terça-feira, 17 de abril de 2018

Dona Ivone Lara, um desfile de dignidade do Samba



O pianista Leandro Braga afirma que Dona Ivone Lara é uma das maiores compositoras brasileiras. E deixa claro que não se refere apenas ao universo do samba. Braga vê junto dela apenas nomes como Heitor Villa-Lobos e Tom Jobim, este com certeza o inspirador da frase que tem repetido por onde passe: "A gente (ainda) vai ter um aeroporto com o nome dela".

Braga sabe do que fala. Em 2001, gravou o CD instrumental Primeira Dama, só com melodias da grande partideira da Serrinha (menos uma faixa, justamente a título, feita por Braga em homenagem a ela). Dª Ivone inclusive participou da gravação do disco.

Dito assim, fica difícil acreditar que os dois nunca haviam se apresentado juntos. Pois é, a honra de reuni-los no palco pela primeira vez coube ao projeto Unimúsica - Piano e Voz, desenvolvido em Porto Alegre pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

O espetáculo da tarde de 12 de fevereiro de 2004 foi aberto por Braga ao piano, tocando mansamente "Pra Afastar a Solidão" (Dona Ivone Lara - Délcio Carvalho). Em alguns momentos, o pianista chegou a tocar só com a mão esquerda, deixando a direita balançando. Em seguida, um sambão temperado com alguma sutileza: "Tendência", parceria de dª Ivone com Jorge Aragão.

Braga, a partir de seu trabalho com as músicas de dª Ivone, elaborou um método para explicar aos pianistas do país do samba como se toca samba no piano. Parece incrível, mas é difícil mesmo ver um samba bem tocado ao piano, geralmente o intérprete puxa para o choro. Braga atribui o fato à recusa dos pianistas em aceitarem o fato de que o piano é um instrumento de percussão - de cordas, sim, percutidas (o som que ouvimos vem de martelinhos que, acionados pelas teclas, batem nas cordas) -, provavelmente devido ao tradicional desprezo europeu pelo ritmo em detrimento da melodia e da harmonia.

Outro sambão em que Braga não deixou dúvidas a respeito da utilidade de seu método foi "Mas Quem Disse que Eu te Esqueço?" (parceria de dª Ivone com Hermínio Bello de Carvalho). Entre um e outro, momentos de calma para a platéia respirar: Braga apresentou sua homenagem a dª Ivone com "Primeira Dama" - motivo bem sincopado, harmonia explorando as possibilidades do tom menor, num andamento calminho - e na fantasia sobre "Sonho Meu" (clássico dela com Délcio Carvalho), em que ele conseguiu um efeito belíssimo na cadência em oitavas descendentes. Ao final de "Sonho Meu", enfim o momento tão aguardado: dª Ivone Lara surge majestosa no palco, fazendo um vocalise nesse samba que é um dos preferidos dela (e o que eu mais gosto do seu repertório).

Dizer que o público que lotava o Salão de Atos da UFRGS aplaudiu dª Ivone é pouco. A princípio, sim, foram aplausos. Em pouco tempo, a cada samba se sucedia uma ovação, uma apoteose, um culto à grande dama do samba, plena em sua dignidade, cantando com voz forte, clara, firme, afinadíssima, BELA!

O público ainda ficou contido sob a emoção de vê-la enquanto ela apresentou outro clássico, "Alguém me Avisou" (outra da superparceria com Délcio Carvalho). Depois, cantou junto com a dama praticamente todas as músicas: "Enredo do Meu Samba" (parceria com Jorge Aragão), simplesmente de arrepiar; "Nasci para Cantar e Sonhar" (que ela principiou cantando forte, ligando as notas, para repeti-la fraseando meio tom acima), em que ela suspendeu levemente a barra da saia para mostrar que tem muito samba no pé também, dançando ao som das palmas ritmadas da platéia; e o pot-pourri "Acreditar" (sublime) e "Sonho Meu", essa também arrepiando - ah, novamente duas músicas com Délcio.

