

COMUNICAÇÃO E DEMOCRACIA
(24º CONGRESSO DA IAMCR)


"A sociedade deve educar a comunicação, 
para que a comunicação 
possa informar e educar a sociedade".
(Brazão Mazula, reitor da Universidade
Eduardo Mondlane, Moçambique)


A grande mensagem deixada pelo 24º Congresso da IAMCR (International Association for Media and Communication Research), realizado entre 25 e 30 de julho de 2004 na PUCRS (Porto Alegre) é: comunicação e democracia devem andar juntas no mundo atual. Se não estão ainda, ao menos é uma meta que todos devemos lutar por atingir. Uma democracia mundial, como a definiu o cientista político Paulo Sérgio Rouanet: complementar às similares nacionais, incluindo os Estados, cidadãos e instituições civis. Naturalmente, ele reconhece que uma democracia mundial pode ser um pouco mais difícil na prática do que a democracia ateniense do século 4 a. C., mas é possível reproduzir seu caráter global em âmbito local, onde a comunicação face a face é mais facilmente exercida. O papel da ONU é fundamental para se atingir esse objetivo. Admite:

- Parece utópico falar nisso nesse momento. É uma utopia, sim. Uma utopia realista, concreta, com possibilidade de realizar-se. Nesse momento, ela é inalcançável - e irrenunciável.

A simples existência da democracia, contudo, não é suficiente. O jornalista Alberto Dines, fundador do Observatório da Imprensa, lembrou a queixa do ex-ministro da Cultura da Espanha, o escritor Jorge Semprún, formulada quando integrava o governo de Felipe González, na década de 1990: "A liberdade de expressão é um dos problemas não resolvidos pela democracia". Dines observou que o escritor não descria do sistema em si, apenas chamava a atenção para o fato de que a democracia é mais um processo do que uma situação definida. "A democracia tem nuances, ao contrário do totalitarismo, que é rígido, monolítico". Por isso, acredita que é mais correto falar em "democratização" do que em "democracia".

Na visão de Dines, para chegarmos no Brasil à situação sonhada por Semprún seria necessário se atingir algumas metas. Entre elas destaco: evitar a concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos grupos; proibir que ocupantes de mandatos parlamentares sejam donos de meios de comunicação; retirar o Estado do processo comunicativo, impedindo-o de ser anunciante ou proprietário de rádio, jornal e TV; só permitir interferência governamental no processo comunicativo através de emenda à Constituição Federal; estimular a auto-regulamentação da imprensa; estimular a criação de entidades do terceiro setor que debatam a atuação da mídia; estimular todos os meios de comunicação a terem, cada um, seu ombudsman; tornar públicas as dívidas fiscais das empresas de comunicação, para permitir o controle por parte da sociedade. "A mídia deve resistir à tentação de se converter em poder político", arrematou.

A concentração dos meios de comunicação nas mãos de poucos não é um privilégio brasileiro. O espanhol Enrique Bustamante Ramírez (Universidade Complutense de Madrid) observou que, no México, a Televisa detém na prática um monopólio da informação, fortemente aliada ao poder político; já na Espanha, boa parte das empresas do ramo se encontram nas mãos de antigas estatais privatizadas, adquiridas por grupos que no passado apoiaram a ditadura de Francisco Franco; enquanto que, na Itália, tem muita força o grupo de três emissoras de TV do primeiro-ministro Silvio Berlusconi - embora, esclareça Bustamante, apenas essas TVs não seriam suficientes para sustentá-lo politicamente. O professor Joshua Meyrowitz (Universidade de New Hampshire, EUA) informou que a grande mídia americana é dominada por 6 empresas, mas se registra um grande crescimento da mídia alternativa.

Experiências de comunicação democrática

"Se não sabemos como fazer o que pretendemos, 
nossa intenção tem pouca serventia."
(Luis Jesús Galindo Cáceres, antropólogo mexicano)

Bustamante comentou que o potencial democratizante da informação na internet foi comprovado por uma pesquisa realizada na Espanha. A web contrapõe-se ao domínio das grandes redes e tem enorme potencial de intercâmbio horizontal. O professor de Filosofia Renato Janine Ribeiro (Universidade de São Paulo) acredita que "a internet é interessante para criar novos laços sociais. Esse tipo de vínculo sempre é forte". Fernando Kuhn (Universidade Metodista de São Paulo) revelou apenas 35,6% dos usuários da internet falam inglês: "Temos cerca de 1.000 idiomas presentes na rede."

