sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Opinião Cinema: O Touro Ferdinando

Por Bianca Oliveira,
de Macapá



Em 1936, o escritor americano Munro Leaf lançou o livro O Touro Ferdinando (no original, "The Story of Ferdinand"). Sua obra era considerada algo progressista e foi proibida em vários países, como a Espanha na época do ditador Francisco Franco. Em 1938, Walt Disney produziu um curta-metragem com a adaptação do livro, com direção de Dick Richard, que ganhou o Oscar no ano seguinte. Oitenta anos depois, o maior nome da animação brasileira, Carlos Saldanha, volta a adaptar esse clássico da literatura infantil para o cinema, com o estúdio Blue Sky, com o qual ele já produziu animações famosas como a trilogia A Era do Gelo e Rio (leia aqui a crítica sobre Rio 2). E é sobre esta nova adaptação que vamos falar aqui.

O longa começa nos apresentando um Ferdinando pequeno. Um bezerrinho crescendo em um rancho na Espanha, onde touros são criados para lutar nas touradas e aqueles que não são fortes o bastante são vendidos para um abatedouro. No meio disso tudo, vemos que Ferdinando é incomum, ele é contra violência, ama flores. Diferente dos outros, ele não sonha em lutar nas touradas, quer um futuro em paz. Pequeno, ele vê seu pai sair para uma tourada e nunca mais voltar, daí acaba fugindo e encontrando Nina, que mora com sua família em uma fazenda cheia de flores e muito amor, do jeito que ele gosta. Ele é criado ali, cresce e se transforma em um touro grande (beeeem grande) e extremamente dócil. Tudo parece perfeito, até que em um dia, por um equívoco de aparências, a cidade pensa que Ferdinando é uma fera e o manda, adivinhem para onde? Isso mesmo, aquele rancho da sua infância. Onde, junto com o protagonista, reencontramos seus amigos de infância e conhecemos novos animais, com destaque para a cabra Lupe e os ouriços Um, Dois e Quatro (jamais pergunte sobre o Três).


O roteiro de Brad Coperland infelizmente é infantil até demais, a trama principal demora a se desenvolver, o ritmo é bem lento e tudo só é desenvolvido de fato quase no final, o que torna intermináveis as quase 2 horas de duração. A qualidade técnica e narrativa é questionável, ainda bem que visualmente o filme é lindo e os coadjuvantes são hilários.

Aliás, a peça chave dessa adaptação são os coadjuvantes. Cada um com uma personalidade, um jeito diferente, há aqueles que são mais fracos, outros fortes, outros “loucos”, cada animal de certa forma estava quebrando o paradigma que já nasceu com eles, como o cachorro de Nina que é o contrário dos cães dóceis e fofos que queremos. Podemos tirar várias lições deste filme, começando pela tourada que é uma prática que persiste em certos países, depois jogando a ideia dos abatedouros, mostrando que o touro só tem duas opções: ou ir para a tourada ou ir para o abatedouro. E quão distante isso é da nossa realidade?


Porém, o que mais me chamou atenção é a mensagem de aceitação. Ferdinando sabe desde pequeno quem ele é, não importa o que digam, não importa se acham que touros são obrigados a ser durões, Ferdinando não quer ser assim, do começo ao fim ele nos ensina que devemos persistir no que sentimos, que precisamos lutar pela pessoa que somos e aceitar todos, mesmo os que parecem ser mais “esquisitos”. Em um mundo que as pessoas lutam diariamente por sua voz e um espaço, é extremamente importante Saldanha colocar em questão a diferença, ainda mais em uma animação infantil. Ferdinando é cativante, sua força, sua bondade nos mostram que ser diferente é extremamente normal.