Dª Ivone quis encerrar com o samba-enredo "Aquarela Brasileira" (Silas de Oliveira), que iniciou com um vocalise, passando a cantar com firmeza, força, beleza. O público não ousava nem respirar nessa hora, que dirá cantar junto. Mas eis que depois do verso "assisti em Pernambuco à festa do frevo e do maracatu", dª Ivone convocou a todos: "Pode cantar, minha gente!" e a partir daí o salão explodiu num coro só: "Brasília tem o seu destaque...".

Quis encerrar, eu disse, pois após esse samba, a grande dama foi aplaudida de pé por mais de três minutos. Para retribuir o carinho recebido, dª Ivone cantou seu primeiro partido-alto, composto quando tinha 12 anos: "Tiê", acompanhada por todo o auditório na voz e nas palmas ritmadas, que a animaram a sambar mais um pouco. Braga alternou os ritmos, forte no refrão e suave nas segundas-partes. Encerrado "Tiê", ambos se retiraram do palco.

O público ainda aplaudiu de pé por mais de dois minutos, pedindo a dª Ivone que voltasse. Ela, porém, não retornou. Eu compreendo. Essa atitude, partindo de um artista jovem, poderia ser vista como pedante, mas depois de 82 anos de pura magia ninguém seria capaz de pensar isso de dª Ivone Lara. A hora que ela passara conosco já nos reconfortou a alma pro ano inteiro.

Noto que, a partir da entrada de dª Ivone no show, pouco falei de Braga. É natural, pois assim correspondo à postura que ele adotou no palco: tocando maravilhosamente os sambas (inclusive dando um show à parte em "Aquarela Brasileira"), mas sempre demonstrando que considerava que o espetáculo era dela. Vinda de um compositor e um arranjador de seu quilate, essa atitude só poderia ser uma homenagem. E era.


  • Making-off do texto - Publicado no site Brasileirinho poucos dias após o show. Foi a segunda e última apresentação que vi de Dona Ivone Lara. Gravei o show num gravador digital, o que permitiu, entre outras coisas, determinar com exatidão quanto tempo o público aplaudiu nas partes finais (houve na época quem chegasse a me perguntar como eu apurara isto - risos). 

  • Já não recordo exatamente da data do show anterior, apenas lembro que foi um evento comemorativo do Dia Internacional da Mulher no Auditório Araújo Vianna (Porto Alegre), quando ele já contava com a cobertura, inaugurada em 1996. Creio que terá sido em março de 2001.

  • A foto que abre a matéria foi publicada no Correio do Povo no dia do espetáculo, sendo creditada como "Divulgação/CP".

  • Dona Ivone Lara (1921-2018) foi a primeira mulher a fazer parte da ala de compositores de uma escola de samba - a Império Serrano, que desfilou em 1965 com seu samba-enredo "Os Cinco Bailes da História do Rio", parceria com Silas de Oliveira e Bacalhau. Para mim, pessoalmente, é a autora do meu samba preferido desde a infância - "Sonho Meu", parceria sua com Délcio Carvalho, que conheci na gravação de 1978 com Maria Bethânia e Gal Costa.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Pantera Negra, um sopro de esperança

Por Bianca Oliveira
do Rio de Janeiro




Vocês sabem o quanto eu comento aqui sobre a importância da representatividade, não é? E soa até clichê eu voltar nesse assunto ao falar de Pantera Negra, mas o que posso fazer? Pantera Negra é sinônimo de representatividade! Você pode ser adepto do discurso de que: “Já existiram outros heróis negros”. Isso é verdade! Mas com que frequência um filme de Hollywood tem um elenco majoritariamente negro? E vai além disso, esse elenco é inteligente, é poderoso, é rico, não o negro pobre estereotipado... A gente sabe como a mídia representa um negro e quando um longa vai contra tudo isso, não podemos nos calar.