No Brasil, outras alternativas, como as emissoras comunitárias, ainda não alcançaram penetração semelhante às de outros países. As TVs comunitárias, pela lei, só podem operar dentro do sistema a cabo - logo, atingirão no máximo os 7% da população que assina o serviço (na Argentina, esse número chega a 57%). Mas a audiência real das TVs comunitárias sem dúvida não chega perto desses 12 milhões de pessoas, quase todos das classes mais abastadas da população e com um padrão de exigência estética infelizmente distante do permitido pelos escassos recursos das associações comunitárias que obtêm canais. Curiosamente, a mesma lei que criou os canais comunitários "esqueceu" de lhe destinar parte da renda com a assinatura da TV a cabo...

O modelo de rádio comercial no Brasil não favorece a circulação democrática da comunicação. Conforme estudo de Sônia Virgínia Moreira citado por Gisele Sayeg Ferreira (Universidade de São Paulo), existiam no país em 1999 três mil emissoras de rádio, das quais 1.350 (45%) pertenciam a políticos, 750 (25%) a igrejas evangélicas, 300 (10%) a igrejas católicas e apenas 600 (20%) a empresários de comunicação. Em função desse quadro, que é histórico, lutou-se por vinte anos pela legalização das rádios livres no Brasil como uma esperança de democratização dos meios. A regulamentação veio em 1998, mas a realidade ainda está longe do sonhado. Gisele vem pesquisando 22 rádios comunitárias legalizadas da região Noroeste do Estado de São Paulo, onde identifica a reprodução do modelo de transmissão unilateral das grandes redes:

- Essas rádios são vistas como uma oportunidade de investimento para pequenos empresários, que têm vínculos estreitos com as forças políticas, econômicas ou religiosas locais.

Situação semelhante foi identificada por Lúcia Lamounier Sena e Jaqueline Morelo (Centro Universitário Newton Paiva) em rádios comunitárias de Belo Horizonte. De 9 emissoras pesquisadas (nenhuma delas legalizada), apenas 2 podem ser classificadas como realmente comunitárias, tendo origem em associações de bairro ou entidades religiosas; as outras são classificadas como personalistas - ou seja, pertencentes a indivíduos que, por interesse financeiro, conhecimento técnico, vontade ou apenas curiosidade, resolvem criar suas rádios.

- Essa situação mantém a tradição brasileira em considerar os direitos individuais como uma dádiva dos detentores do poder - opina Lúcia.

No meio impresso, uma interessante experiência de jornalismo comunitário vem sendo realizada por Rosana Cabral Zucolo e Ana Cristina Spannenberg, da Faculdade Social da Bahia, junto ao Corte Grande, uma área de ocupação no bairro de Ondina, Salvador. A Faculdade procurou em 2002 três comunidades do Corte - Alto de Ondina, Baixa da Alegria e Pedra da Sereia -, apresentando a idéia de publicar jornais-laboratório feitos pelos alunos de Jornalismo nos quais os moradores pudessem se expressar. Os assuntos a serem abordados nos jornais são sugeridos pelos moradores e debatidos com toda a comunidade, de forma a realmente refletir sua visão de mundo. Inicialmente, foram criados dois veículos, Comunidade Alegria (para a Baixa da Alegria) e Visão do Alto (Alto de Ondina); como se constatou que as pautas e as reivindicações dos dois grupos eram semelhantes, os próprios moradores optaram pela unificação da proposta no Visão do Alto. Em sua edição nº 2 (dezembro de 2003), na matéria Pesquisa revela a comunidade - Quem é e o que pensa o morador do Alto de Ondina? Pesquisa feita pelos estudantes revela o perfil da população que vive no bairro, de Ana Lucia Arouca e Ingrid Carmo, a rodomoça Fabiana Santos Batista elogiava a forma de elaboração da pauta:

- É muito importante sugerir os assuntos que nós queremos ler no jornal, porque somos nós que passamos pelos problemas. E quem convive aqui na comunidade sabe mais a fundo que tipos de problemas são esses.