Para não fugir muito da crítica, vamos focar primeiramente nas questões técnicas do filme, ok? Em Pantera Negra vemos T’challa (Chadwick Boseman) se tornando Rei de Wakanda após a morte de seu pai T’chaka (John Kani) em Capitão América: Guerra Civil. Wakanda não é um lugar qualquer, pois simboliza a união entre as raízes e a modernidade, possui também uma tecnologia altamente avançada e uma cultura extremamente rica - além do vibranium que é um dos mais resistentes e poderosos metais da Marvel. Mas nem tudo ocorre como T’challa deseja, um antigo inimigo questiona seu poder e coloca Wakanda em risco. Cabe ao rei achar um jeito de devolver a paz ao seu povo.



O elenco é lindo! Não consigo achar outra palavra para definir. Boseman é um líder nato e está, aparentemente, super se identificando com seu personagem, ele transmite muito bem todas as dúvidas, motivações, tristezas, alegrias, absolutamente todas as sensações que T’Challa está sentindo. A representação feminina também é importante aqui, o longa coloca em tela mulheres fortes, inteligentes, que assumem seu poder. Lupita Nyong’o e Danai Gurira nos mostram uma atuação “power”, principalmente nas cenas de batalha, há em cena um ar de empoderamento inspirador. Letitia Wright é a surpresa do dia, a atriz nos presenteia com uma Shuri - irmã mais nova do protagonista - divertida e carismática, sendo o cérebro, o gênio tecnológico daquele lugar.



Não é difícil ter um elenco elogiado pela crítica, não é? Qual é o maior erro do mundo Marvel? O que eu e quase todos os fãs sempre reclamam? Estrelinha para quem respondeu que eram os vilões. Eles sempre são rasos e servem apenas como um degrau para levantar a moral dos protagonistas. Só que dessa vez não. Michael B. Jordan tem uma base fundamentando, um porquê da sua raiva, do seu rancor, ele intimida com o olhar, a sua ameaça amedronta a todos, o seu passado tem um peso muito especial. Eu posso dizer facilmente e sem medo, que ele é o melhor vilão que a Marvel já criou. Com Andy Serkis isso já não funciona tão bem, mas é inegável a importância de sua participação.

A caracterização de Wakanda funciona de forma eficiente. A fotografia aí vai muito além das belíssimas paisagens, ela está no cuidado com o figurino, a movimentação dos corpos, a ambientação do lugar que mescla perfeitamente o tribal com o avanço tecnológico.  A força da trilha sonora com os tambores, a dança, a construção por completo dos costumes, línguas, de tudo é diferente do que já vimos, sabe? O que eu senti ali? Que a ideia era representar a África e não agradar a América e não tenho nem como expressar a importância disso.

Ryan Coogler possui uma direção firme, sólida que sabe o que quer entregar. A construção da ambientação, caracterização, movimentação da câmera, tudo tecnicamente e perfeitamente alinhado. Mas a sua preocupação foi tão detalhada nisso que as cenas de ação deixaram e muito a desejar, elas quebravam o ritmo de uma forma que incomodava. O roteiro também não teve nada de extraordinário: ele funciona, segue aquela linha de clichês, porém não diminui em nada a beleza do longa.

Como resumir tudo que eu vi ali em uma frase só? Para mim o filme simboliza luta, representatividade, dar exemplo aos jovens negros de que eles podem ser reis, gênios, fortes, ali a gente vê um novo “tipo de padrão”. Sem dúvida alguma, é o filme mais politizado e profundo dos Estúdios Marvel, não tem aquele tom de piadinhas que estamos acostumados a ver, e as cutucadas políticas estão presentes. E se vocês tinham dúvida do poder da representação é só dar uma olhada nos números: com a arrecadação do 3º fim de semana o filme garantiu que a bilheteria americana atingisse US$ 1 bilhão em fevereiro pela primeira vez; foi ainda a terceira produção a atingir mais rápido a marca de US$ 500 milhões nos Estados Unidos. Em um mundo tão mau, ver Pantera Negra nos dá um ânimo, um sopro de esperança, não só no mundo cinematográfico, como na vida real também.