Infelizmente, a produção do veículo vem enfrentando problemas. Autoridades e representantes de empresas concessionárias de serviços públicos, muitas vezes, deixam de atender os alunos-repórteres por não serem da grande imprensa. Em função disso, o lúcido editorial da edição nº 3 do Visão, intitulado Quem Impede que a Informação Chegue Até Você?, encerra com essa reflexão:

"Esse não é um problema para ser pensado, nem uma cobrança para ser feita apenas por quem é estudante de Comunicação: será que você está sabendo tudo o que é importante como cidadão? Se não está, quem não permite que a informação chegue até você?"


Ações espetaculares: o caso xavante

Outra alternativa aos movimentos sociais que não possuem seus próprios meios de comunicação é buscar chamar a atenção da sociedade por meio de ações espetaculares. Dines alertou para a forma mais terrível do uso dessa prática: o terrorismo, que hoje é totalmente voltado para a repercussão que vai obter nos meios de comunicação - do qual o exemplo mais acabado são os atentados de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington. "No mundo livre, não há como controlar isso. Só podemos tentar um controle através do debate. Mais violência ou censura não adiantam".

Mas felizmente há entidades que se utilizam de forma pacífica das ações espetaculares, como o Greenpeace, apontou Rennan Lanna Martins Mafra (Universidade Federal de Minas Gerais). Mafra assinalou que as ações devem ser acompanhadas da exposição de argumentos que possam gerar um debate e levar a uma intervenção racional na realidade. Sem argumentos sólidos, as ações apenas seriam contempladas - e esquecidas.

Ações espetaculares também foram utilizadas em 1991 na aldeia xavante de Pimentel Barbosa, para atrair a atenção da antropóloga Laura Graham, relatou Jair Moreira Rodrigues Filho. O cacique Warodi, junto com os anciões da aldeia, planejou uma série de performances que sabia que interessariam Laura. Ela realmente fotografou e gravou em áudio e vídeo os pronunciamentos de Warodi, que sempre os concluía pedindo à antropóloga que levasse suas palavras ao outro lado do oceano. Laura acabou por discutir com a comunidade a importância de criar um arquivo audiovisual para as futuras gerações e - detalhe importantíssimo - incentivou que os próprios xavante operassem a câmera.

Desta forma, a aldeia transcendia a intenção original do projeto Vídeo nas Aldeias, ideado em 1987 pelo CTI (Centro de Trabalho Indigenista), uma ONG. Até ali, o registro da vida indígena era sempre realizado por jornalistas, antropólogos e cineastas não-índios.

Uma interessante forma de uso do vídeo foi sua incorporação ao warã, tradicional reunião dos homens adultos ao amanhecer e ao entardecer que busca soluções de consenso para problemas da aldeia. Quando acontecia de um líder xavante ser chamado a reuniões fora da aldeia, ele se sentia melindrado em decidir algo que não teria passado pelos outros. A gravação da reunião, posteriormente exibida no warã, permitia que todos tivessem conhecimento dos temas debatidos. Na aldeia citada continua havendo apenas um aparelho de TV, de forma que a recepção de conteúdo audiovisual sempre ocorre coletivamente, contribuindo para perpetuar suas tradições.

O vídeo não foi a primeira experiência com tecnologias de comunicação e informação dos xavante. Eles já se utilizavam um gravador - talvez por influência de outro cacique, Mário Juruna, que ficou famoso por registrar promessas de autoridades e chegou a se eleger deputado federal pelo Rio de Janeiro em 1982. O gravador servia para registrar os cantos rituais tradicionais da aldeia, permitindo inclusive sua reprodução fora das cerimônias, e para compará-los com os cantos de aldeamentos vizinhos.

Recentemente, esta aldeia xavante destacou-se por buscar utilizar os modernos meios de comunicação para levar sua cultura ao conjunto da população brasileira, participando de CDs de Milton Nascimento e Sepultura, gravando seu próprio CD, filmando um documentário, expondo fotografias e realizando espetáculos de canto e dança. Desta forma, adaptavam aspectos de sua tradição aos formatos dos produtos culturais aos quais a sociedade está habituada, garantindo que não haveria interferências no caráter xavante da mensagem - talvez a mais ateniense das experiências comentadas neste texto.